quinta-feira, julho 30, 2009

Ops...


I did it again...

quarta-feira, julho 29, 2009

De dieta

Na onda de ser feminina, resolvi que já era mais do que hora de reconhecer: eu estou acima do peso. Acho que não há mulher no mundo que não tenha passado por isso, e eu, até então, achava que nóia de calorias era coisa de “mulherzinha”.

Acontece que a mulherzinha aqui não está nada satisfeita com o que tem sobrado pra fora da calça. Super okei, talvez algumas pessoas diriam que eu não estou sendo feminina, e sim que estou tendo transtorno dismórfico corporal. Ta, eu sei que não tô uma bola, mas já que é pra me dar o direito de reclamar mesmo sem ter um boooom motivo (como toda mulher faz), resolvi seguir à risca o Manual da Mulherzinha Moderna e decidi enfrentar uma dieta.

Isso significa, basicamente, que o meu maior prazer atual está na berlinda: nada mais de chocolates, assaltos à geladeira na madrugada, pizza no sábado seguida de sanduba no domingo. Minhas manhãs de folga foram dilaceradas por corridinhas matutinas. E, como toda boa mulherzinha, eu estabeleci uma meta super irreal e pretendo, até o feriado de 7 de setembro, estar 6kg mais fina. Rá, rá, rá. Tá bom, divide por dois.

O regime começou na segunda-feira (óbvio) e dois dias depois já estou sofrendo. O mau-humor é tremendo. A vida me parece sombria. Sinto falta de um chocolate, de uma cerveja, de uma puta pizza de abobrinha. Agrião, que eu amo, nunca me pareceu tão insosso. Qualquer coisa que eu veja me lembra comida.

Praia? X-salada.
Trabalho? Pão de queijo.
Balada? Brigadeiro.
Kickboxing? Doritos.
Dança do Ventre? Esfiha!

Temo estar entrando em depressão, o que aumenta meu apetite.

Mas é isso aí, a vida é feita de frustrações e eu (acho que) sou uma mulher madura, não uma adolescente sem curvas. No pain, no gain! Engole o choro e barriga pra dentro, peito estufado e esmalte vermelho nas unhas - ser mulher é um cu, com o perdão da palavra.

domingo, julho 26, 2009

Anedonia


Quanto mais vivemos, dia após dia, mais vamos nos dando conta de que toda a nossa existência é apenas e tão somente a ligação entre diversos pontos que, reunidos, formam a figura de nossas vidas.

Cada ponto, um determinado tipo de problema que vai nos orientando ao longo do tempo, dando conta de nos mostrar do que afinal a vida diz realmente a respeito: quando pequenos, a fome insaciável ou um medo do abandono dos pais; crescemos e os dias são a sucessão interminável de dias na escola em que professores autoritários tratam de nos aterrorizar, nossa vida se resume a dar conta das provas, aulas de inglês ou natação, sermos boas crianças e isso jamais ser o suficiente; quando adolescentes nossa vida é uma droga, queremos encher a cara, fumar maconha e mandar nossos pais à merda, nossos pais que são os responsáveis pela nossa vida ser um inferno, nossos pais que nos obrigam a estudar, acordar cedo, nossos pais que não nos entendem e querem nos ver sofrer. Jamais entendemos que um dia as provas irão acabar e todos os hormônios irão assentar, nós desejamos a morte do mundo e todas as pessoas mais velhas nos parecem patéticas.

Se entramos na faculdade, os trabalhos e provas tratam de nos deixar extenuados; se não estudamos e vivemos para trabalhar, a vida é uma merda em que temos que sobreviver dia após dia. Crescemos e os conflitos básicos todos se parecem, temos que trabalhar para poder comer, para poder vestir, para poder se divertir. A semana é um sacrifício sem fim rumo ao sábado e domingo, que é quando a vida acontece de verdade e nós nos estragamos por dentro e por fora, tomando porres homéricos, usando drogas de péssima qualidade, dormindo pouco para sentir que estamos vivendo o bastante, no domingo a ressaca nos massacra, pra depois sermos punidos como uma nova e terrível segunda-feira.

Às vezes gostamos do que fazemos, mas isso não é o suficiente porque o compromisso diário nos oprime; às vezes detestamos nosso trabalho mas não temos alternativas, continuamos a ser manipulados por chefes, supervisores, orientadores, pseudo-parceiros de jornada que botam no nosso rabo todas as manhãs.

Quando não somos rejeitados, arrumamos um parceiro amoroso que vai levar a culpa por todos os nossos fracassos anteriores, o parceiro que um dia pensaremos em trair, que eventualmente nos trairá, mas um dia percebemos que é melhor assentar com ele mesmo e tratarmos de termos filhos. Os problemas então se transformam, viram fraldas, merda, mijo, vômito, choro, sarampo. É o preço da babá ou da escolinha em que tudo o que vai acontecer é que nossos bebês irão conhecer outros bebês.

Mais tarde seremos xingados de autoritários como um dia fizemos com nossos pais, teremos praticamente vendido a alma e dado a bunda por uns pirralhos que se acham maduros o suficiente para fumar maconha enquanto acham que não estamos olhando; um dia eles arrumam um trabalho, mas não pagam uma única conta, saem de casa e reclamam que estamos com mania de doença. De nada adianta explicar que tememos a morte. São jovens demais para entender. Um dia terão seus filhos, terão laços de sangue muito mais fortes do que conosco, as visitas se resumirão a uma ou duas vezes por mês.

Quanto mais velhos ficamos, mais saudades sentimos dos tempos em que éramos jovens, que corríamos rápido e não sabíamos, estudávamos para as provas e seríamos aprovados, reclamávamos do chefe que jamais faria qualquer diferença em nosso futuro, mimávamos nossos bebês que nos abandonariam. Nada nunca importou. Um dia nos damos conta de que o grande quadro de pontilhismo de nossa vida formou um desenho que jamais veremos – ficará para trás, para aqueles que vivem e que contam histórias a nosso respeito, histórias em que fomos heróis, em que fomos pais amorosos, adolescentes especiais, crianças teimosas, bebês barulhentos.

Um dia nos damos conta de que tudo se foi sem que percebêssemos, aprisionados que estávamos no piloto automático do nosso cotidiano. E um dia. Um dia, enfim. O Dia. O Fim.

quinta-feira, julho 23, 2009

So I think I can dance!!




Bom, então a história assim segue: meus experimentos continuam e, na busca de despertar a minha Deusa interior, resolvi fazer aulas de... DANÇA DO VENTRE!

Desde a época do Clone eu sempre pirei na idéia de conseguir mexer o quadril daquele jeito doido. Até hoje não entendo: como pode uma pessoa ter a bunda tão separada assim do resto do corpo?

A idéia foi deixada de lado porque eu queria ser do contra e não participar da modinha que acometeu o país depois da novela. Eu ainda era uma adolescente imbecil. Mas hoje, 7 anos depois, eu já não encontro mais nenhuma boa razão pra não ir logo dançar e assim fazer as pazes com a minha Neusa interior, digo, Deusa.

Assim, mais obstinada do que nunca, passei toda a minha tarde de quarta-feira enfiada em sites, ligando para escolas, enviando emails para professoras. A pesquisa árdua gerou bons resultados e hoje mesmo vou conhecer uma escola em Santana. Semana que vem, eu e uma amiga querida iremos conhecer outro estúdio de dança, e assim, fazendo juntas, quem sabe esse investimento na minha feminilidade fique um pouco menos assustador?

Dançar é o máximo e eu estou obcecada por assistir vídeos de Dança do Ventre no Youtube. É tudo de bom. Dançando assim, não vai ter como minha Neura Interior não acordar. Digo, Deusa.

Ya Habib!!!

PS: Outra possibilidade é formar um grupo pra termos aulas particulares. Alguém interessada?

PS2: A dançarina do vídeo é a Laís Jardim, em apresentação na casa de chá Khan El Khalili.

segunda-feira, julho 20, 2009

...sin perder la ternura jamás...

As Leis Gerais do Comportamento afirmam há décadas: o ser humano se norteia, em suas atitudes, através das conseqüências. Em linhas gerais, isso é bem fácil de entender: se você se dá bem após fazer algo, é bem provável que faça esse algo novamente. Se você se deu mal, provavelmente não irá mais fazer a mesma coisa.

Essa relação entre comportamento e conseqüência se expande para além do nosso cotidiano – abrange sentimentos, pensamentos, fantasias. E é exatamente com base nesta linha de raciocínio que eu cheguei a uma triste conclusão: eu extingui meu hábito de fantasiar.

Ficar sonhando acordada sempre foi o que definiu a maioria dos piscianos que, como eu, esquecem de viver a vida real. Comigo, o processo se inverteu: eu simplesmente não consigo mais fantasiar quando o assunto em questão são os relacionamentos afetivos. A questão é que eu já tomei tanto na testa, já tive tantas conseqüências negativas após fazer mil fantasias sobre algo ou alguém, que esse meu comportamento acabou soterrado embaixo de um monte de mágoas que não me ajudam em absolutamente nada nesta vida. Mas eu simplesmente não concebo mais a idéia de engolir a seco fantasias e planos para o futuro.

É claro que todo mundo se fode uma vez ou outra, e eu nunca fui do tipo coitadinha-de-mim. Para mim é muito claro que eu sou diretamente responsável pela minha vida afetiva ter se tornado um vazio absoluto. Não ouso culpar os parceiros bola-da-vez, embora um ou outro tenha agido de maneira vergonhosa comigo – não, nenhum deles é culpado por eu ter reduzido a zero meus contatos amorosos.

A questão é: meu comportamento feminino foi tão “punido” (no sentido de ter sido consequenciado negativamente) que essa minha faceta simplesmente ficou lá pra trás, muito muito depois da Nana psicóloga, da Nana lutadora, da Nana amiga, irmã, filha, vizinha, consumidora de padaria ou cliente de salões de cabeleireiro. A Nana-Mulher, a que ama, que fantasia, que sonha e que deseja ficou simplesmente fora do jogo.

Segundo minha(s) terapeuta(s), essa é a hora em que eu devo finalmente acordá-la. Ok, o sono foi bom e necessário, muitas outras coisas ocuparam minha atenção durante este tempo, e está finalmente na hora desta questão voltar a fazer parte da minha agenda mental de compromissos comigo mesma: eu preciso voltar a sonhar. Porque como já dizia o Monteiro Lobato, tudo no começo é sonho ou loucura. Sem sonho não há vida.

Parte desta difícil tarefa tem consistido em eu praticar (sim, assim, no duro) o ato de flertar. Eu sei o quanto soa ridículo, mas pra mim uma simples paquerinha de balada é um verdadeiro martírio. Eu nunca sei o que fazer, o que dizer, pra onde olhar. Eu costumo me sentir patética e me torno imediatamente um poço de ansiedade. E é exatamente por isso que, em qualquer contexto que eu esteja, é sempre mais fácil virar amiga dos caras em vez de me colocar como mulher – é praticamente impossível ser rejeitada quando se exerce o papel de amiga. E é desta mesma forma que eu, automaticamente, me mantive fora do jogo amoroso durante aproximadamente dois anos.

É claro que houve um evento marcante (pra quem se perguntou: “o que houve dois anos atrás?”). Uma mega desilusão amorosa, atrelada a um transtorno de ansiedade bem foda, tratou de empurrar pros fundos da minha dignidade quase todos os meus traços românticos. E é fato que, depois daí, eu simplesmente criei amizades coloridas com romance zero – 0% de exposição, 0% de risco.

Mas tudo na vida se resume ao desafio que é saber quando se está atravessando aquela linha tênue que divide a auto-preservação do auto-boicote. Isso vale pro amor, pros empregos, pras famílias. Também é uma atitude de sabedoria saber parar de se esquivar de possíveis e hipotéticas conseqüências negativas, e se arriscar um pouco nas coisas. Como já dizia o Grande, hay que endurecer, però sin perder la ternura.

Este “se arriscar” pode até ser lido como “dar mole por aí só pra treinar ser mulherzinha de novo”. É claro que não é assim tão diretivo nem assim tão aberto. Mas é verdade que eu tenho tido bons resultados com meus “experimentos” – minha vida, digamos, “afetiva” tem ganhado algum movimento (mesmo que o “afeto” em questão tenha se resumido a um pegapracapá com um gatenho da outra academia), e é nessas e em outras que a velha e boa mulher que eu sou tem ganhado, lentamente, um pouco mais se espaço aqui dentro.

Continuo me sentindo gelada no que se refere ao amor e à paixão, e minha vontade de me relacionar enfrenta grandes resistências oferecidas pela minha eterna desconfiança. Ainda não consigo fantasiar coisinhas bonitinhas sobre alguém, mesmo depois de ganhar chocolates, receber ligações, mensagens fofas ou coisas do tipo.

Continuo recusando convites para sair e minha disposição em sair “flertando” arrisca a se reduzir a quase zero – eu vou forçando um pouco a barra. Se tornou extremamente difícil reativar meu comportamento de ser simplesmente mulher, mas a crença de que isso será possível novamente me mantém em movimento.

Por via das dúvidas, meus antigos planos de aprender dança do ventre estão sendo reavaliados. Tenho certeza que isso é algo que vai me ajudar a, como diz uma querida, “despertar a minha Deusa interior” – tem coisa mais feminina do que dança do ventre (além de celulite)?

Eu sei que tudo isso parece um pouco piegas e um tanto quanto melodramático. Afinal eu tenho apenas e tão somente 26 anos, ainda estou em idade altamente reprodutiva, tenho saúde e o mundo lá fora é grande demais pra eu dar por finalizada minha busca por uma história realmente legal pra viver.

Eu sei que sou um pouco trágica e que tenho tendência para as grandes cenas. E apesar de saber de tudo isso eu ainda procuro me entender e ouso encerrar a questão: quem nunca teve medo de sofrer que atire a primeira pedra, ou então que me ajude.

quarta-feira, julho 15, 2009

Como uma vaca na índia

A vida por aqui tem passado tão lentamente que, como diz a música, a gente quase que não sente.
A verdade é que a inércia me pegou: minha caixa de entrada da UOL está com 127 msgs que não tenho a menor disposição de ler, meu telefone tem várias ligações não atendidas (e não retornadas), meu Projeto Corrida 2009 não emplacou, não meditei nem um dia sequer. Bebi cerveja o findi todo. Não terminei meu livro e de quebra, comecei mais dois. Continuo chocólatra as usual. Não visitei praticamente nenhum amigo ilhéu e assim, exatamente assim como a coisa está, tá bão demais.
O tempo chuvoso não me incomoda - após as tempestades do fim de semana, tivemos dois belíssimos dias de sol (tão belos que resolvi esquecer o protetor solar e estou parecendo uma salsicha alemã de tão vermelha). A previsão continua sendo de vento forte, a ponto de não dar nem pra ficar de biquininho na praia. Humpf.
As meninas-caninas estão mais pentelhas do que nunca e isso nunca me incomodou tão pouco. Devo admitir: estou tão sossegada quando um pernilongo pousado num tetraplégico.
No momento, a lan-house está cheia de crianças meio gosmentas e isso também não me incomoda. Eu tenho apenas 2 minutos de internet e isso nunca foi tão super ok!
Ritmo de Brasil Grande: devagar, quase parando :)

quarta-feira, julho 08, 2009

De férias do divã


Tem gente que pensa que ser psicóloga é ter a profissão mais sussa do universo. Afinal, basta se sentar na frente de alguém, fazer cara de paisagem e escutar durante 50 minutos os problemas alheios, para depois receber milhares de dólares sem qualquer esforço.

Como diz uma amiga minha, “lei do engano, darling”. Pode não parecer, mas ser psicólogo é como padecer no paraíso – como fazer as pessoas finalmente se enxergarem como deveriam? Como mostrar para alguém algo que está bem na sua cara, mas oculto pelo véu das ilusões? Como instrumentalizar professores super bem-intencionados a lidar melhor com seus alunos de inclusão sem parecer intrometida? Como fazer uma mãe superprotetora entender que seu pequeno filhinho pré-adolescente precisa aprender a ir ao banheiro sozinho?

Estas e outras questões tão pesadas quanto estão presentes na maior parte dos meus dias. Ser psicóloga é hiper gratificante, pois não tem sensação no mundo igual a você ver um ser humano aprender a ser mais feliz. É tudo de bom, mas é super ultra mega max giga jam cansativo. Mentalmente, é extenuante.

E é por isso que, quando chega julho, eu quase entro em mania de tão feliz: meus pacientinhos entram em férias escolares e eu finalmente posso descansar um cadim. Sincronizar a agenda com os pacientes do consultório geralmente é um trabalho árduo – mas eu finalmente consegui e a partir deste feriado já entro em recesso “escolar”.

Sem viagens fantásticas (apesar de ter sido a idéia inicial) – apenas 10 deliciosos e idílicos dias na praia na companhia da minha família, de amigos e das Meninas-Caninas. Não interessa se vai fazer sol; o mar gelado não me preocupa nem um pouco; o vento absurdo típico da Ilha em mês de julho não é nenhum problema: tudo o que eu quero é ESVAZIAR A MENTE.

Meditação, corrida, escrita, leitura, sono, gastronomia, risada, conversa... e, plis Universo, o mínimo de problemas possível. De preferência, adoraria poder ficar em silêncio os 10 dias (impossível, considerando a mistura Mamis + Landão + Ires + Pati + ilhéus diversos).

Então eu deixo o silêncio pro próximo Carnaval e saio neste feriado tirando férias de tudo: de pacientes, de escolas, de mães difíceis, de gatinhos indecisos, do ringue, de uma parte da família, de amigos, da(s) minha(s) própria(s) terapia(s) e quiçá de mim mesma. Abandono aqui minhas vestes de psicóloga, minhas luvas de kickboxer, minha fala diplomática e meu saquinho murcho de Jó.

Eventuais posts poderão ser avistados. Meus amigos blogueiros, bom feriado a todos. Eu peço uma coisa só: se em 10 dias eu não estiver de volta... por favor, me deixem por lá!

terça-feira, julho 07, 2009

Transformers!


Qualquer semelhança com a vida real não é mera coincidência!

domingo, julho 05, 2009

fora da linha


Acordo lentamente com a cabeça pesada. A memória falha em resgatar certos detalhes do episódio. A boca está grudando, os olhos secos como carpete. A garganta arranha. O corpo dói e me ressinto – tudo outra vez.

Desta vez não houveram culpados, a não ser a consciência. Nada foi errado, exceto a abordagem. Nada de arrependimentos, não fosse a vontade de hoje de jamais ter estado lá. Acolho os flashes de lembranças tendo consciência de que algo foi perdido – a inocência e a ingenuidade deste reencontro, de outros, de tantos que jamais existiram. A sensação de que fugi da proposta inicial se revela aterradora.

Como se desta forma nós jamais tivesse tentado, abandono qualquer outra tentativa de merecimento. Falhei em tentar caminhar sobre o espectro cinza que existe entre o branco e o preto, entre o coração e a mente, entre o espírito e a carne. Me entreguei entre os extremos opostos. Naquele momento nenhuma virtude habitava meu corpo, a não ser a certeza inabalável de que, apesar de profundamente errado, não havia nada demais em simplesmente tentar ser eu mesma novamente.

sexta-feira, julho 03, 2009

Ou Tudo ou Nada?

Hoje na Mundo Mundano.


Todo mundo que gosta de escrever sabe: tem épocas em que simplesmente não sai. Sentamos na frente dos PCs, agarramos papel e caneta, praticamente fundimos a cabeça e o resultado continua o mesmo: a folha continua em branco, apesar da mente fervilhar em idéias.

Ando nestas fases. A coisa simplesmente não funciona. Antigamente, eu me sentia frustrada. Hoje em dia, me pego atenta a estes momentos e percebo coisas impressionantes em meio a este vazio. Pouco a pouco, reflexão a reflexão, começo a chegar à conclusão de que é justamente no vazio que tenho a maior sensação de plenitude que eu poderia experimentar.

Essa idéia do “vazio-e-cheio” sempre me encantou. É verdade que eu costumava me sentir desconfortável com a idéia do Nada, enquanto que o Tudo me acolhia. Afinal, sempre ouvimos por aí que o legal é ter tudo, que não ter nada é ser mal-sucedido. Somos condicionados a ter a mentalidade do mais, da ação, da quantidade, do preenchimento. O nada, o menos, a não-ação, o menor parecem sempre negativos. Com mais freqüência do que talvez eu gostaria, ouço meus pacientes dizerem-se “no nada”, ou “vazios”, com a maior das aflições.

Mas a verdade é que existe neste “nada” uma idéia reconfortante e capaz de amenizar estas angústias: se o que existe é o Nada, então Tudo pode ser feito. Qualquer coisa! É uma idéia bastante lógica, embora possa ser difícil apreender este conceito num primeiro momento: menos pode, de fato, ser mais.

A idéia da página em branco possibilita uma imagem – uma folha em branco é ilimitada e infinita, e milhares e milhares de possibilidades de escrita, desenhos, garranchos ali estão em potencial. Se quando temos Tudo, o vazio está plenamente preenchido, fato é que Nada mais pode ser feito – a folha está escrita, a pauta está fechada, esgotaram-se as linhas. É aquilo ali e pronto, aquele tudo, completo, cheio, limitado te dizendo: “conforme-se”.

Já o nada é o espaço em potencial necessário para todas as realizações tomarem forma; são todas as coisas existindo ao mesmo tempo, indefinidas, inexatas. A vantagem de não se ter nada é justamente poder começar tudo de novo, ilimitadamente, sem nenhum tipo de restrição. Como num vaso vazio, onde em sua terra fértil podem ser plantados quaisquer tipos de sementes.

É verdade que estar no nada pode ser, a princípio, bastante desconfortável e desolador, e que se pode experimentar alguma sensação de perda de referencial. Mas se for possível tolerar o sentimento de ansiedade e visualizar, em meio à crise, uma nova oportunidade, então também haverá a chance de experimentar, como de nenhuma outra maneira seria possível, toda possibilidade de escolha – e esse tipo de escolha é exatamente o que define alguém, a escolha de quem não tem absolutamente nada a perder. É a escolha da liberdade.

No que se refere a este texto, experimento uma certa mistura de sentimentos após ver esboçada a reflexão. É que uma parte de mim gosta de ver a página finalmente cheia, mas outra se ressente com a minha ousadia de encerrar assim a questão, limitando o tema como se nada mais houvesse a dizer. Minha mente continua a fervilhar a respeito, e receio que o assunto seja muito mais extenso, filosófico e pirante do que aqui humildemente tencionei expressar. Tento então mostrar alguma humildade, mas também manter a ousadia de com o fim do texto questionar se, afinal de contas, todo fim também não seria um recomeço...