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quarta-feira, maio 27, 2009

O pior primeiro encontro do mundo



Minha amiga Ariana* está solteira há séculos. Embora ela finja estar tudo bem, seu verdadeiro incômodo com a solidão acabou por aparecer no dia em que ela aceitou um convite para sair com um carinha que vinha paquerando ela já há alguns meses, mas pelo qual não sabia exatamente se se sentia atraída.

Quando ela me contou que sairia com o moço, cujo apelido era Zoeira, conversamos seriamente. E, entre racionalizações, piadas e justificativas, ela enfim me convenceu de que era uma boa idéia. No dia do encontro, esperei ansiosa por seu telefonema e notícias sobre o programa.

Ela escolheu o filme e eles combinaram ali, num cinema da Paulista. A sessão era às 17h00 de um domingo, o que significava sessão cheia. Assim, ficaram de se encontrar lá pelas 16h00, pra poder conversar um pouquinho antes de ver o filme e ainda garantir os ingressos. As 16h00 em ponto Ariana estava lá e nada do rapaz. Conforme o relógio tiquetaqueava, ela foi ficando aflita, a fila foi aumentando, e, por fim, ela decidiu comprar os ingressos de uma vez, pra garantir um lugar no filme.

Minha amiga já estava na fila há mais ou menos meia hora quando o camarada foi aparecer, lá pelas 10 pra cinco, com um super bafo de cachaça. “Cachaça não”, me confidenciou ela – “sabe quando fica só o cheiro do álcool etílico?” Ele se desculpou e botou a culpa em alguns amigos “da favela lá do bairro” (sic), que insitiram que a carne que ele fazia na churrasqueira era a melhor que eles já tinham comido na vida. Então ele ficara lá de chef cook e acabara tomando umas, e por isso havia se atrasado. “Perdão, linda”, ele dissera com cara de arrependido.

Embora Ariana tivesse ficado um pouco tensa com o ocorrido, resolveu não dar muita bola. Conversaram animadamente, ele contou sobre o churras “na laje” (sic) e enfim entraram no cinema.

- E foi aí que comecei a me irritar. Ele não calou a boca, do começo ao fim do filme. Falava alto e tava com aquele bafo. E ficava contando umas coisas sobre quando ele trabalhava de assistente social no Nordeste, e eu te garanto que isso não tinha nada a ver com o filme.

Ao saírem da sessão, ele sugeriu uma cervejinha ali na esquina da Joaquim Eugênio. Ela topou, estava um puta dum calor naquele dia. E, de repente, o encontro começou a ir por água abaixo.

- Eu estava falando sobre uma exposição lá na galeria e sobre o artista, que era esquizofrênico. De repente ele começa a criticar a saúde pública e a dizer que, QUANDO ELE TINHA DADO UMA PIRADA DE TANTO SE DROGAR, quase o levaram a força internado. Eu procurei saber o que tinha acontecido, mas quando vi, ele já estava falando de um outro assunto. Foi infernal. Cada vez que eu tentava falar alguma coisa, ele lembrava de alguma coisa muito louca, muito importante ou muito triste que tinha rolado com ele. Foi quando ele disse que quase tinha sido preso e aí eu comecei a ficar seriamente preocupada.

O enrosco não parara por aí. Minha amiga jurava que não sabia de onde tinha vindo aquele apelido, Zoeira, porque o cara não tinha nada de engraçado. “Ele devia ter o apelido de Umbigo, ou de Careta, porque além do papo ter sido super tenso, ele só sabia falar dele”.

Minha amiga nunca se sentira tão ignorada, deprimida e irritada na vida. A um dado momento, o cara começara a contar sobre sua formação em Ciências Sociais, e sobre seus conhecimentos em latim.

- O cara me interrompia o tempo todo. Ficava tentando me convencer com aquele papo intelectualóide, defendendo o PT, o MST e outros caras polêmicos. E quando eu arrisquei a dizer que política boa era utopia, temi pela minha garganta – ele me chamou de burguesa, citou Marx e começou a dizer de onde vinha a palavra utopia. Me passou a maior lição de moral, me explicou uma dúzia de palavras novas em latim, e eu me senti numa merda duma palestra de Direito Social.

Num dado momento, Ariana sentiu que ia explodir. Parou de responder. Só fazia “aham”. Quando o cara perguntou sua opinião sobre o modo de governo de Botswana ou algo do tipo, ela estourou e acabou por dizer, num fôlego só, que a África devia ser uma merda, que ela estava irritada demais, que ele era egocêntrico, ela nunca havia sido menos percebida na vida e que ele tinha uma puta dificuldade de dialogar.

Na verdade, eu tenho DDAH” – confidenciou então ele, para iniciar outro monólogo triste e perturbador sobre sua dificuldade de aprendizagem e outros conflitos em época escolar devido ao Distúrbio de Déficit de Atenção e Hiperatividade.

- Não aguentei e disse que precisava ir para casa. Não era nem dez horas da noite e eu resolvi pedir a conta. Ele se ofereceu pra pagar, mas adivinha?

- Não...

- O cartão dele não passava. Acabei pagando a conta e ele ainda me pediu uma carona até um bar ali do lado, que ele ia emendar uma balada. Larguei ele ali perto da Rebouças e nunca me senti tão aliviada na vida.

- Ainda bem que durou pouco.

- Não acabou ainda. Umas duas horas depois ele me liga pra contar que foi atropelado por uma bicicleta enquanto atravessava a rua, torcera o pulso e estava em casa fazendo compressa de gelo.

- Fofinho, vai... querendo te contar as coisas...

- O cacete. Ele ainda não tinha terminado de falar dele mesmo. Essas merdas só acontecem comigo.

Desde então Ariana não marcou mais encontros, temendo dar de cara com mais alguma aberração. O tal rapaz voltou a chamá-la para sair, e após inventar mais um monte de desculpas, acabou falando na lata que não estava mais afim.

Alguns dias depois, conversando com ela, ela deixou escapar que o Zoeira tinha sido o último cara com quem ficara, e não pude deixar passar despercebido que a parte do beijo tinha sido ocultada. Poderia ter questionado, feito “ahá!” e investigado mais a fundo, arrancando detalhes possivelmente sórdidos. Por consideração e afeto, deixei passar batido e responsabilizei a carência, essa maldita, por ainda assim ela ter beijado o cara, talvez esperando que ele ainda virasse príncipe.

Ontem, ao encontrar Ariana, revelei que pensara em transformar o encontro em texto, e que não estava me lembrando muito bem de onde ela havia conhecido o Zoeira.

- Ele é amigo daquele meu ex-namorado, sabe aquele que me traiu com minha melhor amiga?

Ahá! Diz-me com quem andas, Ariana, e te direi quem és. Não haveria, por algum acaso, alguma palavra ou expressão em latim pra definir o acontecido?

Omni Omni Lupus... o homem é o lobo do homem!, diria provavelmente o Zueira...


sábado, fevereiro 07, 2009

Vale a pena?


Minha amiga Ariela*, 26 anos, advogada, é destas mulheres apavoradas com relacionamentos. Ela faz parte do mais novo grupo de espécimes humanos do sexo feminino: os que desenvolveram uma visão negativa e tão aversiva sobre o afeto, que fogem das relações como quem foge de um vírus mortal. É claro que minha amiga não foi sempre assim – como quase sempre acontece, um relacionamento fracassado e bastante sofrido foi o gatilho para sua ‘conversão’. E, como quase sempre também acontece, ela passou o último ano se refugiando em relacionamentos efêmeros, vazios e superficiais – ora sob a forma de uma amizade inocente que sempre acabava em sexo, ora com homens pelos quais ela certamente jamais se apaixonaria.

Recentemente, Ariela resolveu dar uma chance a um amigo do trabalho que declarou interesse por ela. Apesar da aversão à idéia do envolvimento emocional, ela decidiu que era hora de pôr fim às barreiras. Consultou a terapeuta nº 1, a terapeuta nº 2, e então o grupo seleto de amigas ‘residentes’ para a votação final. É claro que todo mundo, sem exceção, foi favorável à abertura emocional, o que rendeu algumas ficadas com o amigo enquanto ele a levava ao estacionamento no final do expediente, emails fofos e telefonemas escassos, mas intensos.

Na última semana, minha amiga me ligou, indignada. “Não está valendo a pena!”, ela vociferou entredentes antes mesmo que eu terminasse de falar ‘alô’. Em plena 23 de maio, rumo à escola, eu me preparei pra enxurrada de reclamações e de racionalizações que certamente viriam. Eu não estava errada – parece que, após uma breve aproximação emocional entre ela e o moço, as coisas haviam esfriado. Não se falavam há alguns dias, os emails rarearam, e ela mal o via durante o trabalho (sendo justa com o cara, ela me explicou que ele estava sempre correndo para um lado e para o outro, atolado de tarefas). E dado importantíssimo: NÃO, eles ainda não haviam transado, o que a princípio ela achara super-fofo.

“Muito barulho por nada, como diz aquela música. O cara me cercou por todos os lados até me vencer pela insistência, eu finalmente acreditei que poderia ser legal, debati isso horrores na terapia, vibrei rosa pá caralho, me esforcei horrores pra me abrir... e o que aconteceu? Passei o fim de semana todo em casa, lendo Revista Nova e um monte de livros idiotas de auto-ajuda. Nem um único telefonema. Não nos vemos há mais de uma semana. Pior de tudo é que por email ele insiste que sou isso e aquilo, mas me fala, quem acredita numa situação destas? Todo mundo sabe que homem quando quer, QUER! Eu estava bem antes disso tudo e agora estou uma BOSTA!”

A fala da minha amiga me lembrou meu post de dias atrás, a frase de Nietzsche: “Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeira companhia”. Era como se minha amiga tivesse acreditado na maior propaganda de um prato finíssimo, servido num restaurante fantástico, caro e longérrimo, pegado o maior trânsito para chegar lá, amargado 2 horas de espera... por um prato de batatas fritas um pouco oleosas e em quantidade insuficiente. Não há nada pior do que a frustração.

Naquele dia mesmo, minha amiga havia agendado um fim de semana na praia com a ‘amizade-que-sempre-acaba-em-sexo’, o que para mim era, nitidamente, um sinal de fechamento emocional. E, ao desligar o telefone, eu mesma já estava me sentindo um pouco desesperançosa.

Voltei a pensar em defesas, em barreiras, em bloqueios, e me peguei pensando novamente: toda defesa deve ser quebrada? É claro que eu, contagiada pelo maior clima ‘ame ao próximo’ do universo, acabei por incentivá-la a ter um pouquinho mais de paciência (às vezes o cara tava mesmo cheio de trampo e não tava podendo and stuff...), mas a bem da verdade, concordei com ela.

Muito barulho por nada – e isso acontece na maioria das vezes. E então, quando você finalmente resolve tentar mais uma vez, a despeito de toda a descrença, geralmente não é o que você esperava. É claro que nisso tudo tem uma pá de idealização – esperamos que o outro-bola-da-vez nos salve de todos os relacionamentos de merda que tivemos no passado, nos provando, assim, que o ‘felizes para sempre’ ainda pode servir pra nós. Uma ligeira diferença dos planos originais joga nossa energia pro bueiro, e então vem a sensação do desperdício. Desperdício de energia, de esforço, de luta por mudanças – resultado zero.

Zero? Zero se pensarmos nos objetivos idealmente estabelecidos. No fundo no fundo, romântica que sou, acredito que alguma coisa de bom minha amiga leva desta – às vezes o cara pode ser apenas um mensageiro entregando um recado importante: ainda dá pra sonhar. Talvez não seja com ele, nem com o próximo, mas a abertura que houve é um indício de que ainda existe, ali dentro daquele peito machucado, o desejo de gostar de alguém.

O problema é que, se realmente a história furar, entrará mais um item na lista das tentativas mal-sucedidas de minha amiga, o que certamente acabará reforçando o movimento ‘entrando na concha’. No fundo, então, talvez nem toda barreira seja indevida – pelo menos até algo forte o suficiente motivar a quebra das defesas. Até lá, talvez nem terapeuta nem amigas residentes devam dar pitacos. Vai ver é coisa que só a pessoa sente.

Fato é que, de agora em diante, passei a respeitar um pouco mais o esquema tático de defesa da psique humana – provavelmente vou encher menos o saco dos meus pacientes. Talvez ele saibam o que fazem. Talvez de fato minha amiga esteja certa ao chamar telefonemas, flores e convites ao cinema de ‘puro desperdício de rímel’. Talvez seja como a música da Maria Rita: é uma pena, mas certas coisas não valem a pena.

Não importa o tamanho da alma... para se abrir mão da solidão, deve-se receber em troca a verdadeira companhia...
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* Nome fictício, pra defender os sentimentos da amada amiga amargurada.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

A Carta

"Querida Ana,
Perdoe-me por lhe escrever somente no último dia do ano! As correrias desta grande família por vezes me impedem do que realmente desejo!
Todos estao bem neste fim de ano. Todos com saúde. (Diana e Laura ainda brigam de vez em quando, como normal das criancas. Maria ainda fala pouco.)
O ano foi conturbado. Sinto pela minha ausência! Aline deu um bocado de trabalho - adoeceu a coitadinha. Disseram que eram os nervos. Imagine você que, lá pelo mês de abril, a pequena chegou a atravessar avenidas inteiras sem olhar pros lados, somente em mangas de camisa e shorts curtos de lycra. As soquetes, nos pés, já estavam marrons! Havia enlouquecido! Foi necessário o trabalho em conjunto de familiares e amigos para livrá-la da angústia (obviamente, foram necessários também medicamentos). Após ter sido depositado muito amor em seu partido coração, recuperou a sanidade. Vez por outra, apesar de ainda medicada, tem recaídas, e portanto mantenho constante vigília - a pobre ainda chora a noite, atormentada por pesadelos terríveis.
O divórcio de Aurora foi a notícia. Todos demos Aleluia por ela ter dito adeus àquele obtuso! Agora, parece estar desfrutando dos prazeres de sua libertação - retomou o gosto pela leitura e pela filosofia (pensa em voltar aos estudos no ano que vem), passa tardes com os grandes pensadores (receio estar se tornando um pouco solitária), caminha todos os dias ao som de melodias orientais. Se deseja saber, pensa em sa casar novamente!
Amanda iniciou aulas de música - o canto, creio eu, tem sido seu grande aliado e assim realiza fantasias de infante, pois recordo-me de te-la flagrado, ainda pequena, alguns pares de vezes imitando artistas famosos defronte o espelho. Sua voz me parece mais bela (pende mais para os agudos), e mais limpa também após ter largado de fumar aquelas horrorosas cigarrilhas prateadas que lhe empesteavam os cabelos.
A pequena Ariadne recebeu gradução positiva naquela arte marcial que insiste em praticar. Não vejo com bons olhos que ela tenha se inscrito num novo torneio - será que a tomo por frágil demais, minha amiga? Temo pelas dores que observo que sente com frequência. Observei lesões em ambas as mãos. A sua terapeuta (você sabe que ela sempre foi dada a agressividade) define minha cisma como infundada - me recomenda paciência e compreensão. Parece que esta aí uma boa forma de extravazar seus impulsos por vezes auto-destrutivos.
Em especial, é o menino Andre denota mais cuidados. O autismo ainda parece irreversível. Ainda não responde direito aos comandos, se mostra assustado diante de qualquer estímulo meramente positivo. Elogios o embaraçam a ponto de tornar-se intratável, demonstrações de afeto o constrangem. Ainda nao sabe abraçar.
O cuidado com minhas crianças exigem-me bastante energia - Deus sabe o quanto preciso pensar antes de ceder-lhe os coloridos caprichos, ou me torno escrava de meus próprios afetos e gentilezas! Querida Ana, se lhe parece estranho que eu me ausente deste longo e tedioso relato, suplico-lhe que não te preocupes. Ando bem. Extenuadas as forças, e claro, dormindo pouco. Os mantras de Mestre Lanto me aquecem a alma, mas o espírito anda inquieto - creio serem os desejos insatisfeitos que rogam para serem atendidos.
Recentes acontecimentos agitaram-me por dentro. Descobri (mascarados, e claro) sentimentos há muito adormecidos, que agora, entre flores e olhares de soslaio, bocejam e procuram se espreguiçar. Bom sentir-me acesa novamente - muito embora não tenha confessado minhas emoções, só o despertar do coração por si só ja basta para acolher um interior outrora magoado - o resto, creio ser o Destino o responsável encarregado.
Perdoe-me a pressa na despedida e as falhas na pontuação - o peixe está no forno e Adriana grita por mim. Parece que algum bicho a picou e agora ela pede por sorvete! Ah, as crianças, sabidas na arte de seduzir, com seus olhinhos molhados e lânguidos, queixinhos trêmulos e bracinhos estendidos...
Lá vou eu. Desejo a ti, cara amiga, meus votos de um feliz ano-novo, com tudo o que a vida te reserva de mais colorido.
Com rosas vibrações e muito amor,
Paula"

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Apêndices

- Eu simplesmente adoro desfilar com ela na frente de outras mulheres. A sensação é incrível.

Foi assim que meu amigo Téo*, 30 anos, bonitão, descreveu o estado atual de sua relação com a gatinha da vez. Ela tinha 6 anos a menos, era bonita e - ao contrário de todas as outras mulheres que o Téo havia ficado após ter saído de um relacionamento de 6 anos – era inteligente e gente fina.

- Mas acho que ela ficou meio puta quando eu disse isso.
- Você disse isso para ela?
- Disse, mas a intenção era outra. Queria dizer que não tava no climinha pegação, que preferia estar com ela em vez de estar com as menininhas.
- E é claro que ela não entendeu assim.
- Claro. Ficou nervosa, achou que eu estava fazendo dela um troféu. Foi uma cagada, eu admito. Ela quase chorou, você acredita? Acho que ela tem aqueles complexos e tal, de ser vista só como uma bundinha bonita.
- Talvez ela goste mesmo de você.
- Acho que foi vaidade.


Péra lá! De quem ele estava falando? A vaidade era dela por ter quase chorado, ou a vaidade era dele por desfilar por aí?

- E você se explicou.
- Expliquei, lógico.
- E ela não acreditou, lógico.
- Lógico. Disse que eu era quem nem os canalhas que ela tinha conhecido.
- Você foi mesmo um filho da puta.
- E não é disso que vocês gostam?


Ouch! Confesso: quase desliguei o telefone. Era tão, mas tão nítido que aquilo fazia parte da necessidade de auto-afirmação do Téo que não era preciso um pingo de Psicologia pra perceber. Super ok, eu sabia que o Téo ainda nutria um amor recolhido pela ex, e esta era a primeira tentativa mais séria de esquecê-la. Além de estar com o coração estraçalhado, o Téo era um homem inseguro. Ele precisava provar sua virilidade, esquecer da bota que tomara da ex. No fundo, no fundo, ele queria era causar um ciuminho na garota. Eu entendia tudo isso, mas assim que desliguei o telefone e abri a primeira cerveja, não consegui sossegar.

Mais tarde, me peguei pensando no Téo e na coitada que estava saindo com ele, e então me lembrei do cara fantástico que conheci no inverno passado: carro bacana, profissão respeitável, gentil e educado. E no máximo 10cm de instrumento, o que me confirmou a teoria de que o que importa não é o tamanho da varinha, mas a mágica que ela produz – o sexo era melhor do que muito pintão por aí. Aí me lembrei porque não tinha dado certo: o filho da puta tinha namorada.

Pensando em troféus, desfiles e em auto-afirmação, não pude evitar de me perguntar: precisam os caras emocional e/ou fisicamente desfavorecidos fazer um “esforço extra” para se destacarem e se sentirem seguros? Precisam eles ser abutres no trabalho, ogros no futebol, machistas na cama? Me veio, na hora, a imagem mental de um HD externo: algo fora de si, um apêndice, a confirmar sua capacidade de “armazenamento”. Um falo. Um grande pinto externo.

Mulheres bonitas a tira-colo? Pau-externo.
Músculos? Pau-externo.
Carro do ano? PAU-EXTERNO.

Mas e se esse “HD externo” transformar o cara, internamente, em um mau candidato? Não seria trocar seis por meia dúzia? No caso do Téo, aquilo o tinha transformado em uma perfeito babaca. Me imaginei na situação da mocinha: eu continuaria saindo com um cara que me dissesse aquilo? Só se estivesse muito apaixonada.

Então eu me lembrei de como também tinha adorado aparecer com outro cara na frente do bonitão da praia, e tive que admitir para mim mesma que eu também tinha lá meus HD´s... foi um choque perceber que eu também desfilava, com ou sem carnaval. Adorava estar com um cara e sentir que ele tinha um ciuminho, motivado ou não. Afinal, eu também sou uma grande insegura.

Seria o grande problema ficar dependente dessa função externa? Não seria desejável que todos nós deixássemos de precisar disso em algum ponto da relação, em que finalmente nos sentíssemos seguros, possuidores de tudo o que precisamos ter para fazer alguém feliz? Afinal, não seria esse tipo de padrão o que Freud chamara, lá no comecinho do século XX, de histeria??

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Mais tarde, naquela mesma noite, eu voltei a ligar para o Téo, meio que para me redimir da culpa por tê-lo chamado de filho da puta. E garanti para ele que, se encontrasse com a mocinha, faria o filme dele.

Porque em um momento ou em outro, todo mundo precisa de um HD extra. E desde que na hora H se passe as coisas para o papel, tudo estará a salvo. Na pior das hipóteses, é só não falar nada pra gatinha.

E nem pro bonitão da praia!
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*Nome fictício, pra não acabar de vez com o filme desse anjo...

quinta-feira, outubro 18, 2007

Seis por meia dúzia

Semana passada, minha amiga Alice* sofreu a sua mais recente desilusão amorosa. O gatinho com o qual ela saía quase todos os fins de semana e feriados que passava em sua cidade, subitamente mudou de jeito e de costume, e pegou umazinha bem na sua cara. Desnecessário tentar descrever a dor de Alice: fora substituída por outra enquanto estava fora! Mais tarde, levantamos a hipótese do gatinho (agora transformado em palhaço) ter descoberto que ela também o substituíra por outro carinha, mas apenas uma vez, uma vezinha só, em que ela estava na cidade dele, mas ele não. Logo descartamos a possibilidade. Afinal, quem poderia ter contado à ele? Talvez aquele cara, amigo em comum dos dois caras, aliás, amigo de um, PATRÃO do outro, que apresentou ambos à Alice? Magina.

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O desfecho da história foi a Alice muito louca numa festinha, dizendo pra mim entre dentes que não tinha nada não, logo aparecia algum melhor que ele.

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E por falar nesse amigo em comum aos dois palhaços de Alice, é importante lembrar que ele também é um partidão. Eu mesma tive a (in)felicidade de com ele me envolver. Foi coisa assim de sonho, espetacular e que dura pouco tempo, pois tão logo começou, fui trocada por uma(s) de peitos maiores. Aliás, vale ressaltar que não, isso não aconteceu enquanto eu estava fora, mas pareceu que eu nunca tinha estado. Após uma semana de indignação, tratei de logo o substituir por um genérico: igualmente moreno, cabelos igualmente cacheadinhos, partidão igual porém sem o mesmo tanquinho. A pilantrice também era exatamente a mesma.

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Minha outra amiga Marina* estava saindo há 3 meses com um gatinho lindo, residente do hospital em que ela trabalhava. A despeito de sua avó sempre a ter advertido que onde se ganha o pão não se come a carne, ela decidiu arriscar. E a coisa foi de vento em popa até que ele saiu de férias, e a coisa esfriou. Mesmo assim ele telefonava bastante. Quando ele voltou, foi a vez dela sair de férias, e quando ambos estavam novamente juntos no mesmo ambiente de trabalho, tudo parecia que ia dar certo. Mas não é que o cara continuava a chamando pra sair somente de quarta-feira? Quando ela achou isso estranho, e chamou o cara pruma conversa, ele deu uma de bom moço e jurou que queria se aproximar mais dela, e ela que não deixava. Marina quase se enforcou de tanta culpa, e jurou que dali em diante ia se abrir mais. Dois dias depois, o camarada a chamou pra conversar, e, meio assim sem jeito, confessou que tinha mentido: estava saindo com outra gatinha. Passou 40 minutos dizendo que sofria por não saber o que fazer. Na mesma noite, minha amiga não se deu por satisfeita e fuçou o orkut do calhorda. Status: namorando. Mais um palhaço.

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Algum tempo depois, Marina soube que o doutor-palhaço havia feito a exatíssima mesmíssima coisa com outra pessoa do hospital: sua própria orientadora. Ao que parece, a coisa era sempre assim: na hora que uma pressionava, ele substituía por outra.

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Recentemente, passei pela mesma situação da Marina. Também foi com um cara do trabalho e também fui trocada por outra na calada da noite, que por ironia do destino, tinha o nome mui parecido com o meu. Primeiramente me revoltei. Depois lembrei que também o havia susbtituído enquanto eu estava viajando e ele em São Paulo (com o mesmo palhaço-partidão da história da Alice. Aliás, é a mesma história: cabelos cacheados e muita safadeza). Vai, confesso: o substituí duas vezes. Na mesma cidade. Mas não com o mesmo partidão. Mas foi de saudades. Fazer o que? Ele estava longe...

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Meu amigo Otávio* recentemente terminou com a namorada depois de 7 meses de ponte aérea Rio-São Paulo. Ele é paulistano, mora no Brooklin. Reclamava das horas perdidas em Congonhas. Ontem me telefonou dizendo que estava novamente feliz. A responsável? Mora no Morumbi. E tem casa em Paúba.

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Minha antiga porém fabulosa sandália preta arrebentou bem na tira do dedinho. Ontem o sapateiro me deu a triste notícia, em tom de pesar: “Vale a pela consertar não, dona. Melhor comprar uma nova.” Quase chorei de desespero. Jamais tinha imaginado que um dia isso aconteceria. Afinal...

Somos todos substituíveis???
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* Para preservar a identidade real dos meus amigos, seus nomes foram substituídos...

segunda-feira, novembro 27, 2006

Quem deve, teme... argh!

Vocês lembram daquele carinha que eu conheci numa sexta à noite, numa festinha na Vila Madá, e que podia jurar de pé junto que ia ser o homem da minha vida?
Aquele, de 33 anos, fumante, autônomo, tatuado, e que ainda por cima mora na rua da minha casa? Aquele bom demais pra ser verdade, mas que quase me nocauteou de tanto sono na hora do beijo?
Pois então.
Andei sabendo que ele perguntou de mim por aí, e disse também que eu nunca respondi as mensagens dele. Que mentira! Eu respondi sim. Mas só a primeira. Algum problema?
Bom, o fato é que hoje, voltando pra casa da minha andada/trotada matinal, toda vermelha e suada, passei na frente do prédio que acredito ser o dele, e... me caguei de medo. Confesso, me borrei de medo de encontrar com ele.
Não porque eu estivesse vermelha e suada, mas porque eu só respondi a primeira mensagem dele. E deixei as outras no vácuo.
E talvez também porque roubei a idéia dele de me levar na Bienal - coisa que fiquei sabendo pela amiga em comum - e convidei outro carinha (aquele mesmo enrosco de 9 meses, sabem? Que agora viraram 10?) pra fazer o exatíssimo mesmíssimo programa. Hm....
Só faltava essa agora. São as dores e as delícias de um (ex)pretê morar do lado de casa. Agora vou ter que refazer todo meu itinerário, só pra não encontrar o dito cujo.
... pelo menos não vermelha e suada! Indiferença tem limite!

terça-feira, outubro 17, 2006

Sem título

Sexta-feira.
11 da noite, São Paulo, Vila Madalena.
Estava quente.
Mas não quente o suficiente pra que eu deixasse sumir a frieza na alma que eu andava sentindo nos últimos tempos. De qualquer forma, senti um pouco de calor quando vi você, parado ao lado do bar - 1,95m, bonito, olhos cor de mel, tatuagem no braço.
Gostei imediatamente do seu jeito de se vestir, mas estranhei sua forma de olhar. Quando nos apresentaram, você não me olhou nos olhos, e por isso o calor que eu senti se esvaiu quase que por completo em questão de segundos. Percebi que você era daquele tipo quieto, meio taciturno, que está pouco se importando pros problemas do mundo, pra política, pra Amazônia ou pra futebol. Apesar de que você logo de cara se revelou corinthiano, e por isso simpatizei um pouco contigo. Achei que devia ser daqueles caras em paz, serenos mas que sabia engrossar quando fosse necessário.
Mas aquela esfriada que eu dei, sua falta de contato visual, me fizeram te olhar poucas vezes durante a noite, pelo menos até dar o último gole na 4ª e última caipirinha que havia me proposto a tomar naquela noite.
Quando virei o restinho doce do fundo do copo e o bati na mesa bamba de lata, senti seus olhos em mim. E como naquele momento seus olhos encontraram os meus, o calor voltou.
Seria o início da primavera?
Seria o efeito da vodka, já sendo metabolizada em meu fígado e atingindo meu cérebro, interferindo em minhas sinapses?
Decidi que era simples, claro e arrebatado tesão - você era do tipo de homem que não se devia desprezar, e eu bem que podia ver o olhar admirado das inúmeras solteiras que se resfolegavam ali naquela multidão, lutando por uma cerveja ou uma caipirinha. E você, em 2 minutos, chegou com um dry-martini. Perfeito.
Imediatamente senti que tínhamos uma afinidade. Você consegue se lembrar mais ou menos quanto tempo ficamos ali, perto daquela janela, conversando sobre tudo?
Quando seu cotovelo tocou no meu braço, eu senti um arrepio. "Será que é ele?". (Eu estava meio bêbada, por isso me dá um desconto). Mas é que tinha que ser. Entende? 33 anos! Bem sucedido! Independente financeiramente! Adorei sua profissão, imaginei que você devia ser sensível e bom com as mãos... Fumante! Corinthiano! Morando pertíssimo da minha casa! Me lembrei dos tempos de trânsito infernal da Av. Rebouças e na Raposo Tavares, ou dos congestionamentos quilométricos na 23 de Maio. Lembrei ainda das 3 horas de viagem rumo ao litoral, e de todas as grandes distâncias percorridas em meus últimos relacionamentos. Tinha que ser você.
Um fato me preocupou: você fazia terapia... e eu sei bem como que é - homem que faz terapia é porque está bem mal, sofrendo em segredo um amor edípico pela mãe, uma tara por cachorros e outras perversões do tipo, ou então está em depressão pós-divórcio. Mas você disse que era crise dos trinta e eu acabei achando super maduro e sexy, apesar de ter achado estranho que a crise durasse já 3 anos inteiros...
A gente dividiu um pedaço de bolo, você lembra disso? E depois que todo mundo foi embora você ainda ficou ali, mesmo que a festa já tivesse acabado até mesmo pros aniversariantes.
Eu podia jurar que era você! Talvez tenha depositado em você todas as expectativas de sair do enrosco que eu venho me metendo nos últimos 9 meses. Talvez eu simplesmente quisesse acreditar que grandes amores surgem assim, quando precisamos.
E então você disse, "deixa eu te falar uma coisa?" E disse que tinha me adorado assim que tinha me visto, e eu acreditei e por isso deixei você me beijar.
Só que... os sinos não tocaram. Sabe assim? Tava perfeito demais, você era bom demais, e eu não posso esquecer que sou histérica e que quando você mostrou que talvez precisasse de mim, de alguém, você deixou de ser tão bom.
E procurei sua língua, em vão, e de repente eu senti um sono absurdo, narcótico, extenuante, e naquela hora eu só pensava no meu enrosco de 9 meses (estaria sendo gerado algo maior?), do cheiro dele que eu não tava sentindo, da covinha dele que eu não via, do corpo dele, que ali não tava. E na dor no pescoço que seus 195 centímetros estavam me causando.
Não nêgo, não era você.
Desta vez, pelo menos, não era você. Grandes amores não surgem assim quando precisamos, e sim quando nem pensamos nisso.
Desculpa não ter te ligado de volta, eu realmente não fiquei afim de você.
Mas não se preocupa, você é lindo, gostoso, tem 33 anos e é bem sucedido, e eu tenho certeza de que tem 1000 mulheres por aí totalmente normais e que com certeza vão achar o máximo você fazer terapia.
Não era você.
Era eu.
Podemos ser amigos?
CTRL, ALT, DEL. Reiniciando.