Mostrando postagens com marcador delírios. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador delírios. Mostrar todas as postagens

quinta-feira, janeiro 26, 2012

Naipe de Água, as Emoções...

O SONHO



Isto tem sido dito repetidas vezes no decorrer dos tempos. Todas as pessoas religiosas têm afirmado que: "Sozinhos nós chegamos a este mundo, e sozinhos partiremos".


Toda idéia que envolve estar junto é ilusória. A própria idéia de companheirismo aparece porque estamos sós, e o isolamento fere. Queremos neutralizar nosso isolamento com relacionamentos... Por isso é que nos deixamos envolver tanto com o amor.


Tente entender a questão. Normalmente você pensa que se apaixonou por uma mulher, ou por um homem, porque ela é bela, ou ele é belo. Essa não é a verdade. A verdade é exatamente o contrário: Você "caiu de amor" porque não consegue ficar sozinho. Você estava mesmo pronto para "cair". De uma maneira ou de outra você iria fugir de si mesmo.


E existem pessoas que não se apaixonam por mulheres ou homens – então se apaixonam pelo dinheiro. Elas passam a acumular dinheiro, ou embarcam na aventura do poder – elas se tornam políticos. Isso também é fugir do próprio isolamento.


Se você observar o Homem, se observar com profundidade a si mesmo, ficará surpreso: todas as suas atividades podem ser reduzidas a uma única origem. Essa origem é o medo que você tem da solitude. Tudo o mais são apenas desculpas. O motivo verdadeiro é que você se sente muito só.




(O Baralho Zen de Osho)

quinta-feira, janeiro 19, 2012

Nos últimos dias senti que minha mente girou mais alguns graus.
Tenho me esforçado para obter o entendimento correto sobre a situação, mas acho que não estive, desde o princípio, com o peito aberto para o que poderia descobrir.
Sinto perceber que estive pré-disposta, e agora é necessário reconhecer que não tenho sentido exatamente o que havia imaginado.
Embora seja cedo demais para afirmar, é ao mesmo tempo muito tarde já para admitir: surpreendi a mim mesma. Tenho em mim muitas coisas que me eram desconhecidas – o romantismo, a poesia, as lágrimas sobre uma família.
Se o que hoje chamo de amor seria uma forma de apego, talvez seja esta uma lição prática. Preciso encontrar a coragem para este improviso inesperado e de última hora, e a serenidade para entender que, improviso que é, não existe certo, não existe errado, não existe gabarito ou crivo de correção que possa julgar e condenar um ato que, em última análise, jamais deixará de ser um ato de amor.

sábado, janeiro 14, 2012

SDS

Eu já estava esquecendo como dói estar sem alguém que você gosta. Fechada no meu castelo de autonomia emocional, quase não lembrava mais como era sentir saudade. Saudade – não falta. Falta é aquilo que você sente quando qualquer um poderia aliviar a sua dor. A falta é um buraco em que todo mundo cabe. A saudade tem um formato específico, único, em que apenas um único individuo se encaixaria perfeitamente. Qualquer outra coisa ficaria desconfortavelmente inadequada ali. Na saudade nos lembramos de coisas esquecidas. Um cheiro, uma frase, uma piada que fosse, uma palavra que sempre servia. Na saudade você repensa quantos defeitos poderia relevar em nome daquele único abraço – não o abraço de qualquer pessoa, não um abraço aleatório. O amor não admite genéricos – não há espaço pra esconder o sol com a peneira. E o amor não perdoa: faz com que você se lembre, cada vez mais nitidamente, de tudo o que abriu mão quando resolveu que a solidão era melhor do que as rusgas. O que sobra é a paciência amarga de não tomar atitudes precipitadas: tentar fazer com que ao menos este sofrimento não seja em vão. Que ele construa um castelo no lugar onde antes houve uma cabana. Hoje você sofre pela tapera que ali deixou um buraco, mas se mantém mais forte que a dor imaginando o futuro mais brilhante. Futuro sem genéricos. Futuro em que ambos voltam a se encaixar perfeitamente, como chave e fechadura, sem espaço que sobre pra me lembrar de que, afinal de contas, não consigo jamais aceitar nada que não seja a felicidade em si.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Pagando pra ver

Cansei de brincar com coisa séria, e de levar a sério demais o que é simples brincadeira. Nesta vida existem vários pesos e várias medidas e já faz tempo que não consigo mais ser absoluta em nada do que eu digo. Mania essa de relativizar. Mas como dizem por aí, é caminhando que se faz o caminho, e a viagem só vale a pena se o processo também valer. Já não quero me arrastar por aí sem ter foco no futuro, nem ficar tão de olho no futuro que me perca do presente. É sempre esse, o desafio de balancear. Não transformar o remédio em veneno, não errar na dose do equilíbrio que se torna tão estável que fica monótono. O que quero não é a paz serena de ser pacata cidadã eternamente, quero a paz do valer a pena, a paz da recompensa e da consciência tranqüila, a paz de uma partida que paga o preço mínimo dos lances, seja você ganhador, seja você o último da fila. Não existe essa de jogar a toalha sem sequer ter começado a partida, resolvi abrir a guarda e fazer minhas apostas, guardei comigo aqui algumas fichas, estou jogando alto mas tô pagando pra ver.

sábado, outubro 23, 2010

ressaca de você

Dentre todos aqueles rostos na multidão, só o seu estava realmente em foco. No meu foco. Ali, na fila dos livros, te vi nervoso, esperando para ter meus textos em mãos. Os textos em que me apoiei ao precisar te esquecer. Sempre achei que fosse força de expressão, mas fiquei completamente zonza ao sentir seu cheiro naquele abraço longo que tardou a acontecer. Nossos olhos se comunicaram sem que ninguém percebesse o que ali acontecia: a troca, a comunhão, os corações que se reaproximaram. Um ano e meio não bastou longe de você, minha boca secou como sempre secava, meu coração falhou uma, duas vezes, só voltou a bater quando por fim nos separamos. Quis te falar milhares de coisas. Aos homens com quem tenho andando, já disse tudo que interessava. Eles já sabem tudo o que é preciso saber: sou mulher, estou disponível, sinto tesão quando me tocam aqui ou ali. Isso deveria bastar. Mas pra você quero contar o que sonhei essa noite, quero mostrar o sapato que comprei, quero ler aquele artigo enquanto você toma seu banho, quero te contar uma sessão difícil que tive hoje. Você iria entender. Não te disse nada destas coisas, me contentei em contar as novidades, fingi uma naturalidade que jamais me pertenceu quando estive ao seu lado. Seu cheiro me intoxicou, fiquei bêbada de saudades, enchi a cara com vontades, dei PT com o coração. Amarguei essa ressaca na boca de outra pessoa, fantasiando suas artes médicas curando minha alma obcecada por você. O que te disse um dia ainda está valendo, meu coração continua sendo seu, meu corpo implora pra novamente te ter, mas minha honra está selada – a nossa porta não está trancada, nossas possibilidades continuam encostadas, mas elas têm uma senha, você já sabe qual é.

quarta-feira, setembro 08, 2010

(des)equilíbrio

De vez em quando eu sinto vontade de gritar. Gritar assim bem alto, que é pro mundo inteiro perceber que alguma coisa ainda acontece aqui dentro. Mas sendo de raiva, alegria, tristeza ou inconformismo, eu me contenho bem a tempo de só gemer bem baixinho, às vezes em forma de risinhos ridículos para comemorar grandes feitos, às vezes apenas um sorriso para oficializar a serenidade, vez em quando um suspiro de resignação, um bufo de raiva perfeitamente controlada. Era pra ser assim? O equilíbrio então é isso? Não ser frio, nem mesmo quente, ser morno a ponto de realmente quase vomitar? Eu, que sempre defendi os meios-termos, o bom-senso e os tons de cinza, assim num quê de solicitude, acabei por me conformar em não celebrar as grandes conquistas, nem espernear os grandes revezes. Como me disseram uma vez, o certo talvez seja ser egoísta: me refestelar em banquetes, nem aí para quem passa fome; sofrer minhas agruras como se fossem as piores sobre a face do planeta; me sentir a pessoa mais importante não apenas do meu universo, mas de todos os existentes – tudo isso sob o falso pretexto do altruísmo: eu mesma feliz ajuda o mundo a ser feliz. Talvez seja simplesmente saudade dos dramas, talvez seja minha dificuldade de ficar em paz com a paz, talvez seja só a vontade de gritar que se tem de dominar a partir da meia-noite, embora eu o faça sempre. Pode ser simplesmente vontade de viver intensamente, mas hoje, e somente por hoje, eu tenho que admitir: esse coisa de equilíbrio nunca durou muito pra mim. Me sinto apenas e tão somente uma versão entendiante de mim mesma.

terça-feira, setembro 07, 2010

Mudando

É preciso ter muito cuidado quando se tem o ilusório desejo de mudar o passado.

É preciso lembrar: muda-se uma única coisa, e todo o resto também será modificado.

Algumas coisa devem simplesmente permanecer como estão...

sexta-feira, agosto 20, 2010

Paz



Eu tenho andado tão calma, tão pacífica, que mal tenho sentido o tempo passar. E cheguei num ponto tão estranho que já nem sei dizer se essa passagem veloz do tempo é boa ou ruim.

Porque os dias vão passando numa calmaria tão atípica que o dia acabar é bom, começar o próximo também, dormir é gostoso e acordar também, trabalhar é ótimo e ter folga idem, sair de casa é tudo e ficar na toca é uma delícia.

E tudo isso por ter simplesmente passado a aceitar a vida e todas as coisas que a fazem ser o que é, como realmente são. Boas e ruins. Calmas e turbulentas. Difíceis e fáceis. Tudo ao mesmo tempo.

Coisa doida é viver. Coisa boa essa que chamam de existência. Demorei pra descobrir o que era tão óbvio: a paz e a felicidade estão dentro da gente. Ser feliz é simplesmente uma questão de ponto de vista.

quarta-feira, julho 28, 2010

Contato

Tem sido muito difícil colocar em palavras o que venho sentindo. Afora a vontade de descrever como foram aqueles 28 dias idílicos em que viajei por aí, tenho sentido uma necessidade urgente de escrever sobre meus sentimentos, mas as palavras, surpreendentemente, não têm me ocorrido.

Acho que as palavras poderiam chegar a definir o meu interior, mas também limitariam essencialmente a intensidade e a força dos meus sentimentos. Então, tenho basicamente sentido. Tenho passado muito tempo sozinha, o que hoje, graças a Deus e a uma série de fatores, tem sido uma coisa agradável. Já não me sinto triste, ou sequer raivosa, com a pessoa que sou, como vinha me sentindo antes de viajar. Na verdade, tenho sentido quase que uma gratidão por tudo o que vivi ter me colocado novamente em contato comigo mesma, essa Eu de verdade que tem se formado ao longo dos anos.

Não acho que cheguei onde queria chegar – conseguir me enxergar como realmente sou e no que venho me tornando conforme as mudanças acontecem. Mas acredito estar me vendo com olhos mais suaves, sem tanta pressão em ser o que acredito que deveria ser, em fazer o que é esperado, em ser bem-sucedida, rica ou reconhecida. O engraçado é que, de repente, o que pareço ser perdeu completamente o sentido, ao mesmo tempo em que o que verdadeiramente sou não aparece muito nitidamente por entre esta névoa diante dos meus olhos.

Mas talvez o mais bonito disso tudo seja que, com bastante simplicidade, finalmente consegui entender que o importante da vida é ter essencialmente a leveza dentro de si, é ter momentos agradáveis com as pessoas que amamos, é estar em harmonia e sem conflitos dentro e fora. É ser simpática com a moça da padaria, é tratar bem o manobrista do shopping, é rir da piada do porteiro. Reconheci que não preciso sempre da profundidade, mas que esta também não deve se manter por muito tempo longe das minhas vistas.

Talvez ser feliz seja muito mais fácil do que parece – talvez baste jamais perder este contato delicioso que se tem consigo mesmo quando, pura e simplesmente, sentimos amor por nós mesmos.

quarta-feira, julho 21, 2010

Tamally Maak



É com o coração apertado e com os olhos querendo vazar que hoje escrevo estas linhas. Impossível converter em palavras tantos sentimentos, tantas saudades, tantas vivências. São sons, cheiros e fotos que despertam em mim sentimentos que nunca antes experienciei, como a saudade da sensação de familiaridade inexplicável que senti em terras egípcias.

Quase como se eu já tivesse passado por lá, quase como se estivesse voltando pra casa. A novidade, misturada ao conforto. Estar à vontade num lugar absolutamente estranho, e nem por isso menos conhecido. Os cheiros não me importavam, o trânsito não me aborrecia. O calor castigando a pele e apesar disso, se sentir renovada. A areia entrando nos olhos e você não se importar de fechá-los. Uma língua estranha soando surpreendentemente bonita aos ouvidos.

Estar de volta chega a ser dolorido, não pelo retorno à realidade, mas pela impossibilidade de construir esta realidade num novo cenário. A utopia da união de uma vida amada em terras brasileiras, com a magia e as sensações das terras desérticas. Me revolta pensar que tantos acreditam que somos tão diferentes, ocidentais e orientais, sem enxergar a beleza das nossas semelhanças. A maravilha das nossas mesmas origens, nossas crenças tão parecidas, nosso amor ao próximo expresso de maneiras tão singulares, e ao mesmo tempo, exatamente as mesmas.

Estar no lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas – acho que isso é plenitude. Perceber a existência como algo tão divino, tão absurdamente lindo, que todos os problemas se tornam insignificantes. O toque dos derbaks e dos snujs, os chamados dos minaretes, tudo isso se torna tão maior, que tenho certeza que este sentimento se chama amor.

Hoje tenho certeza – meu coração ficou no deserto, e minha alma no fundo do Nilo. Tamally Maak, sempre com você. Quero voltar e nunca mais partir, quero viver em meio a Ahmeds, Mohammeds, Bassams, Mostafas... quero não mais ser Aziza, sequer Ana ou Paula, mas apenas Ser, ser tão eu mesma quanto o Egito me permitiu.

Que estas lágrimas que brotam sejam como o Nilo foi durante tantos séculos: uma época de cheias tornando a terra fértil, aguardando farta e tão esperada colheita...

sexta-feira, maio 21, 2010

Silêncio

Tento, aqui dentro, reencontrar meus fragmentos. Mas as palavras fogem súbitas enquanto aguardo o seu momento – esperando respostas encontro apenas mais perguntas, desça sua espada sobre mim, seja ela um não, seja ela um sim, qualquer que seja o peso desse fardo. Esse silêncio bastardo que corrói é o mesmo que constrói expectativas sem fim, unindo pontos, ligando formas e buscando fórmulas para dissipar esse nó aqui dentro de mim. A cabeça pesa procurando uma saída, um desenlace firme para essa cilada, a frase é triste, mas quem poderá negá-la? – eu admito, é verdade, apenas quem te inflige dor pode tirá-la.

quarta-feira, maio 05, 2010

Feliz aniversário

Eu queria poder olhar no relógio e achar que já são horas de te ligar. Te diria bom dia e diria que estou muito feliz pelo nosso aniversário. Eu faltaria ao treino somente pra ficar com você. Eu te levaria uma flor e sorriria como sorri há muito tempo atrás. Eu escreveria uma poesia, compraria sorvete, compraria lingerie nova, e me perfumaria toda só pra receber teu abraço apertado, sabendo que nosso futuro estaria apenas começando, como o nascimento de algo que acaba de acontecer, apenas neste minuto. Eu dormiria bem. Eu não teria pesadelos. Eu jogaria no lixo minhas bolinhas de dormir. Eu tiraria do lixo as coisas que amargamente descartei. Eu atiraria no lixo meus sentimentos maldosos. Meus pensamentos cruéis. Se hoje ainda tivesse você, eu daria uma festa, esta mesma na qual o mundo inteiro hoje dança, andando pela Angélica, falando nos telefones, acelerando os carros, rindo no trânsito, ouvindo música, nos cafés na padaria, nas risadas no metrô, nos cigarros ao longo da calçada. Se ainda tivesse você, apagaria eu meu próprio meu cigarro e retomaria minha vida, aquela mesma que ficou lá atrás, no dia em que nosso amor tão prematuramente morreu.

quarta-feira, abril 28, 2010

Parece, mas não é




Sensibilidade às vezes é intolerância.

Convicção, arrogância.

Impulsividades se disfarçam de coragem, confiança pode bem ser prepotência.

Determinação pode ser teimosia. Perseverança, negação da realidade.

O que era crença se revelou necessidade. O otimismo, ilusão.


Sobem-se os véus do desencanto, primo antigo da paixão.


A história de amor era apenas dejá vu.

sábado, abril 24, 2010

lacuna

Foi como um soco na cara. Aqueles rostos todos conhecidos, me sorrindo amarelo, como se dissessem “foi bom enquanto durou”. Uma multidão de gente estranha, com quem jamais me identifiquei, como que me consolando através do olhar. A porrada na cara de ser bem tratada pelos seus familiares, carregados de condescendência, carregados de empatia – a empatia que você não teve. Ali, no universo que uma vez foi apenas meu, também deixei que você adentrasse, sem no entanto receber o espaço mínimo necessário para fazer parte do seu dia-a-dia. O tapa no rosto é perceber que doei tudo aquilo que eu tinha, todos os meus espaços, todos os meus universos, sem ter deixado sequer uma lacuna no seu cotidiano, nem uma brecha que você procure preencher com falsos pensamentos de conformismo, nem uma fenda que te mostre hoje a falta que minha ausência te traz. Nada. Percebo hoje que sua vida tão plena, seus amigos sorridentes, sua família unida e feliz, todo seu universo uniformemente preenchido me reflete o rombo que no meu ficou quando te arranquei a duras penas do meu cotidiano. Esse rombo, sei que me pertence – mas a ausência da adrenalina na qual você é viciado, a falta do frisson inicial que qualquer relacionamento sofre com o passar do tempo, a maneira como você se entedia tão logo a novidade te deixe, é isso que hoje me traz a certeza de que foi melhor assim: sua vida pode ser completa demais para poder me acolher, mas ao mesmo tempo, eu sempre fui grande demais pra caber dentro de você.

quarta-feira, abril 21, 2010

Inércia

Queria acordar e ver que tudo isso é um sonho, um sonho bizarro e mal-vindo. Mas o tempo congela quando não se tem o que esperar, e se torna preferível passá-lo dormindo. Tudo se torna pálido e lento, e é preciso procurar muito a fundo por um motivo verdadeiro de empenho. Procuro me desapegar do resultado e atentar ao processo, mas é duro quando este é um contínuo elaborar de perdas. De se lamber feridas.

Racionalizar, procurar alívio. Esta é a rotina. Buscar conforto na falsa idéia de que se tentou de tudo. O mundo inteiro parece uma festa para a qual eu não fui convidada, e fica cada vez mais incoerente que coisas tão complexas possam ter se defeito de maneira tão assombrosamente simples. Rápido, mas não indolor. Como um esparadrapo retirado de uma pele em carne-viva, sem preparo algum.

As saudades, estas já haviam. Mas a perda se torna estranhamente concreta quando tudo o que se ouve é o barulho ensurdecedor do silêncio – nada restou. Fluindo na densa maré da inércia, procuro aceitar o tempo pacientemente enquanto ele escoa dolorosamente por entre meus dedos. Os ponteiros dos relógios são apenas hastes finas, que observo correrem sem fim. Subitamente descubro, é isso: o tempo é o bem mas precioso que um ser humano poderia perder.

sexta-feira, abril 16, 2010

procuro

Meu coração quase parou quando vi, reluzente, aquela moto preta parada próximo à minha garagem. Nestes dois segundos que levei para compreender que não era você, nova angústia aportou no meu peito e a vontade de gritar foi quase incontrolável. Não, não era sentimento novo. Apenas mais uma dose. Apenas mais um momento em que busco te encontrar onde quer que seja. Procuro por você em meio ao caótico trânsito de São Paulo, mesmo sabendo que jamais te acharia. Te procuro no portão do meu prédio com falsa e cruel esperança. Te procuro na minha caixa de entrada, nas letras não escritas daquele email em branco. Te procuro dentro de mim e o que encontro são fragmentos de um sonho distante, de data antiga, meses e meses atrás. Te procuro nas histórias que sobrou para eu contar. Procuro por nós dois dentro de cada casal que vejo na rua, dentro de cada par de mãos dadas com afeto, dentro das músicas que costumávamos ouvir, da canção que você prometeu tocar. Não nos encontro mais. A vontade de chorar se torna enlouquecedora quando penso que a falta que sinto já não é nova aqui dentro, a saudade só se tornou oficialmente constante. Falta – uma palavra pequena pra descrever quando um pedaço de nós já morreu.

terça-feira, abril 13, 2010

por linhas tortas

Tento com todas as minhas forças ter firmeza o bastante para continuar, para que eu fraqueje cada vez menos e que a culpa não venha me assolar. Preciso me convencer de que o universo conspirará sempre a favor, mesmo que das maneiras mais tristes. Me concentro na idéia de que os sofrimentos simplesmente fazem parte desta vida, de que se originam especialmente no apego e desejo excessivo. Tento me perdoar pela forma tosca com que procurei afastar-me das origens do meu sofrimento, mas procuro me ater ao fato de que não importa de que forma consegui sair deste limbo, o que importa é que saí. Nem sempre fazemos algo da maneira mais adequada, e devemos colher as conseqüências das nossas atitudes, mesmo as que foram motivadas pela tristeza ou pelo desespero. Nesse momento, busco meu perdão, mesmo que aquele a quem feri não consiga me perdoar. Fiz o que consegui fazer – se até Deus escreve certo por tortas linhas, por que eu não haveria de falhar?

domingo, abril 11, 2010

Caos calmo


A calma só habita os corações convictos.

sábado, abril 03, 2010

Partida


Lidar com a saudade não é fácil. Agüentar a perda, seja ela concreta ou abstrata, é sempre doloroso, e para mim se torna especialmente difícil tolerar a falta e a passagem do tempo.

De nada adianta ter a consciência de que existe em mim um problema antigo relativo às separações. Perdas, abandonos, ausências – tudo fica sendo uma coisa só na qual se materializa o sentimento irracional, mas absolutamente concreto, da rejeição.

E enquanto me sinto só, olhando com olhos vazios para o quarto de dormir de minha irmã ausente, me pego constantemente sentindo um vazio que, desconfio, sempre esteve aqui. Seria a separação a única responsável por este sentimento eclodir? Ou estou ignorando outras tantas variáveis?

A sensação é de desamparo, apesar da tamanha esperança sobre o dia em que tornarei a encontrá-la. O destino é o oriente, na melhor das hipóteses, vencendo a ganância das posses e utilizando os bens materiais para matar a saudade. Os planos anteriores haverão de ser recapitulados. Notas de real vencendo obstáculos e superando distâncias, me aproximando de quem verdadeiramente me oferece companhia. Hoje, apenas isso faz sentido pra mim.

E enquanto isso não acontece, enquanto me vejo sozinha em meio às dores violentas da separação, tento encontrar as forças estruturais que haverão de me fazer emergir deste grande canyon, deste denso buraco negro nas qual todas as questões são engolidas, todos os afetos se dissolvem, onde tudo ecoa pela enorme dimensão do vazio.

O tempo se arrasta.

Neste momento, apenas o silêncio me consola.

sexta-feira, março 05, 2010

Infinito Particular



Minha amiga me disse: “O que me espanta em você é que você tem plena consciência de tudo o que acontece e do porquê de você agir assim. Mas isso não é o suficiente para mudar. O que será?

Me sinto às vezes como quando chegamos em um lugar e uma placa enorme nos informa que é proibido estacionar. Paira a pergunta: onde parar então?

Em tempos de incompreensão e de falta de diretrizes internas, reconheço um solo ainda fértil e pleno em potencialidades. Me estranho, mas me identifico na lindíssima música da Marisa Monte – apesar de feia, ainda a voz mais bonita do Brasil.


“Eis o melhor e o pior de mim, o meu termômetro, o meu quilate. Vem, cara, me retrate, não é impossível, eu não sou difícil de ler! Faça sua parte, eu sou daqui, eu não sou de Marte. Vem, cara, me repara, não vê? Tá na cara, sou porta-bandeira de mim! Só não se perca ao entrar no meu infinito particular. Em alguns instantes sou pequenina e também gigante. Vem, cara, se declara, o mundo é portátil pra quem não tem nada a esconder. Olha minha cara: é só mistério, não tem segredo, vem cá, não tenha medo – a água é potável, daqui você pode beber. Só não se perca ao entrar no meu infinito particular.”