Mostrando postagens com marcador pra você. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador pra você. Mostrar todas as postagens

terça-feira, março 05, 2013

Alerta vermelho

Você e eu, nós nos entendemos muito bem. Sabemos o que falar para evocar o passado em nossas entrelinhas, esses chiados da nossa música que ninguém mais é capaz de decodificar. Nosso diálogo tem senha, a qual ninguém mais tem acesso, só eu e você sabemos nossos pequenos sinais desencadeadores de nós dois. É um gesto com as mãos, é um estreitar de olhos, é a menção a uma velha canção. Nosso alerta vermelho e profano.


Nossos versos quase nunca rimam, mas são bem feitos, curtidos com o tempo, que vai  dando um amargor especial a uma história que, bem sabemos, nunca terá final feliz. Nessa novela, de caracteres marcados, sabemos de antemão o drama e o ápice de nossos personagens. Interpretamos muito bem. Fingimos não saber que essa peça logo tem seu desfecho. Amarramos em nossos punhos as cortinas para que nunca fechem. Reprisamos sempre as mesmas cenas, num eterno retorno de disco riscado de tantas perguntas não feitas, ganhando tempo para que perdure esse teatro sagrado fadado ao fracasso.

O antes, o depois, quem se importa com o que será de nós dois? No passar dos anos que esculpiu a nossa imagem, não sobrou pedra sobre pedra pra ter esperança. Tudo se resume a pó – esfarelamos entre os dedos tudo aquilo que foi bonito um dia, torcendo para que o vento sopre forte, conduzindo você pra longe de mim, mesmo sabendo que de uma forma ou de outra, o vendaval produzirá novos chiados, novos ruídos, dizendo... por que, por que, porque. 

segunda-feira, janeiro 14, 2013

Promessa



Até os passarinhos pararam de piar; as águas ruidosas se calaram naquele instante. Até mesmo o vento cessou de uivar para ouvir nosso silêncio - eu sei e você sabe que ele nos disse mais que qualquer palavra. Não há necessidade de um verbo sequer para traduzir a força daquele encontro, mesmo que a magia tenha acabado tão rápido quanto se criou. Se fomos interrompidos não importa tanto; se o medo fez o momento se perder já quase não faz diferença. Dentro de mim, aconteceu, e é como se o mundo tivesse parado de girar por um segundo, para testemunhar nossa conexão e a força da nossa coragem ou covardia de seguir ou não em frente. Aquele dia selou uma promessa: nossos corações ainda se tocarão mais uma vez, mesmo que, a despeito de todos os desejos, nossos lábios jamais o façam.

quinta-feira, outubro 25, 2012

Transe literário


Os dedos tamborilam o teclado em busca das palavras. Letras e letras se alinham e dançam sob meus olhos, enquanto perco o foco e avisto ao longe. Palavras se formam; frases desconexas e sentidos soltos marcham à frente, delineando nossa história na tela-papel em branco. Entro em transe; os dedos frenéticos se movem; os arquivos da memória são esquadrinhados em busca dos significados há muito atribuídos, as sentenças vão sendo construídas e dadas ao longo deste novo e tardio julgamento. Paro: releio. A pele do rosto se avermelha. Está ali a nossa condenação – mais um texto obscuro, condenado a permanecer escondido, mais uma confissão, oculta para sempre nas velhas pastas do PC.

sexta-feira, fevereiro 17, 2012


É carnaval.
Não é adequado usar nenhuma fantasia.
Quando estou longe de você, todas as máscaras caem e só
sobra a hesitação constante: pra qual lado seguir? É fácil dizer que devemos
pagar os preços por aquilo que lutamos, quando sabemos exatamente onde queremos
chegar. Mas se torna extremamente difícil aceitar as consequências de uma
atitude em relação à qual se desconhece os motivos.
Será que consegue entender?
Consegue entender que, a partir do momento em que deixei de
te culpar, não sobrou mais ninguém para responsabilizar a não ser eu mesma?
Esta eu pequena, tão insatisfeita, que sente que incomoda tanto toda vez que
deseja alguma coisa, esta eu que sente que não tem direitos, que não pode ficar
insatisfeita, esta eu que fica infeliz quando sente que não pode entristecer.
Esta eu permanentemente sob cobranças.
Como te explicar que uma parte de mim deseja mais do que
tudo renunciar a este projeto ambicioso de tentar me apaziguar antes de mais
nada, para encontrar a paz junto ao seu lado, enquanto meu outro lado, este
mesmo ambicioso me pune me lembrando, a cada beijo que eu te dou, que não era
isso que eu tinha me proposto?
Como explicar que longe de você eu sofro, mas ao seu lado
sofro também, por detestar a imagem que vejo refletida no espelho? Por
visualizar uma eu tão fraca, tão instável, alguém que simplesmente não suporta
o próprio vazio a ponto de ter vontade de simplesmente sumir do mapa sem deixar
vestígios! É possível compreender isso?
Como poderia te pedir para esperar? Como posso pedir para
você algo que eu não consigo executar? E me apego em textos, em palavras, mesmo
sabendo que estas não dizem nada e perdem a força diante da imagem que passa
veloz na minha frente de um você deitado debaixo dos meus lençóis. Como posso
te pedir serenidade, diante do caos que se transformou a minha mente?
Como posso te explicar que na sua imagem vejo muitas, muitas
coisas, que sinto muitas, muitas coisas, dentre elas a esperança de um futuro
brilhante, em que nós juntos iluminamos um ao outro? Como posso te explicar que
vejo o futuro em você, mas não o vejo em mim, a cada dia que passa e que sinto
as lágrimas corroerem meus olhos e descerem lentas até a ponta do meu rosto,
molhando os papéis em que planejei escrever?
Como posso esperar qualquer coisa, qualquer palavra,
qualquer som, qualquer sorriso, se não vejo o brilho necessário dentro de mim?
Me sobra a esperança de desatar estes nós, chegar à raiz do
problema, ao fio da meada, ao xis da questão. E penso poder te entregar esta
fórmula, e juntos resolvermos esta difícil equação de cabeça e peito abertos,
de olhos pareados, mãos dadas com dedos cruzados apontando o futuro.
“Naturalmente vazio, maravilhosamente brilhante.”

sexta-feira, janeiro 13, 2012

Perda

Que irônico passar a enxergar com minhas novas lentes de contato a partir do momento em que passei por cima do meu coração e decidi me afastar de você. É incrível pensar que a distância me trouxe uma clareza perturbadoramente mais nítida.


O medo e a culpa passaram a ser guardiões constantes deste período forçosamente triste em que voluntariamente me submeti. A dúvida, a incerteza, e a vontade de sentir a felicidade plena que um dia nos acompanhou foram as forças motrizes desta atitude que, aos olhos de tantos, pareceu tão descabida.


No meu íntimo, gritam as vozes enlouquecidas da esperança de que tudo sirva a um bom propósito, de que o sofrimento valha a pena, de que a distância faça se acurar a saudade latente que já vinha manifesta nos últimos tempos... saudade dolorida que se sente junto; saudade de algo que se encontra ao seu lado; saudade como se tivesse ido embora esta presença constante.

Em algum momento, perdemo-nos. Em algum momento desta trilha, tomamos direções distintas. Mas cansei de nadar contra a correnteza, forçando nossos caminhos a se manterem paralelos quando as perpendiculares tornaram-se rotina. Desisti de remar contra a correnteza, restando a mim desviar dos obstáculos e aceitar, humildemente, o sofrimento inevitável desta perda.


Pois, afinal, se esta perda se fez mesmo em sua presença, não estaria nos poupando a nossa ausência? Não preservaria este pano em frangalhos a evitação de mais uma disputa?


Oro ao deuses que preservem este amor, que nos poupem das amarguras dos casais que já não se amam – que mantenham o amor aceso dentro das almas muito mais do que no corpo, pois estas sim são companheiras eternas.


Quanto ao corpo, o corpo hoje adormece solitário, sob as luzes azuladas do televisor, enquanto chega às narinas o aroma conhecido da única peça de roupa que escondi entre os lençóis – um último refúgio que dê sentido a todo este caos, um abrigo em meio à dor que, de tanto tentar evitar, acabou por se instalar bem no centro, no âmago, no doloroso íntimo do meu coração.

segunda-feira, novembro 07, 2011

Aqui, ali. Em qualquer lugar.




Recentemente, mais uma de minhas melhores amigas anunciou que iria morar fora do Brasil. Rumo a New York, minha amiga mais encantada vai trabalhar com o que sempre quis, na cidade que sempre quis, do jeitinho que sempre quis.

E hoje ela me disse que está angustiada com a partida.

Outra amiga, aliás amiga e mestra, dançarina mais FODA que já vi dançar, também está de partida. Vai construir sua nova vida junto ao marido na Inglaterra, e isso é tudo o que ela sempre quis, o que de mais fantástico poderia acontecer.

E ela também sente alguma angústia pela partida.

Não sei se sou eu, que sou avessa a despedidas, ou se vê-las trilhar este novo caminho de luz. Não sei o que me deixou, do lado de cá, também angustiada. Não se trata só das saudades que deixarão – outras amigas também se foram e inevitavelmente a gente aprende a conviver com a distância. Convivemos bem inclusive com a morte.

Acho que vê-las encarar esta angústia e tomar essa HUGE decisão é o que mais me toca. Me toca a ponto de eu ir às lágrimas. E, no fundo no fundo, eu sinceramente acho que choro por minha causa, e não por causa delas. Mas, direta ou indiretamente, elas têm tudo a ver com isso.

Acho fantástico que a coragem de tomar uma decisão tão gigante quanto esta(s) encontre alicerces firmes em grandes paixões. O trabalho, a arte, o amor. O amor que o trabalho, que no caso das duas, é pura arte, traz para a vida de ambas, enchendo os corações das duas de confiança de que sim, não importa onde você está, o seu lugar será sempre aquele em que você exerce livremente suas paixões. E ambas estão indo viver sonhos cheios de paixão e de amor – basicamente, por aquilo que fazem de melhor na vida, amar e trabalhar.

Enquanto acho tudo isso lindo demais, me pego pensando se eu conseguiria tomar uma atitude assim tão brutal em relação à minha própria vida. Meu primeiro palpite é de que não, não conseguiria deixar tudo pra trás, minha família, meus amigos, meu trabalho. Me borraria de medo de ser estrangeira num país estranho e não ser uma mera turista, e sim residente por tempo indeterminado. Teria muito, mas muito medo, de querer voltar em pouco tempo.

Por outro lado, se eu encaixasse nessa equação um trabalho fantástico (possível de ser exercido em terras estrangeiras, não como a Psicologia Clínica), ou um marido com o qual eu me sentisse totalmente em família... será que isso me daria forças? Será que me sentiria mais segura? Será que se pintasse A oportunidade de trabalho em outro país, e o amor da minha vida fosse junto (ou já estivesse lá, ou melhor, FOSSE DE LÁ), como no caso de uma delas, eu não jogaria tudo pro alto e arriscaria?

Pensar nisso me traz ansiedade e uma grande frustração, não apenas porque enquanto vejo as pessoas irem eu continuo por aqui fazendo as mesmas coisas, mas por que sei, dentro de mim, que o empecilho vital para uma jornada assim está, basicamente, dentro do meu ser mais profundo, uma parte de mim que procuro evitar. São minhas desconfianças, inseguranças e outras ânsias mais. É o meu apego, a minha carência, o meu medo de voltar atrás.

É frustrante perceber que minha vida poderia ser mais emocionante ou mais apaixonante, caso eu apenas permitisse. Caso eu apenas arriscasse. Caso eu apenas conseguisse dominar a grande inércia na qual me encontro volta e meia quando paro para reparar onde é que estou chegando com os passos que tenho dado. É frustrante e assustador me ver presa dentro de uma mesma rotina, andando pelas mesmas ruas do meu mesmo bairro, entrando todos os dias em meu consultório, encontrando e falando sempre com as mesmas pessoas sobre os mesmos assuntos.

Avanços fiz, fatalmente continuo em movimento. Mas a inspiração que vem de dentro dessas duas pessoas queridas demais, das quais vou sentir tanta saudade, me mostra que o que alcancei ainda é muito pouco perto do que meu lado mais selvagem e travesso às vezes grita pra eu almejar.

Hoje minhas duas amigas e suas histórias encantadas (cheias de dificuldades, claro, mas definitivamente BIG STORIES) me pareceram um soco no estômago. Uma verdadeira porrada na cara, e pela primeira vez me senti como se minha vida inteira dependesse disso. Triste e feliz ao mesmo tempo, engoli algumas lágrimas enquanto esperava pelo primeiro paciente do dia. Me acalmei e pensei nelas lá longe, e se algum dia eu também vou estar em algum outro canto do mundo.

Antes de mais nada, preciso me encontrar. Aí sim, eu vou poder chorar: vou estar comigo, aqui, ali, ou em qualquer lugar.

___________________________________

Para Juju e Elis, que suas asas batam tão fortes e rápidas quanto for o tamanho de seus corações e das paixões que habitam neles. Vocês têm tudo o que precisam para fazer a sorte parecer apenas um detalhe.

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Pagando pra ver

Cansei de brincar com coisa séria, e de levar a sério demais o que é simples brincadeira. Nesta vida existem vários pesos e várias medidas e já faz tempo que não consigo mais ser absoluta em nada do que eu digo. Mania essa de relativizar. Mas como dizem por aí, é caminhando que se faz o caminho, e a viagem só vale a pena se o processo também valer. Já não quero me arrastar por aí sem ter foco no futuro, nem ficar tão de olho no futuro que me perca do presente. É sempre esse, o desafio de balancear. Não transformar o remédio em veneno, não errar na dose do equilíbrio que se torna tão estável que fica monótono. O que quero não é a paz serena de ser pacata cidadã eternamente, quero a paz do valer a pena, a paz da recompensa e da consciência tranqüila, a paz de uma partida que paga o preço mínimo dos lances, seja você ganhador, seja você o último da fila. Não existe essa de jogar a toalha sem sequer ter começado a partida, resolvi abrir a guarda e fazer minhas apostas, guardei comigo aqui algumas fichas, estou jogando alto mas tô pagando pra ver.

sábado, outubro 23, 2010

ressaca de você

Dentre todos aqueles rostos na multidão, só o seu estava realmente em foco. No meu foco. Ali, na fila dos livros, te vi nervoso, esperando para ter meus textos em mãos. Os textos em que me apoiei ao precisar te esquecer. Sempre achei que fosse força de expressão, mas fiquei completamente zonza ao sentir seu cheiro naquele abraço longo que tardou a acontecer. Nossos olhos se comunicaram sem que ninguém percebesse o que ali acontecia: a troca, a comunhão, os corações que se reaproximaram. Um ano e meio não bastou longe de você, minha boca secou como sempre secava, meu coração falhou uma, duas vezes, só voltou a bater quando por fim nos separamos. Quis te falar milhares de coisas. Aos homens com quem tenho andando, já disse tudo que interessava. Eles já sabem tudo o que é preciso saber: sou mulher, estou disponível, sinto tesão quando me tocam aqui ou ali. Isso deveria bastar. Mas pra você quero contar o que sonhei essa noite, quero mostrar o sapato que comprei, quero ler aquele artigo enquanto você toma seu banho, quero te contar uma sessão difícil que tive hoje. Você iria entender. Não te disse nada destas coisas, me contentei em contar as novidades, fingi uma naturalidade que jamais me pertenceu quando estive ao seu lado. Seu cheiro me intoxicou, fiquei bêbada de saudades, enchi a cara com vontades, dei PT com o coração. Amarguei essa ressaca na boca de outra pessoa, fantasiando suas artes médicas curando minha alma obcecada por você. O que te disse um dia ainda está valendo, meu coração continua sendo seu, meu corpo implora pra novamente te ter, mas minha honra está selada – a nossa porta não está trancada, nossas possibilidades continuam encostadas, mas elas têm uma senha, você já sabe qual é.

sábado, agosto 14, 2010

Saudade eterna de você

Para F.

Quando penso em você
Meu olhar se enche d’água
Não tenho um pingo de mágoa
É só saudade da boa

E fica na lembrança de um beijo
Do abraço que ninguém me deu igual
Da noite que valeu por todas que vivi
O tempo foi passando e eu fiquei
Por todos os amores onde andei
Tentei mas nunca deu pra esquecer de ti

Ai, ai meu coração
Que passa dia, mês e ano e não consigo te esquecer
Ai, ai meu coração
Ainda bate apaixonado com saudade de você...


(Accioly Neto)

quarta-feira, setembro 16, 2009

Elo


Depois de tanto tempo sem te ouvir, não foi surpresa nenhuma que tua voz me soasse estranha. Não fosse teu nome aparecer na bina do celular, não te teria reconhecido, mas teu timbre familiar logo me trouxe de volta para casa. Ouvir você foi um presente inesperado e, por isso mesmo, delicioso: não houveram silêncios constrangedores, sua risada continua gostosa como sempre, nossas brincadeiras ainda são as mesmas – nossa sintonia continua fina, como sempre foi.

Se nos perdemos no meio desses jogos modernos eu já não sei dizer, talvez tenhamos nos rendido à modernidade das relações e acabamos nos confundindo. Talvez nossa admiração mútua, nossa disponibilidade simultânea, nossos gostos tão parecidos – talvez tudo isso tenha nos reunido no momento em que sentimos, os dois ao mesmo tempo, que devíamos nos unir a alguém. Por que não nos unirmos então, e fazer uso desta afinidade tão especial?

Não doeu tanto quanto pensei que doeria quando por fim nos afastamos; acho que porque ambos percebemos que não fazia mais sentido estarmos juntos de uma maneira tão lasciva e superficial – isso desvalorizaria qualquer coisa mais bonita e sincera que um dia havíamos tido. Senti tua falta durante todos estes meses, mas a magia que existe nisso tudo é que senti saudades da sua amizade, da tua gargalhada, da tua ranhetice característica, de quando você é ranzinza e mal-humorado daquele jeito que só você sabe ser. Senti falta das tuas críticas e da tua sistematização do mundo, e ter tido tua amizade de volta ali, por alguns minutos, valeu todo o tempo em que tivemos que nos afastar pra cada um retomar suas vidas.

Hoje senti que nossa relação cicatrizou e voltou fortalecida. Valeu realmente a pena a distância. Acolho teu carinho como sempre fiz, e te dou minha amizade em troca como um sinal eterno: não importa onde ou com quem estejamos, o nosso verdadeiro afeto um pelo outro é o elo único que nos manterá sempre unidos, esteja você aqui por perto, esteja você longe de mim.

segunda-feira, agosto 03, 2009

perdão

Para J.


Revirei minhas memórias em busca de nós dois. Isso nunca me fez bem. Vasculhei minhas lembranças tentando resgatar esse mínimo de mim, tarefa ingrata. Olhei as nossas fotos. Ali, escondidas nas pastas ocultas do PC, jaziam elas, esperando que um dia pudessem ser novamente admiradas, livres de toda a mágoa.

Respirei fundo pra continuar nesse caminho sem volta de apagar você. Ali estávamos nós, sorrindo diante do que o futuro, esse cruel, nos reservava. Olha nossos olhos – os verdes e os azuis, zombando da realidade. As palmeiras, a areia e o mar, fazendo coro: aqui somos felizes. Ah, que se a gente imaginasse o quanto a realidade ia por isso nos castigar.

Voltei as vistas para aquela, aquela uma em particular em que nos flagraram nos mirando. Naquele olhar eu percebi que foi tudo de verdade, gostei de você e você gostou de mim, embora tão efêmero. Jamais houvera a intenção de machucar. Naquele instante acreditei: não houve nenhum vilão e nenhum mocinho, nunca houveram os culpados que eu cismei em acusar.

Éramos só nós, seres humanos imperfeitos nessa arte desengonçada de se relacionar. As fotos mais recentes traziam olhos diferentes, que já previam o final e já viviam nosso luto. Sorri ao perceber que nosso olhar já não olhava a câmera – olhava pra dentro de nós dois, tentando se perdoar.

Já faz tempo,
E já é hora,
O ressentimento foi embora,
Deixou saudade em seu lugar.

terça-feira, junho 30, 2009

Hiato

Batem fortes aqui dentro, novamente, as mágoas da separação. Grandes despedidas marcaram nossa história – nenhuma definitiva, nenhuma de verdade. Nossas lindas palavras falam na vã tentativa de calar nossa terrível verdade: jamais estivemos juntos. Você me incute, por fim, a dúvida - será?

Meus sonhos e desejos se voltam novamente para ti, e em meio a um inverno emocional dos mais cruéis sua presença me lembra novamente o verão. Me sinto viva e meus galhos mostram novamente vontade de florescer. Meu solo está novamente fértil – recebo então sua semente estéril e acolho sua eterna dúvida. Mudam novamente as estações, e enxugo calmamente as lágrimas negras do rímel que usei pra te encontrar.

No hiato congelado existente entre nós, permanece a indelével e inquestionável evidência de que nossa história foi despedaçada há muito, muito tempo atrás. A esperança, morta-viva, volta para de onde veio. No eco das suas palavras eu vejo, finalmente, que nada restou a não serem promessas de que tudo seria muito diferente, se tudo não fosse exatamente como é.

domingo, maio 24, 2009

postumum


Nada se encaixa com delicadeza no lugar vazio que você deixou. Restaram pedaços e fotografias nas quais você não se encontra; dias riscados em um calendário já esmaecido pelo tempo. No buraco desolador que um dia você ocupou, o vazio denso e impenetrável das minhas memórias habita fielmente, em homenagem póstuma ao nosso abandono.

Suas saudades deixam grandes lições. E grandes lições deixam, inexoravelmente, profundas cicatrizes. Esta que criamos oprime meu peito com tanta intensidade que é quase que como se você jamais tivesse existido - a dor da sua ausência é como a retirada de um velho móvel em um quarto antigo: tudo o que restam são marcas no tapete, manchas amarelas na parede, indícios de uma ocupação distante. Traços indiscretos de uma felicidade jamais concretizada, as evidências inegáveis do crime atroz que foi cometido aqui dentro. O lembrete perene do que não pode ser recuperado.

Se foi. Suas lembranças se espalham sob a forma cinzenta de memórias do que nunca existiu, sentimentos vagos que teimam em ruminar, a resistência implacável de se deixar esvaziar do que um dia foi como a única réstia de luz num aposento escuro, a iluminar as sombras existentes dentro de cada um de nós.

Neste momento, restaram as trevas – nada se pode ver a não ser a ausência desta luz. Persigo suas chamas e suas cinzas restantes aqui dentro de mim, enquanto me pego a sentir saudades das histórias que nunca vivemos, lúcidas como sempre, mais reais do que nunca, e que interrompem meu fôlego quando fecho meus olhos e procuro por você. Aqui dentro já não te acho. Não existe mais nada a perder, já que nunca houve nada que pude verdadeiramente ganhar.

quarta-feira, abril 22, 2009

Exumação


Quando leio suas linhas ouço o som do silêncio. Como o silêncio que antecede as grandes explosões, aqui dentro, de novo, existem suas fagulhas. Leio você e a saudade me sufoca. Acredito em você. Sinto em você o que sinto de mim: cansei do tempo parar. Quero ver o tempo correr. Quero ver o mundo girar, quero dar a volta em torno dele segurando sua mão, querendo o mesmo destino. E quando menos espero, meus olhos ejetam lágrimas inesperadas, como um visitante indesejado que surge na soleira da porta no meio da madrugada. Vá embora de mim!, não quero molhar os travesseiros, olho meus olhos no espelho com vergonha do que sinto, das palavras que ecoam dentro de mim, quase escapando por minha boca e dedos – ESCOLHA A MIM! ME escolha. ME ame! Ame a mim, e nos dê a chance que jamais tivemos!

Volto a mim e respiro - nesse triângulo já conheço meu espaço, e sei que ocupo o menor dos vértices. Quero tudo, você diz, e eu só quero o bastante. Você me promete o momento – eu te digo que o momento é tudo o que enxergo! Mas cansei de acreditar que o que você pode me dar é justamente o que eu quero, porque sei que poderíamos ter tão mais. Poderíamos... tão mais... e eu sei que mereço tão mais. Eu sei que preciso de tão mais, e sei que você tem mais para dar, mas tudo isso parece tão bobo, tão arrogante diante do efeito que você produz... minha cabeça se enche de porquês. Mas não me sinto no direito de questionar sua felicidade, poderia parecer tanto recalque. Não me sinto no direito de subjugar quem ganha seu amor. Mas por que ressucitar um fantasma que já foi exorcisado? Se falta algo em você, por que não tentar a sorte e se arriscar nessa roleta russa emocional? O que temos a perder? Que diferença tudo isso fará dentro de 10 ou 15 anos? Por que não abandonar o medo do novo, o apego ao conhecido, e se jogar ao desconfortável, ao novo, ao temido? Por que não sofrer? Só pode sofrer aquele que vive!

A dor e o prazer são somente os dois lados da mesma moeda, a que eu decidi apostar no dia em que te conheci. Eu prefiro a ambivalência emocional e a minha agitação do que a profunda apatia que sinto por todos os outros desde quando dissemos nosso último adeus – eu sei que não foi o último, sei dentro de mim que vou passar por cima de mim mesma, vou rasgar minha proteção, vou soterrar meu orgulho debaixo desse furacão, vou roer minhas unhas de esmalte vermelho já meio descascado e vou morder os meu lábios durante cada segundo de cada quarta-feira, quarta-feira que é minha por direito!, enquanto esperar por você ali na Rua Áurea, enquanto esperar por um você que eu já sei – eu já sei que você não vai vir. Mas eu espero por você enquanto puder porque definitivamente jamais te enterrei, e não posso exumar um corpo que jamais pereceu.

Meu Deus, meu Deus, a que ponto cheguei? Sim – como podemos fazer sofrer alguém de quem tanto gostamos? Não tenho nada a perder, nem mesmo meu amor-próprio, e o meu ombro ainda queima com a marca dos seus dedos, e meus olhos ardem de tanto tentarem apagar sua imagem do fundo das minhas retinas. Por isso ainda espero você durante o tempo que esse enterro durar, quer encontrar sua cova fique à vontade, a trilha é tão clara, você sabe o caminho e as nossas condições - é melhor pagar logo o exorcista se não quiser ser repossuído.

terça-feira, abril 07, 2009

24 horas

Meu estômago se retorce nas horas que antecedem o Grande Você.

Meu relógio me boicota: os segundos são tão lentos quando olho os ponteiros – se me descuido, as horas voam. Começo a rezar para que o tempo se estique.

Minha garganta aperta: terei eu palavras? Saberei os termos certos? Conseguirei falar além do trivial? Minha voz mudou, minha boca também, mas meu conteúdo é tão mesmo. Ainda penso o que pensava, ainda sinto o que sentia – temo não falar o que jamais falei.

Quando meu peito arfa e a pressão nos pulmões ameaça me derrubar, vou perdendo a coragem. Não quero que o tempo passe. Não quero mais te ver. Não quero mais te ouvir. Não quero sequer te sentir. Não quero mais te perder - fica assim deitado na minha memória, fica tua intenção suspensa no ar ao meu redor, fica esse gosto de será maldito acomodado nas minhas entranhas – não sei se agüento aquilo que for.

Tanto tempo roubado de mim, tanta história que eu não vivi, tantos textos escritos em vão. Foi tudo em vão? Nós fomos em vão? Você ao meu lado, isso quer dizer algo? Ou apenas e tão somente será esse o desfecho derradeiro, o golpe sagrado de misericórdia como o tambor da pistola rodando diante de um boi no abate?

O tempo escoa e minhas costas dóem. Tanto peso que preciso tirar. Tanta culpa pra te devolver. Tanto sentido para reencontrar. Será o mesmo você? Seus olhos serão os mesmos? Seu abraço será o mesmo? Que eu não trema em seus braços.

Que meus olhos não me traiam quando cruzarem os seus. Que minha alma não se exalte com o que for irreal. Que meu Eu saúde seu Eu como um ser amoroso que encontra o receptáculo de seu amor... e nada além. Eu e você Somente.

A pouco menos de 24 horas de encontrar você, sinto que me perdi mais um pouco...



sábado, março 28, 2009

Em vão?


Meu inconformismo não se cansa de gritar: como você pode se conformar? Como conseguiu ficar calado? Como pode escancarar sua covardia desta forma, sem lutar por nada daquilo que você um dia julgou importante? Como você pode não lutar por você mesmo?

Você se parece com tudo o que já criticou: é propaganda enganosa, que só consumidores de baixo QI ou cultura poderiam se deixar levar. Sua verdade é sua maior ofensa, seus valores são deturpados, suas rédeas são longas demais. Sua idoneidade é mentira.

Mais triste do que uma vida potencialmente digna ser vivida em vão, é observar a passividade e a omissão dos seres responsáveis (dizem!) pela própria felicidade. Mais triste ou revoltante do que ouvir suas palavras, é aceitar que você apenas assistiu passivamente, como um simples expectador, sem mover um músculo, enquanto eu saía de uma vez da sua vida.

quinta-feira, março 19, 2009

Dois anos

Dois anos se passaram.

Dois anos se passaram e muita coisa mudou. Eu mudei e você também – hoje você exibe essa aliança no dedo. O brilho dourado do metal me informa sob o sol inclemente desta tarde de março: o tempo passou, e o que restou de nós dois ficou para trás.

Dois anos se passaram e nosso Carnaval acabou. Foram-se nossos bailes de máscaras. As ligações noturnas por fim também se foram. Os nossos olhares amadureceram. Não se cruzam mais, não sentem mais fome. Nossa admiração mútua nas velhas tardes de sol se encerraram: os nossos corpos não se tocam mais. Nossos desejos não combinam. Nossa história virou história.

Dois anos se passaram e é o fim de uma era. É o fim dos encontros por acaso em plena avenida, é o fim dos encontros propositais no meio do mar. É o fim dos diálogos entrecortados pela sua música, é o fim de você sentado ali na minha sala. É o fim do seu corpo por cima do meu.

Dois anos se foram. Seu terno branco endossa a passagem do tempo, enche de lágrimas as minhas memórias - e a sua assinatura naquele papel pardo, diante de nossos amigos, se contrapõe à realidade irrevogável e criminosa de dentro de mim: dois anos se passaram, e não houve um único dia sequer em que eu não me lembrasse de você.

domingo, março 08, 2009

o 4º elemento


... e logo eu, que digo não esperar tanto dos outros, me peguei a esperar as três coisas mais difíceis do mundo: o respeito, a humildade e a sinceridade. E foi assim, exercitando a minha própria humildade, que atingi o ápice de minha arrogância – virei as costas para um sentimento para o qual também fechei os olhos.

E foi logo você, no auge da sua simplicidade, que me levou embora a certeza de que a humanidade é confiável e que quem a corrompe são alguns poucos homens pobres de espírito, envenenados de soberba e ganância. Foi assim, simples assim, que você levou embora tudo o que me esforcei tanto para acreditar.

E foi logo conosco – quem um dia iria dizer? – que eu descobri o quarto e mais importante elemento que falta a tantos seres humanos; o item que faltava e que por tanto tempo não percebi, pelo qual tanto me frustrei, por ser ainda mais difícil de encontrar do que os três primeiros: a pró-atividade. É verdade, não seria qualquer atitude sua que me faria sorrir, mas acredite, seria legal ver você tentando.

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Algo mudou

Algo mudou entre nós.

Não foram suas mãos e nem seu abraço depois de nós dois. Tampouco foi nosso durante – você como sempre foi bruto; eu, claro, submissa. Fomos os dois, como de costume, como cão e gato – gato e rato, rato e presa: me prende entre os dentes num momento de glória, e me dá de presente seu sorriso afetado. Nada poderia ser, ao um mesmo tempo, tão sublime e tão trivial.

Seu tom foi igualmente íntimo. Nos elogiamos como de costume, sem falsas modéstias. Adormecemos exatamente da mesma forma – do contato total à individualidade no final da noite. Agradecemos, ainda que em vão, a nossa total reciprocidade de objetivos – no fim do episódio, ninguém jamais sai magoado.

Foi seu ‘bom dia’ que mudou em meus ouvidos? Para mim foi como sempre sonoro. Acordamos roucos, dolorido como de costume, ainda guardo comigo seus dedos nos braços. Para não perder o hábito, ri com o canto dos lábios de sua primeira piada. Escutei em silêncio suas primeiras rimas do dia. Xinguei com humor sua primeira implicância. Te contei meus sonhos e você como sempre espantou – sempre tenho sonhos estranhos em sua cama, e jamais confessei que todos incluem você. Nesta noite, você estava dentro do carro que explodia numa rua qualquer.

Mas algo mudou entre nós, e ao fim de mais um domingo não houve pesar na despedida. Ela foi rasa – não havia mais ânsia em voltar. Algo mudou e não foram nossos corpos, não foi minha língua, mas definitivamente meus olhos, enquanto os seus permanecem os mesmos. Algo mudou e foi dentro de mim, como uma sede que por fim se sacia.

Será essa uma despedida? Algo mudou que nossas imagens não mostram – seu sorriso congela, meu coração pára, nossos rabiscos continuam exatamente os mesmos, paralizados em nossos corpos conforme um dia determinamos. Tenho fotos; envio um dia, talvez falte o bilhete: algo mudou e foi minha alma, e neste momento ela já não tem nada mais a dizer.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Ode à autenticidade

Não atendo Pierrots; não finjo Colombinas...

Difícil te ler sem poder, a um mesmo tempo, te ver e te escutar. Saber de você é um paradoxo – te tenho próximo à distância, te afastas quando está perto de mim. Num mar de rostos o teu se iluminou, com um pouco de solidão eu pude te sentir. Onde estás quando estás ao meu lado? Em que subterfúgios te escondes? Que meios existem de acessar seu eu real?

Por que persegues padrões ideais? Por que hiperdimensionar algo tão simples? Gosto do teu semblante tranquilo, de seu tipo comum, cansei de super-homens e tampouco pretendo ser mulher-maravilha. Não preciso de cerimônias. Por que temes a realidade? Seja você mesmo que de certo me encantarei por seus atributos; finja tuas qualidades e me terás distante, não abraço máscaras, não atendo Pierrots nem finjo Colombinas. Por que forjas esta naturalidade tão pouco convincente? Não há dramas desta vez, não há entrelinhas num contrato fraudulento – sou eu essa, quem é você?

Mostre a mim a sua face mais secreta e a receberei como um presente – o objetivo não é te amar, e sim te conhecer. A honestidade mais profunda é meu maior afrodisíaco, arrisque você a ser genuíno, autêntico, espontâneo, jogue suas fichas em você mesmo e leiloe sua paixão. Reconheço o brilho da sinceridade quando a vejo, identificarei no seu olhar se aceitar meu desafio - nessa mesa de jogo apostei minha alma. A sorte está lançada, estarei esperando do outro lado da roleta.