domingo, julho 01, 2007

Wow! _ Esse tal de kitesurf

Foto: Miler Morais - Ilhabela SP


“Kitesurf, brother, o esporte do futuro!”

Eu lembro quando ouvi essa frase pela primeira vez, saída da boca de uma grande amiga. Ela também tinha ouvido da boca de outra pessoa, lá no sul, numa viagem que fizera.

Eu nem sabia o que era kitesurf, acho que ela também não. De repente, não se falava em outra coisa - virou moda, virou tendência. Se antes era in ser do clubinho do windsurf lá na Ilha, de um minuto pro outro isso ficou ultrapassado. A pipa era a nova estrela do velejo.

A primeira vez que eu vi uma no céu, estranhei e pensei comigo mesma, “se é uma pipa cadê as varetas, a rabiola? Onde passa o cerol?” Pra mim pipa era isso. Mas não, essa pipa era diferente, tinha fio e ia no vento, mas lá debaixo era controlada no mar.

Virou febre, abriram-se vagas pra ter aula na BL3; mudaram-se os instrutores, os que eram de wind viraram de kite. Eu via aquilo tudo rolar, achava o maior barato aquela mistura de surf com wind com wake, batia uma vontade, mas não ousava arriscar. Ainda tinha ciúmes pelo windsurf, que sempre quis aprender e nunca consegui.

Cada dia eu via mais e mais kites no mar, a molecada da Armação trazia uns da Naish quando ainda eram de 2 fios... o negócio saía voando que nem avião, perdiam-se pipas e pranchas, e eu só acompanhando do fundo da praia, sentada embaixo do meu pé de goiaba, dando risada de tudo.

No começo do ano, me aproximei mais da tribo desse tal de kitesurf, conheci instrutores, cheguei a sair com um por algum tempo (ufa, o homem mais lindo e mais misterioso que já conheci), fiz amizade com o pessoal da escola. E o kite lá, todo enrolado, só me olhando. Eu olhava, ele me olhava, ah não, amor, hoje não, tô com dor de cabeça... sacumé?

No carnaval resolvi cair de cabeça no Laser, apaixonei pelo negócio, que sensação... antes achava que devia ser meio monótono, de repente descobri adrenalina pura ao pegar cada rajada que só vendo... caça a vela, empurra o leme, é hora de dar o jibe, putz, o barco virou... tem nada não, pendura na quilha (opa, segura o biquini!), tá, pronto, atrás da rajada de novo, arribando bem na linha do vento... T-E-S-Ã-O!

Quando foi lá por abril, resolvi parar de manha e arrisquei perguntar prum amigo quanto custava a hora do kite, quase tive um infarto e desisti de novo. Semanas depois, arrisquei de novo pedir pro mesmo amigo, com toda cara-de-pau do mundo, se ele não me daria umas aulas grátis, assim, no tempo livre, sabe, de leve, só pra sentir a tensão nos fios e nas veias... Bingo, consegui! Aulas de kite de graça, toda sexta-feira, com o pioneiro do kite na Ilhabela. Perfect, brother, é o esporte do futuro, lá vou eu então!

Semana após semana ligava pro cara, “Tá ventando hoje? Posso descer e chegar na praia às 4 da tarde!” e a resposta foi a mesma, por 4 finais de semana seguidos... “Putz, hoje tá ruim, gata, não passou de 2 nós até agora e não tem previsão nenhuma...” Ah, droga... sério? Beleza, fim de semana que vem eu ligo de novo... Semana após semana, o vento não colaborou... cheguei a conferir na grade de vento do site da escola, pior que era verdade... vento de 2, rajada de 4 nós, no máximo... pra kite precisa de quanto mesmo? Ah, 8 né... droga...

Meu futuro instrutor zarpou pro Havaí, meu amigo que poderia me dar uma força estava de joelho machucado... então deitei na areia e resolvi pegar um sol apenas... praia cheia, feriadão rolando, então vamos no bronze, fazer o que? E eis que descubro que o cara com quem tinha conversado rapidinho um dia antes era instrutor de kitesurf. Aliás, instrutor não, O INSTRUTOR. Tanto que se mandou pra Jericoacoara, onde o vento dá de 10 em Ilhabela, e resolveu só passar a temporada de chuvas na nossa bela Ilha.

De repente, do nada, “E aí, tá afim de cair no mar? Tô com o kite dentro do barco, você sente o negócio, se curtir amanhã tu faz uma aula por um preço baratinho.” Analisei a situação: sairia por um terço da grana que gastaria na escola. Olhei lá pra fora, lá nas Canas, o vento era de Leste, soprando forte, ou como dizem na BL, dia de Slalom e Velinha! Demorou, radical, vambora!

Lycra descolada de última hora, brincos na bolsa, vamos nessa, o que eu faço com isso aqui?? Calma, lá fora eu te explico, entra no barco! Uuuuuuuu... hul!!! Kitesurf, brother, esporte do futuro, e eu tô indo pra lá! Tá frio, ah, que se dane, na água esquenta!

Fiquei 1h30 no mar, agarrada nas costas do Pedrinho (sem palavras pra agradecer!), fazendo com a pipa um 8 no céu... esquerda, direita, sentiu a pressão? Porra se senti! Agora vou te deixar sozinha, prende aqui o kite no trapézio... Não, não, não gira a barra, putz!... já era... SPLASH!, foi o kite pro mar... nada não, é assim mesmo, decola a pipa, sentiu a pressão? Não deixa sair da janela, força no abdômem, maravilha!!!

Depois de 1h30 de explicações teóricas e complexas, lá estava eu, com a pipa firme nas mãos, no total e absoluto controle do seu bailar naquele vento forte, de quase 15 nós, às 6 horas da tarde, com o sol já indo embora. A pipa voava, me arrastava, o fio retesava na barra, e eu ia de um lado pro outro, ora orçando em zigue-zague, ora arribando com força total. O frio fazia os dentes baterem, a garganta doía, os lábios já estavam azuis, mas quem ali se importava? De repente, putz, ‘cabou, o sol foi embora, o gancho estourou, vamos ter que voltar... ahhh, sério? Outra aula amanhã? Fechado, duas da tarde!

Naquele dia até sonhei com o negócio. Nunca imaginei sentir algo parecido, nem nunca tinha percebido a força da natureza nessa magnitude... o vento me conduzindo, a pipa dançando no céu, eu dançando na água, em perfeita harmonia. Loucura total, estava na fissura pra sentir aquilo de novo.

No dia seguinte não tinha vento.

Nem nos próximos 15 dias o vento foi bom prá mim. Pedrinho se mandou pra Jeri de novo, o outro viajou e só volta no fim do ano. E meu velejo... ih, ‘cabou pra mim...

Continuo à procura de algum instrutor, que possa se condoer de minha condição financeira e me levar novamente pro mar, pra sentir tudo aquilo de novo. Mágico, fantástico, orgásmico. Inexplicável.

E eu até posso esperar o fim do ano, ou ir pra Jeri como sugeriu Pedrinho. Porque o negócio, olha, o negócio é bom. E se é o esporte do futuro, ah, o futuro, então é pra lá que eu vou! E como diz o Scheidt... e se perder o leme, não perca o rumo!

Kitesurf, brother...

sexta-feira, junho 29, 2007

Mau exemplo


Estava tranquilamente parada no semáforo do cruzamento da Lins com a Veiga Filho, pensando na morte da bezerra, quando ouço uma mãe falando pra filhinha, de mais ou menos 5 anos de idade:

- Assim você dá mau exemplo pro teu irmão e pros teus amigos. Que feio, filha...

Cheguei em casa e botei um som animado, pra evaporar o bode gostosinho deixado pela drenagem linfática feita minutos antes (sim, resolvi fazer alguma coisa em relação às celulites!). Escolhi Alice Cooper, No More Mr. Nice Guy, e tentei fazer a cabeça pegar no tranco, pra quem sabe conseguir dar uma olhada nos relatórios finais dos meus pacientes, pesquisar minha monografia e mais tarde encarar meu amado kickboxing.

Mas eis que, embalada pela letra da música, me peguei pensando no comentário ouvido naquele cruzamento... mau exemplo... mau exemplo.


“… I got no friends 'cause they read the papers
They can't be seen with me
And I'm getting real´ shot down
And I'm feeling mean”


De repente pensei, caralho, acho que sou um mau exemplo clássico. Fiquei matutando sobre meus comportamentos, e sobre o que isso deve sucitar nas pessoas ao meu redor.

Eu fumo, eu bebo, eu falo de boca cheia. Palavrão então é música para meus ouvidos, a cada frase solto meia dúzia de porras. Meu linguajar (como já dizia minha mãe) muitas vezes é chulo, pra não dizer de baixo calão. Falo obscenidades como quem dita receita de bolo, sem pudor nenhum.

Já tomei dezenas de porres, menti e omiti em várias ocasiões, saio pra jantar e me mato de comer, às vezes “esqueço” de ligar prum paciente meio mala pra confirmar a sessão, torcendo pra ele não ir. E comemoro quando de fato não vai!

Falo mal da minha chefe pra própria secretária dela (que, veja bem, concorda comigo todas as vezes), acabo com o cafezinho do setor de Psicologia, bocejo meio alto em plena reunião clínica, às vezes faço piada com o problema dos outros. Minhas calças são quase sempre rasgadas na barra, não uso protetor solar como deveria, gasto os tubos em itens desnecessários.


“No more Mister Nice Guy
No more Mister Clean
No more Mister Nice Guy
They say he's sick , he's obscene”


Não contente, ainda não faço questão alguma de esconder tudo isso; pelo contrário, conto pros outros e ainda declaro: faço mesmo, e daí?

Naqueles segundos em que tudo isso passou pela minha cabeça, fiquei realmente encanada. “Que feio, filha!” Nossa, que feio, Nana... que exemplo você dá pros outros? Tive medo de perder meus amigos. De ser uma vergonha para minha mãe. “Puta merda, fodeu, minha mãe deve ficar sem graça quando falo “fodeu” na frente do namorado dela!” Ai... Fiquei absolutamente na nóia de ser considerada puramente obscena. Lembrei de quando falo por aí que mandioca é as duas melhores coisas da vida... Putz, que vergonha! Será que eu deveria ser mais puritana? Mais moralista? Mais certinha? Usar cor-de-rosa? Ouvir Spice Girls?? Afinal, que tipo de exemplo serei pros meus filhos? “A minha mãe é toda tatuada, tem piercing, fala palavrão, buzina do trânsito e arrota que nem meu pai, ‘fessora, por que eu não posso fazer igual?” Caralho, que peso na consciência... Culpada, de todas as acusações!

A música parou, eu acendi um cigarro, e aí me lembrei.

Lembrei que já fui a maior noinha da turma, e que hoje sou a mais careta de todas. Lembrei que a despeito de fumar, nunca largo minhas bitucas na areia, e a despeito de comer que nem um homem, vivo incentivando meus amigos a fazerem exercício comigo. Também não faço xixi na piscina, apesar de já ter feito. Lembrei que tomo dois copos de água assim que acordo, e que apesar do paciente mala ser relegado pra segundo plano às vezes, quando ele vai, o trato com o maior profissionalismo. Aliás, lembrei do quanto me dedico a TODOS meus pacientes, dos malas aos fofos. Lembrei que não jogo lixo pela janela. Lembrei que faço caridade e dôo mensalmente (tá bom, a cada dois meses, vai...) dinheiro pruma criancinha HIV+ lá no Taboão da Serra. Lembrei do quanto às vezes meu ouvido é penico e eu fico quieta só pra não ser indelicada.

Olhei minhas calças rasgadinhas, mas todas bonitinhas e lavadas. Acabo com o cafezinho sim, mas faço a maior sala pra secretária (e pra chefe também!) quando elas são as primeiras a chegar no hospital. Sou pontual e nunca deixo ninguém esperando, e sempre devolvo o que pego emprestado. E olha, apesar de falar palavrão, costumo falar baixo e pausadamente.

Mau exemplo?! Ah, pro inferno com o falso moralismo! Afinal, o que é ser bom exemplo nos dias de hoje? Me dá um, apenas UM exemplo muito bom, que eu assino minha penitência agora mesmo!

Mandioca é sim as duas melhores coisas da vida, um bom “fodeu” é o que às vezes melhor expressa uma situação, e eu como bastante mesmo porque malho pra chuchu!

Quer saber? Essa sou eu! E quem não curtir que se foda!

Ops...

quarta-feira, junho 27, 2007

Body, for sure!

Por um minuto apenas, parei de pensar tanto na mente e parei pra observar um pouco o corpo. O corpo, a matéria, o que nos conduz concretamente aonde queremos chegar. Da maneira que queremos chegar.






Fala-se tanto do poder do pensamento, do potencial criativo de nossas mentes, da importância de nossas tão frequentes distorções cognitivas (ah, essas eu conheço bem!), do quanto nossa cabeça pode produzir o bem e o mal, que se esquece daquele que tão comumente padece sob a complexidade enorme de nossas crenças e formas de pensar.

O corpo somente é lembrado quando adoece, ou quando não se enquadra no estereótipo tão rígido construído pela nossa sociedade com o passar dos tempos. Então reclamamos.

Parei pra olhar o meu corpo. O que ele diz sobre mim? O que minhas desordens orgânicas traduzem sobre a minha pessoa? Que sinais carrego ao longo dos anos que fazem de mim justamente quem sou?

Olho meus olhos. Uma miopia galopante quase os cega. Não é exagero, carrego 8 insuportáveis graus de miopia em cada um deles. É verdade que são verdes, minha cor favorita, mas são olhos deficientes, assim como meus olhos internos, que teimam em enxergar tudo sempre meio borrado, meio distorcido. São olhos que vêem somente aquilo que conseguem. Limitados. Literal e simbolicamente, parece que tenho uma visão curta das coisas, quando estas dizem respeito a mim ou ao meu redor.

O que dizer então do meu nariz? Vive entupido. Vive sempre a fungar, obra de uma rinite alérgica crônica, que me acompanha já há alguns anos, e que sempre foi o primeiro pretexto escolhido quando era pega chorando. Chorando? Nããão, rinite! Ah tá... O nariz entupido dificulta minha respiração, a deixa mais curta... ansiedade?

Minha boca nunca teve aquela curvinha no lábio superior, nunca teve formato de coração. São lábios grossos, e a falta desta curvinha às vezes deixa meu semblante um pouco duro. Em conjunto com as sobrancelhas, sempre franzidas, completam um visual quase que intrigado, como se um ponto de interrogação pairasse sobre minha cabeça. Desconfiada? Sim, sempre... Isso sem contar o bruxismo, que deixou meus dentes do fundo bem desgastados com tamanho atrito. Sim, estou em constante estado de tensão, de alerta... e meu sono nem sempre é tranquilo.

Hoje já percebo algumas rugas no rosto, apesar de ter apenas 24 anos. Tão jovem! Mas acolho estas rugas como sinais de uma vida de glórias: tenho marcas de expressão na testa, na lateral dos lábios, alguns pés de galinha também hoje podem ser vistos. Resultado de sempre ter feito caras e bocas, e de sempre ter rido, mas rido muito, rido de doer as bochechas, que também sempre foram grandinhas. Rugas, marcas do quanto de alegria ou tristeza carregamos.

Meus ombros são cobertos por sardas e pintinhas, algumas mais claras, outras bem escuras. Ai, que me arrependo de não ter usado protetor solar como mamãe me ensinou! Dá pra ver que a pele dos ombros está um pouco castigada... sempre tomei sol demais, e sempre passei hidratante de menos. São ombros de quem viveu com o mundo, e o sol, nas costas, sem medo. Medo de menos.

Minhas mãos são tortinhas, os dedos um pouco calejados do judô, de tanto agarrar kimonos. Da mesma forma, procuro agarrar com força as oportunidades da vida, mesmo que às vezes elas sejam doloridas. Também tenho alguns machucados constantes em minhas mãos, frutos do kickboxing praticado religiosamente todas as terças e quintas. Tantos socos acabam deixando a pele um pouco endurecida... Coitadas das minhas mãos... anos atrás tive um problema sério nas unhas. Elas pararam de crescer, sangravam as cutículas... e depois de passar por 5 dermatologistas, acabei fazendo terapia. Após 3 anos, as unhas voltaram a crescer, estão bonitas e sempre cuidadas. É... acho que precisava mesmo botar as garras pra fora em algumas circunstâncias, treinar minha agressividade, e prestar mais atenção à minha feminilidade um pouco escondida depois de anos de insegurança.

Nunca tive seios grandes, o que me trazia um pouco de vergonha na época do colégio. Ainda hoje uso sutiãs com bojo, mas bem pouquinho, só pra dar uma graça. Reclamava que só. Hoje gosto deles. São proporcionais ao tamanho da minha potencial maternidade: um dia poderão crescer e alimentar aquele de mim sairá, sem peso adicional nenhum.

Tenho uma cicatriz na barriga, não muito grande, mas um pouco funda, mal-feita. Resultado de uma apendicite aos 7 anos de idade. Dizem que o apêndice não passa disso: um apêndice, sem função nenhuma. Talvez um dia, em nossa escala evolutiva, tenha servido pra algo, mas hoje, necas: arrancaram-no fora. Hoje também me vejo retirando apêndices desnecessários da minha vida, que só servem para inflamar e me deixar de cama. Para fora com o trivial, mesmo que deixe marcas! Gosto da minha cicatriz. Não deixei que tatuassem por cima. Cobrir o que? Ela já faz parte de mim. Uma tatuagem natural.

Quadris e coxas largos, tenho desde pequena. Me levaram a muitos lugares, me salvaram de tombos homéricos! Minhas pernas fortes me permitiram correr quando isso foi necessário, e doeram quando me excedi. Hoje confio de que sempre me levarão mais longe: elas aguentam.

Tenho os joelhos um pouco estragados, dóem quando faz muito frio, ou quando vai virar o tempo. Um termômetro natural, um preditor do tempo. Gosto deles. São tortinhos e com algumas cicatrizes, mas são meus. Tenho um amigo, 18 anos apenas... um problema sério no joelho está causado atrofia de sua perna direita. 18 anos! Apenas 18! Sabe... amo meus joelhos, mesmo não tendo motivo algum.

Sempre odiei pés, acabei tatuando o meu pra amá-lo um tiquinho, acabei por venerá-lo. É a tatuagem que mais gosto, que mais gosto de mostrar. Ela diz: Conhece-te a ti mesmo! E sinto que meus pés me conduzem aos locais onde mais me encontro, onde mais acabo conhecendo de mim mesma. Nosce te ipsum, conhece-te a ti mesmo, e a teus pés também.

Sei que apontei aqui punhados de defeitos físicos. Não tenho a intenção de parecer ingrata, sou muito abençoada por ter saúde. Claro que sempre vamos encontrar defeitos... é a barriga que não é lisinha, um pouco de celulite na bunda... mas ora, convenhamos, existe coisa mais feminina do que celulite?? Que se dane a celulite das pernas, amo ter pernas! Alguém aí já parou pra pensar em como é bom ter pernas?? Ou em como é a vida de alguém amputado? Deus... reclamamos tanto, sem pararmos pra pensar em como nosso corpo é sagrado.

Ficamos com preguiça de levantarmos a bunda da cadeira; maltratamos a nós mesmos entupindo nossas veias de gordura, nossos pulmões de fumaça, nosso cérebro com drogas devastadoras... algumas vezes nossos braços servem apenas para levar o cigarro ou a cerveja à boca. Puxa... e quando os braços doerem? E quando uma artrite impedir que tenhamos força nos punhos? Perderemos então também nossa força de vida?

Quando os músculos ficarem frágeis, quando levantar ficar difícil... desistiremos da luta? Quando nossos cabelos ficarem grisalhos... nos entregaremos à velhice? Perderemos também o colorido da vida? E quando nossos corações falharem... nossa capacidade de amar será prejudicada?

Hoje eu resolvi me amar... e amar meu corpo mesmo ele tendo tantos defeitinhos, tantos probleminhas que, na visão do todo, se tornam tão irrelevantes.

Hoje eu decidi parar de reclamar da minha bunda, e cuidar do meu instrumento de vida. Dizem por aí: Mens Sana, Corpore Sano. Verdade. Mas sem nosso corpo, nosso santuário, a nossa mente também se torna prisioneira.

Porque hoje, e pelo menos por hoje, eu resolvi gostar da minha bunda, dos meus peitos, dos meus olhinhos míopes e até da minha orelha.

Porque meu coração ainda bate, meu corpo ainda se move, meu sangue corre quente nas minhas veias, e isso, pelo menos por hoje, é tudo do que preciso para ser feliz.

domingo, junho 24, 2007

Fuga de Idéias*

Não, eu cansei de pensar por que as coisas mais belas são sempre mais tristes, cansei de questionar meu sentido no mundo, parei. Parei pra te ver e pouco ser vista, queria me esconder e acabei me mostrando, o porquê desta exposição eu ainda não descobri.

Não, eu parei pra ler um punhado de folhas e quase assustei, tinha deixado um recado que nunca foi pego. Amolei minhas facas e me preparei para a noite, quando fui ver já era de dia e ninguém apareceu. E eu perdi o sentido das coisas.

Não, eu não fui tudo aquilo. Eu aceitei o convite e nunca apareci, soltei meus grampos e os cabelos se foram, assim, num passe de mágica. Me senti nua apesar de tanto pano, neguei seus óculos, vi o que eu vi. Não liguei de volta porque não quis. Pro inferno com a decência.

Não, eu fumei por ansiedade, também por felicidade, mas quer saber? Nunca fui honesta. Meus segredos sempre foram maiores do que minha capacidade de guardá-los, escancarei pro mundo sua violação. Eu quase me matei, faltou covardia, sobrou perdão.

Não, você não foi bem-vindo, mas agora pode ser. Eu disse que odeio, mas a verdade é que amo, eu sorrio com vergonha pra me obrigar a chorar. Ah, que se as coisas mais belas forem sempre as mais tristes tiro uma foto desse exato instante, pra depois queimá-la no fogo frio do meu ressentimento.

Não, a verdade não faltou, eu gritei de dor mas também por prazer, eu disse que foi bom mas nem tanto assim. Eu brinquei com seus atos, cuspi nos seus pratos, ri com escárnio da sua sensibilidade tão pueril. Eu zombei de tudo naquele dia, ainda espalhei por aí que nunca quis de verdade. Moral nunca foi meu forte.

Não, eu não vim pra brincar, nem vim a passeio, vim pra te dizer que quanto mais você ficar, mais desinteressante você vai se tornar. E por isso eu fujo, corro, me isento. De todas as responsabilidades pelos meus atos, que se foda a consciência, bom mesmo é ser ignorante. Faz isso você também.

Não, esse não é só mais um texto, é uma fúria velada entre nós, uma carne queimando no forno, um grito de garganta apertada, uma fumaça que sai de um incenso. Uma pedra e a janela quebrada.

Como veio, vai. Absolutamente descartável.

E não, não é com você.

Só catarse.
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*Fuga de idéias: “... uma alteração da estrutura do pensamento secundária à uma acentuada aceleração do mesmo, na qual uma idéia se segue à outra de forma extremamente rápida, perturbando-se as associações lógicas entre os juízos e conceitos...” Dalgalarrondo, 2000.

quarta-feira, junho 20, 2007

Play Game



- Então, qual é o problema?
- O problema... o problema, doutora, é que eu não consigo parar.
- Hm... parar de que?
- Parar de jogar, doutora. Sou jogador compulsivo.

(Puta merda. Bem agora? Que eu resolvi parar de jogar os meus próprios joguinhos doentios na minha vida?)

- Hm... e há quanto tempo o senhor joga, seu... hm, seu Silas?
- Começou 5 anos atrás. E eu perdi tudo o que tinha.

(Entendi...)

- Sei... e com que frequência você jogava, seu Silas?
- Todo dia, o tempo todo. Você não imagina como é horrível, doutora. Você aposta, perde tudo. Não aguenta o fracasso, aposta mais ainda, ganha metade do que já perdeu. Não se contenta, aposta tudo o que tem. Sempre acha que da próxima vez vai dar certo. E acaba sempre sem nada.
- Posso imaginar... hm... o que você disse por último?
- Que você acaba sempre sem nada. Não você, doutora, eu!

(Não você, seu Silas, EU!)

- E seu Silas, me conta, você continua jogando?
- Sabe que é estranho doutora? Olha que loucura. Apostei com meu irmão que ia parar de jogar. E ganhei, porque não joguei mais mesmo. 2 semanas já. Mas de lá pra cá, vivo apostando com ele que consigo ficar sem jogar.
- ...?
- Isso não seria continuar jogando?

(Ouch! Fatality. You win. I lost. Game Over.)

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Silas Tadeu Andrade*, 39 anos, jogador patológico. Baixo controle de impulsos. Auxílio psicoterápico necessário.

BUM.

Carimbo meu nome e registro profissional.
E, com vergonha, assino meu nome logo abaixo.

Eu, jogadora profissional.



*Nome fictício.

segunda-feira, junho 18, 2007

New Outfit - Iéé!

Obrigada ao Gravata pelo novo figurino do meu cantinho!
De roupagem nova... de cabeça nova!

domingo, junho 17, 2007

Diálogo¬¬ espelho, espelho meu




- Descobri que eu quero!

- Quer o que?

- Sei lá, só sei que quero, e quero agora. Me dá. Quero qualquer coisa que preencha esse buraco aqui, ó.

- Buraco do Miocárdio? Há! Vai esperando, minha filha. Aliás, espera sentada. E sozinha, porque contigo eu não vou esperar não.

- Quanto descaso... Tô ficando magoada com você, já faz anos que você me larga sozinha. É só cobrança, porra. É só tabefe. Você quer que eu chore e dê daqueles ataques? Cê sabe né? São dias na cama, ouvindo Wallflowers, fazendo biquinho e chorando não só as pitangas, mas a pitangueira inteira...

- Vira essa boca pra lá!...

- E ainda tem a voz de enterro, a falta de maquiagem e a cara de cu.

- Falei pra virar a boca pra lá. Além de burra é surda?

- Tô avisando pra depois dizer que não falei. Aliás, você é bem arrogante, sabe disso? Tá achando aí que não precisa de mim, que sabe das coisas, que sabe o que é bom, que é madura e muito esperta. Cê por um acaso sabe o que eu já passei?

- Ih, lá vem...

- Fui acostumada a ser bem tratada, viu, ô carrasca? Sempre do bom e do melhor. Tô acostumada com pessoas decentes, honestas e respeitosas, e não simpatizo nem um pouco com essa sua forma amarga de ser.

-Amarga, eu? Queridinha, tá na hora de acordar. Você acha que o mundo vai esperar suas crises? Sua auto-piedade? Sua indignação contra, ui!, as maldades do mundo e sobre como as pessoas são desonestas? O mundo é dos espertos, minha filha, só você que ainda tá nessas...

-E você também tá bem nessas, todo esse papo de “let´s talk, let´s taaaalk”, que saco! Já parou um pouquinho pra sentir as coisas?

-Não tenho tempo pra isso. Ou agiliza ou perde o bonde, dondoca. Tá achando que é brincadeira? Bora olhar pra realidade? Vamos parar de esperar dos outros aquilo que você faria, ou vai continuar assim, comendo o dia inteiro pra ajudar a engolir o sapo?
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- To me sentindo tão sozinha, sabia?

- Pois arruma logo um gostosão pra se divertir que tudo melhora.

- Lá vem você de novo com essa síndrome da mulher independente. Qual o problema de me dar um colo?

- O problema é que te dou um colo e você logo deita e pede massagem. Não tô aqui pra isso, minha querida. Sou inteligente, bonita, gostosa e não aceito essa auto-comiseração, cada vez que você faz isso dá vontade de te bater.

- É bonita, gostosa e inteligente e vive se enganando que tua vida tá fácil. Tá fácil aonde? Você posa de gostosa mas parece uma puta! E uma puta calculista e sem sentimentos. Tem vontade de me bater porque na verdade me ama e não aguenta me ver assim. Pensa que eu não te escuto de noite chorando com saudade de mim? Tá querendo enganar a quem?

- ...

- E não me diga que é a porra da rinite não! Porque eu sei que você chora por que sabe que de tão fraca, tem que se fazer de forte. Porque ninguém pode saber o que se passa, muito menos te ver em minha companhia. Porque você se culpa todo dia por demonstrar uma mentira. Porque tem medo do que vão falar se virem seu rímel borrado. Porque sabe que é muito mais parecida comigo do que você se permite acreditar.

- ...

- Não limpa os olhos não, que eles são o espelho da alma. Não sufoca não, que aí você tem gastrite e quem se ferra sou eu. Tira os grampos e a maquiagem, que você é bonita assim mesmo. Ou você reconhece que me ama ou vamos brigar até o fim.

- ...

- E o meu abraço?

- ... vem cá, porra.

- Te amo, mas pega leve, viu?

- Também te amo, queridinha, mas vê se cresce.

quarta-feira, junho 13, 2007

Tears of the Dragon

"I throw myself into the sea
Release the wave, let it wash over me
To face the fear, I once believed
The tears of the dragon, for you and for me
My emotions frozen in an icy lake
I couldn't feel them until the ice began to break"

(Tears of the Dragon - Bruce Dickinson)




Paciência.

Mais paciência com as pessoas, mais tolerância com o mundo, mais calma no trânsito. Saber esperar pela hora certa, saber administrar a ansiedade, a angústia, e preencher um grande vazio com coisas belas e coloridas. Eu quero saber aguentar!

Tirar a lente cinza através da qual tenho visto as coisas, exorcizar de mim meu lado blasè. Eu quero me arriscar!

Eu quero sentir! Quero expressar! Eu quero libertar dos meus pés essas amarras imaginárias, e tirar essa máscara suprema que cobre meu rosto. Eu quero poder falhar!

Eu quero dizer que amo! Que adoro, que admiro, que gostei de estar do lado dele. Quero dizer que sofri, que me magoei, quero dizer que fiquei esperando. Quero dizer que fiquei ansiosa. Eu quero me expor!

Eu quero dizer que me importo! E que me importo muito, mais do que você ou do que ela, mais do que um tanto assim junto. Eu quero me importar cada vez mais!

Chega de fazer pose, chegar de massacrar meus sentimentos, chega de desconfiança.

Eu quero mudar!

O lago de gelo no qual me aprisionei está se quebrando, a água está escorrendo, e eu estou flutuando. Chega de achar que não mereço! Que não posso. Que não devo.

Devo, posso, QUERO!

Quero gritar pro mundo o quanto eu quero, que quero demais, que quero mais, que quero poder querer. Que quero me jogar no mar e olhar o dragão bem nos olhos, pra arrancar suas lágrimas. Eu quero chorar sem medo.

Porque QUERO! E quero demais tudo isso, tudo aquilo, bem aqui. Quero tudo junto. O veneno e o antídoto, o mal e a cura, o problema e a solução. Quero o belo e o feio, o círculo e a elipse, o branco e o preto, o grande e o minúsculo, quero o macho e a fêmea, quero luz e trevas, choro e risos, umidade e aridez. Mas quero tudo. Nada menos que tudo.

Porque o que eu quero é poder ser tonta, idiota, otária, afobada, insegura, precipitada, mal-amada e até iludida. Mas o que eu quero mesmo é ser feliz.

segunda-feira, junho 04, 2007

Loucura, loucura, loucura!

Me perdoem o trocadilho, mas não há nada mais doido do que trabalhar num hospital psiquiátrico. É quase que como esperar pelo próximo capítulo de uma novela, ou de um livro, de uma série famosa. É tipo assim, ansiógeno.


Ansiógeno e de-li-ci-o-so. Às vezes cansa de tanto que falta rotina, de tanto que sobra desafio, de tanta gratificação pessoal, de tanto crescimento e tanta evolução. Cada dia dentro daquele hospital é (perdão novamente) uma loucura!

Bem no comecinho, eu assustava. Pensava com meus botões que tipo de doidões eu ia encontrar por lá... será daqueles que babam? Daqueles que gritam? Que tiram a roupa no ponto de ônibus?

E, pasmem, tem disso e tem muito mais. Tem gente que baba, que grita, que chora, que arranca as calças em pleno pátio. Tem daquele tipo que acha que é filho do George Lucas com a Elizabeth Taylor; tem do tipo que acha que construiu o hospital nos século XIV; tem gente que pisa na roupa antes de se vestir, e tem também gente que te pede abraço no meio do corredor porque o marido (que não existe) não veio no horário de visita. Tem também daqueles que te trata mal porque você não dá um diagnóstico; tem aquela que, de tão mal e agressiva, foi pro ECT e voltou bem mais mansinha. Tem doido que sabe mais do que médico, e tem médico que é muito mais doido do que o filho do George Lucas. Tem maluco que é mais saudável que a família inteira, e tem também daquelas velhinhas doidinhas, que acham que você é a entrevistadora do programa do Raul Gil e te chama de ‘fofuxa’.

Tem de tudo. Pra todos os gostos. Tem dos mais graves.

Mas tem também os menos graves: vózinha deprimida, tiozão alcoolista, marmanjo com ‘timidez excessiva’, que não consegue trabalho há mais de 10 anos. Tem aqueles ansiosos, e também aqueles carentes, que querem saber se você quer ser amiga, em vez de terapeuta. Tem a típica ‘vizinha fofoqueira’, que de vez em quando acham que estão falando mal dela ou fazendo macumba. Tem até aquele tipo retraído, que não te olha nos olhos, e que quando se abre desaba e diz que não consegue parar de pensar em sexo.

Esses, a gente costuma chamar de ‘mais normais’, embora a normalidade seja totalmente relativa. Ali dentro, ninguém é normal. Muito menos eu, que faço parte de uma porcentagem ridícula de pequena dos que não têm nenhuma psicopatologia. Ali dentro, a doida sou eu. Os normais, os pacientes.

Outro dia, entrando no hospital pela porta do PS (onde geralmente rolam os maiores barracos do mundo, como no caso da mulher que chegou de ambulância, e que, completamente descontrolada, precisou de 4 enfermeiros gigantes pra evitar que ela enfiasse a mão na cara do marido, que a tinha traído com a própria cunhada. Louca? Pois sim...), encontro a turma da Geral I, onde ficam internados os adultos portadores de alguma doença mental. E não é que, ao contrário de mim, sonolenta e mau-humorada, estavam todos cantando Atirei-o-pau-no-gato, rindo e se abraçando?

Eis que a Rita*, uma tiazinha bipolar me cumprimenta: “Bom dia, flor do dia! Só tem flor neste hospital!” Mania? Bom-humor...

Chegando no elevador, um paciente esquizo, que conheci fumando um cigarro no jardim, me vê com a garrafinha de água na mão.

- Oi doutora!
- Ô seu Otávio*! Não ia aparecer lá na Psicologia?
- Ah, doutora, disseram que não preciso.
- Que bom então.

(Silêncio. Olhos vidrados na minha garrafinha.)

- Água, doutora?
- É, água!
- Precisa né?
- Ô!
- Éééé... eu tomo 5, 6, 7, 12 garrafinhas dessa por dia!
- Tudo isso, Seu Otávio? Mas aí é água pra mais de metro!
- Ou pra mais de litro!
- Era o que eu queria dizer!
- Faz bem né Doutora? Pro cabelo, pra pele, pro olho, ouvi dizer que faz bem até pro cotovelo!
- Pro cotovelo, Seu Otávio?
- Pro cotovelo e pra unha. Olha aqui a minha.
- Tô vendo... uau!
- Foi a Dorinha que fez.
- A Dorinha, seu Otávio...?

(Interferência da TO que, ao lado do paciente, acompanhava a história toda)

- Ai seu Otávio, lembra que ontem a gente falou? A Dorinha já faleceu, seu Otávio.
- Tá vendo, doutora? Depois me dizem que não preciso de psicóloga...

Cada voltinha pelo hospital é uma história diferente. Cada atendimento, uma descoberta. Cada grupo, uma paixão. Cada conversa, uma risada.

- Doutora que roupa mais linda! Quando eu era mulher adorava uns casacos assim!

E quem é que pode julgar? Quem nunca se descontrolou por uma traição? Quem nunca deu uma surtadinha, assim, mesmo que de leve? Quem nunca teve medo de estar pirando, ou não confiou muito no próprio julgamento dos fatos da realidade? Quem nunca se fez de desentendido que jogue a primeira pedra!


É maravilhoso trabalhar com pessoas tão especiais. Um verdadeiro privilégio. Acompanhar de pertinho cada um de seus medos, cada uma de suas neuroses, cada uma de suas manias, saber de seus amores, de suas falhas, dos rancores e desejos, intimamente. Não há o que pague a honra de ser terapeuta de pessoas tão necessitadas, tão abandonadas, tão carentes de cuidados, de afetos, de investimentos.


É olhar nos seus olhos todos os dias e se sentir recompensada por uma lágrima de dor a menos, ou uma de felicidade a mais. É se sentir parte integrante de uma mudança essencial de vida, de uma evolução enquanto ser humano, de uma escapada de suicídio. É se perceber como agente ativo de uma visita familiar a mais, de uma ECT a menos, de mais questionamento, de menos atuação. É ganhar dois pacotes de Halls comprados no semáforo com os últimos troquinhos da condução.


É, de verdade, sentir que o ser humano é belo, mágico, único... e que agindo juntos tudo é possível. É sentir que se faz a diferença, quando se ama ao próximo com sinceridade.


E é assumir, antes de tudo, e da forma mais humilde possível, que ninguém é muito diferente de nós mesmos... basta entrar em universos paralelos, alternativos, doentios.

Doentios.
Mas nunca loucos.

Nunca!


* Os nomes verdadeiros foram trocados por fictícios, para se preservar a identidade real dos pacientes.

sábado, junho 02, 2007

Sobra Tanta Falta (O Teatro Mágico)

Falta tanta coisa na minha janela
Como uma praia
Falta tanta coisa na memória
Como o rosto dela
Falta tanto tempo no relógio
Quanto uma semana
Sobra tanta falta de paciência
Que me desespero

Sobram tantas meias-verdades
Que guardo pra mim mesmo
Sobram tantos medos
Que nem me protejo mais
Sobra tanto espaço
Dentro do abraço
Falta tanta coisa pra dizer
Que nunca consigo

Sei lá se o que me deu foi dado
Sei lá se o que me deu já é meu
Sei lá se o que me deu foi dado ou se é seu

Vai saber se o que me deu, quem sabe?
Vai saber, quem souber me salve


www.oteatromagico.mus.br

quinta-feira, maio 31, 2007

Saudade

Tem dias como hoje, cinzentos e frios, em que o ar fica carregado de uma tensão que, invariavelmente, me remete à nostalgia, essa minha velha conhecida.

São em dias assim que minha vivência contínua é o passado, em que minha cabeça fica perdida no tempo e no espaço, relembrando, remoendo, querendo viver tudo de novo os tempos idos.

São em dias assim em que não vejo o tempo passar, as horas viram minutos, e a cada olhar no relógio, um susto pelo quanto de tempo já se passou e eu sequer percebi... parada, olhar fixado, mandíbula travada, os olhos opacos e vazios, como que enxergando, bem na minha frente, tudo acontecer novamente de maneira lenta, tentando agarrar cada restinho das sensações que ainda é possível de sentir. Meu corpo se move como se estivesse lá, no passado, como se estivesse encenando uma grande peça, a peça da minha vida, a peça dos tempos que não voltam mais. A sensação é de que a culpa é minha.

E eu sinto saudades.
Saudades de tanta coisa...

Saudades de quando eu tinha 9 anos e descobri o significado da palavra ‘sinceridade’. E lembranças de quando descobri que a sinceridade é quase uma utopia, já aos 11 anos, já mutilada, ao sentir a maldade do ser humano.

Saudade da inocência que tinha aos 13, quando me apaixonei pela primeira vez pelo meu primeiro namorado. Durou 28 dias. Como o ciclo da Lua. Mas as lembranças e a saudade, a culpa e o arrependimento, tão infantis, duraram anos. Que saudade de ter sofrimentos tão simples!

Saudades dos meus 17, dos fins de semana na praia descompromissados na companhia da minha irmã, fins de semana cheios de irresponsabilidade, de euforia, e de absolutamente nenhuma culpa. Saudades da descoberta do meu primeiro amor, ali naquela mesma cidade, amor este com quem vivi lindos 3 anos, pra depois me encher de novas e grandiosas culpas, quando já adulta e com o coração já meio calejado.

Saudades do começo do ano! Ah, que saudades, que se pudesse voltava e vivia tudo de novo, mas tudo de uma maneira diferente, sem ser tão blasé, sendo mais aberta, sem tanta pré-ocupaçao na cabeça... pra que talvez não tivesse doído tanto. Que saudades dos dias na praia, na sombra de um guarda sol, cercada de pessoas que na época, ainda não percebia o quão amigas poderiam se tornar... Quem dera ter percebido antes que se tratavam de pessoas tão especiais! Que saudades de poder vê-las todos os dias.

Saudades dele, antes de se tornar um fantasma que já quase não vejo, quase não toco, quase não cheiro... mas que quase sempre sinto a presença. Saudades do frisson que era vê-lo todo dia ali na praia, de vê-lo ainda interessado, ainda chegando perto, ainda me olhando de um jeito especial. Saudades de quando tudo era novidade. E saudades me perguntar que horas nos veríamos de novo, porque ainda não tinha virado um lugar-comum. Saudades de vê-lo ali na balada, quando ela ainda existia. De ouvir aquela música sem sentir tristeza.

Sinto saudades de muita coisa, e me pergunto por que ainda me prendo ao passado, e a um passado geralmente carregado de incômodo quando lembrado. Qual a razão da minha dificuldade em simplesmente recordar, sentir a alegria, e guardar as lembranças novamente na Gaveta da Memória?

Seria a insatisfação com o presente? O medo do futuro? Me agarro ao passado para não enxergar o meu contexto atual, presente, vivo?

E de repente alguém que aparece, e o presente é tão efêmero... e logo vai embora. E o tempo separados, inevitável, me apavora e me faz voltar novamente a relembrar tudo de novo, incansavelmente, obsessivamente, obsecadamente, envergonhadamente. E novamente a saudade.

Um aperto no peito. Vontade de voltar no tempo.

De novo o tempo.

Aliado? Inimigo?

Saudades.
"Será que a gente enlouqueceu,
Ou quem enlouqueceu foi eu?
Será que tudo aconteceu dentro da minha cabeça?"

quinta-feira, maio 17, 2007

Confissão


Eu ainda penso em você.

É, eu ainda penso em você, querido Juba, querido Rosto Bonito, meu garoto da Pantene, e tem semanas que sonho com você todas as noites.

E é ridículo, mas eu ainda fico com aquela pontinha de esperança de que meu celular toque aquela sirene que eu pus pra saber que é você, e que você dê aquela mijadinha no poste tão característica sua... e eu ainda espero que você me procure, mesmo depois de tudo o que aconteceu, mesmo depois de ter visto você sendo de outra.

Puta que pariu, mas eu ainda penso em você, e lembro bem da última noite em que a gente passou junto, e tem dias que meu corpo até dói, de tanto que ele queria estar com você de novo, uma última vez, uma última noite de sexo intenso, daquela química que só você e eu sabemos que rolou. E que ninguém percebe que ainda existe, quando a gente se cumprimenta como bons amigos e finge que nada nunca rolou entre nós.

Será que alguém percebe? Será que alguém percebe o jeito que eu te olho? O jeito que você me come com os olhos? Será que alguém saca que no nosso olhar tem uma cumplicidade, um tom de segredo, um tom de “só a gente sabe o que rolou e como foi que rolou”? Às vezes eu dou risada da cara dos nossos amigos em comum, que nem imaginam o que aconteceu com a gente. Ou será que imaginam? Será que o segredo é só meu?

Eu ainda imagino você do meu lado num dia ideal, de bermuda azul e camiseta da Budweiser, com cheiro de mar sentado na minha cama, reclamando do seu chefe, ou da sua mãe, ou de qualquer outra parte da sua vida que eu nunca tiver sequer a oportunidade de saber como é.

Eu ainda espero que você me ligue, mas eu sei que você liga só quando diz que vai ligar. E pra falar a verdade às vezes eu deliro que você está me ligando, mas nunca está, é sempre meu cérebro me pregando peças. Na verdade a gente mal tem se visto, sua imagem tem ficado tão difusa na minha mente, mas eu ainda sinto teu cheiro há 200km de distância e lembro da sua voz me falando aquelas coisas... e nesse momento eu quase sinto você perto de mim.

Faz tempo que o telefone não toca, mas tem meia dúzia de músicas que lembram você, e tem umas que quando eu ouço até dóem, porque tocaram bem naquela hora. E quando eu ouço, me transporto mentalmente praquela sensação única que eu tive, praquele cenário exclusivo que ainda está grudado no fundo da minha mente: o seu quarto, a sua cama, seus lençóis brancos, a sua parede pintada de laranja, e o cantinho, que ainda me pergunto onde é, em que ficou meu sutiã.

Eu penso em você e sinto quase raiva, de tão perfeito que você sempre pareceu ser, de como você ainda parece ser, e das partes de mim que, por ter te desejado tanto, eu acabei perdendo também - a honra, a dignidade, o amor-próprio, o respeito. Tudo aquilo que eu perdi na hora em que desejei ser, novamente, apenas um corpo deitado na sua cama.

Olho no espelho. E a imagem que vejo refletida não é a mesma de antes. É alguém parado no tempo, a ponto de explodir, obsecada por você e pelo seu corpo, meu mais novo vício.

Eu olho no espelho, e quase que com vergonha confesso que ainda lembro de você.

Mas o pior... é que já quase te esqueci.

sábado, maio 12, 2007

Pra bom entendedor...

Sai pra lá, sai pra lá negativismo!

Porque aqui o lado é ativo, e positivo!!

sexta-feira, maio 04, 2007

Paixão ou doença?

Os apaixonados que me desculpem, mas a paixão é uma coisa estranha!

Já me referi aqui mesmo neste blog sobre a origem da palavra paixão: vem de pathos, que no latim (ou no grego??) quer dizer “doença”. Portanto, não me olhem torto: minha estranheza quando à paixão tem embasamento teórico!



Pois, confesso: acho estranho demais.



Já pararam pra reparar de verdade, assim, com atenção, numa pessoa apaixonada? O olhar? As caras? A expressão corporal? O súbito otimismo que a acomete?

Estou numa fase totalmente inversa ao que sempre aconteceu: enquanto que, durante muito tempo, eu era sempre a que estava namorando, hoje quase todas as minhas amigas estão namorando e eu solteira, e enquanto elas estão assim, profundamente apaixonadas, eu ando meio que assexuada. Então eu ando mais sucetível a olhar a paixão de uma forma, eu diria, desapaixonada (me perdoem o trocadilho).

Paro pra prestar atenção ao que meus amigos e amigas apaixonadas dizem, e é incrível notar que existem traços, aspectos, características tão comuns entre todos eles... o olhar, as caras, a expressão corporal, como já disse. Mas uma outra coisa me chamou muito a atenção: a comunicação dos amantes. O jeito de falar. E a linguagem toda específica que dois apaixonados usam para se comunicar.

É impressionante.

É um tal de “amor” pra cá, “gordinho” pra lá (e olha que são magros, os dois!), e teve até uma amiga minha – que vai me matar quando ler isso aqui – que chegava ao ponto de chamar o ex namorado de baby-môr. E ela era a baby-môr dele. E os dois dormiam na baby-lândia, que servia tanto pra designar o quarto dele como o dela. Outra amiga minha chamava o namorado de “Gudju”, assim, fazendo beicinho do tipo gugu-dadá. Um amigo meu chama a namorada de “mái lóve”, escreve cartas que começam exatamente assim, “Minha linda mái lóve”.

Eu mesma já cheguei ao ponto de chamar ex namorado de Xinico, eu era a Xipinimilica (ai!), nós comíamos “fão de fecho” toda sexta e íamos no sábado à “Ficha Fãchi”.

Tradução? Pão de Queijo. Pizza Hut...................................

Ai, era tão lindo ouvir ele dizer “Xini... eu xampo!” (é claro que isso foi na época que eu estava apaixonada. Depois disso o Xinico virou “aquele-maldito” e eu jurei que nunca mais “xamparia” ninguém nessa vida!). Outro namorado meu me chamava de “pepecinho”, e não, não é erro de digitação. Era PePeCinho, um bebê pequenininho falado de um jeito engraçadinho. O shortcut era “pepê”. Opa! Péra lá!

O mais engraçado é que, quando o apaixonado se desapaixona, as gírias-fofas sempre viram motivo de auto-deboche e de vergonha profunda, daquelas que a gente sente mesmo quando está sozinha e se olha no espelho. Ai, que se pudesse voltar no tempo chamaria o rapaz pelo nome e se bobear pelo sobrenome! Bate aquela ressaca total de “como fui ridícula, devia estar doente”, e aí eu chego à conclusão de que paixão realmente só pode ser doença. E das muito estranhas mesmo!

Isso sem falar no tom de voz usado quando os apaixonados conversam, um tom de voz do tipo “tô-quase-morrendo”, e nas brincadeirinhas bobas (pra não chamar de outra coisa) que rola entre um casal. Amiga minha dizia pro namorado: “Uxo, você já mediu a circunferência da sua pançona hoje??”, ao que o fora-de-forma rapaz respondia “Já, uxinha, 178 centímetros!”. E riam, e riam, felizes de estarem se chamando reciprocamente de gordões balofos. Sem serem.

Não sei se sou eu que estou fria e crítica quando ao amor (Amor? Paixão! Quem aqui falou em amor?!). Pode ser que no fundo eu esteja desesperada por um namorado, mas muito me orgulho das minhas amigas que conservam a maturidade e chamam os namorados pelos nomes ou no máximo por um apelido aceitável! Bato palmas, pois não é fácil! Orgulho das amigas que tenho! Que sejam todas felizes e casem, pois além de amá-las e de adorar seus namorados (os que conheço, claro), também amo e adoro um bom boca-livre!

E enquanto isso não acontece, e enquanto eu mesma não adoeço de paixão, só me resta mesmo comer um bom fão de fecho! E se marcar, até uma Ficha Fãchi!! Viva os carboidratos!!

terça-feira, maio 01, 2007

Diálogo¬¬ O Tempo

O Tempo perguntou pro Tempo:

- Quanto tempo o Tempo tem?

E o Tempo respondeu pro Tempo que o Tempo tem tanto tempo quanto tempo o Tempo tem.


** Não queira explicar as coisas. Aceite-as.

sexta-feira, abril 27, 2007

Remédio amargo

Eu sempre tive medo do tempo.

E de tudo que com ele vinha: as perdas, as rugas, os kilos extras, a distância, a saudade. Todas as mudanças que o tempo vai criando, e as certezas que se distanciam conforme os ponteiros do relógio vão andando. Aliás, sempre odiei relógios, e hoje me forço a usar um, apenas pra perceber a inevitável passagem da vida: tic-tac, tic-tac, um minuto a mais, um minuto a menos.

Houveram vezes na minha vida que eu tive certeza de que possuía garantias. E um dia me disseram “Nana, o tempo é um aliado... mas você só vai perceber isso quando deixar de enxergá-lo como um inimigo.”

Hoje eu percebo a pressa que sempre tive, na busca endoidecida pelas minhas garantias perdidas... como se eu pudesse ganhar do tempo, e roubar dele tudo aquilo que havia um dia me sido prometido. E no fundo, hoje percebo: não passava de um cachorro, correndo atrás do próprio rabo.

O tempo come vidas, distancia as pessoas, suga a naturalidade de um reencontro e cristaliza antigos ressentimentos. Alimenta o medo da passagem de uma vida, e consome certezas.

Mas o tempo... sim, ele pode ser um aliado. Ele pode mostrar coisas que de maneira nenhuma conseguiríamos enxergar, ele derruba máscaras e liberta as pessoas, dá asas àqueles que podem voar e nunca viram que tinham asas.

Quanto tempo dura um sonho?
Por quanto tempo resiste a esperança?
Quanto tempo leva até que um amor se dissolva?
Por quanto tempo conseguimos ter lembranças?

Dizem que o tempo é o médico inexorável da vida.

Confiemos no tempo, acreditemos no que ele constrói, aceitemos o que ele destrói. Percamos o controle de nossas vidas, e nos pautemos no fato de que, um dia, um piscar de olhos levará toda a eternidade, enquanto que uma história de confiança pode se acabar em segundos.

Hoje, tempifico-me... e deposito no tempo a confiança de que tudo, a seu tempo, se resolve. Me apego ao ditado budista: a não ser pelas questões de vida ou morte, nada é tão importante quanto parece ser a princípio. O tempo delas se encarrega.

Tic-tac, tic-tac.

Um minuto a mais,
Um minuto a menos.

O Tempo (aliado ou inimigo?)



eu acho que a vida anda passando a mão em mim

eu acho que a vida anda passando a mão em mim

eu acho que a vida anda passando


eu acho que a vida anda

a vida anda em mim

a vida anda

eu acho que há vida em mim

há vida em mim

acho que a vida anda passando

a vida anda passando a mão em mim


e por falar em sexo quem anda me comendo é o tempo

se bem que já faz tempo, mas eu escondia porque ele me pegava a força e por trás

até que um dia resolvi encará-lo de frente e disse: tempo, se você tem que me comer que seja com meu consentimento, e me olhando nos olhos...

eu acho que eu ganhei o tempo

de lá pra cá ele tem sido bom comigo

dizem que ando até remoçando.



(viviane mosé)

quarta-feira, abril 11, 2007

Diálogo

- É que, tipo, você é a mina entende, a que eu quero pra estar comigo. Apaixonei. Sabe?

- Então, sei lá, to sabendo agora, fiquei confusa.

- Eu te espero, por minha conta e risco. Mas eu espero.

----------------------------- ALGUM TEMPO DEPOIS --------------------------------------

- Mas o que foi que aconteceu, te fiz alguma coisa? Poxa, não tava tudo super ok? Eu correspondendo e etc?

- Desculpa, agora sou eu que tô confuso, não sei bem o que eu quero, mas espera... não bota um ponto final em mim não... a gente tem muito o que viver.

- Será?

--------------------------------- DIAS DEPOIS ----------------------------------------------

- Desculpa, é que conheci outra pessoa no caminho, sabe como é, não podia trocar tudo isso por um grande ponto de interrogação que é você.

- ... 'tendi.

- Sacou?

- Aham.

- Mesmo?

- Horrores.

quarta-feira, março 28, 2007

Parte Dela






Sou parte dela, quando canto penso que ela tá lá
Se estou sozinho sei que ela tá lá
Se eu cair no mundo e me virar
Morto de saudade um dia você vai me ver voltar
Se eu cair no mundo vou dizer
Calma, pois um dia volto correndo só pra te ver

É a hora eu tenho que arriscar
E eu tenho muito pra fazer
Eu sei que um dia chego lá
Gosto de você é pra valer

Moça bonita, cor de canela
Chapa meu globo toda vez que penso nela
Brasil é terra onde se tem várias donzelas
Faço essa rima e até coloco o nome dela
É sempre assim, cabelo crespo
Caliente, inteligente,
Senta aqui bem do meu lado, lhe dou uma flor
Pensei em contruir família, seja o que for

Sexta-feira eu encontro ela
Veste claro e cetim a perfeita cinderela
Abracadabra, meu Santo Antônio
Se ganha um beijo, o tristonho fica risonho
E não medonho
Marcha nupcial no ritmo do samba
No esquema tropical, aqui se gasta aqui se ganha
Moça bonita, disputo na esgrima
Estou na rima

É a hora eu tenho que arriscar
E eu tenho muito pra fazer
Eu sei que um dia eu chego lá
Gosto de você é pra valer

quarta-feira, março 21, 2007

ANO ZERO!

Dizem por aí que a vida é aquilo que acontece quando fazemos planos para o futuro.

Mas... e se a última coisa que a gente quer é fazer planos pro futuro?! E se o futuro, num determinado momento da nossa vida, nos parece algo distaaaaaaaaaaaaaaante e imprevisíííííível?


E mais, e se o futuro simplesmente parecer ultra-nebuloso e a gente não tiver o menor plano, nem unzinho que seja, pra daqui um dia, um mês, ou anos?


A vida pára?


E se a gente ainda estiver preso aos lances do passado, que podem ter sido tipo assim suuuuper importantes pros planos que algum dia a gente pode vir a fazer???


Perguntas importantes estas...?


Explico.


Comecei 2007 com o pé esquerdo de propósito, só pra ver se algo mudava e se algo extraordinário acontecia, já que extraordinário é bem o que a palavra diz: é além do ordinário, do comum. E eu comecei o ano sedenta por novidades, por mudanças, por muitas e ótimas surpresas. Pra começar, quebrando um ritual de 23 anos de vida, eu passei o Ano-Novo em São Paulo - e não, não foi por falta de lugar pra ir, nem por grana, nem por ter que trabalhar. Foi por opção mesmo! (Inteeeeeeeeeeeeeeeeerna!!!).


Pulei ondinhas num gramado japonês de pedras, que era pra ver se Iemanjá sentia falta dos meus pezinhos e dava uma força... e na última ondinha, pus em prática o que tinha descoberto: a última onda tem que quebrar na nossa canela. Então, deixei a sétima onda imaginária quebrar na minha perna, e quase senti o geladinho anunciando as mudanças! (Inteeeeeeeeeeeeeerna!)


Depois de anos de bebedeira descontrolada, este Ano-Novo passei sobriazinha da Silva, voltei dirigindo o carro da amiga e achei que o Santo Protetor dos Alcoólatras ia ficar bem orgulhoso e ia dar um help, ou no mínimo, achei que meu fígado agradeceria.


Em resumo, só faltei fazer promessa pra ver se as coisas tomavam novas formas.


Não que eu estivesse descontente com alguma coisa. Pelo contrário. Tava tudo bom demais, confortável demais, na inércia demais, e quando ta tudo muito em paz eu fico aflita e começo a sentir falta das dificuldades, e às vezes, até das fossas de sexta a noite, porque pelo menos está rolando algo importante e a gente tem a sensação de que a vida tem movimento. Então, voltando, tava tudo tranquilinho demais, e eu não estava desejando “muita paz em 2007” pra ninguém. Paz demais é ruim. Bodeia. Cansa.


Bom, pelo que parece, despertei a ira de Iemanjá, que deve ter ficado meio ofendida com o lance das pedras... e o Santo Protetor dos Alcoólatras deve ter achado meio sacanagem não beber no ano-novo, me achou meio caxias, se sentiu abandonado, sei lá. Porque desde que começou o ano, a impressão que eu tenho é que, com o perdão da palavra, eu só me fodi.


Sem melancolia, gente! Falo isso com sarcasmo, porque afinal de contas fica até engraçado se parar pra olhar o quanto as merdas vêm em comboio. Chega a ser irônico.


Okei, confesso: o assunto é homem. Pronto falei.


Comecei o ano com uma decepção fatal, daquelas que doem na alma, na cabeça, e no bolso – precisei de 5 novas blusas fantásticas e carésimas pra me sentir um pouco melhor. Esse drama, ou melhor, essa tragicomédia, vocês bem que acompanharam. Ela deve desenlaces e desdobramentos, que não vêm ao caso, mas que podem ser imaginados. Foi uma quebra, confesso. Chorei as pitangas, perdi o chão, e também quase perdi as amigas de tão chata que fiquei. Falta de referencial, de parâmetros, em resumo, começar do início tudo de novo a idéia de felicidade amorosa. Foi foda pra caralho.


Na seqüência, decidi que então era hora de continuar com a sessão “finalizando-questões-mal-resolvidas” e entrei no clima, terminando uma relação turbulenta de quase 1 ano, marcada por ciúmes patológico, amor, raiva, rejeição, histeria generalizada e, infelizmente, um tesão descontrolado. Sim, dei adeus ao melhor sexo da minha vida. Haja desapego. Adeus, 20 telefonemas em um dia! Adeus, relatório diário! Adeus, insatisfação constante! Adeus, gato-delícia de distintivo em punho! Adeus, figura de autoridade! Você me ensinou muito, mas a gente pára por aqui, ta?


Super okei.. Então era essas, Ano Zero em termos de amor. Vamos recomeçar.


Até decido dar uma chance a um amigo fofésimo que havia recém se declarado, mas percebo logo que aquilo não vai dar (literalmente, se é que vocês me entendem) em lugar nenhum. Super okei. Nana, tenhas paciência, minha filha. Espera mais um pouco. E até agora estou esperando. Ponto pra mim.


Então o conheço. Ai ai. O homem mais lindo que já vi de perto na minha vida inteira. Ai ai. Ali na praia. Me dando bola. Perguntando se sou dali. Quase olho pra trás pra ver se era comigo mesmo. E não é que era? Ai ai... como não me apaixonar? Lindo, lindo! Inteligente, viajado, fala inglês, aleluia! E que cabelo, gente! De propaganda da Pantene. Gente boa, interessado, fazendo perguntas sobre meu trabalho como nenhum outro antes fizera. Como não me apaixonar?


E depois de algumas noites calientes, o papo de ‘estou-magoado-por-um-término-recente-e-estou-100%-racional’. Ai ai... como não me apaixonar?? Lindo, gostoso, inteligente, gente boa, fala inglês, e o mais importante, NÃO QUER NADA COMIGO! Como, gente, como não vou me apaixonar desse jeito??


Super okei, recado dado, mensagem recebida: o coração do rapaz não está aberto, e o meu está abertinho da silva, hora de partir pra outra. E quem disse que o moço sai da área? Sai, volta, bate, assopra, não caga e não passa a moita! Como não me apaixonar? Rá-rá-rá!


E não é, gente, que Iemanjá deve ter ficado bem puta da vida, bem recalcada, porque na seqüência descobri que o melhor-sexo-da-minha-vida já estava sendo também o melhor sexo da vida de outra?? Putz, aí foi um arregaço! Pô, assim tão cedo? Puta dor de cotovelo, com direito a cervejas noturnas e isolamento social, Adriana Calcanhoto no rádio o dia inteiro e também a noite inteira, com as músiquinhas não saindo da cabeça... “Entre por esta porta agooooooooooooora, e diga que me adooooooooooooooooooora, você tem meia hooooora, pra mudar a minha viiiiiiiiiiida!” (meia hora por que?? Que tipo de deadline é esse? Enfim, música pra afundar ainda mais na fossa!)


Bom, mas como sou otimista (apesar de melancólica e histérica), tentei brincar de Pollyana e achar os pontos positivos desse imbróglio todo. E achei, um monte. Cair na realidade. Matar o Ex-Namorado Ideal. Aprender a não arrastar situações até o limite. Ser menos defensiva. Praticar o desapego. Aprender a separar sexo de afeto. Não ser tão suscetível aos encantos caiçaras. Valorizar quem me valoriza. Iéééééé!


Tudo isso pra voltar ao assunto do começo... gente, como fazer planos pro futuro amoroso (porque, na boa, sobre o futuro profissional eu nem vou comentar!) estando mais zerada do que placar do Corinthians no Paulistão?


Onde conhecer mocinhos novos e ativar novamente o meu placar pra que eu possa-poder fazer planos, fantasiar dias ideais, e cair de quatro babando na sola do sapato de alguém que me corresponda, é favor obrigada?


Em termos de futuro, concluo que o único plano que posso fazer no momento é programar meu próximo fim-de-semana, meu próximo atendimento no hospital, meu próximo par de sapatos novos, meu próximo almoço.


E o plano mais imediato é pegar uma cerveja na geladeira pra dar uma desbaratinada! Porque o Santo Protetor dos Alcoólatras que me perdoe, mas já fiquei sóbria tempo demais!


Interna gente! E rápido!

segunda-feira, março 19, 2007

Esquadros

Opostos, sentidos, momentos, crenças, sensações.

Um pouco de mim, um pouco de tudo, da vida e do belo, num punhado de versos.

Por Adriana Calcanhoto




Eu ando pelo mundo

Prestando atenção em cores que eu não sei o nome

Cores de Almodóvar, cores de Frida Kahlo, cores

Passeio pelo escuro
Eu presto muita atenção no que meu irmão ouve
E como uma segunda pele, um calo, uma casca,
Uma cápsula protetora
Eu quero chegar antes
Pra sinalizar o estar de cada coisa
Filtrar seus graus
Eu ando pelo mundo divertindo gente
Chorando ao telefone
E vendo doer a fome nos meninos que têm fome


Pela janela do quarto, pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle


Eu ando pelo mundo
E os automóveis correm para quê?
As crianças correm para onde?
Transito entre dois lados de um lado
Eu gosto de opostos
Exponho o meu modo, me mostro
Eu canto pra quem?



Pela janela do quarto, pela janela do carro
Pela tela, pela janela
(quem é ela, quem é ela?)
Eu vejo tudo enquadrado
Remoto controle



Eu ando pelo mundo
E meus amigos, cadê?
Minha alegria, meu cansaço?
Meu amor cadê você?
Eu acordei
Não tem ninguém ao lado

quarta-feira, março 14, 2007

ME FALA PARABÉNS?


Porque hoje é o meu aniversário!

segunda-feira, março 12, 2007

Aos meus queridos


Eu reclamo, reclamo, reclamo e reclamo mais um pouco da vida, mas tem horas que eu paro e me dou conta: sou é muito abençoada!


Quando paro pra pensar nas coisas que tenho de bom na minha vida, quase sinto vergonha dessa melancolia suprema que sempre me acompanha... como posso reclamar assim tendo as pessoas maravilhosas que tenho ao meu redor? Tendo os amigos que tenho?


Nunca escrevi nada sobre os meus amigos, talvez porque eu sempre sinta necessidade de escrever sobre os sentimentos ruins que tenho, e não era mesmo o Vinícius de Moraes que dizia que as coisas mais belas eram justamente as mais tristes?


Pois agora dei um tempo na tristeza, mesmo tendo o mesmo Vinícius dito que mulher tem que ter alguma coisa de triste, que chora, que sente saudades. Hoje eu estou com saudades eternas daqueles que me acompanham na jornada diária dessa coisinha difícil e complicada chamada vida, e por isso que hoje eu resolvi fazer uma dedicatória toda especial a eles, coisas mais importantes desse mundo... AMIGOS.


Quando eu penso nos meus amigos, começo pelo começo, na minha infância, e meu sorriso se abre quando lembro que tenho 2 grandes amigas que vêm desde esta época. A Dea e a Paola. A Paola eu quase não vejo, mudou pra Austrália e vem pro Brasil de vez em quando, mas sempre que nos vemos ficamos felizes igual a quando éramos crianças, com 7 anos de idade. A Dea conheço desde os 5 anos de idade, foi a primeira amiga que fiz na vida, e é uma irmã até hoje, daquelas que sabem o que acontece aqui dentro só de olhar pra minha cara.


Indo em frente, chego lá pra minha 6ª série, aos 12 anos de idade... e foi nessa época que conheci outra irmã... Julinha Perissinoto, com quem passei umas mil histórias bizarras, hilárias e inacreditáveis. E o que rola entre a gente é amor de verdade, sabe assim? Nessa mesma época surgiram pessoas incríveis na minha vida... o Beto, meu xuxu mais adorável, o Erik, que nem ao menos sei por onde anda, mas que anda no meu coração, ah, isso eu sei! O Tunico, a Sabrina, com quem falo super esporadicamente, mas amo de verdade. Na viagem de formatura, anos depois, conheci a Marcelinha, que hoje é a chinesinha mais fofa, mesmo sem ser chinesa, e é a doçura em pessoa.


Alguns anos depois, conheci uma pessoa especialíssima, lá pelos meus 15 anos. A Fe, que é uma criatura única. Não conhecem? Pois precisam conhecer. Companheiríssima, parceira de tudo, de forró a frescobol, de filme a restaurante japonês. Foi mais ou menos nessa época que conheci a Luli, a Ciça e o Pepe, que são tipo uma segunda família, pra quem eu sempre corro quando a coisa aperta de verdade.


Alguns anos mais tarde, já na faculdade, conheci outras pessoas que nem consigo descrever meus sentimentos por elas. Tem uma pequenininha, porém muito apimentada, que segurou muitas barras, e esteve comigo em momentos, trágicos, cômicos, tragicômicos e alguns outros meramente normais. Nandinha, pô irmã, te amo! Rafinha, Marcelo, e outros tantos (alguns que talvez hoje nem sejamos mais tãããão amigos), em relação aos quais o sentimento continua o mesmo, de amor e aceitação, de papos profundos e inacreditáveis, de viagens incríveis e de cineminhas no meio da semana. A Dri, com quem só fui criar uma amizade depois de formada, e hoje estudamos juntas no mesmo hospital.


Na Ilha, amizades valiosas, e entre elas uma verdadeira irmã, Didi... que hoje ta casada e com o Caíque já no colo. Ficamos semanas sem nos vermos, passamos por muitas coisas juntas, muitas fases diferentes e iguais ao mesmo tempo, coisa demais desde os meus 17 anos... Guardo na minha vida como um brilhante, muito raro e precioso, e que em breve vai estar tão longe de mim, de novo, e eu vou morrer de saudades...


Me orgulho demais de ter amigos de longa data, ou de média, se preferirem. E me orgulho demais de manter estas mesmas amizades até hoje. Mas não é que no último ano fiz amizades bacaníssimas, especiais, que agregaram muuuuito valor na minha vida?


Logo no começo de 2006, conheci uma ruiva muito estranha. A gente tava assim mais ou menos no mesmo momento da vida, as duas deprimidas por um chute na bunda quase simultâneo. E de repente a ruiva foi ficando presente, presente, presente, deixou de ser uma estranha, e hoje em dia a presença dela é constante e fundamental, de passar tipo quase um mês na praia juntas e uma não enjoar da cara da outra e depois disso ainda sentir saudades!


Eu e a Má, junto com a Fê, a Dri, o Rogério e o Vitor, que são dois meninos absolutamente fofos, formávamos o que um dia batizamos de G6, o grupo dos Seis, que era o grupo de entretenimento noturno dançante mais animado de São Paulo. Batíamos ponto no Canto da Ema toda quarta feira, e isso era sempre garantia de muita, mas muita risada.


O G6 quase não existe mais, mas os membros continuam na minha vida... mesmo com o Xu namorandíssimo ou o Rogério meio sumido, amo horrores todos os dias.


Existem muitas outras pessoas que eu vejo quase nunca, mas sempre lembro, e considero amigas do mesmo jeito... a Thais e a Bruna, que conheci pela minha irmã, e que são sempre uma presença que torna minha casa mais alegre. Tem também o Léo, que conheci bizarramente pela internet e hoje não vivo sem e já to morrendo de saudades. Na Ilha, novos amigos, relações diferentes das que tenho em São Paulo... a Didi e a Juju, a Ady, sumidaça mas que vez em quando aparece sempre fofa no seu jeitinho de menina-mulher. O Diogo, hoje um amigo muito querido, o Jé, Gordinho de São Sebastião, que outro dia me deu um presente e fez meu dia, me falando que sou até hoje sua melhor amiga, mesmo a gente se vendo tão pouco. O Duda, que entre indas e vindas, segredos, mistérios e esclarecimentos, entre provas e expiações, continua sendo meu irmão mais velho e por quem tenho um amor quase que incondicional.


Algumas pessoas eu lembro tristemente quando percebo que foi uma relação momentânea e que não pôde ser evoluída pra algo maior. Em relação a estas pessoas, eu lamento, mas preservo um carinho gigante e as portas do meu coração sempre abertas.


Tem também aquelas pessoas com as quais tenho uma relação mais superficial, mais de coleguismo, mas que também são super queridas e com as quais desenvolvi o que se chama apego...


Sei que alguns podem ter sido esquecidos aqui, mas estejam certos de que esquecidos não foram no meu coração, que é tipo de mãe e sempre cabe mais um. Aliás, na minha vida, tem espaço de sobra pra quem quiser entrar, e como diz os Racionais, sempre tem uma fatia de bolo pra vocês.
Nesses tempos meio turbulentos, é bom lembrar que tenho vocês, e senão no meu cotidiano, tenho na cabeça, no peito, no sentimento.


Obrigada amigos, por serem a família que tive a oportunidade de escolher...!

quarta-feira, março 07, 2007

Ah, se eu tivesse...!

Já perdi as contas do número de vezes que me peguei a dizer para mim mesma esta maldita frase.

São tantos “se’s...”, são tantos os momentos decisivos que apenas vi passar... atitudes que nunca tomo, momentos mal aproveitados, oportunidades perdidas, palavras não ditas e caladas por outras tantas cheias de impulsividade.

São aqueles 10 segundos nos quais mil coisas poderiam acontecer, mil coisas poderiam ter sido feitas e transformadas. Bastava um gesto, um olhar, um sorriso, bastava ter sido sincera e ter expressado o real sentimento.

Bastava ter percebido que aquele era o momento.

Quantas vezes mais na minha vida vou me flagrar dizendo ‘ah, se eu tivesse...’?

O que me falta para perceber esse momentos de potencial mudança? Pra usar as ferramentas que existem aqui dentro?

Falta sensibilidade?
Falta coragem?
Auto-percepção?
Espontaneidade?
Relaxamento? Clareamento? Alongamento?

Ou seria necessário apenas ACREDITAR que algo pode ser mudado??

terça-feira, março 06, 2007

... e foi, só que não era...






Dias assim são oscilantes, pendulares, contraditórios.




A cada momento, pensamentos em direções opostas são flagrados, andando lado a lado com sentimentos igualmente ambivalentes. Em 24 horas tudo pode mudar, e cada detalhe faz toda a diferença – como achar uma velha revista nunca lida, ou uma abençoada caneta no fundo de uma gaveta.

Em dias assim, começo a despertar e a olhar insistentemente o relógio às 6:45 da manhã. A ansiedade perturba meu sono, pela aflição do que será de um novo dia. E a cada vez que checo os ponteiros, nem 15 minutos se passaram desde a última conferida.

Às 9h30 me levanto, julgando aquele ser um bom horário, tarde o suficiente, razoavelmente preguiçoso para um dia de férias. Amaldiçôo meu velho hábito de acordar tão irritantemente cedo.

Pois quando se está sozinha, o dia tem muito mais de 24 horas.

Tenho fome, mas nenhuma vontade de comer. São estes os momentos mais solitários do dia, quando sento na cozinha quente como uma sauna e tenho saudades das vozes amigas reclamando do calor do velho fogão. Andar pela casa agora deserta se torna doloroso. Fecho as portas dos quartos vazios, uma ruga se acende em minha testa quando encontro vestígios de que houvera ali uma movimentação dias antes: uma lata de cerveja pela metade num canto da varanda; uma bituca de cigarro de filtro branco no cinzeiro da sala.

Por fim, como, apenas para matar o tempo. O cereal já desce rasgando, e nele nenhum sinal da velha euforia e do prazer histérico, geralmente seguido de um ataque de risos. Como, sem a menor vontade, enrolando ainda 10, 20, 30 minutos para chegar à praia e parecer ter a alma e o coração tranqüilos.

Resolvo então pintar aquela parede que há tanto tempo venho planejando. Levo nesta tarefa exatos 37 minutos, incluindo as bordas. 37 minutos, devidamente cronometrados pelo celular, que insiste em pemanecer silencioso.

São 37 minutos de pura terapia ocupacional, instantes relaxados e divertidos, durante os quais minha cabeça permite-se sossegar. O resultado é muito bom. A pena é não haver quem olhasse aquela parede vazia, e agora verde como o mar na Ponta das Canas.

Ao olhar as horas, entristeço: gostaria que não houvesse passado tão rápido.

Saio de casa a 20km/h, como um turista, olhando a paisagem. Ela já é minha velha conhecida, mas a cada dia percebo detalhes que nunca havia notado: uma árvore em forma de espiral, ou um novo parceiro de dominó para o velho e bêbado Índio no Bar do Genésio.

Uma vez na praia, tudo me reconforta. A areia sob meus pés, quente e fofa. O mar azul e convidativo. O céu limpo de um azul quase violáceo. Mergulho no mar, e então estou no meu ambiente outra vez. E meu coração se aquieta.

Alguns rostos conhecidos, e agora já queridos, aproximam-se sempre com gentileza. Pessoas que sempre estiveram ali, e com as quais jamais houvera uma oportunidade de conversar.

Pego-me a pensar o quanto me protejo atrás dos inúmeros amigos e amigas que sempre me acompanham. Percebo o quanto me apavoro, a princípio, quando estou só. E com o tempo, sou apenas eu mesma, de igual pra igual, na companhia daqueles que parecem ter sido colocados ali para que meu dia ganhe cor.

Macarrão, antes visto como arrogante, se revelou um ótimo companheiro, para um frescobol ou para papos intermináveis em tardes modorrentas de sol. Um espírito jovem aprisionado num corpo de 40 anos, já maltratado e magoado pela rejeição de um esporte ingrato. Aldeir... meu querido Negão, nego especial, criatura linda. Homem que fala baixo mas fala com os olhos, que são de moleque capoeira quando entra na roda. Sempre gentil, pra me dar cinzeiros, sorvetes, catálogos do Regatta, papel e caneta ou aulas de Laser a custo zero. Amarelinhos, que hoje me dão ‘bom dia’ e me fazem me sentir sempre bem-vinda e querida, seja com uma mangueira de água doce, um côco cheio de água, goiabas ou acerolas. O Israelense meio bobo e de Inglês difícil, mas de qualquer forma, um sorriso ao chegar. Jean, Sabiá Preto, sempre quieto em sua torre de observação. Rafa, amante dos números, meros 17 anos e futuro planejado.

Pessoas que fazem da praia que amo um espaço sempre alegre, sempre comunicativo. Sempre especial.

É verdade que ali falta um rosto, o rosto bonito daquele que não ligou mais, o rosto só presente aos fins de semana, o rosto daquele para o qual meu convite não foi assim tão tentador. O rosto daquele que colocou mais uma pontinha de frustração no rol já extenso presente no meu cérebro. É a lição do ano: foi, só que não era...

O Rosto Bonito faz falta, mas quando estou ali, no meio do mar, meu habitat natural, velejando num pequeno barquinho, seu rosto se torna menos nítido e já um pouco borrado: o cenário já está colorido o suficiente, e minha mente, ocupada o bastante. Caço a vela, empurro o leme, ‘arribo’ com o laser no través do vento, pronta para dar o bordo e picar um pouco mais aproveitando a veloc total. Nesse momento, não há espaço para frustrações.
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Dias assim seguem assim: telefones, piadas caiçaras, convites para churrascos aos quais não vou.

- Se você fosse minha mulher, te dava um presente por dia.

Paro, e imagino como seria.

Recolho minha cadeira, meus chinelos, e saio sob as nuvens densas que anunciam uma chuva de verão. Me despeço, ante a promessa de uma nova aula de vela no dia seguinte, e volto para minha casa solitária, a mesma que um dia já odiei, e que hoje me recebe de portas, redes e sininhos abertos. É ali o meu lugar.

Volto para mais uma refeição solitária, feita sem nenhum capricho, e para o silêncio contínuo com o qual devo me confrontar. Volto para as duas latas diárias de cerveja, que, preocupantemente, aplacam minha ansiedade noturna, quando volto a consultar o relógio a cada 15 minutos.

Volto para o silêncio, novamente, apontando a inquietude de minha alma – o silêncio de uma casa, de um celular, de um coração.

- Ta morando aqui agora moça?

Quase. Estou chegando. Eu to quase aqui, quase lá. Até onde meu coração mandar.

Até onde essa Ilha me levar.

quinta-feira, fevereiro 15, 2007

Ou quer que eu desenhe?

quarta-feira, fevereiro 14, 2007

Rap do Adeus

Atacando de Mc Naninha!
Perdoem a falta de estilo e experiência, fui influenciada pelo som constante em meu carro...
A falta de concordância verbal e nominal, os erros de português e as gírias estão presentes para se adequarem ao estilo 'periférico' do tema.
Licença poética, pode ser? :)

RAP DO ADEUS

Era tipo uma paixão, daquelas de televisão
Em que os anos vão passando e não rola erosão
Mesmo longe, a presença um no outro era forte
E um dia tinham dito, junto tamo até a morte
Três anos se passaram, e mesmo estando com outra
Não largava do pé dela, mesmo todos sendo contra
Iludiu, encantou, encheu ela de esperança
Tipo assim, quando se dá um doce para uma criança
Disse que amava, que sonhava, que queria mais que tudo,
E quando viu que ela queria, se mostrou um vagabundo
O cara chega e diz (meu irmão, presta atenção!),

'Aí, eu menti, não te amo mais não
Era carência, era apego, e não a porra da paixão
As coisa acaba aqui, muda aqui minha previsão
Dá o fora, bonequinha, hoje aqui eu sou Tigrão!'
Depois ainda vacila, dá uma de cusão,
Ofende tua família, teus amigos, teus irmão,
Joga pro ar suas crenças e te vira do avesso
Mostrando que homem só muda mesmo de endereço

Uns dias depois vem balançando o rabinho,
Retirando o que disse, tipo assim, bem bonzinho,
Se faz de desentendido, ô dó, coitadinho
Diz que nunca queria que tudo fosse assim
Que não queria que o que disse fosse o fim
Que ela era referência em sua vidinha vazia
E que nada daquilo era de fato - não valia

E a mina trouxa, mesmo assim quase caiu,
Pensou no prego, achou que curte, sua família tudo viu
Que dentro dela ainda era forte, o coração batia a mil
Quando leu suas palavras, seu ar quase sumiu
Pensou em dar pra trás, perdoar aquele vadio
Mas pela ofensa ou vergonha, ou pela humilhação
Talvez por amor próprio, pra poupar seu coração
Deu adeus àquele jogo de suja sedução
Pôs um fim em mais um ciclo de pura obsessão

Num lampejo de razão, se levantou e disse não!
E se lembrou de um verso, feito por um irmão
'Me humilhar não vai, vai tirar o caralho,
Levanta teu rabo MESQUINHO e sai!'

terça-feira, fevereiro 13, 2007

Hoje eu ODIEI São Paulo

Pois é, quem ainda não sabia que eu sou volúvel?

Ontem de madrugada cheguei em São Paulo odiando mais do que nunca a mesma cidade que me encantou alguns dias atrás. E a sensação de estar de volta a Gothan City não passou nem perto de ‘estar em casa’. Pelo contrário, é como se eu estivesse viajando e chegando num lugar onde eu não queria estar. E a de ter deixado meu verdadeiro lar para trás.

Já há alguns anos penso em sair de São Paulo, e me mudar de mala e cuia pra Ilhabela, cidade onde praticamente nasci e vivi toda a minha infância. A cidade mais pacata do mundo fora de temporada, e a que, na verdade, guarda meu coração, além da maioria das minhas histórias e amores.


Certas coisas de fato não têm preço, e viver uma vida colorida é uma delas. Ter qualidade de vida no seu cotidiano, outra. Criar seu filhos (imaginários, por enquanto) num lugar mais seguro e bonito, outra maior ainda. Viver junto à Mãe Terra... ah...


Às voltas com este pensamento, me pego imaginando uma vida ideal. Acordar, ter um trabalho honesto e que me traga tranqüilidade financeira. Nada de mais, nunca fui materialista, apenas ganhar o suficiente para poder pagar minhas contas e poder tomar uma coisinha de vez em quando. Poder caminhar a beira do mar quando enfim o descanso pudesse ser aproveitado, curtir uma praia aos fins de semana, ou um frio e chuva batendo nas árvores a 2 metros de mim. Poder ver algumas estrelas no céu de vez em quando. Receber os amigos e oferecer meu lar, minha casa, minha cidade, para aqueles que a valorizam.


Na realidade, em palavras, isso não parece nada de mais. É impossível traduzir em palavras a mudança que se dá em mim estando aqui e estando lá. A irritação, a tensão, o nervosismo, o mau humor que me dominam cada vez que estou ‘sampando’. E a leveza de espírito quando estou lá.
Diversas vezes as pessoas me perguntam se eu conseguiria mesmo viver em um lugar tão pacato... e eu própria me questiono sobre como seria abrir mão de certas coisas que só mesmo a cidade grande proporciona: vida social intensa, cinema na esquina de casa, Mc Donald´s em cada bairro. Mas isso é muito? Qual a escala de valores que as pessoas usam para definir o que é bom mesmo e o que é meramente circunstancial?


São dilemas básicos, que podem ser traduzidos em uma simples confrontação: natureza menos luxo pode resultar em felicidade?


O que você escolheria? Uma prancha nova ou um PlayStation de Natal para seus filhos?


Um quintal macio e verde com tatus-bola ou um playground de areia com um trepa-trepa?


Uma noite de amor no Harmony, com ofurô aquecido, ou numa praia meio mambembe, com teto solar natural?


Tem todo o lance do apego à minha família... consigo eu viver sem ver as carinhas de minha mana e minha mãe todos os dias? Consigo me limitar a vê-las de fim de semana? 200 km separam o litoral de nossa capital... consigo eu atravessar essa distância em virtude de um sentimento que, a princípio, bateria todo santo dia de meu Deus? Ou será que aí sim eu valorizaria as pessoas queridas que tenho ao meu redor, ao invés de às vezes trata-las como cachorros, simplesmente por estar irritada com o fato de não respirar muito bem nessa metrópole maluca?


Muitas questões, poucas respostas, ações menos ainda.


Pé no freio, vida real, pois por enquanto o semáforo encontra-se vermelho.


Alô, Nana, tem alguém aí? Ou seu espírito gnomo, como a sábia Marli definiu, já está lá novamente?


Muitos desejos, poucas realizações, coragem menos ainda.


Vai crescer? Ta difícil? Quer moleza senta na gelatina...
A vida é uma só, e somos responsáveis por toda a felicidade ou tristeza que dela advém... seja ela referente à uma cidade especial, um relacionamento traumático, uma mudança de emprego. Falta coragem? Pra ser feliz?


Eu estou fazendo a minha escolha.


E você? Quando vai fazer a sua?

segunda-feira, fevereiro 05, 2007

Hoje eu amei São Paulo

Ontem eu fui pra praia, e voltando pra São Paulo, amaldiçoei Gothan City. Passando por Cubatão, com aquelas chaminés cuspindo fumaça, eu me senti num cenário tipo assim, SinCity, sabe como é?
E detestei morar em São Paulo.

Mas hoje, caminhando na Av. Paulista rumo ao Reino de Piratópolis, mais conhecido como Stand Center, eu vi um besouro voando no céu.

Sim! Um besouro!

Foi como ver uma luz no fim do túnel, e perceber que, no meio destes arranha-céus, ainda existe alguma vida selvagem.

Uns 30 metros pra frente, notei uma plantinha, um pequeno brotinho de algum tipo de mato ou praga vegetal, crescendo entre uma fissura no concreto da calçada. Nessa hora então eu quase chorei. É a natureza vencendo a guerra.

E ali, andando na Paulista, em meio a executivos, proletariados, banqueiros e mendigos, ouvindo SNJ e cantarolando “Se tu lutas tu conquistas é tipo assim...” eu me senti invadida por um sentimento enorme de amor pelo mundo, de amor pelas pessoas, de vontade de dar 100 reais pro mendigo bêbado da esquina comprar um mé, e de pegar no colo aquele cachorrinho fofo e cheio de sarna que me seguiu por um tempo. Vontade de sorrir pra todo mundo sem me importar se correria o risco de escutar baixarias, e de ter 10 milhões pra pagar o tratamento daquela mulher que tem câncer e usa máscara de Michael Jackson na esquina da Rua Antônio Carlos.

Senti vontade de abraçar aquele pivete neguinho que olhou pra mim com cara de fome, de trazer ele pra casa e dar sorvete na boca dele, sem ter medo de ele ter uma dúzia de manos parceiros que viriam correndo roubar o meu apê.

O mais impressionante foi que, ao ser invadida por este sentimento, eu me peguei olhando pra Paulista com carinho e devoção, afinal ela já foi palco de tantas histórias da minha vida.

O Parque Trianon, onde eu costumava ir fumar um cigarro escondida do segurança da porta do Dante, ali na saída da Peixoto Gomide. O ponto de ônibus em frente ao Center 3, onde eu e uma amiga uma vez conhecemos uma garota muito louca que nos apresentou uma parte da vida que geraria histórias durante muitos anos. O antigo Subway, onde matei tantas laricas. A esquina da Joaquim Eugênio de Lima, onde uma vez um quadro foi pintado sob a mira de 4 olhos apaixonados.

Tanta história! Tanta coisa... O Mambo Bazar, onde já cometi pequenos delitos e vi meu professor gato de Inglês andando com uma sunga tipo gay assumidaço, e me decepcionei. A Casa das Rosas, o Masp, onde vi meu primeiro Monet e me apaixonei pelo Impressionismo... puta que pariu!

Então eu cheguei em casa, olhei pela minha janela gradeada, vi uma dúzia de outros prédios, e lá na frente, uma andorinha, que mesmo assim, sozinha, fazia o verão dela. Sorri... ‘se tu lutas tu conquistas tipo essas...’
São Paulo... amada por uns, odiada por outros... leva o nome de um santo, que até hoje protegeu a cidade de ser dominada como tantas vezes tememos. A cidade que abriga uma diversidade enorme de raças, culturas, crenças, e que permite que ainda possamos ver o sol surgir ou a Serra do Japi lá no fundinho, onde estaria o horizonte. A cidade que é cheia de conhecimentos, de ignorância, tecnologia, de circunstâncias às quais sobrevivemos... cidade de parques, de bairros, de vilas, de vielas, de comunidades, de músicas, de fé, de fuga. De gírias, de medo, de pesadelos, Vaz de Lima...

Hoje eu amei São Paulo. Tipo um delírio... eu não via nada, apenas a cidade, apenas o meu lar.

Com suas cores cinzas, seu becos e periferias, com sua pobreza típica de megalópole. Hoje eu amei a 5ª maior cidade do mundo, e fiz parte dela como nunca havia feito. Me senti parte do cenário, mais uma cabeça, mais um pontinho no pontilhismo urbano da minha cidade, mais uma pessoa entre tantas outras, entre tantas histórias, e senti que nenhuma das maiores infelicidades é tamanha perto do tamanho dessa cidade que é São Paulo.

Porque hoje, e somente hoje, eu vi um besouro voar no céu...