segunda-feira, agosto 27, 2007

Conto de fadas


Você vem e com delicadeza me abre, para então me invadir com violência. A cada seis meses mais ou menos é assim. Você surge como uma corda ao afogado, quase no instante em que esse já se conformou com uma morte certeira.

Você me abre e diz que sou bonita. Então me relembra todos os planos que um dia fizemos. Você lembra mesmo deles? Era uma casa de frente pro mar, um cachorro e um barquinho ancorado. Talvez até alguns filhos, nossa menina chamada Catarina. Você me faz acreditar que tudo isso ainda é real, eu quase posso sentir meus pés na areia e teu cheiro ao meu lado. Mas se abro os olhos, tudo me escapa.

Você chega perto e diz que sou eu, como quem cita uma antiga poesia. Foi poesia para nós dois, mas isso já faz tanto tempo. Tanto tempo que eu meio que ainda estou lá, ainda me sinto menina, tão menina como quando te vi pela primeira vez. Nessa época eu ainda tinha inocência, era ingênua, e acreditava em fadas.

Você beijava a boca de outra, se lembra? Depois gostou só da minha, e eu gostei só da sua, e hoje já não me lembro mais como você beija. Tanta gente passou no meu caminho, tantas bocas, tantos sentidos, tantos corpos e tantas palavras. Tanta história que eu pude contar. Mini fábulas, mini crônicas, mesmo as que que chegaram a ter mais de um capítulo. A história mais linda sempre foi a sua, que eu não me canso de reler. Será história? Será ficção? Às vezes me parece mais um conto de fadas: você chega em seu cavalo branco, me resgata do alto da torre, e fugimos juntos pra Terra do Nunca. Você é quase Peter Pan, não cresce nunca, eu sou Wendy te reencontrando anos depois, e a gente meio que continua os mesmos. Eu sou a princesa que você jura amar para sempre.

Mas nosso conto de fadas é moderno. Seu cavalo foi branco por um tempo, depois tomou outras formas. Esta princesa não é mais virgem, a torre se tornou subterrânea. Outros príncipes passaram, nenhum deles achou minhas tranças, talvez eu as tenha cortado, esperando que você as preserve.

Você diz que vai lutar. Você sussurra aquilo que mais gosto de ouvir, nunca me esqueci o que já escutei um dia. Você me abre e me enche de esperança, e apaga 4 anos num piscar de olhos. O meu mal é gostar disso. O meu mal é gostar de gostar de você, é gostar da idéia de ter um romance tão lindo nas páginas da minha vida.

Quanto tempo ainda até seu jardim novamente secar? Nele plantei as flores mais belas, árvores gigantes, mas nunca pude analisar seu solo. Qual é o mês para este plantio? Qual a época certa de regar esse amor? Eu perdi minhas sementes, ou as joguei em solos áridos demais para que sobrevivessem.

Você me abre.
E me fecha.
Ao seu bel-prazer.

Me resta olhar pra tua letra, sentir tua imagem, imaginar que seu cavalo ainda corre, e esperar que minhas sementes vinguem.

domingo, agosto 19, 2007

Got it?

Quando eu te conheci eu não sabia onde estava me metendo. Acho que te vi como salvação de uma fase de ilusões, tinha que ser você de qualquer jeito, talvez assim eu me sentisse mais amada e menos incompreendida.

Eu achei que a gente tinha tudo pra dar certo, nossas cabeças combinavam, talvez até nossos estilos e bebidas preferidas, não me importava que seu corpo não fosse exatamente o que eu esperava ver debaixo daquelas roupas sóbrias, nem que ele não me lembrasse de um outro corpo menos presente. Não me importava o seu silêncio nem seu estilo de vida, só queria a confirmação de que não, o problema não era comigo.

Eu não sabia onde estava me metendo, nem vi se a piscina tinha água suficiente pra eu poder me jogar. Achei que me apaixonara, mas era mais projeção. Eu achei que fosse sentimento, mas era mais sensação, era mais a química inegável que de novo me confundiu os pensamentos. Tentei fazer com que a lógica do 1+1=2 valesse pra nós, como se bastasse nossas áreas do conhecimento serem iguais, como se bastasse o sexo ser supremo, como se bastasse eu não ver nada de errado nisso.

As contas que fizemos se revelou diferente, não é nada que eu não possa compreender, como você vi muitos por aí, até demais. Foi o pacote que me atraiu e não somente o seu conteúdo, que hoje parece surpreendentemente vago. Se eu não ligasse você ficaria com raiva mas eu sei que iria passar, você ia colocar Kiss FM e eu provavelmente De Phazz, pra ficar pensando em outras pessoas que não você que nem na sexta-feira à noite alguns minutos antes de te encontrar.

Na verdade eu não menti pra você, dormi mesmo no paraíso, mas talvez tenha sido uma meia-verdade: o paraíso não era você, era seu corpo quente do lado, era sua boca na minha, sem alma nem nome, era o momento e a tensão, mas não você. E você na minha cabeça é tão somente o meu novo vício: trata-se um cocainômano com a maconha mais forte.

Eu troquei uma droga pela outra pra aliviar os sintomas da abstinência, desculpe por em você tanta responsabilidade, não é você quem vai me salvar e eu nem espero que você possa. Na verdade esperei que você pudesse um pouquinho, como todo homem faz, com palavras em promessa, mãos ágeis e bebida à vontade, o que não achei é que tão cedo veria sua incapacidade. Não é uma crítica, você é ótimo assim mesmo, mas é um sapato grande demais pro meu pé. Você quer um divã, ou todos os divãs do mundo, eu quero a sala inteira e só ela.

Isso não é uma despedida, mas um aviso para mim mesma - “escreva menos e leia mais”. Se o mais belo for sempre o mais triste você fica pra vida inteira, pois a beleza de um momento tende a ser eternizada. Você pode fazer parte deste álbum de retratos da minha memória, basta seu corpo ainda quente do lado do meu, seus dedos nos meus cabelos, e sua constante incapacidade.

terça-feira, agosto 14, 2007

Doing numbers

Pois a Matemática, essa sim é a única certeza da vida...


Nos 2 dias de uma semana de 7, que compunham as 2 em que minha alma estava fora, uma oportunidade de mais ou menos 1 hora se abriu diante dos meus olhos.

Foi a hora mais produtiva de todos os 15 dias em que minha alma voava, a hora mais curta e também mais longa, em que vários meses se passaram em minha frente em questão de minutos. Em segundos tomei minha decisão.

Foram mais ou menos 10 minutos para chegar lá, o dobro disso de pura social, meio minuto na travessia de um corredor. Em segundos tudo se foi.

Uma hora e meia fatídica. 15 minutos de introdução, 30 de história de verdade. Nem 60 segundos de um grand finale. No fim das contas, eram mesmo apenas 11 minutos. Mais uns 20 pra despedida. Uma eternidade de lembranças.

35 minutos em um telefone, para não dizer realmente nada. Uma mensagem instantânea que se revelou rápida demais. 4 minutos e meio de um telefonema que disse tudo. Um instante apenas, um sequer, para tudo desmoronar.

24 anos de história, 5 apagados da memória. 7 anos de azar, dos quais 3 passados em felicidade. Mais 4 pra esquecer. 2 dias pra evoluir, apenas um pra destruir. 6 meses pra libertação, ou pra fingir que sou liberta. Contagem regressiva para enfim a liberdade completa. E pra felicidade plena? Toda uma vida.

Tic-tac, tic-tac, os segundos se passam em um relógio ainda parado, as horas incompletas, alguns números me bastam. O ponteiro das horas ainda não existe. Me bastam os segundos.

Quanto tempo ainda, meu Deus?

Tic-tac, tic-tac. Toda uma vida. E o relógio não pára.

Tic-tac, tic-tac.

Toda uma vida.

sexta-feira, agosto 10, 2007

Em recesso



A mesma casa, o mesmo quarto, a mesma cama... tudo igual novamente.

É o prazer e o sofrimento de voltar para casa depois de um curto porém intenso período de recesso.

As mesmas caras, os mesmos corredores, o mesmo hospital. As mesmas pessoas fúteis e mesquinhas que circulam à sua volta como carniças sob um urubu, pedindo informações, pedindo detalhes, pedindo seu sangue pra beber em copos de cristal. Elas pedem o que não posso dar, a parte mais íntima da minha alegria, a que sorri apenas quando está verdadeiramente feliz.

Se estou triste? Chateada? De mau humor? Por que eu estou tão diferente? Não, não posso lhes explicar... como fazê-las entender que eu volto sempre, mas meu coração jamais volta comigo? Que minha alma permanece num lugar encantado, numa fenda na história, e que quando saio de lá, já desalmada, o tempo pára e só se mexem os ponteiros daqui... Lá o tempo pára. E eu paro junto cada vez que tenho que enfrentar o difícil retorno.

Não, não tenho como lhes explicar que cada fato me lembra algum outro, que cada palavra me remete a outras, que cada pessoa me repele em direção a mim mesma. Então me calo. Como explicar que um corredor pode ser difícil, quando um outro provocou algo tão bom, dias atrás?

Como explicar que um telefonema me recordou outro, que sequer fora feito por mim? Como dizer-lhes que minha cama se tornou grande demais, pela ausência daquele que a compartilhou comigo, por apenas uma hora e meia?

Não, não tenho como dizer o quanto o trânsito me aborrece, o quanto tantas perguntas me aborrecem, o quanto a formalidade me danifica os sentidos. E eu pareço perdida, mesmo em lugares tão conhecidos, mesmo entre pessoas tão amigas. Eu me sinto vazia. Minha alma e minhas paixões não vieram comigo, ficaram para trás, gritando para que eu volte. E enquanto isso eu sou toda saudades.

Sou toda espera, sou fera que devora a hora que falta pra que a vida passe mais um pouco, mais um pouquinho, um outro tanto pelo qual ainda aguardo, e ainda ardo e quase explodo pelo tanto de minutos que ainda faltam pra que eu vá definitivamente, sem horários de retorno, sem balsa aos domingos, sem engarrafamento de sexta-feira. Sem tchau, até mais, volto em setembro.

Volto do recesso e também dos excessos, sabendo que isso aqui é pouco demais, é pequeno demais, é vazio demais pra uma alma do tamanho da minha. Eu volto pra labuta, mas é agora, definitivamente agora, que todas as minhas convicções entram de férias.

É ir... pra poder voltar.

quinta-feira, agosto 09, 2007

Diálogo_ Crystal Clear


Ele rola para o lado, ainda ofegante.
Ela quer acender um cigarro, mas decide não cometer o mesmo erro.
De repente, uma pergunta a invade, gritando para ser feita.

- O que te deu afinal?
- Como assim?
- O que te deu pra fazer isso depois de tanto tempo?
- Me deu que não consegui segurar mais uma vontade que eu sempre tive.

Silêncio. Ela espera uma resposta.

- Não sei se entendi.
- Sempre tenho vontade de estar com você. Mas andei me segurando, meio fechado, não quero me envolver com ninguém no momento.
- E o que uma coisa tem a ver com a outra?
- Tem que se a gente continuasse saindo, se vendo, ficando, o rumo natural é que uma hora a gente ia ver e ia estar junto. Então eu andei me segurando.

Silêncio. Devia falar alguma coisa? Era essa a resposta?

- Mas olha, não te preocupa, também não é assim, você me chama pra sair e eu me envoooolvo, ou fico apaixonaaaaaaada por você...!
- Mas quem disse que eu tô falando de você?

Sim, essa era a resposta. A resposta que procurara durante longos 6 meses de perguntas, confusões, contradições, interpretações. O ponto de interrogação finalmente convertia-se em ponto final. Ou seria uma vírgula?

- Isso não envolve apenas você, também pode acontecer comigo, sabia?
- Entendo...
- Esse entendo foi de psicóloga?
- Não. Foi de mulher.

Mentira. Fora apenas sua forma de dizer que ele não precisava se preocupar com nada, ela se preocuparia por ambos, como sempre fizera. Mentira. Não o compreendia.

- E você?
- O que tem eu?
- O que deu em você pra aceitar isso depois de tanto tempo?
- Apenas resolvi aproveitar uma brecha que se abriu. Tudo era sempre tão distante.
- Distante?
- Não te preocupa. Tudo isso é bobagem.
- Você acha mesmo?
- Aham.


Mentira. Mais uma vez, mentira.

segunda-feira, agosto 06, 2007

Amores

Eu já li sobre o amor dos poetas, sofrido e romântico, traduzido em rimas simétricas e nas redondilhas perfeitas que saem de suas penas. O amor platônico, ideal, inatingível, pelo qual ninguém nunca passou incólume, a dor em forma de versos. O poeta ama ao seu próprio sofrimento.

Já li sobre o amor dos piratas por seus baús repletos de moedas de ouro, por seus tesouros escondidos no fundo do mar, por suas naus fortes e resistentes, pela donzelas sequestradas em alguma terra longínqua. O pirata ama verdadeiramente, mas seu maior amor é sempre a liberdade, a aventura e as descobertas.

Já vi o amor infantil de uma criança por seus ursinhos, a ponte entre seu mundo interno e a realidade externa. Choram as crianças por seus brinquedos e chupetas, e perdem todas as suas certezas quando estes lhes escapam. O amor de uma criança é sinceramente voltado para a segurança e para o conforto.

Já presenciei o amor de um músico pelos seus instrumentos. Este ama ao som como se este fosse a única coisa capaz de preencher seus vazios e pudesse compreender sua melancolia. Todo músico é melancólico por natureza, e tem um quê de tristeza que se traduz em seu amor sempre focado em seus próprios porquês.

O amor de um adolescente pelo seu professor preferido é talvez a forma mais bela e sutil de querer alguém. O jovem ama suas próprias aspirações, seu próprio futuro projetado na figura daquele que o ensina a coisa que mais irá amar ao longo de sua vida: o próprio viver, com seus erros e acertos.

O amor materno é sempre incondicional, inabalável, eterno. Ama a mãe aos seus filhos com devoção, um amor pelas próprias realizações representadas pelo fruto de seu ventre sagrado, que jamais se esgota. Ao pai cabe amar condiconalmente, sua devoção é limitada – rege um amor racional, construído com base na objetividade de suas regras e valores morais. Assim amam os homens: com ressalvas.

Amam-se os irmãos como amam a si próprios: espelhos que são, oriundos na mesma fonte, amarão ao outro o que falta em si mesmos. O amor fraterno é basicamente projetivo, competitivo, acirrado. Amam o que vêem refletido de si mesmos no outro que os refletem.

Já li, refleti, observei e presenciei o amor de muitas formas. Já fui poeta, já vi a música, agi como um pirata age, e amei a melodia confusa da alma humana. Projetivamente ou não, amo meus irmãos muito mais que a mim mesma. Amei ursinhos, chupetas, guitarras e moedas de ouro, já escrevi poemas doloridos e canções melosas.

Ora sou mãe dedicada, ora pai limitado, ora sou criança buscando por tesouros e até professores perdidos. Na maioria das vezes sou simplesmente humana, simplesmente mulher, talvez filha ingrata ou irmã invejosa. Porém sempre humana, demasiado humana.

Amo. Amo aos livros, aos poemas, amo a melancolia e meus vazios interiores. Amo meus brinquedos e minha família de forma (in)condicional. Amo meus sofreres, minhas seguranças e meus versos, tão tortos sobre linhas estreitas. Mas amo, seja lá que amor for este.

sexta-feira, julho 20, 2007

Pra que "por que"?

Olha, eu vou ser sincera contigo, nem é mais o caso de eu tentar entender por que você age assim. Pra jogar a real, eu cansei de tentar.

Também já não me importa mais saber por que sua costeleta é tão grande, se é um estilo Rockabilly ou se você se julga reencarnação do Elvis Presley, ou se é porque sua gilete anda meio mal das pernas.

Descobrir por que às vezes você usa camisa e calça social, e às vezes só joga um moletonzão azul meio fudido por cima de uma calça jeans já nem me preocupa mais, até porque eu mesma sou assim. Sei lá, nem reparo mais nessa constante, perdeu a importância.

Assim como perdeu a importância saber por que seu carro é tão irritantemente limpo. Porque, sabe, isso me incomoda - como pode ser seu carro assim tão cheirosinho, enquanto o meu tem uma camada de areia de no mínimo 1 cm no chão, biquini no banco de trás, saquinho de lixo lotado de papéizinhos de pedágio? Irrita, cara. O seu não tem uma poeirinha fora de lugar. Nem saquinho de lixo tem. Bom, mas como eu disse, perdeu a relevância.

E eu nem quero mais saber se o que eu ouvi era verdade, porque de viado eu acho que você não tem nada mesmo. Não porque não pareça, mas por conhecimento de causa, rá-rá-rá. Pelo menos não pareceu naquele dia, entende... mas, bicho, também desencanei de saber por que caralho pensam isso de você. Deve ser do sotaque arrastado, que às vezes também me incomoda. Não dá pra falar mais rápido? Não tanto quanto eu, mas olha, esse ritmo Brasil-grande-devagar-quase-parando já tá dando no saco. Não é tão charmoso quanto você pensa. Ou ao menos, não é mais.

Do mesmo jeito, desisti de saber por que dizem o que dizem sobre você nos corredores daquele hospital. Será que é mesmo, será que não é? Ai, deixa pra lá, se tu for pegador mesmo eu logo vou saber. Onde tem fumaça tem fogo, nem que seja um incenso. Mas, sinceramente? Nem quero mais saber se tu é incenso ou incêndio da TAM. Affe.

Também não quero mais saber por que você veio pra São Paulo e não pra Londrina, nem por que tua banda acabou. Se acabou é porque tinha que acabar, ou no mínimo, devia ser um lixo. Esse “por que” é até interessante: por que em vez da banda acabar, não virou grupo circense? Rá-rá-rá! Ah, não, deixa pra lá, eu nem quero mais saber.

Nenhuma pergunta dessas é de fato importante – veja bem, nem mais saber por que tem duas escovas de dentes no teu banheiro me importa mais! Nem por que você mora num apê com dois quartos se tu mora sozinho. Nem por que sempre só tem água e banana na tua geladeira, mas tem uma garrafa de Jack Daniels na estante da sala. Irrelevante.

Assim como por que tu tira a mesa pra atender, se é psiquiatra e não psicoterapeuta. Por que você insiste em negar teu papel? Ah, nem responde, dá preguiça de escutar (uma frase tua demora demais, rá-rá-rá!). Deve ser frustração mesmo. É dose né, 8 anos estudando? Injusto né, por que?

Agora, a pergunta realmente interessante é por que caralho você faz terapia 3 vezes por semana! Tem tanto assim pra falar? Tanto conflito? Acontece tanta coisa assim na tua vida? Puxa, você deve ter uma pá de problema! E se não tinha antes, agora com certeza já deve ter vários! Rá-rá-rá! Não me conta, não me conta! Que pra mim foda-se, não quero nem saber!

Meu anjo cabeludo, chega de por que! Pra mim importa mais outro tipo de pergunta: pra que tudo isso??

quinta-feira, julho 19, 2007

Censura

- Não, não estou vendendo sexo! Estou apenas
vendendo preservativos com uma demonstração grátis!

Já pensaram no que aconteceria se falássemos o que pensamos sem nenhum tipo de censura interna? Se não existisse superego? Se não existisse o bom senso? Ou o famoso “semancol”?

Caos. Catástrofe. Confusão.

- Oi, querida, como está??
- Com caganeira.


Imaginem vocês se falássemos exatamente o que pensamos, ao invés de mascarar o verdadeiro conteúdo de nossos diálogos. Ia ser briga pra cá, mágoa pra lá, caras viradas ou rostos boquiabertos diante de tanta sinceridade.

- Pô, mano, e aí... o que tu achou da minha mina?
- Os dentes são meio tortos, mas tá gostosa pra cacete. Se ela der mole eu pego.


Diz a quase-finada Psicanálise que o superego, ou nossa censura interna, nosso juiz particular, possui a função de filtrar aquilo que é ou não aceito como socialmente adequado, barrando possíveis comportamentos inaceitáveis na convivência grupal. Em última análise, ele exerce a mediação entre nossos impulsos mais primitivos e nossa máscara social, aprendida e moldada ao longo do tempo por meio de modelos sociais e regras morais culturalmente construídas. Isso pode, aquilo não se faz. Sem a censura estaríamos perdidos, e nosso esquema social, fadado ao fracasso. Imaginem a cena:

- Senhor Presidente, o que o pacote de reformas do Governo prevê para o próximo ano, caso o senhor seja eleito?
- Olha, eu adoraria dizer que tudo irá melhorar, mas a verdade é que o desemprego vai continuar igual, a violência só tende a aumentar e o meu bolso vai se encher de verdinhas.


Pronto. É revolução na certa. Poderíamos imaginar então que a verdade nesses momentos poderia beneficiar a muitos, não é? Mas, veja bem, estamos falando de honestidade total, sem limites e sem pudores. Passemos para a seguinte situação:

- Doutora, não sei mais o que faço... (choro)... minha vida não tem sentido! Meu marido me abandonou, meu filho é alcoolista, o banco tomou minha casa e descobri que peguei HPV... (choro) Por que ainda vivo? Talvez seja melhor me matar. É a única solução.
- De fato, Dona Fulana. Concordo plenamente. Sua vida é uma merda e seu marido sofreria bem menos se a senhora morresse. Pois você é uma pentelha e foi por isso que ele te largou. Seu filho bebe Zulu e deve ter poucos anos de vida. Seu tipo de HPV é cancerígeno, e a senhora também me deve R$500,00 das consultas do último mês. Também não vejo outra solução a não ser o suicídio. Por que a senhora não o faz saindo daqui? Conheço uma ponte ótima.

Como podemos perceber, a mentira é, por vezes, alternativa de necessidade máxima. E sem ela, muitas situações tomariam rumos inimagináveis.

- Senhor Sicrano, a reunião começou há 20 minutos! Pode me explicar seu atraso?
- Claro chefe, estava batendo punheta no banheiro do depósito.

Nós massacramos sentimentos, ocultamos fatos, inventamos tantos outros, damos tratos à bola e sambamos miudinho para amenizar situações e dourar pílulas fundamentais para a convivência pacífica dos membros de nossos grupos sociais, pra não citar a fraternidade entre os povos. Não nos esqueçamos que o diálogo, esse tão defendido elemento de qualquer relação entre duas ou mais pessoas, é construído sempre com base no bom senso, no jeitinho de falar, no escolher de palavras que, no final das contas, acaba fazendo toda diferença.

- Mas então, comissária, o vôo está previsto para que horas com este atraso?
- Há, só o senhor acha que vai embarcar. Conselho? Vai tomar um cházinho enquanto eu faço as unhas, a manicure está me esperando lá na sala da chefia.


É indiscutível a importância da diplomacia, da retórica, da oratória, e de outros tantos “caminhares” por cima de muros invisíveis, que nada mais são do que a censura interna se fazendo presente nas mais diferentes esferas de nossa sociedade. Já percebemos o quanto isso pode ser benéfico na política, prejudicial na psicoterapia, perturbador no plano laborativo. E o que dizer das relações amorosas?

- Você ainda me ama?
- Não sei. Quando você me chupa juro que te amo. Mas depois queria mais que você virasse uma pizza e uma cerveja. By the way, engravidei minha secretária.

Ou então:

- Puxa... quanto tempo não te vejo! Você está com uma cara boa!
- E seu abdômem está fantástico. Posso lamber?


E ainda:

- Então fico esperando você me ligar hoje a noite.
- Claro. Espera sentada. Você e esse seu bafo.


Desnecessário continuar. As consequências da Honestidade Total são previsíveis e tragicômicas. Caos nas escolas, nos hospitais, nas prefeituras (ah, as prefeituras!), nas famílias (“Você vai na casa da Cidinha?” – “Não mãe, estou indo buscar cocaína com o Juliano”), nas amizades (imaginem se a Mariazinha resolve dizer pra Joaninha que ela está um bucho de gorda?), nas empresas... e por aí vai. Os tribunais estariam extintos. Os vendedores ficariam pobres. O Bolsa-Família então nem existiria. A Igreja Católica viraria um circo. E o mundo viraria um grande hospício.

Nosso mundo atual depende da sábia arte de mascarar a realidade. De ocultar os fatos, de omitir dados. Sábio é aquele que transforma a verdade numa mentira muito bem contada, ou aquele que finge acreditar no que contaram a ele.

Poderia continuar aqui imaginando infinitas histórias nas quais a verdade seria, no mínimo, motivo de gargalhadas. Exemplos não faltariam. Mas deixo pra vocês a oportunidade de criarem, vocês mesmos, as mais inusitadas cenas mentais. É um exercício no mínimo surpreendente, pra não dizer extasiante!

Experimentem. Pois, se não trouxer diversão, ao menos suas próximas mentiras serão bem melhor contadas!

terça-feira, julho 17, 2007

Intruder_ Uma resposta

Pois é... como dizem por aí, tudo tem duas versões. Dois lados da moeda, ou, no mínimo uma boa justificativa.

Pois foi então que um grande amigo, tendo lido meu texto sobre a palhaçada masculina que acomete a vida de nós, belas donzelas, resolveu se manifestar, num texto algo agressivo, algo incômodo, mas, verdade seja dita, objetivo e bem esclarecedor.

Se satisfaz ou não nossas exigências, deixo para vocês concluírem. O manifesto, afinal, é dele e, sendo assim, um tanto particular. Não me cabe julgar.

Tenho cá minhas opiniões, minhas concordâncias e discordâncias. Mas isso é papo para outro texto, que, pelo visto, há de agradá-lo: este amigo é realmente chegado numa tréplica.

Incômodos à parte, é sempre válido saber uma versão diferente dos fatos.

Esta, em especial, me estarreceu. É mole?

Vejam vocês o que acham, a partir das palavras de meu colega, Eloi Goes Rigout.
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Outro dia li um texto, ou melhor, outro dia não, retifico, ontem li um texto que tratava sobre as diferenças entre o homem e a mulher. Um texto muito bem escrito e estudado, feito por uma dileta e antiga amiga. Manja aquelas de outros carnavais? Pois então, ela pegou a escrever o porquê de “nossas” incongruências. (Nota: escrevi nossas porque sou homem e dono do texto). Voltando, escrevia essa minha amiga sobre nossas incongruências, como se de fato fossemos nós (homens) a ter apreço pela contramão de tudo (risos).

Essa tal amiga não economizou palavras, fórmulas e explanações, nada. Inclusive, caso fosse eu um pouquinho de nada mais presunçoso e insolente diria até que ela estaria passando por algum tipo de problema com nós homens, mas, como não o sou, obviamente não farei tal comentário. O fato é que, durante alguns momentos da leitura cheguei até a quase acreditar que o problema está mesmo com a gente, vejam só que loucura a minha. Mas mesmo assim, mesmo após esse meu devaneio, segui lendo o texto até o fim, fascinado pela singular qualidade da narrativa de minha amiga.

Quando terminei, o primeiro instinto foi: essa mina bebeu... Fumou... Fudeu... E o segundo foi: Putz, a mina caiu na conversinha de um mané... Posterior a todos meus instintos, o último e, não menos sensato, foi de escrever alguma coisa, não motivado é claro por qualquer presunção de consentimento com o conteúdo do texto, muito pelo contrário. O fato foi que andava meio vagabundo da escrita e da redação; sem contar é claro o fato de saber que talvez esse meu texto gerasse uma tréplica... Hummm... Isso deveras encheu-me a boca d’água.

Diferentemente da minha dileta amiga, não farei uso de exemplos; nada contra, por favor, o fato é que tenho mais empatia pelas analogias e comparações. Também não tratarei de todos os pontos, ou pelo menos não tenciono fazê-lo.

Primeiramente darei atenção ao fato das nossas intenções e do porque de não ligarmos no dia seguinte. Veja bem, a questão das intenções é puramente subjetiva, por isso complexa, e oscila de homem pra homem. Via de regra, nossa intenção é de “gozar e raspar”. Não por prova de superioridade ou hierarquia, (mesmo porque não sou dado às redundâncias), mas sim por ser esta, de certa forma naturalmente, nossa natureza. O famoso “gozar e raspar” tem lá sua justificativa, por mais que esta seja incognoscível de vocês mulheres, mas a verdade é que existe sim um porquê; aliás, para tudo há um porquê, até para entender o fato de porque caralho vocês fazerem tanto doce.

Voltando, eu aprendi na vida que cada um vive o avesso do que faz, ou ainda, vive o reflexo do que os outros fazem. Isto é, o bom vive em meio ao que não é bom, e o ruim o oposto. Ao justo é-lhe dado não mais que mais injustiças todos os dias, e ao injusto, bom, está cheio de exemplos por aí, e assim vai. Onde eu quis chegar é: existe um enorme contra-senso entre tudo o que nos acontece. As mulheres de boa intenção, que não fazem tanto doce, que atendem as nossas ligações no dia seguinte, que dizem a verdade, que passam o telefone certo depois de catá-las na balada, que não forjam estarem gozando, enfim, as que são deveras o que falam, a essas são dadas apenas o avesso do que fazem, ou seja, esta pobre mulher nunca, ou pelo menos não tão-logo, encontrará uma pessoa compatível ou que corresponda de forma equivalente ao que ela é.

Com efeito, é nessa incongruência que somos forjados, que somos lapidados. Quem, por exemplo, que está lendo esse texto agora desconhece o poder e a influência que as mulheres têm? Principal-e-tão-somente nessa área de relações. Eu acredito que o que falta é vocês mulheres acordarem para o que fazem, e mais ainda, acordarem para a repercussão que suas atitudes causam (ou as suas ou a de suas compatriotas). Ora, quem se não vocês ditam as regras na hora da sedução? Quem se não vocês dizem se querem ou se não querem? Dizem de que forma vai ser? Dizem onde vai ser, se rápido ou devagar, se tudo ou só a cabecinha (risos). Porraaaa... Vês?!? Foram vocês que nos ensinaram a não ligar no dia seguinte, a queremos “gozar e raspar”, a mentirmos sobre nossa intenção para que vocês a aceitassem... Tudo o que fazemos nos foi ensinado por vocês. TUDO!

Agora, infligir a nós a culpa de um erro/falha que não é nosso, isso é intolerável e mais, é inadmissível. Por que teríamos nós que arcar com a contrariedade de vocês? NÃO!! De forma alguma. Ema, ema, ema... Isso não é de competência nossa, ou se é, cabe-nos alegar suspeição.

Agora, um ponto que devo concordar é quanto aos nossos “atrasinhos”. O que sem martírio é algo até supérfluo a meu ver, mas mesmo assim eu concordo que às vezes pegamos pesado. As que não quiserem entender dessa forma, ou não enxergarem esta linha de raciocínio, pensem então que seja algo como pena por um crime futuro, e presente, é claro. Em que sentido, o presente pela demora em escolher roupas, brincos, meia, sapatos, calcinha, (uiiiiiii...) calça, etc. E o futuro por acharem bonito nos deixar esperando de pé no altar por sabe-se lá quanto tempo, passando um calor filho da puta. Bom, mas como disse, isso é futuro.

Hoje em especial estou me sentindo meio perdido, no concernente a não saber por qual motivo a suspeita de que meu texto não ficou como de costume. Acho que me perdi ou que desviei o tema, não sei. Talvez seja porque o texto que li ontem já não esteja tão fresco na minha cabeça. Não sei, sei apenas que me desculpo por qualquer complexidade, ou por qualquer falta de nexo, confesso que não tive a intenção. Ahh, peço escusas também por não dar o remate apimentado que me caracteriza - sei que este é muito importante, mas pensando bem, depois de gozar as coisas perdem um pouco a importância primária...

quinta-feira, julho 05, 2007

Tudo Igual

Todos nós conhecemos a velha máxima: homem é tudo igual!

Eu sempre fui contrária a esta afirmação: como poderiam os homens serem todos iguais? Como alguém poderia ser igual a outra pessoa? Não, não, algo só podia estar errado, cada um é cada um!


Até que resolvi parar e observar os comportamentos masculinos. Aliás gente, desculpa, é que agora tudo pra mim é comportamento, vocês já devem ter reparado, né? Bom, voltando, comecei a perceber sim alguns fatores em comum a estes seres mais do que manjados: homens, vocês vão me desculpar, mas não é que vocês são realmente cara de um, focinho do outro?

Os homens são objetivos, simplistas e, em se tratando de perceber o outro, parecem muitas vezes possuir a profundidade de uma colher de chá. Mal sabem a hora de chegar e se adiantam demais na hora de sair, e muitas vezes, enquanto de fato ainda estão, parecem não estar. Sensibilidade, mesmo que mínima, parece não ser seu forte.

Parece que no cérebro masculino faltam algumas conexões sinápticas referentes ao tema “A Importância de um Telefonema”. Este é um exemplo claro - juro, não consigo entender como esses seres do sexo masculino não percebem alguns pontinhos básicos, como:

1) a importância de ligar no dia seguinte (caso queiram alguma coisa a mais, claro);
2) a importância de ligar caso esteja atrasado mais do que 30 minutos;
3) a importância de saber ouvir no telefone;
4) a importância de saber falar no telefone mais do que as cinco clássicas palavras: “tá livre hoje à noite?”;
5) a importância de realmente ligar quando dizem que vão ligar;

Penso em qual será a dificuldade dos homens em usar sua tão valiosa objetividade em algumas situações especificamente importantes: se é só uma trepada, que fique claro. Se pretendem aparecer com outra, não chamem outras senhoritas para sair dois dias antes, caso estas últimas corram o risco de ver O Grande Encontro. E, por favor, dizer que não vai dar para encontrá-la agora, mas que qualquer coisa acorda no meio da noite para “fazer alguma” é no mínimo ultrajante.

Parecem igualmente faltar noções básicas de linguagem: dizer “sair hoje à noite” não pode, em instância alguma, significar ao mesmo tempo “só vou te procurar no fim de semana”. A expressão “hoje à noite” implica numa delimitação concreta de tempo e espaço (hoje à noite é hoje à noite, e em pleno meio de semana não é fim de semana), e não há exceção semântica ou sintática que fuja à esta regra. E falar com voz de coitado no telefone ao perceber o vacilo já não amolece mulher nenhuma que esteja minimamente zangada – fazer isso é cagar e sentar em cima.

Um atraso de 15 minutos, no máximo 30, é totalmente tolerável, o que é bem diferente de um atraso de duas horas e meia não avisado anteriormente, seja por ter ido na casa da tia, seja por ter ficado preso numa partidinha de bilhar. Não há pretexto que sirva para justificar a falta de aviso sobre o atraso. Isso é falta de educação, ou no mínimo, desinteresse (e se for assim, como já disse antes, por que não deixar beeem claro?). Chamar a melhor amiga da ex-namorada para sair também não é bacana, mas parece que os homens acham que é. E, vejam bem, dizer que a menina é “gostosa pra cacete” significa apenas que ela é gostosa pra cacete: não é demonstração de afeto.

O mesmo vale para convites para dormir juntos 15 dias após a última vez que se viram e se falaram, especialmente se esta última vez foi a primeira em que vocês dormiram juntos – sem a ligação no dia seguinte, é claro. Não há o que justifique, de semana de provas a doenças infecto-contagiosas: além de ser cara-de-pau, demonstra falta de consideração. E isso também vale para quando eles adoram dizer que você está sumida, sendo que ficaram de te procurar há mais de um mês. Mais ainda: se disseram que estão envolvidos por outra pessoa, e isso significar dar um pé na bunda da atual, nada de procurar esta mesma quando terminar o namoro-relâmpago: existe aí um tempo mínimo de “preservação do próprio filme” de pelo menos 15 dias pra não parecerem pobres machos desesperados. Chega a ser patético.

Contar pros amigos detalhes sórdidos da última transa com a gatinha é totalmente normal (quem disse que não fazemos o mesmo?), mas se existir a mínima possibilidade de isso chegar nos ouvidos da gatinha em questão, pega mal pacas. E esse é um cuidado que, infelizmente, os homens não têm muito.

Dizer que pensa em ter algo sério com a mocinha, e depois de 1 semana falar que era “coisa de momento” é a atitude que mais denigre os homens, que depois não entendem porque são chamados de volúveis. Honestamente, melhor se calar do que falar baboseiras em nossos lindos ouvidinhos. Também é melhor poupar saliva antes de convidar a moça prum ménage-a-trois sem saber se esta fruta cabe na geladeira dela – corre-se o sério risco de ouvir uns palavrões.

Homens, por favor: parem de subestimar nossa inteligência dando desculpas esfarrapadas após perceberem que vacilaram. Parem de achar que suas justificativas são excelentes: não nos convence mais. E por favor, parem de fazer vozinha de nenê no telefone tentando ganhar nossa simpatia. Não funciona.

Se esperam que sejamos menos frageizinhas, menos desconfiadas e menos encanadas, façam um favor a vocês mesmos e parem de cagar em nossas cabeças com seus tão costumeiros comportamentos infantis: sejam homens de verdade.

Homem?

Bah... TUDO igual.


PS: O texto acima não é obra de ficção, e foi elaborado com base em depoimentos e fatos reais. Qualquer semelhança com personagens ou eventos verdadeiros, infelizmente, não é mera coincidência.

domingo, julho 01, 2007

Wow! _ Esse tal de kitesurf

Foto: Miler Morais - Ilhabela SP


“Kitesurf, brother, o esporte do futuro!”

Eu lembro quando ouvi essa frase pela primeira vez, saída da boca de uma grande amiga. Ela também tinha ouvido da boca de outra pessoa, lá no sul, numa viagem que fizera.

Eu nem sabia o que era kitesurf, acho que ela também não. De repente, não se falava em outra coisa - virou moda, virou tendência. Se antes era in ser do clubinho do windsurf lá na Ilha, de um minuto pro outro isso ficou ultrapassado. A pipa era a nova estrela do velejo.

A primeira vez que eu vi uma no céu, estranhei e pensei comigo mesma, “se é uma pipa cadê as varetas, a rabiola? Onde passa o cerol?” Pra mim pipa era isso. Mas não, essa pipa era diferente, tinha fio e ia no vento, mas lá debaixo era controlada no mar.

Virou febre, abriram-se vagas pra ter aula na BL3; mudaram-se os instrutores, os que eram de wind viraram de kite. Eu via aquilo tudo rolar, achava o maior barato aquela mistura de surf com wind com wake, batia uma vontade, mas não ousava arriscar. Ainda tinha ciúmes pelo windsurf, que sempre quis aprender e nunca consegui.

Cada dia eu via mais e mais kites no mar, a molecada da Armação trazia uns da Naish quando ainda eram de 2 fios... o negócio saía voando que nem avião, perdiam-se pipas e pranchas, e eu só acompanhando do fundo da praia, sentada embaixo do meu pé de goiaba, dando risada de tudo.

No começo do ano, me aproximei mais da tribo desse tal de kitesurf, conheci instrutores, cheguei a sair com um por algum tempo (ufa, o homem mais lindo e mais misterioso que já conheci), fiz amizade com o pessoal da escola. E o kite lá, todo enrolado, só me olhando. Eu olhava, ele me olhava, ah não, amor, hoje não, tô com dor de cabeça... sacumé?

No carnaval resolvi cair de cabeça no Laser, apaixonei pelo negócio, que sensação... antes achava que devia ser meio monótono, de repente descobri adrenalina pura ao pegar cada rajada que só vendo... caça a vela, empurra o leme, é hora de dar o jibe, putz, o barco virou... tem nada não, pendura na quilha (opa, segura o biquini!), tá, pronto, atrás da rajada de novo, arribando bem na linha do vento... T-E-S-Ã-O!

Quando foi lá por abril, resolvi parar de manha e arrisquei perguntar prum amigo quanto custava a hora do kite, quase tive um infarto e desisti de novo. Semanas depois, arrisquei de novo pedir pro mesmo amigo, com toda cara-de-pau do mundo, se ele não me daria umas aulas grátis, assim, no tempo livre, sabe, de leve, só pra sentir a tensão nos fios e nas veias... Bingo, consegui! Aulas de kite de graça, toda sexta-feira, com o pioneiro do kite na Ilhabela. Perfect, brother, é o esporte do futuro, lá vou eu então!

Semana após semana ligava pro cara, “Tá ventando hoje? Posso descer e chegar na praia às 4 da tarde!” e a resposta foi a mesma, por 4 finais de semana seguidos... “Putz, hoje tá ruim, gata, não passou de 2 nós até agora e não tem previsão nenhuma...” Ah, droga... sério? Beleza, fim de semana que vem eu ligo de novo... Semana após semana, o vento não colaborou... cheguei a conferir na grade de vento do site da escola, pior que era verdade... vento de 2, rajada de 4 nós, no máximo... pra kite precisa de quanto mesmo? Ah, 8 né... droga...

Meu futuro instrutor zarpou pro Havaí, meu amigo que poderia me dar uma força estava de joelho machucado... então deitei na areia e resolvi pegar um sol apenas... praia cheia, feriadão rolando, então vamos no bronze, fazer o que? E eis que descubro que o cara com quem tinha conversado rapidinho um dia antes era instrutor de kitesurf. Aliás, instrutor não, O INSTRUTOR. Tanto que se mandou pra Jericoacoara, onde o vento dá de 10 em Ilhabela, e resolveu só passar a temporada de chuvas na nossa bela Ilha.

De repente, do nada, “E aí, tá afim de cair no mar? Tô com o kite dentro do barco, você sente o negócio, se curtir amanhã tu faz uma aula por um preço baratinho.” Analisei a situação: sairia por um terço da grana que gastaria na escola. Olhei lá pra fora, lá nas Canas, o vento era de Leste, soprando forte, ou como dizem na BL, dia de Slalom e Velinha! Demorou, radical, vambora!

Lycra descolada de última hora, brincos na bolsa, vamos nessa, o que eu faço com isso aqui?? Calma, lá fora eu te explico, entra no barco! Uuuuuuuu... hul!!! Kitesurf, brother, esporte do futuro, e eu tô indo pra lá! Tá frio, ah, que se dane, na água esquenta!

Fiquei 1h30 no mar, agarrada nas costas do Pedrinho (sem palavras pra agradecer!), fazendo com a pipa um 8 no céu... esquerda, direita, sentiu a pressão? Porra se senti! Agora vou te deixar sozinha, prende aqui o kite no trapézio... Não, não, não gira a barra, putz!... já era... SPLASH!, foi o kite pro mar... nada não, é assim mesmo, decola a pipa, sentiu a pressão? Não deixa sair da janela, força no abdômem, maravilha!!!

Depois de 1h30 de explicações teóricas e complexas, lá estava eu, com a pipa firme nas mãos, no total e absoluto controle do seu bailar naquele vento forte, de quase 15 nós, às 6 horas da tarde, com o sol já indo embora. A pipa voava, me arrastava, o fio retesava na barra, e eu ia de um lado pro outro, ora orçando em zigue-zague, ora arribando com força total. O frio fazia os dentes baterem, a garganta doía, os lábios já estavam azuis, mas quem ali se importava? De repente, putz, ‘cabou, o sol foi embora, o gancho estourou, vamos ter que voltar... ahhh, sério? Outra aula amanhã? Fechado, duas da tarde!

Naquele dia até sonhei com o negócio. Nunca imaginei sentir algo parecido, nem nunca tinha percebido a força da natureza nessa magnitude... o vento me conduzindo, a pipa dançando no céu, eu dançando na água, em perfeita harmonia. Loucura total, estava na fissura pra sentir aquilo de novo.

No dia seguinte não tinha vento.

Nem nos próximos 15 dias o vento foi bom prá mim. Pedrinho se mandou pra Jeri de novo, o outro viajou e só volta no fim do ano. E meu velejo... ih, ‘cabou pra mim...

Continuo à procura de algum instrutor, que possa se condoer de minha condição financeira e me levar novamente pro mar, pra sentir tudo aquilo de novo. Mágico, fantástico, orgásmico. Inexplicável.

E eu até posso esperar o fim do ano, ou ir pra Jeri como sugeriu Pedrinho. Porque o negócio, olha, o negócio é bom. E se é o esporte do futuro, ah, o futuro, então é pra lá que eu vou! E como diz o Scheidt... e se perder o leme, não perca o rumo!

Kitesurf, brother...

sexta-feira, junho 29, 2007

Mau exemplo


Estava tranquilamente parada no semáforo do cruzamento da Lins com a Veiga Filho, pensando na morte da bezerra, quando ouço uma mãe falando pra filhinha, de mais ou menos 5 anos de idade:

- Assim você dá mau exemplo pro teu irmão e pros teus amigos. Que feio, filha...

Cheguei em casa e botei um som animado, pra evaporar o bode gostosinho deixado pela drenagem linfática feita minutos antes (sim, resolvi fazer alguma coisa em relação às celulites!). Escolhi Alice Cooper, No More Mr. Nice Guy, e tentei fazer a cabeça pegar no tranco, pra quem sabe conseguir dar uma olhada nos relatórios finais dos meus pacientes, pesquisar minha monografia e mais tarde encarar meu amado kickboxing.

Mas eis que, embalada pela letra da música, me peguei pensando no comentário ouvido naquele cruzamento... mau exemplo... mau exemplo.


“… I got no friends 'cause they read the papers
They can't be seen with me
And I'm getting real´ shot down
And I'm feeling mean”


De repente pensei, caralho, acho que sou um mau exemplo clássico. Fiquei matutando sobre meus comportamentos, e sobre o que isso deve sucitar nas pessoas ao meu redor.

Eu fumo, eu bebo, eu falo de boca cheia. Palavrão então é música para meus ouvidos, a cada frase solto meia dúzia de porras. Meu linguajar (como já dizia minha mãe) muitas vezes é chulo, pra não dizer de baixo calão. Falo obscenidades como quem dita receita de bolo, sem pudor nenhum.

Já tomei dezenas de porres, menti e omiti em várias ocasiões, saio pra jantar e me mato de comer, às vezes “esqueço” de ligar prum paciente meio mala pra confirmar a sessão, torcendo pra ele não ir. E comemoro quando de fato não vai!

Falo mal da minha chefe pra própria secretária dela (que, veja bem, concorda comigo todas as vezes), acabo com o cafezinho do setor de Psicologia, bocejo meio alto em plena reunião clínica, às vezes faço piada com o problema dos outros. Minhas calças são quase sempre rasgadas na barra, não uso protetor solar como deveria, gasto os tubos em itens desnecessários.


“No more Mister Nice Guy
No more Mister Clean
No more Mister Nice Guy
They say he's sick , he's obscene”


Não contente, ainda não faço questão alguma de esconder tudo isso; pelo contrário, conto pros outros e ainda declaro: faço mesmo, e daí?

Naqueles segundos em que tudo isso passou pela minha cabeça, fiquei realmente encanada. “Que feio, filha!” Nossa, que feio, Nana... que exemplo você dá pros outros? Tive medo de perder meus amigos. De ser uma vergonha para minha mãe. “Puta merda, fodeu, minha mãe deve ficar sem graça quando falo “fodeu” na frente do namorado dela!” Ai... Fiquei absolutamente na nóia de ser considerada puramente obscena. Lembrei de quando falo por aí que mandioca é as duas melhores coisas da vida... Putz, que vergonha! Será que eu deveria ser mais puritana? Mais moralista? Mais certinha? Usar cor-de-rosa? Ouvir Spice Girls?? Afinal, que tipo de exemplo serei pros meus filhos? “A minha mãe é toda tatuada, tem piercing, fala palavrão, buzina do trânsito e arrota que nem meu pai, ‘fessora, por que eu não posso fazer igual?” Caralho, que peso na consciência... Culpada, de todas as acusações!

A música parou, eu acendi um cigarro, e aí me lembrei.

Lembrei que já fui a maior noinha da turma, e que hoje sou a mais careta de todas. Lembrei que a despeito de fumar, nunca largo minhas bitucas na areia, e a despeito de comer que nem um homem, vivo incentivando meus amigos a fazerem exercício comigo. Também não faço xixi na piscina, apesar de já ter feito. Lembrei que tomo dois copos de água assim que acordo, e que apesar do paciente mala ser relegado pra segundo plano às vezes, quando ele vai, o trato com o maior profissionalismo. Aliás, lembrei do quanto me dedico a TODOS meus pacientes, dos malas aos fofos. Lembrei que não jogo lixo pela janela. Lembrei que faço caridade e dôo mensalmente (tá bom, a cada dois meses, vai...) dinheiro pruma criancinha HIV+ lá no Taboão da Serra. Lembrei do quanto às vezes meu ouvido é penico e eu fico quieta só pra não ser indelicada.

Olhei minhas calças rasgadinhas, mas todas bonitinhas e lavadas. Acabo com o cafezinho sim, mas faço a maior sala pra secretária (e pra chefe também!) quando elas são as primeiras a chegar no hospital. Sou pontual e nunca deixo ninguém esperando, e sempre devolvo o que pego emprestado. E olha, apesar de falar palavrão, costumo falar baixo e pausadamente.

Mau exemplo?! Ah, pro inferno com o falso moralismo! Afinal, o que é ser bom exemplo nos dias de hoje? Me dá um, apenas UM exemplo muito bom, que eu assino minha penitência agora mesmo!

Mandioca é sim as duas melhores coisas da vida, um bom “fodeu” é o que às vezes melhor expressa uma situação, e eu como bastante mesmo porque malho pra chuchu!

Quer saber? Essa sou eu! E quem não curtir que se foda!

Ops...

quarta-feira, junho 27, 2007

Body, for sure!

Por um minuto apenas, parei de pensar tanto na mente e parei pra observar um pouco o corpo. O corpo, a matéria, o que nos conduz concretamente aonde queremos chegar. Da maneira que queremos chegar.






Fala-se tanto do poder do pensamento, do potencial criativo de nossas mentes, da importância de nossas tão frequentes distorções cognitivas (ah, essas eu conheço bem!), do quanto nossa cabeça pode produzir o bem e o mal, que se esquece daquele que tão comumente padece sob a complexidade enorme de nossas crenças e formas de pensar.

O corpo somente é lembrado quando adoece, ou quando não se enquadra no estereótipo tão rígido construído pela nossa sociedade com o passar dos tempos. Então reclamamos.

Parei pra olhar o meu corpo. O que ele diz sobre mim? O que minhas desordens orgânicas traduzem sobre a minha pessoa? Que sinais carrego ao longo dos anos que fazem de mim justamente quem sou?

Olho meus olhos. Uma miopia galopante quase os cega. Não é exagero, carrego 8 insuportáveis graus de miopia em cada um deles. É verdade que são verdes, minha cor favorita, mas são olhos deficientes, assim como meus olhos internos, que teimam em enxergar tudo sempre meio borrado, meio distorcido. São olhos que vêem somente aquilo que conseguem. Limitados. Literal e simbolicamente, parece que tenho uma visão curta das coisas, quando estas dizem respeito a mim ou ao meu redor.

O que dizer então do meu nariz? Vive entupido. Vive sempre a fungar, obra de uma rinite alérgica crônica, que me acompanha já há alguns anos, e que sempre foi o primeiro pretexto escolhido quando era pega chorando. Chorando? Nããão, rinite! Ah tá... O nariz entupido dificulta minha respiração, a deixa mais curta... ansiedade?

Minha boca nunca teve aquela curvinha no lábio superior, nunca teve formato de coração. São lábios grossos, e a falta desta curvinha às vezes deixa meu semblante um pouco duro. Em conjunto com as sobrancelhas, sempre franzidas, completam um visual quase que intrigado, como se um ponto de interrogação pairasse sobre minha cabeça. Desconfiada? Sim, sempre... Isso sem contar o bruxismo, que deixou meus dentes do fundo bem desgastados com tamanho atrito. Sim, estou em constante estado de tensão, de alerta... e meu sono nem sempre é tranquilo.

Hoje já percebo algumas rugas no rosto, apesar de ter apenas 24 anos. Tão jovem! Mas acolho estas rugas como sinais de uma vida de glórias: tenho marcas de expressão na testa, na lateral dos lábios, alguns pés de galinha também hoje podem ser vistos. Resultado de sempre ter feito caras e bocas, e de sempre ter rido, mas rido muito, rido de doer as bochechas, que também sempre foram grandinhas. Rugas, marcas do quanto de alegria ou tristeza carregamos.

Meus ombros são cobertos por sardas e pintinhas, algumas mais claras, outras bem escuras. Ai, que me arrependo de não ter usado protetor solar como mamãe me ensinou! Dá pra ver que a pele dos ombros está um pouco castigada... sempre tomei sol demais, e sempre passei hidratante de menos. São ombros de quem viveu com o mundo, e o sol, nas costas, sem medo. Medo de menos.

Minhas mãos são tortinhas, os dedos um pouco calejados do judô, de tanto agarrar kimonos. Da mesma forma, procuro agarrar com força as oportunidades da vida, mesmo que às vezes elas sejam doloridas. Também tenho alguns machucados constantes em minhas mãos, frutos do kickboxing praticado religiosamente todas as terças e quintas. Tantos socos acabam deixando a pele um pouco endurecida... Coitadas das minhas mãos... anos atrás tive um problema sério nas unhas. Elas pararam de crescer, sangravam as cutículas... e depois de passar por 5 dermatologistas, acabei fazendo terapia. Após 3 anos, as unhas voltaram a crescer, estão bonitas e sempre cuidadas. É... acho que precisava mesmo botar as garras pra fora em algumas circunstâncias, treinar minha agressividade, e prestar mais atenção à minha feminilidade um pouco escondida depois de anos de insegurança.

Nunca tive seios grandes, o que me trazia um pouco de vergonha na época do colégio. Ainda hoje uso sutiãs com bojo, mas bem pouquinho, só pra dar uma graça. Reclamava que só. Hoje gosto deles. São proporcionais ao tamanho da minha potencial maternidade: um dia poderão crescer e alimentar aquele de mim sairá, sem peso adicional nenhum.

Tenho uma cicatriz na barriga, não muito grande, mas um pouco funda, mal-feita. Resultado de uma apendicite aos 7 anos de idade. Dizem que o apêndice não passa disso: um apêndice, sem função nenhuma. Talvez um dia, em nossa escala evolutiva, tenha servido pra algo, mas hoje, necas: arrancaram-no fora. Hoje também me vejo retirando apêndices desnecessários da minha vida, que só servem para inflamar e me deixar de cama. Para fora com o trivial, mesmo que deixe marcas! Gosto da minha cicatriz. Não deixei que tatuassem por cima. Cobrir o que? Ela já faz parte de mim. Uma tatuagem natural.

Quadris e coxas largos, tenho desde pequena. Me levaram a muitos lugares, me salvaram de tombos homéricos! Minhas pernas fortes me permitiram correr quando isso foi necessário, e doeram quando me excedi. Hoje confio de que sempre me levarão mais longe: elas aguentam.

Tenho os joelhos um pouco estragados, dóem quando faz muito frio, ou quando vai virar o tempo. Um termômetro natural, um preditor do tempo. Gosto deles. São tortinhos e com algumas cicatrizes, mas são meus. Tenho um amigo, 18 anos apenas... um problema sério no joelho está causado atrofia de sua perna direita. 18 anos! Apenas 18! Sabe... amo meus joelhos, mesmo não tendo motivo algum.

Sempre odiei pés, acabei tatuando o meu pra amá-lo um tiquinho, acabei por venerá-lo. É a tatuagem que mais gosto, que mais gosto de mostrar. Ela diz: Conhece-te a ti mesmo! E sinto que meus pés me conduzem aos locais onde mais me encontro, onde mais acabo conhecendo de mim mesma. Nosce te ipsum, conhece-te a ti mesmo, e a teus pés também.

Sei que apontei aqui punhados de defeitos físicos. Não tenho a intenção de parecer ingrata, sou muito abençoada por ter saúde. Claro que sempre vamos encontrar defeitos... é a barriga que não é lisinha, um pouco de celulite na bunda... mas ora, convenhamos, existe coisa mais feminina do que celulite?? Que se dane a celulite das pernas, amo ter pernas! Alguém aí já parou pra pensar em como é bom ter pernas?? Ou em como é a vida de alguém amputado? Deus... reclamamos tanto, sem pararmos pra pensar em como nosso corpo é sagrado.

Ficamos com preguiça de levantarmos a bunda da cadeira; maltratamos a nós mesmos entupindo nossas veias de gordura, nossos pulmões de fumaça, nosso cérebro com drogas devastadoras... algumas vezes nossos braços servem apenas para levar o cigarro ou a cerveja à boca. Puxa... e quando os braços doerem? E quando uma artrite impedir que tenhamos força nos punhos? Perderemos então também nossa força de vida?

Quando os músculos ficarem frágeis, quando levantar ficar difícil... desistiremos da luta? Quando nossos cabelos ficarem grisalhos... nos entregaremos à velhice? Perderemos também o colorido da vida? E quando nossos corações falharem... nossa capacidade de amar será prejudicada?

Hoje eu resolvi me amar... e amar meu corpo mesmo ele tendo tantos defeitinhos, tantos probleminhas que, na visão do todo, se tornam tão irrelevantes.

Hoje eu decidi parar de reclamar da minha bunda, e cuidar do meu instrumento de vida. Dizem por aí: Mens Sana, Corpore Sano. Verdade. Mas sem nosso corpo, nosso santuário, a nossa mente também se torna prisioneira.

Porque hoje, e pelo menos por hoje, eu resolvi gostar da minha bunda, dos meus peitos, dos meus olhinhos míopes e até da minha orelha.

Porque meu coração ainda bate, meu corpo ainda se move, meu sangue corre quente nas minhas veias, e isso, pelo menos por hoje, é tudo do que preciso para ser feliz.

domingo, junho 24, 2007

Fuga de Idéias*

Não, eu cansei de pensar por que as coisas mais belas são sempre mais tristes, cansei de questionar meu sentido no mundo, parei. Parei pra te ver e pouco ser vista, queria me esconder e acabei me mostrando, o porquê desta exposição eu ainda não descobri.

Não, eu parei pra ler um punhado de folhas e quase assustei, tinha deixado um recado que nunca foi pego. Amolei minhas facas e me preparei para a noite, quando fui ver já era de dia e ninguém apareceu. E eu perdi o sentido das coisas.

Não, eu não fui tudo aquilo. Eu aceitei o convite e nunca apareci, soltei meus grampos e os cabelos se foram, assim, num passe de mágica. Me senti nua apesar de tanto pano, neguei seus óculos, vi o que eu vi. Não liguei de volta porque não quis. Pro inferno com a decência.

Não, eu fumei por ansiedade, também por felicidade, mas quer saber? Nunca fui honesta. Meus segredos sempre foram maiores do que minha capacidade de guardá-los, escancarei pro mundo sua violação. Eu quase me matei, faltou covardia, sobrou perdão.

Não, você não foi bem-vindo, mas agora pode ser. Eu disse que odeio, mas a verdade é que amo, eu sorrio com vergonha pra me obrigar a chorar. Ah, que se as coisas mais belas forem sempre as mais tristes tiro uma foto desse exato instante, pra depois queimá-la no fogo frio do meu ressentimento.

Não, a verdade não faltou, eu gritei de dor mas também por prazer, eu disse que foi bom mas nem tanto assim. Eu brinquei com seus atos, cuspi nos seus pratos, ri com escárnio da sua sensibilidade tão pueril. Eu zombei de tudo naquele dia, ainda espalhei por aí que nunca quis de verdade. Moral nunca foi meu forte.

Não, eu não vim pra brincar, nem vim a passeio, vim pra te dizer que quanto mais você ficar, mais desinteressante você vai se tornar. E por isso eu fujo, corro, me isento. De todas as responsabilidades pelos meus atos, que se foda a consciência, bom mesmo é ser ignorante. Faz isso você também.

Não, esse não é só mais um texto, é uma fúria velada entre nós, uma carne queimando no forno, um grito de garganta apertada, uma fumaça que sai de um incenso. Uma pedra e a janela quebrada.

Como veio, vai. Absolutamente descartável.

E não, não é com você.

Só catarse.
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*Fuga de idéias: “... uma alteração da estrutura do pensamento secundária à uma acentuada aceleração do mesmo, na qual uma idéia se segue à outra de forma extremamente rápida, perturbando-se as associações lógicas entre os juízos e conceitos...” Dalgalarrondo, 2000.

quarta-feira, junho 20, 2007

Play Game



- Então, qual é o problema?
- O problema... o problema, doutora, é que eu não consigo parar.
- Hm... parar de que?
- Parar de jogar, doutora. Sou jogador compulsivo.

(Puta merda. Bem agora? Que eu resolvi parar de jogar os meus próprios joguinhos doentios na minha vida?)

- Hm... e há quanto tempo o senhor joga, seu... hm, seu Silas?
- Começou 5 anos atrás. E eu perdi tudo o que tinha.

(Entendi...)

- Sei... e com que frequência você jogava, seu Silas?
- Todo dia, o tempo todo. Você não imagina como é horrível, doutora. Você aposta, perde tudo. Não aguenta o fracasso, aposta mais ainda, ganha metade do que já perdeu. Não se contenta, aposta tudo o que tem. Sempre acha que da próxima vez vai dar certo. E acaba sempre sem nada.
- Posso imaginar... hm... o que você disse por último?
- Que você acaba sempre sem nada. Não você, doutora, eu!

(Não você, seu Silas, EU!)

- E seu Silas, me conta, você continua jogando?
- Sabe que é estranho doutora? Olha que loucura. Apostei com meu irmão que ia parar de jogar. E ganhei, porque não joguei mais mesmo. 2 semanas já. Mas de lá pra cá, vivo apostando com ele que consigo ficar sem jogar.
- ...?
- Isso não seria continuar jogando?

(Ouch! Fatality. You win. I lost. Game Over.)

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Silas Tadeu Andrade*, 39 anos, jogador patológico. Baixo controle de impulsos. Auxílio psicoterápico necessário.

BUM.

Carimbo meu nome e registro profissional.
E, com vergonha, assino meu nome logo abaixo.

Eu, jogadora profissional.



*Nome fictício.

segunda-feira, junho 18, 2007

New Outfit - Iéé!

Obrigada ao Gravata pelo novo figurino do meu cantinho!
De roupagem nova... de cabeça nova!

domingo, junho 17, 2007

Diálogo¬¬ espelho, espelho meu




- Descobri que eu quero!

- Quer o que?

- Sei lá, só sei que quero, e quero agora. Me dá. Quero qualquer coisa que preencha esse buraco aqui, ó.

- Buraco do Miocárdio? Há! Vai esperando, minha filha. Aliás, espera sentada. E sozinha, porque contigo eu não vou esperar não.

- Quanto descaso... Tô ficando magoada com você, já faz anos que você me larga sozinha. É só cobrança, porra. É só tabefe. Você quer que eu chore e dê daqueles ataques? Cê sabe né? São dias na cama, ouvindo Wallflowers, fazendo biquinho e chorando não só as pitangas, mas a pitangueira inteira...

- Vira essa boca pra lá!...

- E ainda tem a voz de enterro, a falta de maquiagem e a cara de cu.

- Falei pra virar a boca pra lá. Além de burra é surda?

- Tô avisando pra depois dizer que não falei. Aliás, você é bem arrogante, sabe disso? Tá achando aí que não precisa de mim, que sabe das coisas, que sabe o que é bom, que é madura e muito esperta. Cê por um acaso sabe o que eu já passei?

- Ih, lá vem...

- Fui acostumada a ser bem tratada, viu, ô carrasca? Sempre do bom e do melhor. Tô acostumada com pessoas decentes, honestas e respeitosas, e não simpatizo nem um pouco com essa sua forma amarga de ser.

-Amarga, eu? Queridinha, tá na hora de acordar. Você acha que o mundo vai esperar suas crises? Sua auto-piedade? Sua indignação contra, ui!, as maldades do mundo e sobre como as pessoas são desonestas? O mundo é dos espertos, minha filha, só você que ainda tá nessas...

-E você também tá bem nessas, todo esse papo de “let´s talk, let´s taaaalk”, que saco! Já parou um pouquinho pra sentir as coisas?

-Não tenho tempo pra isso. Ou agiliza ou perde o bonde, dondoca. Tá achando que é brincadeira? Bora olhar pra realidade? Vamos parar de esperar dos outros aquilo que você faria, ou vai continuar assim, comendo o dia inteiro pra ajudar a engolir o sapo?
_____________________________________

- To me sentindo tão sozinha, sabia?

- Pois arruma logo um gostosão pra se divertir que tudo melhora.

- Lá vem você de novo com essa síndrome da mulher independente. Qual o problema de me dar um colo?

- O problema é que te dou um colo e você logo deita e pede massagem. Não tô aqui pra isso, minha querida. Sou inteligente, bonita, gostosa e não aceito essa auto-comiseração, cada vez que você faz isso dá vontade de te bater.

- É bonita, gostosa e inteligente e vive se enganando que tua vida tá fácil. Tá fácil aonde? Você posa de gostosa mas parece uma puta! E uma puta calculista e sem sentimentos. Tem vontade de me bater porque na verdade me ama e não aguenta me ver assim. Pensa que eu não te escuto de noite chorando com saudade de mim? Tá querendo enganar a quem?

- ...

- E não me diga que é a porra da rinite não! Porque eu sei que você chora por que sabe que de tão fraca, tem que se fazer de forte. Porque ninguém pode saber o que se passa, muito menos te ver em minha companhia. Porque você se culpa todo dia por demonstrar uma mentira. Porque tem medo do que vão falar se virem seu rímel borrado. Porque sabe que é muito mais parecida comigo do que você se permite acreditar.

- ...

- Não limpa os olhos não, que eles são o espelho da alma. Não sufoca não, que aí você tem gastrite e quem se ferra sou eu. Tira os grampos e a maquiagem, que você é bonita assim mesmo. Ou você reconhece que me ama ou vamos brigar até o fim.

- ...

- E o meu abraço?

- ... vem cá, porra.

- Te amo, mas pega leve, viu?

- Também te amo, queridinha, mas vê se cresce.

quarta-feira, junho 13, 2007

Tears of the Dragon

"I throw myself into the sea
Release the wave, let it wash over me
To face the fear, I once believed
The tears of the dragon, for you and for me
My emotions frozen in an icy lake
I couldn't feel them until the ice began to break"

(Tears of the Dragon - Bruce Dickinson)




Paciência.

Mais paciência com as pessoas, mais tolerância com o mundo, mais calma no trânsito. Saber esperar pela hora certa, saber administrar a ansiedade, a angústia, e preencher um grande vazio com coisas belas e coloridas. Eu quero saber aguentar!

Tirar a lente cinza através da qual tenho visto as coisas, exorcizar de mim meu lado blasè. Eu quero me arriscar!

Eu quero sentir! Quero expressar! Eu quero libertar dos meus pés essas amarras imaginárias, e tirar essa máscara suprema que cobre meu rosto. Eu quero poder falhar!

Eu quero dizer que amo! Que adoro, que admiro, que gostei de estar do lado dele. Quero dizer que sofri, que me magoei, quero dizer que fiquei esperando. Quero dizer que fiquei ansiosa. Eu quero me expor!

Eu quero dizer que me importo! E que me importo muito, mais do que você ou do que ela, mais do que um tanto assim junto. Eu quero me importar cada vez mais!

Chega de fazer pose, chegar de massacrar meus sentimentos, chega de desconfiança.

Eu quero mudar!

O lago de gelo no qual me aprisionei está se quebrando, a água está escorrendo, e eu estou flutuando. Chega de achar que não mereço! Que não posso. Que não devo.

Devo, posso, QUERO!

Quero gritar pro mundo o quanto eu quero, que quero demais, que quero mais, que quero poder querer. Que quero me jogar no mar e olhar o dragão bem nos olhos, pra arrancar suas lágrimas. Eu quero chorar sem medo.

Porque QUERO! E quero demais tudo isso, tudo aquilo, bem aqui. Quero tudo junto. O veneno e o antídoto, o mal e a cura, o problema e a solução. Quero o belo e o feio, o círculo e a elipse, o branco e o preto, o grande e o minúsculo, quero o macho e a fêmea, quero luz e trevas, choro e risos, umidade e aridez. Mas quero tudo. Nada menos que tudo.

Porque o que eu quero é poder ser tonta, idiota, otária, afobada, insegura, precipitada, mal-amada e até iludida. Mas o que eu quero mesmo é ser feliz.

segunda-feira, junho 04, 2007

Loucura, loucura, loucura!

Me perdoem o trocadilho, mas não há nada mais doido do que trabalhar num hospital psiquiátrico. É quase que como esperar pelo próximo capítulo de uma novela, ou de um livro, de uma série famosa. É tipo assim, ansiógeno.


Ansiógeno e de-li-ci-o-so. Às vezes cansa de tanto que falta rotina, de tanto que sobra desafio, de tanta gratificação pessoal, de tanto crescimento e tanta evolução. Cada dia dentro daquele hospital é (perdão novamente) uma loucura!

Bem no comecinho, eu assustava. Pensava com meus botões que tipo de doidões eu ia encontrar por lá... será daqueles que babam? Daqueles que gritam? Que tiram a roupa no ponto de ônibus?

E, pasmem, tem disso e tem muito mais. Tem gente que baba, que grita, que chora, que arranca as calças em pleno pátio. Tem daquele tipo que acha que é filho do George Lucas com a Elizabeth Taylor; tem do tipo que acha que construiu o hospital nos século XIV; tem gente que pisa na roupa antes de se vestir, e tem também gente que te pede abraço no meio do corredor porque o marido (que não existe) não veio no horário de visita. Tem também daqueles que te trata mal porque você não dá um diagnóstico; tem aquela que, de tão mal e agressiva, foi pro ECT e voltou bem mais mansinha. Tem doido que sabe mais do que médico, e tem médico que é muito mais doido do que o filho do George Lucas. Tem maluco que é mais saudável que a família inteira, e tem também daquelas velhinhas doidinhas, que acham que você é a entrevistadora do programa do Raul Gil e te chama de ‘fofuxa’.

Tem de tudo. Pra todos os gostos. Tem dos mais graves.

Mas tem também os menos graves: vózinha deprimida, tiozão alcoolista, marmanjo com ‘timidez excessiva’, que não consegue trabalho há mais de 10 anos. Tem aqueles ansiosos, e também aqueles carentes, que querem saber se você quer ser amiga, em vez de terapeuta. Tem a típica ‘vizinha fofoqueira’, que de vez em quando acham que estão falando mal dela ou fazendo macumba. Tem até aquele tipo retraído, que não te olha nos olhos, e que quando se abre desaba e diz que não consegue parar de pensar em sexo.

Esses, a gente costuma chamar de ‘mais normais’, embora a normalidade seja totalmente relativa. Ali dentro, ninguém é normal. Muito menos eu, que faço parte de uma porcentagem ridícula de pequena dos que não têm nenhuma psicopatologia. Ali dentro, a doida sou eu. Os normais, os pacientes.

Outro dia, entrando no hospital pela porta do PS (onde geralmente rolam os maiores barracos do mundo, como no caso da mulher que chegou de ambulância, e que, completamente descontrolada, precisou de 4 enfermeiros gigantes pra evitar que ela enfiasse a mão na cara do marido, que a tinha traído com a própria cunhada. Louca? Pois sim...), encontro a turma da Geral I, onde ficam internados os adultos portadores de alguma doença mental. E não é que, ao contrário de mim, sonolenta e mau-humorada, estavam todos cantando Atirei-o-pau-no-gato, rindo e se abraçando?

Eis que a Rita*, uma tiazinha bipolar me cumprimenta: “Bom dia, flor do dia! Só tem flor neste hospital!” Mania? Bom-humor...

Chegando no elevador, um paciente esquizo, que conheci fumando um cigarro no jardim, me vê com a garrafinha de água na mão.

- Oi doutora!
- Ô seu Otávio*! Não ia aparecer lá na Psicologia?
- Ah, doutora, disseram que não preciso.
- Que bom então.

(Silêncio. Olhos vidrados na minha garrafinha.)

- Água, doutora?
- É, água!
- Precisa né?
- Ô!
- Éééé... eu tomo 5, 6, 7, 12 garrafinhas dessa por dia!
- Tudo isso, Seu Otávio? Mas aí é água pra mais de metro!
- Ou pra mais de litro!
- Era o que eu queria dizer!
- Faz bem né Doutora? Pro cabelo, pra pele, pro olho, ouvi dizer que faz bem até pro cotovelo!
- Pro cotovelo, Seu Otávio?
- Pro cotovelo e pra unha. Olha aqui a minha.
- Tô vendo... uau!
- Foi a Dorinha que fez.
- A Dorinha, seu Otávio...?

(Interferência da TO que, ao lado do paciente, acompanhava a história toda)

- Ai seu Otávio, lembra que ontem a gente falou? A Dorinha já faleceu, seu Otávio.
- Tá vendo, doutora? Depois me dizem que não preciso de psicóloga...

Cada voltinha pelo hospital é uma história diferente. Cada atendimento, uma descoberta. Cada grupo, uma paixão. Cada conversa, uma risada.

- Doutora que roupa mais linda! Quando eu era mulher adorava uns casacos assim!

E quem é que pode julgar? Quem nunca se descontrolou por uma traição? Quem nunca deu uma surtadinha, assim, mesmo que de leve? Quem nunca teve medo de estar pirando, ou não confiou muito no próprio julgamento dos fatos da realidade? Quem nunca se fez de desentendido que jogue a primeira pedra!


É maravilhoso trabalhar com pessoas tão especiais. Um verdadeiro privilégio. Acompanhar de pertinho cada um de seus medos, cada uma de suas neuroses, cada uma de suas manias, saber de seus amores, de suas falhas, dos rancores e desejos, intimamente. Não há o que pague a honra de ser terapeuta de pessoas tão necessitadas, tão abandonadas, tão carentes de cuidados, de afetos, de investimentos.


É olhar nos seus olhos todos os dias e se sentir recompensada por uma lágrima de dor a menos, ou uma de felicidade a mais. É se sentir parte integrante de uma mudança essencial de vida, de uma evolução enquanto ser humano, de uma escapada de suicídio. É se perceber como agente ativo de uma visita familiar a mais, de uma ECT a menos, de mais questionamento, de menos atuação. É ganhar dois pacotes de Halls comprados no semáforo com os últimos troquinhos da condução.


É, de verdade, sentir que o ser humano é belo, mágico, único... e que agindo juntos tudo é possível. É sentir que se faz a diferença, quando se ama ao próximo com sinceridade.


E é assumir, antes de tudo, e da forma mais humilde possível, que ninguém é muito diferente de nós mesmos... basta entrar em universos paralelos, alternativos, doentios.

Doentios.
Mas nunca loucos.

Nunca!


* Os nomes verdadeiros foram trocados por fictícios, para se preservar a identidade real dos pacientes.

sábado, junho 02, 2007

Sobra Tanta Falta (O Teatro Mágico)

Falta tanta coisa na minha janela
Como uma praia
Falta tanta coisa na memória
Como o rosto dela
Falta tanto tempo no relógio
Quanto uma semana
Sobra tanta falta de paciência
Que me desespero

Sobram tantas meias-verdades
Que guardo pra mim mesmo
Sobram tantos medos
Que nem me protejo mais
Sobra tanto espaço
Dentro do abraço
Falta tanta coisa pra dizer
Que nunca consigo

Sei lá se o que me deu foi dado
Sei lá se o que me deu já é meu
Sei lá se o que me deu foi dado ou se é seu

Vai saber se o que me deu, quem sabe?
Vai saber, quem souber me salve


www.oteatromagico.mus.br

quinta-feira, maio 31, 2007

Saudade

Tem dias como hoje, cinzentos e frios, em que o ar fica carregado de uma tensão que, invariavelmente, me remete à nostalgia, essa minha velha conhecida.

São em dias assim que minha vivência contínua é o passado, em que minha cabeça fica perdida no tempo e no espaço, relembrando, remoendo, querendo viver tudo de novo os tempos idos.

São em dias assim em que não vejo o tempo passar, as horas viram minutos, e a cada olhar no relógio, um susto pelo quanto de tempo já se passou e eu sequer percebi... parada, olhar fixado, mandíbula travada, os olhos opacos e vazios, como que enxergando, bem na minha frente, tudo acontecer novamente de maneira lenta, tentando agarrar cada restinho das sensações que ainda é possível de sentir. Meu corpo se move como se estivesse lá, no passado, como se estivesse encenando uma grande peça, a peça da minha vida, a peça dos tempos que não voltam mais. A sensação é de que a culpa é minha.

E eu sinto saudades.
Saudades de tanta coisa...

Saudades de quando eu tinha 9 anos e descobri o significado da palavra ‘sinceridade’. E lembranças de quando descobri que a sinceridade é quase uma utopia, já aos 11 anos, já mutilada, ao sentir a maldade do ser humano.

Saudade da inocência que tinha aos 13, quando me apaixonei pela primeira vez pelo meu primeiro namorado. Durou 28 dias. Como o ciclo da Lua. Mas as lembranças e a saudade, a culpa e o arrependimento, tão infantis, duraram anos. Que saudade de ter sofrimentos tão simples!

Saudades dos meus 17, dos fins de semana na praia descompromissados na companhia da minha irmã, fins de semana cheios de irresponsabilidade, de euforia, e de absolutamente nenhuma culpa. Saudades da descoberta do meu primeiro amor, ali naquela mesma cidade, amor este com quem vivi lindos 3 anos, pra depois me encher de novas e grandiosas culpas, quando já adulta e com o coração já meio calejado.

Saudades do começo do ano! Ah, que saudades, que se pudesse voltava e vivia tudo de novo, mas tudo de uma maneira diferente, sem ser tão blasé, sendo mais aberta, sem tanta pré-ocupaçao na cabeça... pra que talvez não tivesse doído tanto. Que saudades dos dias na praia, na sombra de um guarda sol, cercada de pessoas que na época, ainda não percebia o quão amigas poderiam se tornar... Quem dera ter percebido antes que se tratavam de pessoas tão especiais! Que saudades de poder vê-las todos os dias.

Saudades dele, antes de se tornar um fantasma que já quase não vejo, quase não toco, quase não cheiro... mas que quase sempre sinto a presença. Saudades do frisson que era vê-lo todo dia ali na praia, de vê-lo ainda interessado, ainda chegando perto, ainda me olhando de um jeito especial. Saudades de quando tudo era novidade. E saudades me perguntar que horas nos veríamos de novo, porque ainda não tinha virado um lugar-comum. Saudades de vê-lo ali na balada, quando ela ainda existia. De ouvir aquela música sem sentir tristeza.

Sinto saudades de muita coisa, e me pergunto por que ainda me prendo ao passado, e a um passado geralmente carregado de incômodo quando lembrado. Qual a razão da minha dificuldade em simplesmente recordar, sentir a alegria, e guardar as lembranças novamente na Gaveta da Memória?

Seria a insatisfação com o presente? O medo do futuro? Me agarro ao passado para não enxergar o meu contexto atual, presente, vivo?

E de repente alguém que aparece, e o presente é tão efêmero... e logo vai embora. E o tempo separados, inevitável, me apavora e me faz voltar novamente a relembrar tudo de novo, incansavelmente, obsessivamente, obsecadamente, envergonhadamente. E novamente a saudade.

Um aperto no peito. Vontade de voltar no tempo.

De novo o tempo.

Aliado? Inimigo?

Saudades.
"Será que a gente enlouqueceu,
Ou quem enlouqueceu foi eu?
Será que tudo aconteceu dentro da minha cabeça?"

quinta-feira, maio 17, 2007

Confissão


Eu ainda penso em você.

É, eu ainda penso em você, querido Juba, querido Rosto Bonito, meu garoto da Pantene, e tem semanas que sonho com você todas as noites.

E é ridículo, mas eu ainda fico com aquela pontinha de esperança de que meu celular toque aquela sirene que eu pus pra saber que é você, e que você dê aquela mijadinha no poste tão característica sua... e eu ainda espero que você me procure, mesmo depois de tudo o que aconteceu, mesmo depois de ter visto você sendo de outra.

Puta que pariu, mas eu ainda penso em você, e lembro bem da última noite em que a gente passou junto, e tem dias que meu corpo até dói, de tanto que ele queria estar com você de novo, uma última vez, uma última noite de sexo intenso, daquela química que só você e eu sabemos que rolou. E que ninguém percebe que ainda existe, quando a gente se cumprimenta como bons amigos e finge que nada nunca rolou entre nós.

Será que alguém percebe? Será que alguém percebe o jeito que eu te olho? O jeito que você me come com os olhos? Será que alguém saca que no nosso olhar tem uma cumplicidade, um tom de segredo, um tom de “só a gente sabe o que rolou e como foi que rolou”? Às vezes eu dou risada da cara dos nossos amigos em comum, que nem imaginam o que aconteceu com a gente. Ou será que imaginam? Será que o segredo é só meu?

Eu ainda imagino você do meu lado num dia ideal, de bermuda azul e camiseta da Budweiser, com cheiro de mar sentado na minha cama, reclamando do seu chefe, ou da sua mãe, ou de qualquer outra parte da sua vida que eu nunca tiver sequer a oportunidade de saber como é.

Eu ainda espero que você me ligue, mas eu sei que você liga só quando diz que vai ligar. E pra falar a verdade às vezes eu deliro que você está me ligando, mas nunca está, é sempre meu cérebro me pregando peças. Na verdade a gente mal tem se visto, sua imagem tem ficado tão difusa na minha mente, mas eu ainda sinto teu cheiro há 200km de distância e lembro da sua voz me falando aquelas coisas... e nesse momento eu quase sinto você perto de mim.

Faz tempo que o telefone não toca, mas tem meia dúzia de músicas que lembram você, e tem umas que quando eu ouço até dóem, porque tocaram bem naquela hora. E quando eu ouço, me transporto mentalmente praquela sensação única que eu tive, praquele cenário exclusivo que ainda está grudado no fundo da minha mente: o seu quarto, a sua cama, seus lençóis brancos, a sua parede pintada de laranja, e o cantinho, que ainda me pergunto onde é, em que ficou meu sutiã.

Eu penso em você e sinto quase raiva, de tão perfeito que você sempre pareceu ser, de como você ainda parece ser, e das partes de mim que, por ter te desejado tanto, eu acabei perdendo também - a honra, a dignidade, o amor-próprio, o respeito. Tudo aquilo que eu perdi na hora em que desejei ser, novamente, apenas um corpo deitado na sua cama.

Olho no espelho. E a imagem que vejo refletida não é a mesma de antes. É alguém parado no tempo, a ponto de explodir, obsecada por você e pelo seu corpo, meu mais novo vício.

Eu olho no espelho, e quase que com vergonha confesso que ainda lembro de você.

Mas o pior... é que já quase te esqueci.

sábado, maio 12, 2007

Pra bom entendedor...

Sai pra lá, sai pra lá negativismo!

Porque aqui o lado é ativo, e positivo!!

sexta-feira, maio 04, 2007

Paixão ou doença?

Os apaixonados que me desculpem, mas a paixão é uma coisa estranha!

Já me referi aqui mesmo neste blog sobre a origem da palavra paixão: vem de pathos, que no latim (ou no grego??) quer dizer “doença”. Portanto, não me olhem torto: minha estranheza quando à paixão tem embasamento teórico!



Pois, confesso: acho estranho demais.



Já pararam pra reparar de verdade, assim, com atenção, numa pessoa apaixonada? O olhar? As caras? A expressão corporal? O súbito otimismo que a acomete?

Estou numa fase totalmente inversa ao que sempre aconteceu: enquanto que, durante muito tempo, eu era sempre a que estava namorando, hoje quase todas as minhas amigas estão namorando e eu solteira, e enquanto elas estão assim, profundamente apaixonadas, eu ando meio que assexuada. Então eu ando mais sucetível a olhar a paixão de uma forma, eu diria, desapaixonada (me perdoem o trocadilho).

Paro pra prestar atenção ao que meus amigos e amigas apaixonadas dizem, e é incrível notar que existem traços, aspectos, características tão comuns entre todos eles... o olhar, as caras, a expressão corporal, como já disse. Mas uma outra coisa me chamou muito a atenção: a comunicação dos amantes. O jeito de falar. E a linguagem toda específica que dois apaixonados usam para se comunicar.

É impressionante.

É um tal de “amor” pra cá, “gordinho” pra lá (e olha que são magros, os dois!), e teve até uma amiga minha – que vai me matar quando ler isso aqui – que chegava ao ponto de chamar o ex namorado de baby-môr. E ela era a baby-môr dele. E os dois dormiam na baby-lândia, que servia tanto pra designar o quarto dele como o dela. Outra amiga minha chamava o namorado de “Gudju”, assim, fazendo beicinho do tipo gugu-dadá. Um amigo meu chama a namorada de “mái lóve”, escreve cartas que começam exatamente assim, “Minha linda mái lóve”.

Eu mesma já cheguei ao ponto de chamar ex namorado de Xinico, eu era a Xipinimilica (ai!), nós comíamos “fão de fecho” toda sexta e íamos no sábado à “Ficha Fãchi”.

Tradução? Pão de Queijo. Pizza Hut...................................

Ai, era tão lindo ouvir ele dizer “Xini... eu xampo!” (é claro que isso foi na época que eu estava apaixonada. Depois disso o Xinico virou “aquele-maldito” e eu jurei que nunca mais “xamparia” ninguém nessa vida!). Outro namorado meu me chamava de “pepecinho”, e não, não é erro de digitação. Era PePeCinho, um bebê pequenininho falado de um jeito engraçadinho. O shortcut era “pepê”. Opa! Péra lá!

O mais engraçado é que, quando o apaixonado se desapaixona, as gírias-fofas sempre viram motivo de auto-deboche e de vergonha profunda, daquelas que a gente sente mesmo quando está sozinha e se olha no espelho. Ai, que se pudesse voltar no tempo chamaria o rapaz pelo nome e se bobear pelo sobrenome! Bate aquela ressaca total de “como fui ridícula, devia estar doente”, e aí eu chego à conclusão de que paixão realmente só pode ser doença. E das muito estranhas mesmo!

Isso sem falar no tom de voz usado quando os apaixonados conversam, um tom de voz do tipo “tô-quase-morrendo”, e nas brincadeirinhas bobas (pra não chamar de outra coisa) que rola entre um casal. Amiga minha dizia pro namorado: “Uxo, você já mediu a circunferência da sua pançona hoje??”, ao que o fora-de-forma rapaz respondia “Já, uxinha, 178 centímetros!”. E riam, e riam, felizes de estarem se chamando reciprocamente de gordões balofos. Sem serem.

Não sei se sou eu que estou fria e crítica quando ao amor (Amor? Paixão! Quem aqui falou em amor?!). Pode ser que no fundo eu esteja desesperada por um namorado, mas muito me orgulho das minhas amigas que conservam a maturidade e chamam os namorados pelos nomes ou no máximo por um apelido aceitável! Bato palmas, pois não é fácil! Orgulho das amigas que tenho! Que sejam todas felizes e casem, pois além de amá-las e de adorar seus namorados (os que conheço, claro), também amo e adoro um bom boca-livre!

E enquanto isso não acontece, e enquanto eu mesma não adoeço de paixão, só me resta mesmo comer um bom fão de fecho! E se marcar, até uma Ficha Fãchi!! Viva os carboidratos!!

terça-feira, maio 01, 2007

Diálogo¬¬ O Tempo

O Tempo perguntou pro Tempo:

- Quanto tempo o Tempo tem?

E o Tempo respondeu pro Tempo que o Tempo tem tanto tempo quanto tempo o Tempo tem.


** Não queira explicar as coisas. Aceite-as.