Outro dia, a
Luli discorreu sobre profissões-carrasca. Não me recordo se ela chegou a citar aquela que verdadeiramente me apavora, pelo menos uma vez por mês: a Temível Depiladora.
No lugar onde faço depilação, existem pelo menos 30 depiladoras diferentes (tipo um fast-food da cera quente). E eu, em busca de uma que parecesse mais boazinha, já caí na mão de pelo menos metade delas. Acabei parando na Adenilza, que é a única que já me sorriu ao falar “oi”, e que não parece sentir tanto prazer em cada puxada de cera.
Sim, porque é ÓBVIO que as depiladoras são sádicas por natureza. Ninguém mais suportaria trabalhar o dia inteiro infligindo tanta dor à sua semelhante. Eu imagino que a Adenilza, por mais tranquilinha que pareça, solta altas gargalhadas depois que eu vou embora, se deleitando com o meu sofrimento, e tenho certeza absoluta que ela sonhava, desde pequenina, em ser depiladora.
Deve funcionar como com os médicos, que precisam ser insensíveis, frios e calculistas pra poder clinicar, ou não agüentam. Ou como os psicólogos, que se não forem meio doidos, piram de vez após o primeiro semestre de trabalho.
Com as depiladoras deve ocorrer o mesmo: se elas fossem boazinhas, jamais conseguiriam puxar aquela cola desenvolvida pela NASA que é a tal de cera espanhola. Pré-requisito de depiladora é ser filha da puta.
Não bastasse a posição desconfortável e constrangedora, depilação é algo infernal que exige uma bela dose de boa-vontade. Quando uma amiga me pergunta se tatuagem dói, eu sempre digo que dói menos que depilar virilha completa. Parece drama, mas eu juro: não me acostumei até hoje.
E reclamar que a cera está quente demais nunca adiantou nadinha para mim, nem na forma assertiva (“
A cera tá um pouquinho quente”) nem na forma mais sutil (“
Ufff! Tá quentinha!”), nem na forma agressiva (“
Cacete, tá queimando!”). Tudo o que consegui ao longo dos anos de queimação foram risinhos de soslaio como quem diz “
Dói, né?”. Dane-se, elas nunca estão nem aí pra você e se você está sendo escaldada viva. E o foda é que, doendo ou não, sendo carrascas ou não, todo mês você tá lá, desmatando o terreno. Todo mês. Todo mês. Todo mês (dízima periódica).
E é justamente por isso (pela dor e pelo constrangimento) que eu acho que depiladora deveria ser fofa, simpática e bater papo como fazem as manicures (que, à bem da verdade, nem precisariam ser tão faladeiras assim, já que fazer unha não dói nadica de nada). As depiladoras deveriam passar por um crivo tipo assim a OAB, e o pré-requisito fundamental deveria ser ter um bom coração.
Quando você chegasse, em vez de um “
vai fazê o que?”, você escutaria um “
o que é que vamos embelezar hoje?”. E em vez de “
assim você me atrapalha!”, elas diriam “
já já te trago aquele cafezinho”. Você bateria papo e elas seriam confidentes, exatamente como a minha manicure, a Márcia, que sabe tintim por tintim da minha vida (já a Josi eu nunca gostei muito, ela faz a minha sobrancelha...).
Mas aí a gente volta pro começo: se fossem fofas, não seriam depiladoras, seriam manicures... A verdade é que eu tenho pânico da Adenilza e ando pensando em levar uns chocolates pra ela. Quem sabe ela pára de me cutucar com aquela pinça e vê que ali, deitada na maca com uma cera borbulhante nas partes baixas, está um ser humano bom e generoso, e não uma boneca de treino de primeiros-socorros.
Ou talvez eu coma os chocolates da Adenilza quando a dor infernal acabar e eu precisar de um pouquinho de prazer, pra tolerar voltar lá no próximo mês. E no próximo. E no próximo. E no próximo (dízima periódica).