quarta-feira, dezembro 16, 2009

Acorda Kassab!!!


Da rua em que eu moro até a casa de um pacientinho são mais ou menos 12km. Eu to aqui na Centro-oeste, ele em Moema.

Quando comecei a atendê-lo, uns dois anos atrás, eu saía de casa às 5h45 pra estar lá as 6h30. Às vezes chegava antes e comia uma empada ali na Empada Carioca. Semana passada eu saí as 5h30 e cheguei 20 minutos atrasada.

Hoje, após 5 minutos de chuva, voltei do meio do caminho. Na Radio Sul America (obrigaaaaaaaaada), já noticiavam os primeiros pontos de alagamento na Zona Oeste. A Leste já estava totalmente alagada.

Menos R$60,00 no bolso acaba não sendo nada perto do aborrecimento do carro travar no meio de um alagamento. Pra galera que nunca tem nada, mas quando chove perde tudo, fica aquela broxada e aquele inconformismo de que a 5ª maior cidade do mundo, quando chove, simplesmente não anda mais.

Se eu fosse a responsável por uma coisa dessas, não conseguiria dormir a noite.

Acorda Kassab!!!!

segunda-feira, dezembro 14, 2009

Duco

Não existem formas de controlar a tristeza quando a esperança de mudar abandona nossas terras. É o conformismo, a resignação, a falta de iniciativa que destroem as nossas crenças. Fazem a gente andar ao contrário, progredir pra trás, voltar pra frente, caminhar em círculos.

Nem tudo faz o sentido que eu gostaria que fizesse, talvez me falte aceitação de que o mundo é o que é e ponto. As pessoas são o que são e ponto. Dificuldades existem e ponto. Mas como abandonar o entusiasmo da crença pela mudança, desta guerra pelo entendimento, e me acomodar, pesada e tediosa, em cima deste ponto?

Acreditar na felicidade como a ausência de tristeza nunca me convenceu. Fazer banquetes de migalhas jamais me satisfez, entendo que talvez todos tenham o que mereçam, os erros são conseqüências de muitos outros, quem enxerga mais deve poder ceder mais. Tem que ser flexível. Tem que admitir, tem que assumir as responsabilidades.

Aceito e acolho que nem sempre seremos felizes o tempo todo, mas também acredito convictamente e com tranqüilidade que se fui eu mesma que me coloquei nesta situação, sem dúvida alguma posso me retirar dela.

quinta-feira, dezembro 03, 2009

Faixa marrom, OSSU!

Pra quem não consegue nem me imaginar lutando, aqui vão alguns momentos bem sucedidos do meu exame de faixa... OSSU!


Yoko Geri (chute lateral na altura do estômago)


Jodan Mawashi Geri (chute circular na cabeça)


Jodan Ushiro Mawashi Geri (chute circular giratório na cabeça)

terça-feira, dezembro 01, 2009

Non ducor...

Eu tenho o costume de não olhar pro lado positivo das coisas e viver procurando defeitos. Não posso dizer que já consegui eliminar meus velhos hábitos, nem tampouco que virei uma otimista inveterada, mas percebo certas coisas evoluindo.

Após 3 anos e meio de treinamento ferrenho nas Artes Marciais do Kickboxing, fui submetida ao maior e mais angustiante teste que uma ansiosa como eu pode vivenciar: avaliação técnica, individual, na presença de mais de 50 pessoas.

Tremi, tive insônia, fiz cocô no banheiro do Barateiro. Minha garganta travou, minhas mãos suaram, chorei no banheiro (ao que parece, o banheiro é o refúgio dos desesperados). Briguei com o namorado. Perceber meu nível de desespero me deixou cada vez mais desesperada.

Uma hora voltei a mim e me pus no meu devido lugar. Parei de chorar e me conformei com a minha dificuldade de enfrentar certas situações, seja um exame de faixa, seja conhecer os amigos do namorado. Ter medo das coisas há muito deixou de me impedir de fazê-las. Segui em frente.

60 minutos depois, cansada, destruída, com hematomas, sem ar, exposta... conquistei a faixa marrom e ganhei o título de Senpai. Entendi finalmente que não me era cobrada a perfeição. Me é permitido errar.

Ainda achando que não fiz o meu melhor (nem no exame, nem no controle da minha ansiedade), procuro desfrutar do alívio do depois, sabendo que muito mais virá pela frente. Como quem ganha 15 minutos de descanso em meio a uma maratona, me resolvi por desfrutar do agora, salvando oxigênio pras batalhas futuras.

Desfrutando do novo título e à espera da faixa marrom que há de consagrar o meu esforço, descubro finalmente que investir e batalhar pelo meu futuro é a forma mais segura de poder prevê-lo: não sou conduzida. Conduzo.

terça-feira, novembro 24, 2009

Brincando de casinha


9 em cada 10 mulheres irão se lembrar, pensando nos tempos de criança, de 2 brincadeiras que absolutamente TODA menina já brincou: “brincar de casinha” e “brincar de boneca”. Na verdade as duas brincadeiras são bem semelhantes: consiste em, basicamente, fantasiar uma série de situações, geralmente domésticas e amorosas, e encená-las, seja com as bonecas, seja pessoalmente.

Os anos vão passando e estas brincadeiras tendem a ser abandonadas, mas toda mulher há de concordar que a essência do brincar de casinha permanece em nossas fantasias, quando imaginamos namorar com este ou aquele carinha, quando nos tornamos adolescentes e nos sentimos quase independentes, quando sonhamos em ter nossa própria casa, quando temos os primeiros namoros de verdade.

Nossos primeiros relacionamentos são o cúmulo da brincadeira de casinha, a gente acha que ama o namorado mais do que tudo nesta vida, faz planos de casar, escolhe o nome dos filhos e o pior: a gente acredita de coração que tudo isso vai acontecer. Com o passar do tempo, a gente segue brincando de casinha, não faz mais tantos planos assim, pois já tomamos o suficiente na cabeça pra não sonhar tão alto, mas secretamente ainda vemos se o sobrenome do namorado fica bem com o nosso próprio nome.

Então chega um dia em que você de repente se dá conta da realidade e não consegue evitar de se perguntar: quando é que a brincadeira de casinha deixa de ser brincadeira e passa a ser realidade? Quando é que a brincadeira assumiu ares mais sérios e resolveu virar verdade, assim, da noite para o dia, e a relação antes descompromissada pede por mais seriedade? Será que é preciso incorporar toda a responsabilidade de uma vida adulta, assumir os verdadeiros compromissos de uma relação a dois, e abandonar o lado divertido da fantasia? Indo mais além: é possível continuar brincando de casinha, mesmo que a relação tenha se tornado uma realidade sólida e indiscutível?

Conheço casais que se desintegraram após o pedido de casamento, ou após irem morar juntos. Parece que transferiram todo o peso da realidade para dentro da relação, e esqueceram de brincar de casinha. A vida diária se transformou num martírio sem fim onde um não corresponde exatamente à expectativa do outro, pois a diferença entre fantasia e realidade é grande demais. Talvez o segredo do sucesso dos casais que permanecem juntos ao longo de muitos anos seja verdadeiramente preservar o lado divertido, leve e brincalhão de seu jogo de bonecas, aquele em que se continua sonhando e morando em castelos encantados a despeito da conta de luz vencer no final do mês. Talvez apenas vislumbrar a seriedade da vida real na hora de dar um jeito de pagar o IPVA no comecinho do ano, mas depois continuar sonhando que o seu Fiat Palio 2003 é, na verdade, uma bela carruagem.

Quem sabe dê pra continuar achando mais importante que seu bebê tenha um quarto rosa ou azul, ao invés de se irá nascer com saúde. Talvez tudo isso nos proteja de certas faces da realidade que são cruéis demais: a falta de grana no fim do mês, o bebê que nasceu prematuro, a insegurança em relação ao marido.

Talvez brincar de casinha seja realmente muito mais gostoso e proveitoso, se não for uma completa negação da vida real. Saber discriminar a fantasia da realidade é um sinal de maturidade, e elemento indispensável para se seguir numa vida adulta e minimamente bem-sucedida. Do contrário, estaremos todos nos enganando.

É como diz a velha frase: intenção sem ação é apenas ilusão. Se a vida é uma brincadeira, brinquemos com maturidade...

terça-feira, novembro 17, 2009

coisas que não voltam atrás

Três coisas que não voltam atrás:

A flecha, quando lançada;
A palavra, quando proferida;
E a oportunidade, quando perdida.

Ah, o tempo. Senhor ingrato do arrependimento!

quarta-feira, novembro 11, 2009

Sinais de que você está envelhecendo


Você compra seu próprio protetor solar
(não pega emprestado da mãe);

Você faz exame de colesterol
(e se preocupa);

Você faz exercício pro bem do seu coração
(e cansa fácil);

Você checa suas finanças quase que diariamente
(e se preocupa);

Você começa frases com "no meu tempo..."
(e não se censura);

Você guarda as papeletas do VisaElectron
(e se preocupa);

Você compra um talão inteiro de Zona Azul
(e dura pouco);

Você fica em Sampa no feriado porque não quer mais pegar trânsito...

... e mesmo assim se preocupa!


PS: Sério, nunca achei que eu teria um talão de Zona Azul. Eu via o da minha mãe e parecia tão distante... coisa de gente grande.

terça-feira, novembro 03, 2009

Em paz com a paz


Andei examinando a minha produtividade literária. Ao longo dos meses, a curva andou decrescendo. Minha cabeça anda meio sossegada de idéias.

Já sabendo que minha criatividade redatória tem tudo a ver com a minha ansiedade, e percebendo que, após a tempestade, meu coração agora vive a calmaria, comecei a achar estranhamente positiva minha falta de ter o que dizer.

Após trancos e barrancos, meu emocional finalmente começa a assentar. Em plena volta do feriadão, eu me sinto em paz.

E uma vez que estar em paz nunca foi fácil pra mim, veio a necessidade de escrever.

Coisa difícil esta, ficar em paz com a paz, após tantos anos de drama.

segunda-feira, outubro 26, 2009

A Depiladora


Outro dia, a Luli discorreu sobre profissões-carrasca. Não me recordo se ela chegou a citar aquela que verdadeiramente me apavora, pelo menos uma vez por mês: a Temível Depiladora.

No lugar onde faço depilação, existem pelo menos 30 depiladoras diferentes (tipo um fast-food da cera quente). E eu, em busca de uma que parecesse mais boazinha, já caí na mão de pelo menos metade delas. Acabei parando na Adenilza, que é a única que já me sorriu ao falar “oi”, e que não parece sentir tanto prazer em cada puxada de cera.

Sim, porque é ÓBVIO que as depiladoras são sádicas por natureza. Ninguém mais suportaria trabalhar o dia inteiro infligindo tanta dor à sua semelhante. Eu imagino que a Adenilza, por mais tranquilinha que pareça, solta altas gargalhadas depois que eu vou embora, se deleitando com o meu sofrimento, e tenho certeza absoluta que ela sonhava, desde pequenina, em ser depiladora.

Deve funcionar como com os médicos, que precisam ser insensíveis, frios e calculistas pra poder clinicar, ou não agüentam. Ou como os psicólogos, que se não forem meio doidos, piram de vez após o primeiro semestre de trabalho.

Com as depiladoras deve ocorrer o mesmo: se elas fossem boazinhas, jamais conseguiriam puxar aquela cola desenvolvida pela NASA que é a tal de cera espanhola. Pré-requisito de depiladora é ser filha da puta.

Não bastasse a posição desconfortável e constrangedora, depilação é algo infernal que exige uma bela dose de boa-vontade. Quando uma amiga me pergunta se tatuagem dói, eu sempre digo que dói menos que depilar virilha completa. Parece drama, mas eu juro: não me acostumei até hoje.

E reclamar que a cera está quente demais nunca adiantou nadinha para mim, nem na forma assertiva (“A cera tá um pouquinho quente”) nem na forma mais sutil (“Ufff! Tá quentinha!”), nem na forma agressiva (“Cacete, tá queimando!”). Tudo o que consegui ao longo dos anos de queimação foram risinhos de soslaio como quem diz “Dói, né?”. Dane-se, elas nunca estão nem aí pra você e se você está sendo escaldada viva. E o foda é que, doendo ou não, sendo carrascas ou não, todo mês você tá lá, desmatando o terreno. Todo mês. Todo mês. Todo mês (dízima periódica).

E é justamente por isso (pela dor e pelo constrangimento) que eu acho que depiladora deveria ser fofa, simpática e bater papo como fazem as manicures (que, à bem da verdade, nem precisariam ser tão faladeiras assim, já que fazer unha não dói nadica de nada). As depiladoras deveriam passar por um crivo tipo assim a OAB, e o pré-requisito fundamental deveria ser ter um bom coração.

Quando você chegasse, em vez de um “vai fazê o que?”, você escutaria um “o que é que vamos embelezar hoje?”. E em vez de “assim você me atrapalha!”, elas diriam “já já te trago aquele cafezinho”. Você bateria papo e elas seriam confidentes, exatamente como a minha manicure, a Márcia, que sabe tintim por tintim da minha vida (já a Josi eu nunca gostei muito, ela faz a minha sobrancelha...).

Mas aí a gente volta pro começo: se fossem fofas, não seriam depiladoras, seriam manicures... A verdade é que eu tenho pânico da Adenilza e ando pensando em levar uns chocolates pra ela. Quem sabe ela pára de me cutucar com aquela pinça e vê que ali, deitada na maca com uma cera borbulhante nas partes baixas, está um ser humano bom e generoso, e não uma boneca de treino de primeiros-socorros.

Ou talvez eu coma os chocolates da Adenilza quando a dor infernal acabar e eu precisar de um pouquinho de prazer, pra tolerar voltar lá no próximo mês. E no próximo. E no próximo. E no próximo (dízima periódica).

domingo, outubro 18, 2009

É ferida que dói, e não se sente...


Quando ouço dizerem que gente feliz é sempre mais bonita, internamente sou forçada a discordar. Algo em mim sempre achou a tristeza mais bela, o olhar sofrido mais marcante, lágrimas mais elegantes do que sorrisos.

A tendência pela melancolia: pra mim, amar sempre foi sofrer. Não, não me refiro a platonismo. É que em mim o sofrimento sempre foi a expressão mais bela do interior de uma pessoa.

Não só de Byron me alimentava a alma, não só em Álvares de Azevedo encontrava sentido na minha sensação de que amor e dor não rimam só na poesia. Quem ama sofre, pois para o que ama já não basta amar: se deseja adentrar o corpo do outro, invadir suas entranhas, dominar sua mente e sua alma, apagar seu passado, controlar suas memórias, se apossar de seus sentimentos, manipular suas emoções. Deseja-se fundir-se ao Eu do outro em busca de mais, sempre mais.

Não basta ser Nós.

Há de ser Uno, há de ser místico.

Amar é doer.

E amar dói não pelo medo, não pelas defesas. Amar dói mesmo quando se é reciprocamente amado de volta. É uma dor tão fina, coisa assim tão bela, que vale a pena amar só pra sentir essa agonia inexplicável de que o amor já não cabe dentro de si. Se quer explodir de tanto sentimento, se quer sangrar e aliviar a pressão interna do peito que bate e grita exigente enquanto é docemente corroído.

O amor é vermelho como o sangue.

Da modernidade ao ultra-romantismo, me reduzo ao classicismo ao concordar com o poeta*: é ferida que dói e não se sente, é um contentamente descontente, é dor que desatina sem doer...

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*Luís Vaz de Camões, 1595. "... um não querer mais que bem querer / é um andar solitário entre a gente / É nunca contentar-se de contente / é um cuidar que ganha em se perder / É querer estar preso por vontade / É servir a quem vence o vencedor / É ter com quem nos mata lealdade / Mas como causar pode seu favor / nos corações humanos amizade /se tão contrário a si é o mesmo Amor?"


quarta-feira, outubro 14, 2009

Projeto Mulherzinha 2009 - updated!


O Projeto Mulherzinha 2009 vai de vento em popa, obrigada.

Vai tão bem que tem contagiado gente por aí. É sério!

A Antonella, do grupo de dança, andou por aí pintando as unhas do pé de vermelho, coisa que jamais havia feito na vida (eu entendo porque também nunca consegui essa proeza sem me sentir biscate); a Luli tem investido em SMS’s poderosas e românticas; a Ka outro dia se disse “completamente apaixonada tudo girando feito um carrossel” no maior estilo brega Marcelo Augusto; a própria Elis tem achado cedo demais pra relaxar diante do maridão turco, e corre na boca miúda que a Nesrine, que também dá aulas de dança lá na Elis, também anda repensando seu vestuário de dar aulas (parece que uma aluna chegou de meia furada e ela se sentiu um mau-exemplo).

Quanto a mim, não poderia estar dando mais certo: minha fascinação por dança do ventre tem crescido de maneira inversamente proporcional ao meu desempenho e tesão nos treinos de kick; meus esmaltes estão pendendo prum tom assim mais cor-de-rosa, e outro dia – pasmem – eu até comprei um vestido que tinha uns lances meio rosados (ohhh!!!).

Minha TPM, até então sempre suave, me atacou com força total este mês, com direito a cólicas jamais sentidas na vida, espinhas all over e crise de tristeza, choro e insegurança sem qualquer motivo aparente. Sobrou até pro namorado.

É, NA-MO-RA-DO. To tão mulherzinha que até esse meu lado já foi totalmente assumido, com foto no Orkut e tudo (tá certo que eu acho o Orkut a maior palhaçada que existe, mas to lá, as amigas não querem que eu saia, então...). É isso, mundo, EU TENHO SENTIMENTOS!

Pra resumir, é descontrole de estrogênio total. Só falta eu usar estampa de oncinha – mas isso eu já falei pra Elis, esse ano ainda não vai dar.

segunda-feira, outubro 05, 2009

60 segundos


Os dias têm passado rápido. Talvez até rápido demais, rumo ao novo ano que nos espera. Pulamos de vez rumo ao Natal, com exatos 81 dias de antecedência. Mais um piscar de olhos, e fogos de artifício já estarão no céu. O Brasil inteiro comemora 2016. A passagem mais rápida do tempo não tem sido observada apenas por mim. Cientistas fazem teorias sobre a rotação da Terra, sobre as novas dimensões; gente afirma que o dia não tem mais 24 horas, gente diz que um minuto já não tem sessenta segundos, tem teoria que diz que, quanto mais velhos ficamos, e mais conhecido o mundo se torna, mais rápido parece que o tempo passa - pois o tempo não existe, existe é a contagem do tempo, a nossa percepção sobre ele. (Percepção: sentidos + interpretação) Nossos sentidos continuam intactos... a velocidade das coisas inexiste. Mudou nossa interpretação? Mudou minha maneira de ver as coisas? Meus minutos já não formam horas – formam dias. A agenda mudou ao longo dos anos. Minha semana deixou finalmente de ser um martírio sem fim rumo ao sábado e domingo, quando a vida realmente acontecia. Agora a vida acontece. Os dias mais belos, coloridos, amáveis, transformando a passagem das horas num escorrimento indelével do tempo rumo ao fim dos meus tempos. Cada dia a mais, um dia a menos. Metamorfose. A memória, que persiste. Ah, o tempo... finalmente um aliado.
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(De repente se torna surpreendentemente cedo e precipitado fazer uma retrospectiva)

quarta-feira, setembro 30, 2009

A vida como ela é

Diante de situações desconfortáveis, a gente sempre tem duas opções: se entregar à angústia, ao incômodo, à ansiedade, ao desespero, à irritação... ou encontrar maneiras de confrontar nossos sentimentos e pensamentos negativos usando dados de realidade.

A verdade é que a realidade dificilmente é tão ruim quanto nossas fantasias deprimentes teimam em apontar quando não estamos lá muito bem.

Reconhecer que nem sempre as coisas serão como esperamos, respirar fundo e tolerar as frustrações inevitáveis do nosso cotidiano costuma trazer algum conforto. Brigar contra a realidade dificilmente melhora nosso estado de espírito. Temos que nos aliar à ela.

Tudo nessa vida é uma questão de escolha – e eu escolho me sentir bem. Nem que seja escolhendo permanecer exatamente no lugar onde estou, fazendo o que escolhi fazer, e simplesmente aceitar com tranqüilidade minhas limitações diante da vida como ela é...

sábado, setembro 26, 2009

Amputação



Enquanto o coração atingia os mil batimentos por minuto, sua cabeça girava a uma velocidade impressionante. Atravessou a porta com fervor, a ânsia de saber o que aconteceria quando por fim o encontrasse. Procurou com os olhos por entre aquelas trinta e tantas pessoas, e por fim o avistou. Os olhos azuis denunciavam uma tristeza legítima que ela jamais havia visto. As conjuntivas lhe pareciam assim meio vermelhas, os ombros pareciam caídos como quem não suporta mais seu próprio peso.

Beijaram-se. Levemente, como que para se reconhecerem. Ainda eram eles?, sequer os lábios pareciam os mesmos. As gargantas jaziam secas. As mãos não se entrelaçaram. Instintivamente, afastaram-se, como quem é repelido por uma espécie de choque elétrico que causa uma tensão invisível, porém iminente.

Naquele momento, soube.

Deambulou pela casa estranha cheia de risadas, como um morto-vivo à procura de um jazigo. Precisava descansar. A cabeça girava ainda mais intensamente, a respiração falhava, os pensamentos descarrilhavam dentro de si. Uma torrente de sentimentos desconexos a inundou e então chorou como precisava há dias. A crise de ansiedade a alcançou e milhares de imagens passaram em sua mente a cada segundo: esperas, demoras, atrasos, desculpas, crianças, álcool, telefonemas. Justificativas. Pretextos e contextos ilusórios nos quais escolhera acreditar por pura falta de opção.

Quando a sala por fim terminou de girar, ergueu a cabeça e piscou os olhos já borrados de rímel. Uma coragem súbita sacudiu seu corpo, uma lucidez quase obscena lhe atordoou, e ela soube que era hora de se despedir. Sabia que já não fazia sentido exigir suas desculpas nem sequer apresentar as suas – só precisava abandonar aquele cenário, aquele palco tétrico daquela peça já um tanto ultrapassada. Nada mais que falassem importaria tanto quanto o resgate de si mesma, nada era tão urgente quanto o profundo desamor por si de que deveria se livrar.

Nada era mais fundamental do que voltar à sanidade mental que aquele amor lhe roubara, e por isso o abandono era assim tão importante: precisava arrancar aquela página, extirpar todas as suas lembranças e atear-lhe fogo, como se jamais houvesse existido. Precisava exorcizar aquele demônio, extrair de si aquele câncer, aquela parte necrosada de seu coração que ameaçava contaminar todo seu corpo; precisava rasgar suas entranhas infectadas e violar seus compartimentos mais profundos afim de salvar o resto de sua fé, mesmo que lhe restassem profundas cicatrizes.

Tocou-lhe os ombros cansados e disse que estava indo. O ar dele foi de um cansaço, de quem já esperava algo que por fim ocorreu. Um carinho no rosto e um beijo nas mandíbulas foi tudo o que ela pôde lhe oferecer naquela hora já carregada de saudades.

“Seja feliz”.

Ele entendeu.

Ela anuiu.

Amputara-lhe.

terça-feira, setembro 22, 2009

câncer


Ultimamente, tenho sido rondada pelas doenças. Muitos à minha volta estão com alguma doença relativamente grave, de necessidade cirúrgica, complicadas. Uma delas tem batido cartão no meu cotidiano: pessoas que conheço vêm sofrendo com câncer.

Tem estado em todo lugar: parentes, pacientes, parentes de pacientes, conhecidos. Pessoas famosas. Políticos. Roteiristas de novelas. Médicos. Parece que ter câncer é quase como que ser fiscalizado pela Receita: volta e meia acontece e você não estava preparado pra isso.

O câncer aparece e te dá um murro na boca. Invariavelmente, a sombra da morte rodeia o doente. Só de falar o nome já provoca arrepios e imagens mentais sombrias: quimioterapia, cabelos caindo, funeral. Vômito.

Difícil segurar essa barra sozinho, e por mais que existam pessoas pra apoiar, parece que não faz a menor diferença: quem tem câncer se sente na roleta-russa. Uma destas pessoas que citei, com câncer tireoidiano, resolveu não contar pra ninguém que está doente, apesar do bom prognóstico. Os pais e irmão sabem, mas ela se recusa a contar para os amigos e amigas. Outra pessoa que conheço, com câncer na garganta, também adotou a mesma medida e guardou segredo da informação. O câncer é a imagem da fragilidade, ninguém quer se sentir assim tão vulnerável, ninguém quer ser alvo de pena que, invariavelmente, aparece.

Com tanta gente assim doente ao meu redor, é inevitável que eu mesma não reconheça em mim um certo temor da morte. Para ficar doente, basta ser humano. Para correr risco de morte, basta estar vivo. Para adoecer, basta se expor ao sol, comer alimentos não tão saudáveis, basta fumar um cigarro, respirar o monóxido de carbono da 23 de maio. Basta que existamos sem nos cercar de tantos cuidados que deixem nossa vivência a cada dia mais pesada, a cada dia mais mortal.

E se eu adoecesse?

Teria arrependimentos, medo da morte, desejos de voltar no tempo? Teria eu tranqüilidade de que vivi minha vida plenamente, realizando todos os desejos que um dia tive? Estaria eu com a consciência tranqüila de que cada minuto foi vivido com legitimidade, com autenticidade, com vontade? E quanto aos familiares e amigos? Eu contaria que estou doente? Pediria ajuda? Me despediria do meu companheiro? Faria um testamento? Ou apenas esperaria o futuro certeiro, em relação ao qual muito pouco poderia ser feito, já que a crença em níveis superiores me leva a compreender o início e o fim dos ciclos?

Vida e morte, saúde e doença . Confiança e receio.

Medo.

domingo, setembro 20, 2009

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I´m really glad I found you :)

quarta-feira, setembro 16, 2009

Elo


Depois de tanto tempo sem te ouvir, não foi surpresa nenhuma que tua voz me soasse estranha. Não fosse teu nome aparecer na bina do celular, não te teria reconhecido, mas teu timbre familiar logo me trouxe de volta para casa. Ouvir você foi um presente inesperado e, por isso mesmo, delicioso: não houveram silêncios constrangedores, sua risada continua gostosa como sempre, nossas brincadeiras ainda são as mesmas – nossa sintonia continua fina, como sempre foi.

Se nos perdemos no meio desses jogos modernos eu já não sei dizer, talvez tenhamos nos rendido à modernidade das relações e acabamos nos confundindo. Talvez nossa admiração mútua, nossa disponibilidade simultânea, nossos gostos tão parecidos – talvez tudo isso tenha nos reunido no momento em que sentimos, os dois ao mesmo tempo, que devíamos nos unir a alguém. Por que não nos unirmos então, e fazer uso desta afinidade tão especial?

Não doeu tanto quanto pensei que doeria quando por fim nos afastamos; acho que porque ambos percebemos que não fazia mais sentido estarmos juntos de uma maneira tão lasciva e superficial – isso desvalorizaria qualquer coisa mais bonita e sincera que um dia havíamos tido. Senti tua falta durante todos estes meses, mas a magia que existe nisso tudo é que senti saudades da sua amizade, da tua gargalhada, da tua ranhetice característica, de quando você é ranzinza e mal-humorado daquele jeito que só você sabe ser. Senti falta das tuas críticas e da tua sistematização do mundo, e ter tido tua amizade de volta ali, por alguns minutos, valeu todo o tempo em que tivemos que nos afastar pra cada um retomar suas vidas.

Hoje senti que nossa relação cicatrizou e voltou fortalecida. Valeu realmente a pena a distância. Acolho teu carinho como sempre fiz, e te dou minha amizade em troca como um sinal eterno: não importa onde ou com quem estejamos, o nosso verdadeiro afeto um pelo outro é o elo único que nos manterá sempre unidos, esteja você aqui por perto, esteja você longe de mim.

domingo, setembro 13, 2009

Palavras


Quando eu me calo, não é por falta de ter o que dizer. O meu silêncio é a expressão mais sincera dos meus sentimentos: o meu silêncio diz tudo, dentro do grande nada que parece ser a princípio. As palavras nada mais são do que uma definição estreita de uma profusão sentimental que a grande maioria das pessoas acha que não pode ser expressada de outra forma. Ledo engano: a expressão verbal é apenas uma das possibilidades, talvez a mais limitada delas.

A palavra é definida, e por ser definida, limitada. Como podem algumas letras reunidas numa determinada ordem criar um fonema específico que traduza emoções que eu ao menos sei reconhecer? Como dar nome aos bois, se esse é um rebanho diferente de todos os outros que já conheci um dia? Seria justo encaixar esse novilho tão especial numa única e limitada categoria?

Nomear sentimentos exige que eu os racionalize, que eu os passe pelo crivo da razão, da lógica, da linguagem, que eu os reduza a um som genérico e impessoal, que eu os encaixe, tal qual a um Leito de Procusto, num vocábulo previamente definido por alguém que nunca nos conheceu de verdade. Nada aniquila mais o encanto do que minimizar à uma palavra insossa a imensa graça que é sentir algo que nem ao menos sabemos dizer o que é.

Da mesma forma que um gesto, ou uma ação, ou uma imagem valem mais do que mil palavras, relativize também este texto – simplesmente não é possível expressar através da escrita o que se passa aqui dentro. Se eu pudesse, uma palavra pra você eu inventaria. Eu criaria todo um novo dicionário, novos verbos, diferentes conjugações onde só figurariam duas pessoas, Eu e Você, e apenas um tempo verbal: o Presente Perfeito.

Por favor, não hostilize meu silêncio, não me peça para falar, pois não importa o nome que você quer dar, ou o rótulo que utilizemos, qualquer palavra vai ser sempre insuficiente pra transcrever com exatidão como eu me sinto com você.

terça-feira, setembro 08, 2009

Intimidade



Quem nessa vida já teve ao menos um relacionamento afetivo sabe que, em boa parte das vezes, é chegando mais pertinho que se desencanta. Como aquelas modelos maravilhosas que, se você colocar debaixo de uma lente de aumento, vai enxergar como ela realmente é: a pele, de pertinho, tem uns cravos; o cabelo maravilhoso é duro de tanto spray. Ela não é tão legal, tem bulimia, uns pés horríveis ou outras coisas do tipo.

Eu, pessoalmente, sempre acreditei e bradei por aí que a intimidade destrói uma relação, e que qualquer relacionamento se mantém muito mais sadio se certa distância for preservada. Não sei se, no fundo, isso não dizia somente a respeito de mim mesma, e se eu, a bem da verdade, não julgo a minha própria intimidade extremamente desinteressante.

Depois de alguns anos de reclusão e de pensamentos do tipo cada-um-na-sua-canga, parece que as lentes cinza da amargura aos poucos foram sendo levantadas, e as partes legais da intimidade foram sendo finalmente redescobertas. É absolutamente fantástico sair da superficialidade massacrante do nosso dia-a-dia, em que todos se encontram vestidos elegantemente dos pés à cabeça, cheirosos, os cabelos sem um fio fora do lugar, o sorriso ensaiado no rosto e o programa feito: cinema e jantar, exatamente nesta ordem. Isso basta durante algum tempo, até que você se encha e diga: quero mais, quero aprofundar.

Aprofundar é improvisar. É não ter script, não ter roteiro, não ter nada planejado e nada sob o seu controle. É simplesmente desfrutar da dinâmica complexa de uma relação sem que nada a alicerce a não ser o desejo da proximidade. Sem plano B: de repente chove e todos os planos que você fez têm que ser reformulados. Se vira nos 30 – quem sabe faz ao vivo, e o que é verdadeiro simplesmente é espontâneo.

A intimidade pode ser muito legal, porque intimidade não tem absolutamente nada a ver com as aparências, e sim com autenticidade, com essência. Sem máscara nenhuma você finalmente entra em contato, e eu, que andava com medo da intimidade, descobri que de pertinho tudo fica beeem melhor.

As pessoas são muito mais interessantes vistas de perto, porque de perto você vê por dentro. De perto você sabe que Fulano tem umas coisas engraçadas que, no “script” cotidiano, não aparecem. Você vê que Sicrano fica lindo ao acordar; você vê que Beltrana come assim ou assado. Você vê que, no fundo no fundo, todo mundo se parece um pouco, e que é justamente as nossas especificidades que vão fazer a diferença na hora de você bater no peito e dizer: esta pessoa é o máximo e eu gosto dela.

Os “erros de gravação” são sempre a parte mais legal do filme. A gente vê como poderia ter sido, a gente vê os atores rindo de verdade. O ensaiado não tem graça, é puro estereótipo. Eu, pessoalmente, sempre desconfiei de tudo o que me parecesse muito perfeito, e não é justamente o caráter tão humano o que me encanta nas pessoas? Suas particularidades, manias, pentelhices, idiossincrasias (!).

Adoro todas elas pelo simples fato de serem tão reais. Humanas, demasiado humanas. A intimidade só é capaz de destruir aquilo que, ao invés de se basear na realidade, se baseia nos ideais utópicos de perfeição, beleza e simetria.

Abaixo o Ideal! O real é o máximo, e somente a partir da intimidade podemos verdadeiramente desfrutá-lo.

quinta-feira, setembro 03, 2009

ebulição

No momento em que eu ia partir, eu resolvi voltar.*


Vou voltar
Sei que não chegou a hora
De se ir embora
É melhor ficar
Vou ficar
Sei que tem gente cantando
Tem gente esperando
A hora de chegar
Vou chegar
Chego como as águas turvas
Eu fiz tantas curvas
Pra poder cantar
Esse meu canto que não presta
Que tanta gente então detesta
Mas isso é tudo que me resta
Nessa festa
Vou ferver
Como que um vulcão em chamas
Como a tua cama
Que me faz tremer
Vou tremer
Como um chão de terremotos
Como o amor remoto
Que eu não sei viver
Vou viver
Vou poder contar meus filhos
Caminhar nos trilhos
Isso é pra valer
Pois se uma estrela há de brilhar
Outra então tem que se apagar
Quero estar vivo para ver
O Sol nascer
Vou subir
Pelo elevador dos fundos
Que carrega mundos
Sem sequer sentir
Vou sentir
Que a minha dor no peito
Que eu escondi direito
Agora vai surgir
Vou surgir
Numa tempestade doida
Pra varrer as ruas
Em que eu vou seguir...


* O Homem - Raul Seixas e Paulo Coelho, 1976.