
Quanto mais vivemos, dia após dia, mais vamos nos dando conta de que toda a nossa existência é apenas e tão somente a ligação entre diversos pontos que, reunidos, formam a figura de nossas vidas.
Cada ponto, um determinado tipo de problema que vai nos orientando ao longo do tempo, dando conta de nos mostrar do que afinal a vida diz realmente a respeito: quando pequenos, a fome insaciável ou um medo do abandono dos pais; crescemos e os dias são a sucessão interminável de dias na escola em que professores autoritários tratam de nos aterrorizar, nossa vida se resume a dar conta das provas, aulas de inglês ou natação, sermos boas crianças e isso jamais ser o suficiente; quando adolescentes nossa vida é uma droga, queremos encher a cara, fumar maconha e mandar nossos pais à merda, nossos pais que são os responsáveis pela nossa vida ser um inferno, nossos pais que nos obrigam a estudar, acordar cedo, nossos pais que não nos entendem e querem nos ver sofrer. Jamais entendemos que um dia as provas irão acabar e todos os hormônios irão assentar, nós desejamos a morte do mundo e todas as pessoas mais velhas nos parecem patéticas.
Se entramos na faculdade, os trabalhos e provas tratam de nos deixar extenuados; se não estudamos e vivemos para trabalhar, a vida é uma merda em que temos que sobreviver dia após dia. Crescemos e os conflitos básicos todos se parecem, temos que trabalhar para poder comer, para poder vestir, para poder se divertir. A semana é um sacrifício sem fim rumo ao sábado e domingo, que é quando a vida acontece de verdade e nós nos estragamos por dentro e por fora, tomando porres homéricos, usando drogas de péssima qualidade, dormindo pouco para sentir que estamos vivendo o bastante, no domingo a ressaca nos massacra, pra depois sermos punidos como uma nova e terrível segunda-feira.
Às vezes gostamos do que fazemos, mas isso não é o suficiente porque o compromisso diário nos oprime; às vezes detestamos nosso trabalho mas não temos alternativas, continuamos a ser manipulados por chefes, supervisores, orientadores, pseudo-parceiros de jornada que botam no nosso rabo todas as manhãs.
Quando não somos rejeitados, arrumamos um parceiro amoroso que vai levar a culpa por todos os nossos fracassos anteriores, o parceiro que um dia pensaremos em trair, que eventualmente nos trairá, mas um dia percebemos que é melhor assentar com ele mesmo e tratarmos de termos filhos. Os problemas então se transformam, viram fraldas, merda, mijo, vômito, choro, sarampo. É o preço da babá ou da escolinha em que tudo o que vai acontecer é que nossos bebês irão conhecer outros bebês.
Mais tarde seremos xingados de autoritários como um dia fizemos com nossos pais, teremos praticamente vendido a alma e dado a bunda por uns pirralhos que se acham maduros o suficiente para fumar maconha enquanto acham que não estamos olhando; um dia eles arrumam um trabalho, mas não pagam uma única conta, saem de casa e reclamam que estamos com mania de doença. De nada adianta explicar que tememos a morte. São jovens demais para entender. Um dia terão seus filhos, terão laços de sangue muito mais fortes do que conosco, as visitas se resumirão a uma ou duas vezes por mês.
Quanto mais velhos ficamos, mais saudades sentimos dos tempos em que éramos jovens, que corríamos rápido e não sabíamos, estudávamos para as provas e seríamos aprovados, reclamávamos do chefe que jamais faria qualquer diferença em nosso futuro, mimávamos nossos bebês que nos abandonariam. Nada nunca importou. Um dia nos damos conta de que o grande quadro de pontilhismo de nossa vida formou um desenho que jamais veremos – ficará para trás, para aqueles que vivem e que contam histórias a nosso respeito, histórias em que fomos heróis, em que fomos pais amorosos, adolescentes especiais, crianças teimosas, bebês barulhentos.
Um dia nos damos conta de que tudo se foi sem que percebêssemos, aprisionados que estávamos no piloto automático do nosso cotidiano. E um dia. Um dia, enfim. O Dia. O Fim.