domingo, fevereiro 22, 2009

Implacável

Às vezes a gente luta muito pra esquecer alguma coisa.

E, de repente, a gente lembra. Parece que tomou um soco. Assim, vindo do nada, com a guarda baixa, inocência rara de que se está protegido. A memória ataca.

Difícil pensar no que poderia ter sido. No que poderíamos ter feito. No que poderíamos ter tido. Difícil pensar que a felicidade pode ter escapado pelos vãos dos dedos sem que nos apercebêssemos disto, iludidos que estávamos com a idéia da estabilidade.

Mas não - o tempo não para, o mundo gira, as coisas mudam. Os sentimentos, a despeito do que possam dizer, costumam ser volúveis, e inesperadamente, apenas a memória é estável e firme o suficiente para resistir à passagem do tempo.

O que poderia ter sido. Ter feito. Ter tido. Tic-tac, tic-tac. Poderia ter sido diferente? Ou o destino era certeiro, independente do caminho utilizado para chegar até aqui? Teria sido possível pegar uma tangente, um atalho no meio dessa minha história, e mudar o fim deste período?

As dúvidas pulam, as pulgas plantadas atrás de minhas orelhas. As dúvidas: ter sido, ter feito, ter tido. Se eu pudesse. Se eu tivesse podido. Tic-tac.

Sem choro nem vela - não pude, não fiz, não tive.

A vida segue. Implacável. Bola pra frente.

sábado, fevereiro 21, 2009

Beijo me liga!!

Pasmem - eu fugi do litoral!
Carnaval no interior, acreditem se quiserem, pode ser tudo de bom.
Só de não ouvir o ziriguidum característico já fica bão demais. Com cervejinha, amiga fantástica, sol e piscininha, aí sim fica completo!
Bom carnaval... e ziriguidum!

quarta-feira, fevereiro 18, 2009

Algo mudou

Algo mudou entre nós.

Não foram suas mãos e nem seu abraço depois de nós dois. Tampouco foi nosso durante – você como sempre foi bruto; eu, claro, submissa. Fomos os dois, como de costume, como cão e gato – gato e rato, rato e presa: me prende entre os dentes num momento de glória, e me dá de presente seu sorriso afetado. Nada poderia ser, ao um mesmo tempo, tão sublime e tão trivial.

Seu tom foi igualmente íntimo. Nos elogiamos como de costume, sem falsas modéstias. Adormecemos exatamente da mesma forma – do contato total à individualidade no final da noite. Agradecemos, ainda que em vão, a nossa total reciprocidade de objetivos – no fim do episódio, ninguém jamais sai magoado.

Foi seu ‘bom dia’ que mudou em meus ouvidos? Para mim foi como sempre sonoro. Acordamos roucos, dolorido como de costume, ainda guardo comigo seus dedos nos braços. Para não perder o hábito, ri com o canto dos lábios de sua primeira piada. Escutei em silêncio suas primeiras rimas do dia. Xinguei com humor sua primeira implicância. Te contei meus sonhos e você como sempre espantou – sempre tenho sonhos estranhos em sua cama, e jamais confessei que todos incluem você. Nesta noite, você estava dentro do carro que explodia numa rua qualquer.

Mas algo mudou entre nós, e ao fim de mais um domingo não houve pesar na despedida. Ela foi rasa – não havia mais ânsia em voltar. Algo mudou e não foram nossos corpos, não foi minha língua, mas definitivamente meus olhos, enquanto os seus permanecem os mesmos. Algo mudou e foi dentro de mim, como uma sede que por fim se sacia.

Será essa uma despedida? Algo mudou que nossas imagens não mostram – seu sorriso congela, meu coração pára, nossos rabiscos continuam exatamente os mesmos, paralizados em nossos corpos conforme um dia determinamos. Tenho fotos; envio um dia, talvez falte o bilhete: algo mudou e foi minha alma, e neste momento ela já não tem nada mais a dizer.

domingo, fevereiro 15, 2009

I like my new bunnysuit :)




**strong convictions and perfect diction!


PLAY!

quinta-feira, fevereiro 12, 2009

Bem aventurados os honestos...

Nada ofende aquele que crê na verdade.

terça-feira, fevereiro 10, 2009

Merda no ventilador...

... só pra não perder o costume!

sábado, fevereiro 07, 2009

Vale a pena?


Minha amiga Ariela*, 26 anos, advogada, é destas mulheres apavoradas com relacionamentos. Ela faz parte do mais novo grupo de espécimes humanos do sexo feminino: os que desenvolveram uma visão negativa e tão aversiva sobre o afeto, que fogem das relações como quem foge de um vírus mortal. É claro que minha amiga não foi sempre assim – como quase sempre acontece, um relacionamento fracassado e bastante sofrido foi o gatilho para sua ‘conversão’. E, como quase sempre também acontece, ela passou o último ano se refugiando em relacionamentos efêmeros, vazios e superficiais – ora sob a forma de uma amizade inocente que sempre acabava em sexo, ora com homens pelos quais ela certamente jamais se apaixonaria.

Recentemente, Ariela resolveu dar uma chance a um amigo do trabalho que declarou interesse por ela. Apesar da aversão à idéia do envolvimento emocional, ela decidiu que era hora de pôr fim às barreiras. Consultou a terapeuta nº 1, a terapeuta nº 2, e então o grupo seleto de amigas ‘residentes’ para a votação final. É claro que todo mundo, sem exceção, foi favorável à abertura emocional, o que rendeu algumas ficadas com o amigo enquanto ele a levava ao estacionamento no final do expediente, emails fofos e telefonemas escassos, mas intensos.

Na última semana, minha amiga me ligou, indignada. “Não está valendo a pena!”, ela vociferou entredentes antes mesmo que eu terminasse de falar ‘alô’. Em plena 23 de maio, rumo à escola, eu me preparei pra enxurrada de reclamações e de racionalizações que certamente viriam. Eu não estava errada – parece que, após uma breve aproximação emocional entre ela e o moço, as coisas haviam esfriado. Não se falavam há alguns dias, os emails rarearam, e ela mal o via durante o trabalho (sendo justa com o cara, ela me explicou que ele estava sempre correndo para um lado e para o outro, atolado de tarefas). E dado importantíssimo: NÃO, eles ainda não haviam transado, o que a princípio ela achara super-fofo.

“Muito barulho por nada, como diz aquela música. O cara me cercou por todos os lados até me vencer pela insistência, eu finalmente acreditei que poderia ser legal, debati isso horrores na terapia, vibrei rosa pá caralho, me esforcei horrores pra me abrir... e o que aconteceu? Passei o fim de semana todo em casa, lendo Revista Nova e um monte de livros idiotas de auto-ajuda. Nem um único telefonema. Não nos vemos há mais de uma semana. Pior de tudo é que por email ele insiste que sou isso e aquilo, mas me fala, quem acredita numa situação destas? Todo mundo sabe que homem quando quer, QUER! Eu estava bem antes disso tudo e agora estou uma BOSTA!”

A fala da minha amiga me lembrou meu post de dias atrás, a frase de Nietzsche: “Odeio quem me rouba a solidão sem em troca me oferecer verdadeira companhia”. Era como se minha amiga tivesse acreditado na maior propaganda de um prato finíssimo, servido num restaurante fantástico, caro e longérrimo, pegado o maior trânsito para chegar lá, amargado 2 horas de espera... por um prato de batatas fritas um pouco oleosas e em quantidade insuficiente. Não há nada pior do que a frustração.

Naquele dia mesmo, minha amiga havia agendado um fim de semana na praia com a ‘amizade-que-sempre-acaba-em-sexo’, o que para mim era, nitidamente, um sinal de fechamento emocional. E, ao desligar o telefone, eu mesma já estava me sentindo um pouco desesperançosa.

Voltei a pensar em defesas, em barreiras, em bloqueios, e me peguei pensando novamente: toda defesa deve ser quebrada? É claro que eu, contagiada pelo maior clima ‘ame ao próximo’ do universo, acabei por incentivá-la a ter um pouquinho mais de paciência (às vezes o cara tava mesmo cheio de trampo e não tava podendo and stuff...), mas a bem da verdade, concordei com ela.

Muito barulho por nada – e isso acontece na maioria das vezes. E então, quando você finalmente resolve tentar mais uma vez, a despeito de toda a descrença, geralmente não é o que você esperava. É claro que nisso tudo tem uma pá de idealização – esperamos que o outro-bola-da-vez nos salve de todos os relacionamentos de merda que tivemos no passado, nos provando, assim, que o ‘felizes para sempre’ ainda pode servir pra nós. Uma ligeira diferença dos planos originais joga nossa energia pro bueiro, e então vem a sensação do desperdício. Desperdício de energia, de esforço, de luta por mudanças – resultado zero.

Zero? Zero se pensarmos nos objetivos idealmente estabelecidos. No fundo no fundo, romântica que sou, acredito que alguma coisa de bom minha amiga leva desta – às vezes o cara pode ser apenas um mensageiro entregando um recado importante: ainda dá pra sonhar. Talvez não seja com ele, nem com o próximo, mas a abertura que houve é um indício de que ainda existe, ali dentro daquele peito machucado, o desejo de gostar de alguém.

O problema é que, se realmente a história furar, entrará mais um item na lista das tentativas mal-sucedidas de minha amiga, o que certamente acabará reforçando o movimento ‘entrando na concha’. No fundo, então, talvez nem toda barreira seja indevida – pelo menos até algo forte o suficiente motivar a quebra das defesas. Até lá, talvez nem terapeuta nem amigas residentes devam dar pitacos. Vai ver é coisa que só a pessoa sente.

Fato é que, de agora em diante, passei a respeitar um pouco mais o esquema tático de defesa da psique humana – provavelmente vou encher menos o saco dos meus pacientes. Talvez ele saibam o que fazem. Talvez de fato minha amiga esteja certa ao chamar telefonemas, flores e convites ao cinema de ‘puro desperdício de rímel’. Talvez seja como a música da Maria Rita: é uma pena, mas certas coisas não valem a pena.

Não importa o tamanho da alma... para se abrir mão da solidão, deve-se receber em troca a verdadeira companhia...
__________________________________________________
* Nome fictício, pra defender os sentimentos da amada amiga amargurada.

sexta-feira, fevereiro 06, 2009

Nietzsche

Odeio quem me rouba a solidão sem me oferecer em troca verdadeira companhia.

terça-feira, fevereiro 03, 2009

Alegre exaltação humana

Odeio comparações.

Mas, invariavelmente, ainda as faço.

O fato é que pode ser extremamente difícil e até injusto comparar coisas que, simplesmente por serem diferentes, dispensam comparações, mas quando se trata de diferenças de todo um abismo, a comparação chega a ser quase que involuntária.

Retrocedendo quase um ano no tempo, recordo, conforme descrito aqui, minha situação de vida da época. O sentimento que aflora quando leio estas linhas é inexplicável... poderia chamar de angústia, mas seria genérico demais. Meu peito aperta, a respiração falha... meus olhos molham como se eu olhasse uma pequena criança apavorada diante de algo bastante trivial no mundo adulto, como um personagem fantasiado ou uma roda-gigante... algo que, quando ela crescer, verá que não era tão assustador assim.

Hoje, olhando para trás, vejo nitidamente, claro como a água, uma óbvia transformação – não apenas emocionalmente falando, mas mesmo em relação às, digamos, conjunturas atuais.

Creio ser o mérito da mudança super merecido: se hoje tenho um consultório relativamente movimentado, outros 3 trabalhos, incluindo as escolas e atendimentos domiciliares, foi porque, em algum momento, eu disse ‘chega’ ao marasmo e à inércia que me envenenava, e disse ‘sim’ às oportunidades quando estas surgiram.

Se hoje me sinto capaz de ajudar pessoas cujos nervos se encontram tão em frangalhos quanto os meus naquela época, foi porque tive a humildade de reconhecer minhas próprias falhas e, no auge da empatia, me colocar no lugar do outro e compartilhar de suas dores e sofrimentos.

Pôr fim a um relacionamento doentio, masoquista, neurótico e absolutamente insatisfatório foi muito mais do que uma questão de amor-próprio: foi uma questão de sobrevivência. O que no fundo, ok, é uma questão de amor-próprio. Mas o amor-próprio, em última análise, não é o amor pela própria existência?

Hoje tenho a segurança plena de que somente em meu estado mais bruto de essência, o ápice do ser-eu-mesma, poderia ser feliz com alguém. Isso envolve, necessariamente, alguém extremamente satisfeito consigo mesmo, forte o bastante e convicto o suficiente de suas qualidades e defeitos para suportar a honestidade do meu caráter. Hoje, tudo se resume a uma equação muito simples: eu sou assim, você é assado. Combina? Hmmm...

(Super ok, ser eu mesma restringe, e MUITO!, o meu universo de relacionamento, em todos os sentidos. Fatalmente, homens ou mulheres diametralmente opostos, ou identicamente similares a mim poderão se afastar devido à minha extrema autencidade. Se tô ligando? Nem um pouco. Aceitei aumentar o diâmetro da intensidade de poucas relações para aumentar igualmente a circunferência da minha felicidade.)

A bem da verdade, só existe mudança onde existe desejo. Creio eu que, ao ouvir meus desejos, passei a dar mais atenção a lados de mim tão esquecidos que, ressentidos, rebelaram-se contra mim na forma de ansiedade, depressão e vazio emocional.

A Nana de hoje canta e dança como uma babaca quando acorda e vê um céu de brigadeiro; come uma panela de brigadeiro sem a menor culpa; se culpa apenas quando se machuca de propósito; e se machuca de propósito apenas se for para salvar alguém.

A pessoa que sou hoje tem orgulho de tudo o que passou e passa pra frente a experiência da dor – simpatizo com quem sente, sofre e ama, a tríplice aliança humana. Odeio julgamentos.

Fortaleci meus afetos; afastei de mim os julgamentosos; reconheci na força do meu trabalho a possibilidade de abrir um milhão de portas – não há nada nem ninguém que possa me impedir de fazer o que quer que seja. Tenho apoio, tenho família, tenho trabalho. Nada pode ser tão grave a ponto de destruir qualquer um destes alicerces quando se tem a argamassa essencial que os une de maneira perfeita: a tranquilidade mental.

Hoje minha mente é mais calada – não sinto saudades de suas época agitadas, mas ouço com atenção a tudo o que fala.

E é respeitando meu mais recente silêncio e meu comedimento emocional que encerro por aqui, deitada eternamente no berço esplêndido da minha alegre e exaltada alma humana: estou feliz. Não importa até quando.

domingo, fevereiro 01, 2009

A Dúvida

A cada crítica que surje ao suposto fechamento da alma, me pergunto: é defesa? A cada defesa, uma questão: é precisa?

Se existe defesa, é por opor-se a ataques. Defesas não existem à toa - a capacidade de enfrentamento é diretamente proporcional ao nível experiências bem sucedidas.

Certificai que o cenário não seja o mesmo para desempenhar papéis distintos em distintas peças. A representação das personagens depende do delicado equilíbrio entre o seu passado, o meu futuro, e o quanto guardamos para nós mesmos o que deles surje.

Do âmago dos filmes já vividos, a defesa desperta encerrando em si mesma os já velhos questionamentos: todo passado é pregresso? Pode o ser humano desvencilhar-se de seu histórico? Deve este ser humano fazê-lo? Sob que preços altos a pagar?

Do alto dos aparatos retaguardeiros, surge a centelha divina da dúvida e o bichinho a pulular na parte de trás de minhas orelhas, estourando maliciosamente a delicada bolha de sabão formada por nossa sutil homeostase, acusando-me da dúvida jamais silenciada: toda defesa é indevida?

quinta-feira, janeiro 29, 2009

Sobre livros e leituras

"O belo só continua belo quando acompanhado do bom e do verdadeiro" - Platão

Quem me conhece sabe: sou apaixonada por livros. Acredito piamente que, como dizia Marco Túlio Cícero, uma casa sem livros é como um corpo sem alma. Parafraseando outro dos grandes mestres, Jorge Kishikawa, quando fico sem ler, tenho hipoglicemia na alma - e por isso meu carro, meu quarto, minha casa e meu mundo é totalmente recheado de livros.

Como sério vício que possuo, a compulsão por comprar e trocar livros é grande. Me ponha dentro de uma Livraria Cultura e é capaz de me acharem somente dias depois, já meio desnutrida dentro do estoque. Tenho o péssimo hábito de, com muita frequência, comprar vários livros ao mesmo tempo – o que, invariavelmente, resulta numa pilha constante em cima do meu baú, que tento há anos (juro, anos) zerar e nunca consigo. Novos títulos vão sendo agregados à esta pilha, vários sendo lidos ao mesmo tempo, sem qualquer ordem ou sistematização. Meu vício é caótico.

Neste exato instante, olho para esta pilha de livros. No momento, ela conta com 9 títulos (Cem sonetos de amor de Pablo Neruda, já semi-lido; A ignorância e Risíveis Amores de Milan Kundera, meu autor preferido; Admirável Mundo Novo de Aldous Huxley – devidamente recomendado pela querida Luli - , O guardião de memórias, de Kim Edwards e Fragmentos e Aforismos de Nietzsche, todos os 3 intocados; Filosofia Incomum de Marcia Tiburi e O Mundo de Sophia de Jostein Gaarder, ambos parcialmente lidos; e O Vendedor de Sonhos de Augusto Cury).

A pilha empacou especificamente por causa deste último livro. Nunca gostei do Augusto Cury, mas comprei o livro por recomendação de um amigo. Sequer li a contracapa, e quando comecei a leitura, logo no prefácio já saquei a arrogância do autor. Odeio gente arrogante, incluindo a mim mesma em certos estados alterados de humor, e por isso mesmo resolvi ler a peça. Empaquei. Não aguento mais ler nem uma linha sequer, e tenho ganas de, pela primeira vez desde a sexta série (com Ensaio sobre a Cegueira, do mestre Saramago), abandonar a leitura do livro pela metade – acreditem, é algo impensável para mim.

O problema não é o conteúdo do texto (bom, maneirinho, bem elaborado), mas o tom explícito de auto-ajuda. Me enerva. Assim como a leitura de certas revistas te faz se sentir “menos alguma coisa” (a Caras, a menos rica; a Boa Forma, a menos em forma; a Vogue, a menos bem-vestida; a Contigo, a menos informada; a Veja, a menos politizada), os livros que se apresentam tão claramente de auto-ajuda me fazem me sentir uma completa fracassada. Não apenas pelo tom simplório da escrita, que vamos combinar, é ótima no quesito “texto acessível a todos”, mas pelo grau de hipotetização absoluta dos personagens, pela estereotipia massiva em torno de todas as situações, do conto de fadas às avessas, puro estigma.

Acredito, não apenas como ser humano, mas também como terapeuta, que toda forma de estigmatização é preconceituosa – o livro, nesse nível, não deixa a desejar, pois lentamente vai mostrando ao leitor que dentro de todo ser humano existem aspectos opostos, dinâmicos, extremos. O bêbado irrecuperável aos poucos vira um sábio bonachão; o intelectual arrogante vira um humilde e emotivo pai de família; o ladrãozinho mequetrefe começa a aprender a dividir. Nada mais lúcido.

Tudo lindo se não fosse o maior dos clichês, e a verdade é que os clichês me incomodam horrores. Talvez eu mesma seja o cúmulo do clichê – uma psicóloga completamente maluca que toma remédios restritos, um curador ferido, um pajé meio zuado – mas tenho percebido, ao longo da vida e da profissão, que os clichês, por si só, não transformam nenhum indivíduo. Por consequência, não acredito que o livro do querido Dr. Cury, que, como ele mesmo proclama em seu prefácio, “escreve há mais de 25 anos e publica há 8, mais de 3 mil páginas inéditas”, vá ser um gatilho bem sucedido das mudanças sociais que ele tenciona catalizar. Tenho visto exemplos mais eficazes, mais próximos da realidade, alcançarem as massas com mais fervor – é o caso do lindíssimo Comer, Rezar e Amar, A cidade do Sol ou mesmo A cura de Schopenhauer, todos bests sellers menos renomados ou de fama tardia. *

O óbvio apelo religioso do livro também me incomoda. O jeito "não estou querendo defender a coisa, mas já defendendo...” do autor ao citar passagens bíblicas ou o próprio Jesus de Nazaré me soam lavagem cerebral subliminar – o que é totalmente diferente do que colocar pitadas de uma espiritualidade latente que está prestes a explodir, de forma não-religiosa, como em Comer, Rezar e Amar.

A realidade tal como se apresenta (negativa, massacrante, muitas vezes turva e vingativa) parece ser um meio muito mais ágil de tocar as pessoas. Todo mundo já viveu a dor, a perda, a ilusão, o que gera identificação imediata por parte do leitor. A verdade é que um texto belo e gramaticalmente bem escrito já não atinge a alma humana como agente de mudanças, apenas tangencia aquele sentimento de “uh-oh, realmente tem algo errado”. Como já dizia Platão, o belo só permanece belo se acompanhado do bom e do verdadeiro.

Confesso que sou intensa – sendo assim, apenas o drama realmente me comove e me agrega algum valor. Falo apenas por mim, e talvez aqui esteja sendo tão arrogante quanto o que mais detesto. Afinal, quem sou eu para criticar tão abertamente alguém que atingiu a fantástica marca de “7 milhões de livros vendidos somente no Brasil”? Admitamos, é um feito. E, na realidade, será que eu mesma conseguiria reunir elementos tão intrincados como o Dr. Cury, e ainda promover uma história com sentido e efeito romântico como em O Vendedor de Sonhos?

Honestamente não sei. Minhas idéias literárias jamais saíram do mundo das idéias, e nem mesmo sei se um dia se transformarão em tinta sobre celulose. Eis aqui um manifesto pró-realidade, e tão somente isso. Se a intenção é incentivar a independência emocional, nada melhor do que um belo drama caótico sobre a própria dependência. Não precisa nem prometer uma ajuda – todo mundo sabe que somente o desejo é responsável pela mudança. Nesse sentido, uma leitura simples e direta como Ping – a busca de um sapo por uma nova lagoa já é super bacana e lúdica (e nesse caso eu conheço os efeitos pois eu mesma recomendo a leitura para meus pacientes), ou Pollyana, que como bem disse o querido Fiore, foi o primeiro livro de auto-ajuda escrito, mas muito bem disfarçado de romance. Pros mais politizados, A Revolução dos Bichos também dá no que pensar, apesar do nítido tom anti-comunista, ou então absolutamente qualquer um dos livros do Kundera. O fato é que livro bom é como filme bom: depois de ler, você ainda fica pensando. Literatura que você lê e depois esquece é tão obsoleta quanto um Big Mc - fácil digestão, fácil excreção (argh).

Quanto à leitura do livro, penso em insistir mais um pouco. Fiquei sabendo, recentemente, que O vendedor de sonhos será uma trilogia, o que me faz me sentir culpada em não ler sequer o primeiro volume até o final (os outros, me desculpem, não vai dar). Como em toda situação em que me pego sendo crítica demais, espero que o que estou cuspindo pra cima caia bem no meio da minha testa – do contrário, fatalmente meu universo particular de livros ‘líveis’ tornará a se restringir às biografias, romances realistas ou fantasias água-com-açúcar. E viva o Crepúsculo!

*Referências Bibliográficas:
“Comer, Rezar e Amar” – Elizabeth Gilbert. Objetiva, 2007.
“Pollyanna” – Eleanor H. Porter. Nacional, 1987.
“A cidade do sol” – Khaled Hosseini. Nova Fronteira, 2007.
“Ping – a procura de um sapo por uma nova lagoa” – Stuart Avery Gold. Best Seller, 2007.
“A Revolução dos Bichos” – George Orwell. Globo, 1945.
"A cura de Shopenhauer" - Irvin D. Yahom. Ediouro, 2005.
"Crepúsculo" - Stephanie Meyer. Intrínseca, 2008.

segunda-feira, janeiro 26, 2009

. just for the records.

Caos

2 horas e meia depois de ter deixado para trás minha amada ilhota, reconheci, num piscar de olhos, que estava no inferno.


Foram outras 2 horas e 40 minutos para atravessar os 9km que separam a entrada de São Paulo da minha casa, trajeto este feito inteiramente pela Marginal do Tietê. O cenário, caótico, me embrulhou o estômago: um mar de carros se espalhava por todos os lados, sob um céu pesado e negro de chuvas.

Demorei o mesmo tempo que percorri 200km para atravessar o que era para ser o grande facilitador da vida urbana, não fossem os milhões, bilhões, trilhões de caminhões barulhentos, sujos, cuspindo fumaças negras em cima de mim, em pleno horário proibidíssimo para seu trânsito.

Outros carros se esmagavam como sardinhas em lata. Olhei ao redor, um grande estacionamento a céu aberto. Me senti sufocar. O estômago revirava. A irritação crescente dominava meus sentidos e a vontade era de gritar, chorar, me indignar contra a realidade em que vivia. A claustrofobia me alcançou: não havia para onde ir, por onde sair, nenhuma outra alternativa. Estava presa. Meu coração absolutamente ressentido.

Me lembrei, em poucos segundos, do meu velho e abandonado projeto de deixar esta cidade cinzenta, e me perguntei: por que? Por que ainda estou aqui? O que me prende? O que afinal eu quero do meu futuro?

As pessoas se xingavam. As buzinas quebraram minha cabeça. O cheiro fétido parece ainda estar em mim. A tristeza era geral.

Onde fomos parar? Que tipo de vida é essa, em que as pessoas passam o dia trabalhando até desenvolverem uma úlcera, viciadas no próprio tédio, e quando vão para casa, enfrentam uma verdadeira viagem, na qual morrem lentamente pelo excesso de monóxido de carbono?

Que tipo de vida é essa oferecida pelo nosso mundo, ou pela merda do nosso governo, que me pune pela falta de documentos, mas que fecha os olhos para a verdadeira horda de transgressores engravatados que legislam sobre nossas cabeças, todos os dias?

Por fim, que tipo de vida leva a grande massa do nosso país, que perde a saúde tentando ganhar a vida, sustentar a família, construir algum patrimônio, fazer algum dinheiro, para depois, anos mais tarde, gastar todo este dinheiro para recuperar a saúde?

É um completo contrasenso, esse não pode ser o mundo que sonhamos em viver, não pode ser esta a vida com que contamos, não podem ser estes os valores que defendemos. Este não é o mundo que planejei para mim, esta é a extinção, desculpem, não aguento mais, vou vomitar.

segunda-feira, janeiro 19, 2009

Ode à autenticidade

Não atendo Pierrots; não finjo Colombinas...

Difícil te ler sem poder, a um mesmo tempo, te ver e te escutar. Saber de você é um paradoxo – te tenho próximo à distância, te afastas quando está perto de mim. Num mar de rostos o teu se iluminou, com um pouco de solidão eu pude te sentir. Onde estás quando estás ao meu lado? Em que subterfúgios te escondes? Que meios existem de acessar seu eu real?

Por que persegues padrões ideais? Por que hiperdimensionar algo tão simples? Gosto do teu semblante tranquilo, de seu tipo comum, cansei de super-homens e tampouco pretendo ser mulher-maravilha. Não preciso de cerimônias. Por que temes a realidade? Seja você mesmo que de certo me encantarei por seus atributos; finja tuas qualidades e me terás distante, não abraço máscaras, não atendo Pierrots nem finjo Colombinas. Por que forjas esta naturalidade tão pouco convincente? Não há dramas desta vez, não há entrelinhas num contrato fraudulento – sou eu essa, quem é você?

Mostre a mim a sua face mais secreta e a receberei como um presente – o objetivo não é te amar, e sim te conhecer. A honestidade mais profunda é meu maior afrodisíaco, arrisque você a ser genuíno, autêntico, espontâneo, jogue suas fichas em você mesmo e leiloe sua paixão. Reconheço o brilho da sinceridade quando a vejo, identificarei no seu olhar se aceitar meu desafio - nessa mesa de jogo apostei minha alma. A sorte está lançada, estarei esperando do outro lado da roleta.

quarta-feira, janeiro 14, 2009

A Ex

Entre todas as figuras míticas e imponentes de nosso vasto imaginário popular, nenhuma é tão temida, enigmática e desprezada quanto Ela. Mais odiada do que a Sogra Mala, mais vingativa do que a Madrasta Má, mais canalha do que O Chefe, ela se faz onipresente, assombrando as cabeças desequilibradas e já um tanto fodidas da maioria das namoradas. É ela: a Ex-Mulher.

Falar sobre a Ex-Mulher não é como falar sobre qualquer tipo de ex. A primeira letra maiúscula que carrega não é por acaso – ela é a Rainha das Ex, cujo cetro é o papel onde está escrito, preto no branco, que algum dia ela já foi chamada de Esposa. O casamento concreto (seja civil, seja religioso) é a coroa da Ex-Mulher, e o divórcio a ruína das namoradas subsequentes do homem em questão.

Pior do que a Ex-Mulher, só mesmo a sua espécime evoluída e mais aperfeiçoada: a Mãe-da-Minha-Filha (ou Filho, mas preferi o termo Filha). Essa é a filha-da-puta de todas as filhas-da-puta, víbora das víboras, ganhando até mesmo dO Político ou do Vizinho-do-Lado. Os problemas do relacionamento entre uma mulher e um homem que venha com o clássico “chaveirinho” geralmente passa pela Mãe-da-Minha-Filha, existindo, é claro, raríssimas exceções.

A verdade é que a Ex-Mulher goza de um papel extremamente poderoso na relação já fracassada com seu ex-marido, especialmente quando há uma criança envolvida. E, geralmente, tal poder foi conquistado às custas de muita manipulação, chantagem emocional e ameaças judiciais envolvendo a guarda do pimpolho. Isso faz com que, quando se trata da Ex-Mulher, todo cuidado seja pouco, o homem acaba pisando em ovos e, via de regra, ela acaba possuindo todos os benefícios e prioridades que deseja.

Fatalmente, o(a) fedelho(a) é a desculpa perfeita. Por causa “dele(a)”, o homem se torna mais suscetível aos caprichos da Ex, o que é o gatilho perfeito para que a Nova Namorada se torne uma louca obsessiva e enciumada. Desconte-se aí o fato de que a criança não tem culpa, e tem-se um caldeirão borbulhante e propício a futuras encrencas.

O fato do casamento ter acabado e, portanto, não ter sido bem-sucedido, parece irrelevante aos olhos da Nova Namorada, que tende a priorizar o fato de que, algum dia, aquela foi uma relação forte. Forte a ponto de gerar rebentos e quiçá ligações espirituais primariamente “eternas”, o que, no final das contas, acaba sendo: a Mãe-da-Minha-Filha possui um vínculo eterno e extremamente significativo com o homem em questão, coisa que a Nova Namorada não tem – se é que algum vínculo de fato existe!

Uma hora ou outra, a Ex-Mulher dá sinal de vida. Geralmente, acontece em datas comemorativas. Aniversários, Natal, Domingo de Páscoa. A desculpa novamente tende a ser o(a) pirralho(a), mas toda Nova Namorada que se preze sabe que, em 99,99% dos casos, tem boi na linha. A verdade é que a grande maioria das Ex-Mulheres simplesmente não suporta saber que seus ex-maridos seguiram em frente e que hoje comem alguma menininha bonitinha da vizinhança. Essa postura obviamente infantil acaba, fatalmente, recaindo sobre a Nova Namorada, que passa a sacar que tem algo errado no número cada vez mais frequente de telefonemas.

Dá-se início à tragicomédia: ela bota o cara na parede. Ele está tendo um caso com a Ex-Mulher??? O cara nega. Ela pega o celular dele, obsecada, procura o número, não acha, tenta um apelidinho, acha dúzias de mensagens. Não interessa que todas sejam sobre a criança (que a estas alturas, já está sendo encarada como A Culpada da História, outra figura lendária de nosso imaginário), o fantasma já foi criado e, acreditem em mim, dificilmente será exorcizado por completo.

A bosta está feita: a Nova Namorada já não quer conviver com a criança (se é que algum dia elas foram apresentadas), todo aniversário infantil é motivo pra torcer o nariz e a Ex-Mulher, sentada em seu trono de Impiedade, gargalha de sua vingança final: o casal está desgastado, irritado e, invariavelmente, a célebre frase dá o golpe final: “Você sabia que eu tinha filhos”.

Homens e mulheres do meu Brasil varonil! Qualquer psicanalista de beira de estrada sabe que a situação é infinitamente pior se a criança em questão for uma menina – a competição entre a Nova Namorada e a filhota será inevitável. A verdade é que o cara já tem uma princesinha na vida dele, já existe uma Mulher-da-sua-Vida, que será sempre e para sempre sua prioridade. Bota água no feijão: a menina é filha de alguém que, antes dela, foi a primeira Mulher-da-Vida-dele.

O palco está armado. Um pandemônio! O circo foi convocado: senhoras e senhores, é dia de marmelada! Quem tem estômago fica, quem é mais carente tende a sair fora. Em algumas situações, a ex-nova-namorada fica sabendo, semanas depois, que o cara reatou com a Ex-Mulher, se sente uma bosta pro resto da vida e desenvolve um sério trauma em relação a homens com filhos, divórcios e Ex-Mulheres. Em outros casos, ela nunca fica sabendo que a Ex-Mulher era, na verdade, uma pessoa bacana, mas também uma leoa faminta e dedicada à sua prole.

Entretanto, na maioria das situações, uma coisa é fato: a imagem mortífera da Ex-Mulher acaba sendo confirmada - ela é novamente eleita, por unanimidade de votos, pelo milionésimo ano consecutivo, a Verdadeira Destruidora de Namoros, e continuará a assombrar inexoravelmente as neuroses das mulheres solteiras em idade reprodutiva. Mais do que isso, ela se torna (injustamente?) responsável pelas crendices populares mais aterrorizadoras: a de que é o primeiro casamento o que importa, a de que ex boa é ex morta, e blablabla.

Que se faça justiça: há de se aceitar o outro tal como ele é. Infelizmente, a Ex-Mulher pode fazer parte do pacote. Cabe a cada mulher e a cada homem darem tratos à bola de suas insegurança. Deixem as mulheres de serem neuróticas, deixem os homens de serem cagões, deixem as Ex de serem umas assholes e toquem suas vidinhas. Cada um tem aquilo que merece – se no caso, ex boa for ex morta... bom... sabe lá...

Brincadeiras à parte, que atire a primeira pedra quem não conhece alguma Ex-Mulher fantástica de alguém. Conheço várias. Dúzias. São ótimas. Leoas, é verdade... mas, como eu já disse antes, tudo depende do grau de segurança e de confiança do casal... tema chato. Tema polêmico.

Papo prum outro post.

segunda-feira, janeiro 12, 2009

A falta

Já faz quase um ano da felicidade de nós dois
E eu já não sinto saudades dos meus tempos de você
Daquelas noites compridas
Dos sonos mal dormidos
Dos dias intermináveis
Das horas arrastadas em mim
Dos banquetes de migalhas
Do coração amargo na boca
Do estômago na minha garganta
Amor meu, eu não sinto mais falta de você
Mas sinto sim falta de mim
E dos meus sonhos desfigurados
E das fantasias que lacro no peito
Da serenidade dos meus planos
Da coragem de saltar das alturas
Da minha velha fé no futuro
Do meu eterno sorriso debochado
O nosso fardo, meu amor, de repente pesou demais
(Eu o retirei dos ombros pra poder respirar em paz)
Hoje em dia só sinto saudades naquelas noites sem lua
Meu peito paralisa de escuridão
O respirar congela e congela
A solidão entra pela porta dos fundos
E me surpreende nua
Meu bem, a falta não é de você
A falta sequer é de mim
A falta é do que sonhei
Do que acreditei enfim
E que agora enterro nos porões sujos da memória
Essa minha velha senhora a me zombar do passado
Usando truques de feitiçaria
Eu te varro pra debaixo do tapete
E finjo que você jamais existiu
Amor, o que eu sinto falta em você
É a parte que você roubou de mim
A que sente saudade de ter saudade
E daquela saudade que jamais tem fim.

quarta-feira, dezembro 31, 2008

A Carta

"Querida Ana,
Perdoe-me por lhe escrever somente no último dia do ano! As correrias desta grande família por vezes me impedem do que realmente desejo!
Todos estao bem neste fim de ano. Todos com saúde. (Diana e Laura ainda brigam de vez em quando, como normal das criancas. Maria ainda fala pouco.)
O ano foi conturbado. Sinto pela minha ausência! Aline deu um bocado de trabalho - adoeceu a coitadinha. Disseram que eram os nervos. Imagine você que, lá pelo mês de abril, a pequena chegou a atravessar avenidas inteiras sem olhar pros lados, somente em mangas de camisa e shorts curtos de lycra. As soquetes, nos pés, já estavam marrons! Havia enlouquecido! Foi necessário o trabalho em conjunto de familiares e amigos para livrá-la da angústia (obviamente, foram necessários também medicamentos). Após ter sido depositado muito amor em seu partido coração, recuperou a sanidade. Vez por outra, apesar de ainda medicada, tem recaídas, e portanto mantenho constante vigília - a pobre ainda chora a noite, atormentada por pesadelos terríveis.
O divórcio de Aurora foi a notícia. Todos demos Aleluia por ela ter dito adeus àquele obtuso! Agora, parece estar desfrutando dos prazeres de sua libertação - retomou o gosto pela leitura e pela filosofia (pensa em voltar aos estudos no ano que vem), passa tardes com os grandes pensadores (receio estar se tornando um pouco solitária), caminha todos os dias ao som de melodias orientais. Se deseja saber, pensa em sa casar novamente!
Amanda iniciou aulas de música - o canto, creio eu, tem sido seu grande aliado e assim realiza fantasias de infante, pois recordo-me de te-la flagrado, ainda pequena, alguns pares de vezes imitando artistas famosos defronte o espelho. Sua voz me parece mais bela (pende mais para os agudos), e mais limpa também após ter largado de fumar aquelas horrorosas cigarrilhas prateadas que lhe empesteavam os cabelos.
A pequena Ariadne recebeu gradução positiva naquela arte marcial que insiste em praticar. Não vejo com bons olhos que ela tenha se inscrito num novo torneio - será que a tomo por frágil demais, minha amiga? Temo pelas dores que observo que sente com frequência. Observei lesões em ambas as mãos. A sua terapeuta (você sabe que ela sempre foi dada a agressividade) define minha cisma como infundada - me recomenda paciência e compreensão. Parece que esta aí uma boa forma de extravazar seus impulsos por vezes auto-destrutivos.
Em especial, é o menino Andre denota mais cuidados. O autismo ainda parece irreversível. Ainda não responde direito aos comandos, se mostra assustado diante de qualquer estímulo meramente positivo. Elogios o embaraçam a ponto de tornar-se intratável, demonstrações de afeto o constrangem. Ainda nao sabe abraçar.
O cuidado com minhas crianças exigem-me bastante energia - Deus sabe o quanto preciso pensar antes de ceder-lhe os coloridos caprichos, ou me torno escrava de meus próprios afetos e gentilezas! Querida Ana, se lhe parece estranho que eu me ausente deste longo e tedioso relato, suplico-lhe que não te preocupes. Ando bem. Extenuadas as forças, e claro, dormindo pouco. Os mantras de Mestre Lanto me aquecem a alma, mas o espírito anda inquieto - creio serem os desejos insatisfeitos que rogam para serem atendidos.
Recentes acontecimentos agitaram-me por dentro. Descobri (mascarados, e claro) sentimentos há muito adormecidos, que agora, entre flores e olhares de soslaio, bocejam e procuram se espreguiçar. Bom sentir-me acesa novamente - muito embora não tenha confessado minhas emoções, só o despertar do coração por si só ja basta para acolher um interior outrora magoado - o resto, creio ser o Destino o responsável encarregado.
Perdoe-me a pressa na despedida e as falhas na pontuação - o peixe está no forno e Adriana grita por mim. Parece que algum bicho a picou e agora ela pede por sorvete! Ah, as crianças, sabidas na arte de seduzir, com seus olhinhos molhados e lânguidos, queixinhos trêmulos e bracinhos estendidos...
Lá vou eu. Desejo a ti, cara amiga, meus votos de um feliz ano-novo, com tudo o que a vida te reserva de mais colorido.
Com rosas vibrações e muito amor,
Paula"

sábado, dezembro 27, 2008

2009, still alive!!

Odeio retrospectivas.

Mas ainda as faço. E verdade é que 2008 foi do caralho.

E, por “do caralho”, não digo que tenha sido exatamente um ano sensacional, mas extremamente intenso.

Conheci pessoas ótimas, conheci pessoas terríveis. Sofri nas mãos de quem possui princípios totalmente diferentes dos meus e, sobrevivente, encontrei apoio e acolhimento onde não esperava. Cruzei meu caminho com os de pessoas das mais variadas, felizes e tristes, de bem e outras nem tanto, pessimistas e otimistas, gente de virtude, de valores, gente desesperançosa e gente com sede de viver.

Trilhei caminhos diferentes este ano: me conduzi por onde minha intuição me levava, deixei de nadar contra a correnteza, me entreguei às verdades das situações. Me permiti experimentar as circunstâncias sempre tão temidas. Icei velas e me entreguei ao sabor do vento. Tremi de ansiedade.

Fui ao inferno e voltei. A criança suicida deu suas caras novamente, gritou para ser olhada, berrou para ser ouvida. Ela quis se cortar inteira - me odiei, me maltratei, me feri, mas ressurgi das cinzas, tal qual uma fênix. Por isso, devo minha gratidão a algumas pessoas – elas sabem quem são.

Recebi afeto – como é difícil! Como é difícil receber! Me descobri, em 2008, mais hábil em doar. Sejam elogios, flores, livros ou abraços, receber é difícil, e minha nova tarefa para 2009.

Cresci, em 9 meses, mais do que cresci em anos. Considero este um período gestacional: uma criança se desenvolvia aqui dentro, alguém muito mais preparada pra vida difícil que o mundo nos apresenta todos os dias. Alguém mais preparado pro amor, pras relações humanas, pra vida em família, pra generosidade das amizades.

O parto foi dolorido. Sangrou. No fim, o bebê era saudável. Ele se chama Vida.

Eu comecei o ano, neste blog, falando de aprendizados e sobrevivência.

Nada mais adequado poderia haver para encerrar também.

Entre batalhas sangrentas, mortes e partos, dores de amores, encontros e partidas, salvaram-se todos.

Sobrevivi!

Em 2009, AINDA VIVA!!
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Em tempo: desejo a todos um feliz ano-novo, com muito aprendizado, harmonia e vivências intensas... espero ter, quando voltar de viagem, coisas fantásticas para contar.

segunda-feira, dezembro 22, 2008

Adoro...




... os encontros verdadeiros entre almas irmãs que jamais perdem seus valores e conceitos mais importantes. A energia é mágica.







... quando pais e filhos superam as distâncias e as dificuldades do passado. O resultado é lindo.







... fazer parte de algo conquistado com respeito, amor e carinho através dos tempos. O acolhimento é reconfortante.




... poder ser eu mesma em tempo integral e aceitar o outro exatamente como ele é, quando ele está e o que está disposto a me dar. A aceitação é plena.

Eu adoro a sensação de paz e de segurança, de amor e de apoio, de admiração e de bem-querer que me invade quando estou entre pessoas de bem. Lindos presentes de Natal, fina sintonia de vida, razões eternas de viver.

segunda-feira, dezembro 15, 2008

Escolhas




A vida é feita delas. Somos, todos os dias, inundados por milhares de situações que exigem que optemos entre isso, aquilo ou aquilo-outro. Muitas vezes, as alternativas são escassas, e nossas opções limitam-se a uma ou duas possibilidades - por exemplo agora: escolha, desde já, se você irá ler ou não este texto inteiro. Ele é grande, e parar no meio pode ser frustrante.

O cérebro humano, através de milhares e milhares de sinapses realizadas simultaneamente, desenvolveu um sistema eficiente e – o mais importante – extremamente veloz de processar as informações e agir diante de determinada circunstância. Imagine só se, a cada tomada de decisão, o nosso cérebro não funcionasse rápido o bastante pra decidirmos algo: virar à direita ou à esquerda, escolher um ou outro prato, colocar esta ou aquela blusa, desviar de um obstáculo, fugir de um cachorro, etc etc etc.

Os exemplos são infinitos, e todo mundo já reparou que, quando esse tipo de escolha de ordem prática não é tomada rapidamente, nos sentimos perdidos. É o caso de quando não fazemos a menor idéia do que vestir, ou quando queremos comer todos os pratos do cardápio, ou quando não sabemos que direção devemos seguir com o carro. O natural é que este tipo de decisão seja tomada rapidamente – mesmo que, havendo a possibilidade, se repense a decisão tomada. Quando não sabemos o que escolher, o resultado é, invariavelmente, a angústia.

A verdade é que, de uma forma ou de outra, estamos sempre escolhendo. Às vezes de forma inconsciente e automática (suco de laranja ou de limão? com ou sem gelo?), às vezes depois de muito pensar. Às vezes nos deparamos com situações em que a escolha é mais difícil e implica em, fatalmente, des-escolher uma série de coisas e essa é a maior angústia em relação às escolhas da vida: escolher algo significa, necessariamente, a morte de todas as outras possibilidades. Escolher como destino de viagem o Japão significa, sem choro nem vela, não ir à Islândia – pelo menos não num primeiro momento.

Entretanto, por mais que as escolhas sejam inerentes à condição humana, é fato que nem sempre elas são fáceis, já que existem, fatalmente, decisões mais ou menos complexas. Tem coisa que não tem como escolher na base do uni-duni-tê (método que já utilizei fartamente em situações de desespero!). Tem gente que queima os tubos refletindo e nunca chega a decisão alguma. Outras pessoas podem escolher algo sem perceber e depois viver a vida lamentando a decisão e culpando os outros. Isso sem contar na quantidade de vezes que a gente, por querer escolher tudo, acaba sem nada. É o caso clássico da mulher ou do cara que namora duas pessoas ao mesmo tempo e que no fim acaba ficando sem ninguém. Já diz o ditado célebre: melhor um pássaro na mão do que dois voando! Pensando em escolhas, opções, decisões e possibilidades, não pude evitar de me perguntar: como fazer a escolha certa?

O medo do arrependimento é o que geralmente permeia a dificuldade de uma decisão. Escolher certo é uma pressão que sentimos desde quando somos obrigados, aos meros 17 ou 18 anos de idade, a escolher aquilo que iremos, pelo menos em teoria, fazer pelo resto da nossa vida: uma profissão. Acredito ser essa, fatalmente, a primeira grande escolha de nossas vidas. Como escolher certo? E se nos arrependermos? E se fizermos a escolha errada?

Esse medo costuma dominar as pessoas por toda a vida. Não se trata aqui de decisões do tipo ‘compro uma Tucson ou uma CRV-4’, mas escolhas um pouco mais amplas e de consequências mais vastas – deixar ou não um emprego, ter ou não filhos, casar-se ou não com o parceiro, impedir ou não uma traição, se meter ou não onde é não chamado. Coloco aqui apenas situações binárias, cujas possibilidades se resumem a alternativas opostas, diretas, sim-ou-não, mas existem em nossas vidas situações e mais situações, a todo o tempo, em que todo um leque de opções se abrem, dificultando ainda mais nossas decisões. Some-se a isso a realidade angustiante da dimensão temporal: jamais pode-se voltar no tempo. Resultado: medo. Insegurança. Ansiedade.

Recentemente, um paciente meu queixou-se de não saber mais quem era, pois não sabia mais do que gostava. Andava indeciso para tudo – até mesmo para comprar sapatos. A inteligência dele o impedia de ver a genialidade da simplicidade de seu raciocínio – sua indecisão estava diretamente ligada aos seus desejos, por ora ocultos embaixo de um monte de pressões sociais, carências afetivas e expectativas frustradas.

A verdade é que, em se tratando de escolhas, não existe melhor parâmetro do que nosso próprio desejo e o alcance de nossos objetivos, mesmo que isso signifique, às vezes, sacrificar outros desejos para atender algum em especial, ou postergar certos prazeres em prol de um benefício a longo prazo. Por vezes a gente decide fazer algo que não está muito satisfeito, mas visualizando algo bacana lá na frente. Sendo assim, para escolher bem (qualquer que seja a situação), é totalmente necessário ter um mínimo de auto-conhecimento, um mínimo de auto-percepção. Pra saber se escolhemos o doce ou o salgado, há de se ter, necessariamente, conhecido ambos. Para resolver, afinal de contas, se é melhor terminar ou não um relacionamento, é preciso tê-lo vivido em sua plena intensidade para absorver e compreender todos os sentimentos e possibilidades envolvidos.

Recentemente, enfrentei uma escolha difícil: marquei sem querer duas coisas importantes para a mesma data e, fatalmente, precisaria frustrar um de meus amigos. Sofri horrores com a situação. Tive medo de perder as amizades. Fiquei sem fala, tive pesadelos. Não sabia o que escolher até que, tendo percebido que, necessariamente, um dos dois sairia magoado, me resolvi por consultar o meu desejo e também o nível de confiança que eu tinha nas amizades em questão. A partir daí, a decisão ficou mais fácil, muito embora tenha sido difícil comunicá-la ao amigo com quem desmarquei.

Uma boa dica para se escolher bem é ouvir o seu estômago. Sim, ele mesmo – quando algo não vai bem, ele logo aponta o desconforto da situação. Costumo dar esta orientação a meus pacientes: se sua razão e sua emoção não foram úteis numa dada circunstância, consulte seu estômago: ele geralmente está certo. Ao meu paciente confuso quanto aos seus desejos, orientei a experimentá-los todos, aproveitando-se da ausência de paradigmas para poder testar limites e saborear novas coisas, sem culpas, pressões ou exigências do tipo ‘eu deveria’, usando somente o (des)conforto estomacal para tomar as decisões mais sérias. Pelo que ele vem me contando, tem dado certo.

A única coisa que nós devemos, em se tratando de escolhas, é assumir a responsabilidade por elas. Não existe escolha certa ou errada, e não tem problema nenhum dizer “não sei”. Existe apenas a ousadia de saber arriscar. O resto é o resto, são as consequências que todos nós, como adultos que somos, teremos que tolerar – ninguém jamais descobriu uma fórmula mágica.

Nos resta experimentar e sermos ousados. É como ouvi um dia por aí: o maior risco que corremos é acreditar que podemos evitar qualquer tipo de risco.