domingo, maio 24, 2009

postumum


Nada se encaixa com delicadeza no lugar vazio que você deixou. Restaram pedaços e fotografias nas quais você não se encontra; dias riscados em um calendário já esmaecido pelo tempo. No buraco desolador que um dia você ocupou, o vazio denso e impenetrável das minhas memórias habita fielmente, em homenagem póstuma ao nosso abandono.

Suas saudades deixam grandes lições. E grandes lições deixam, inexoravelmente, profundas cicatrizes. Esta que criamos oprime meu peito com tanta intensidade que é quase que como se você jamais tivesse existido - a dor da sua ausência é como a retirada de um velho móvel em um quarto antigo: tudo o que restam são marcas no tapete, manchas amarelas na parede, indícios de uma ocupação distante. Traços indiscretos de uma felicidade jamais concretizada, as evidências inegáveis do crime atroz que foi cometido aqui dentro. O lembrete perene do que não pode ser recuperado.

Se foi. Suas lembranças se espalham sob a forma cinzenta de memórias do que nunca existiu, sentimentos vagos que teimam em ruminar, a resistência implacável de se deixar esvaziar do que um dia foi como a única réstia de luz num aposento escuro, a iluminar as sombras existentes dentro de cada um de nós.

Neste momento, restaram as trevas – nada se pode ver a não ser a ausência desta luz. Persigo suas chamas e suas cinzas restantes aqui dentro de mim, enquanto me pego a sentir saudades das histórias que nunca vivemos, lúcidas como sempre, mais reais do que nunca, e que interrompem meu fôlego quando fecho meus olhos e procuro por você. Aqui dentro já não te acho. Não existe mais nada a perder, já que nunca houve nada que pude verdadeiramente ganhar.

4 comentários:

Fiore. disse...

Talvez você tenha ganho mais do que esteja percebendo nesse momento Naninha...

Luli disse...

Maybe é a hora de lixar a parede e trocar o tapete? Abra mão do que vc não tem com tranquilidade.
Ok... next!

Edilson disse...

"Trevas"!? não há, apenas há ausência de luz, (talvez pelo vácuo criado) e para tanto, basta voce ocupar (o espaço) com sua própria luz (que aliás era o que já ocupava anteriormente); é questão de recolocar a luminosidade que por lá já habitava; preencher o espaço de voce, com voce mesma. O que pode ser algo trabalhoso, mas jamais impossível.

Beijo.

Marcela Marson disse...

Vc ganhou a liberdade! nada melhor do que ela!
Amo