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quinta-feira, abril 15, 2010

Aceitação & Entendimento




Uma paciente me perguntou hoje: “como posso aceitar isso se não consigo entender por que isso está acontecendo?” A pergunta me fez pensar... Será que é possível aceitar algo que não conseguimos compreender? Ou será que são tarefas diferentes, independentes uma da outra? Diante de algo conflitante, seja uma perda repentina, um sentimento que acaba, uma decisão inesperada, temos sempre a tendência de procurar por um sentido, uma explicação para tudo aquilo. Como tudo pôde ter mudado tão rapidamente? Como em questão de segundos, minutos, dias, algo que parecia tão estável de repente se fez diferente? Como posso me antecipar a este tipo de surpresa, acontecimento, fatalidade?

Talvez o primeiro passo seja mesmo tentar entender, afinal a sabedoria requer conhecimento. Mas diante do fracasso de uma tentativa, se torna fundamental aceitar o não-entendimento. Afinal, o mundo é tão complexo, tão cheio de variáveis interdependentes, de ações e reações e mais reações, que fica difícil delimitar uma linearidade causal – o bom e velho fio da meada. Onde foi que tudo isso começou? Que decisões eu tomei ao longo da vida para chegar até aqui? Bom, em última análise tudo isto está acontecendo porque, em primeiro lugar, eu nasci, lá, 27 anos atrás. Então tudo isso deve estar acontecendo porque... a vida é assim? Uma confusão caótica de idas e vindas, decisões e escolhas e renúncias e caminhos intrincados e gente que aparece e escolhe, e renuncia, e trilhamos milhares de caminhos dentro de um só...?

Compreendemos tão pouco! Somos tão ignorantes no que se trata da compreensão da vida humana e da nossa existência! Talvez este seja o entendimento que devemos procurar, ao invés de nos fatigar em desvendar essa complexa teia que nos emaranha todos os dias. Aceitar o não-entendimento retira um peso enorme dos ombros, exercita a humildade e elimina a arrogância, além de aliviar o nosso fardo de ter que decidir corretamente, ter que agir corretamente, ter que fazer tudo corretamente. Errar é permitido, a perfeição não é mais esperada – como humanos bobinhos que somos, dentro do nosso desentendimento, talvez o que de mais correto possamos fazer é seguir o fluxo das coisas sem tanta auto-exigência, tendo a humildade e sabedoria de correr atrás do prejuízo quando percebemos nosso erro. Se vai dar pra consertar, são outros 500, mas a humildade, por si só, já é o bastante para entendermos o quanto, a bem da verdade, não entendemos praticamente coisa alguma...

quarta-feira, julho 08, 2009

De férias do divã


Tem gente que pensa que ser psicóloga é ter a profissão mais sussa do universo. Afinal, basta se sentar na frente de alguém, fazer cara de paisagem e escutar durante 50 minutos os problemas alheios, para depois receber milhares de dólares sem qualquer esforço.

Como diz uma amiga minha, “lei do engano, darling”. Pode não parecer, mas ser psicólogo é como padecer no paraíso – como fazer as pessoas finalmente se enxergarem como deveriam? Como mostrar para alguém algo que está bem na sua cara, mas oculto pelo véu das ilusões? Como instrumentalizar professores super bem-intencionados a lidar melhor com seus alunos de inclusão sem parecer intrometida? Como fazer uma mãe superprotetora entender que seu pequeno filhinho pré-adolescente precisa aprender a ir ao banheiro sozinho?

Estas e outras questões tão pesadas quanto estão presentes na maior parte dos meus dias. Ser psicóloga é hiper gratificante, pois não tem sensação no mundo igual a você ver um ser humano aprender a ser mais feliz. É tudo de bom, mas é super ultra mega max giga jam cansativo. Mentalmente, é extenuante.

E é por isso que, quando chega julho, eu quase entro em mania de tão feliz: meus pacientinhos entram em férias escolares e eu finalmente posso descansar um cadim. Sincronizar a agenda com os pacientes do consultório geralmente é um trabalho árduo – mas eu finalmente consegui e a partir deste feriado já entro em recesso “escolar”.

Sem viagens fantásticas (apesar de ter sido a idéia inicial) – apenas 10 deliciosos e idílicos dias na praia na companhia da minha família, de amigos e das Meninas-Caninas. Não interessa se vai fazer sol; o mar gelado não me preocupa nem um pouco; o vento absurdo típico da Ilha em mês de julho não é nenhum problema: tudo o que eu quero é ESVAZIAR A MENTE.

Meditação, corrida, escrita, leitura, sono, gastronomia, risada, conversa... e, plis Universo, o mínimo de problemas possível. De preferência, adoraria poder ficar em silêncio os 10 dias (impossível, considerando a mistura Mamis + Landão + Ires + Pati + ilhéus diversos).

Então eu deixo o silêncio pro próximo Carnaval e saio neste feriado tirando férias de tudo: de pacientes, de escolas, de mães difíceis, de gatinhos indecisos, do ringue, de uma parte da família, de amigos, da(s) minha(s) própria(s) terapia(s) e quiçá de mim mesma. Abandono aqui minhas vestes de psicóloga, minhas luvas de kickboxer, minha fala diplomática e meu saquinho murcho de Jó.

Eventuais posts poderão ser avistados. Meus amigos blogueiros, bom feriado a todos. Eu peço uma coisa só: se em 10 dias eu não estiver de volta... por favor, me deixem por lá!

segunda-feira, junho 04, 2007

Loucura, loucura, loucura!

Me perdoem o trocadilho, mas não há nada mais doido do que trabalhar num hospital psiquiátrico. É quase que como esperar pelo próximo capítulo de uma novela, ou de um livro, de uma série famosa. É tipo assim, ansiógeno.


Ansiógeno e de-li-ci-o-so. Às vezes cansa de tanto que falta rotina, de tanto que sobra desafio, de tanta gratificação pessoal, de tanto crescimento e tanta evolução. Cada dia dentro daquele hospital é (perdão novamente) uma loucura!

Bem no comecinho, eu assustava. Pensava com meus botões que tipo de doidões eu ia encontrar por lá... será daqueles que babam? Daqueles que gritam? Que tiram a roupa no ponto de ônibus?

E, pasmem, tem disso e tem muito mais. Tem gente que baba, que grita, que chora, que arranca as calças em pleno pátio. Tem daquele tipo que acha que é filho do George Lucas com a Elizabeth Taylor; tem do tipo que acha que construiu o hospital nos século XIV; tem gente que pisa na roupa antes de se vestir, e tem também gente que te pede abraço no meio do corredor porque o marido (que não existe) não veio no horário de visita. Tem também daqueles que te trata mal porque você não dá um diagnóstico; tem aquela que, de tão mal e agressiva, foi pro ECT e voltou bem mais mansinha. Tem doido que sabe mais do que médico, e tem médico que é muito mais doido do que o filho do George Lucas. Tem maluco que é mais saudável que a família inteira, e tem também daquelas velhinhas doidinhas, que acham que você é a entrevistadora do programa do Raul Gil e te chama de ‘fofuxa’.

Tem de tudo. Pra todos os gostos. Tem dos mais graves.

Mas tem também os menos graves: vózinha deprimida, tiozão alcoolista, marmanjo com ‘timidez excessiva’, que não consegue trabalho há mais de 10 anos. Tem aqueles ansiosos, e também aqueles carentes, que querem saber se você quer ser amiga, em vez de terapeuta. Tem a típica ‘vizinha fofoqueira’, que de vez em quando acham que estão falando mal dela ou fazendo macumba. Tem até aquele tipo retraído, que não te olha nos olhos, e que quando se abre desaba e diz que não consegue parar de pensar em sexo.

Esses, a gente costuma chamar de ‘mais normais’, embora a normalidade seja totalmente relativa. Ali dentro, ninguém é normal. Muito menos eu, que faço parte de uma porcentagem ridícula de pequena dos que não têm nenhuma psicopatologia. Ali dentro, a doida sou eu. Os normais, os pacientes.

Outro dia, entrando no hospital pela porta do PS (onde geralmente rolam os maiores barracos do mundo, como no caso da mulher que chegou de ambulância, e que, completamente descontrolada, precisou de 4 enfermeiros gigantes pra evitar que ela enfiasse a mão na cara do marido, que a tinha traído com a própria cunhada. Louca? Pois sim...), encontro a turma da Geral I, onde ficam internados os adultos portadores de alguma doença mental. E não é que, ao contrário de mim, sonolenta e mau-humorada, estavam todos cantando Atirei-o-pau-no-gato, rindo e se abraçando?

Eis que a Rita*, uma tiazinha bipolar me cumprimenta: “Bom dia, flor do dia! Só tem flor neste hospital!” Mania? Bom-humor...

Chegando no elevador, um paciente esquizo, que conheci fumando um cigarro no jardim, me vê com a garrafinha de água na mão.

- Oi doutora!
- Ô seu Otávio*! Não ia aparecer lá na Psicologia?
- Ah, doutora, disseram que não preciso.
- Que bom então.

(Silêncio. Olhos vidrados na minha garrafinha.)

- Água, doutora?
- É, água!
- Precisa né?
- Ô!
- Éééé... eu tomo 5, 6, 7, 12 garrafinhas dessa por dia!
- Tudo isso, Seu Otávio? Mas aí é água pra mais de metro!
- Ou pra mais de litro!
- Era o que eu queria dizer!
- Faz bem né Doutora? Pro cabelo, pra pele, pro olho, ouvi dizer que faz bem até pro cotovelo!
- Pro cotovelo, Seu Otávio?
- Pro cotovelo e pra unha. Olha aqui a minha.
- Tô vendo... uau!
- Foi a Dorinha que fez.
- A Dorinha, seu Otávio...?

(Interferência da TO que, ao lado do paciente, acompanhava a história toda)

- Ai seu Otávio, lembra que ontem a gente falou? A Dorinha já faleceu, seu Otávio.
- Tá vendo, doutora? Depois me dizem que não preciso de psicóloga...

Cada voltinha pelo hospital é uma história diferente. Cada atendimento, uma descoberta. Cada grupo, uma paixão. Cada conversa, uma risada.

- Doutora que roupa mais linda! Quando eu era mulher adorava uns casacos assim!

E quem é que pode julgar? Quem nunca se descontrolou por uma traição? Quem nunca deu uma surtadinha, assim, mesmo que de leve? Quem nunca teve medo de estar pirando, ou não confiou muito no próprio julgamento dos fatos da realidade? Quem nunca se fez de desentendido que jogue a primeira pedra!


É maravilhoso trabalhar com pessoas tão especiais. Um verdadeiro privilégio. Acompanhar de pertinho cada um de seus medos, cada uma de suas neuroses, cada uma de suas manias, saber de seus amores, de suas falhas, dos rancores e desejos, intimamente. Não há o que pague a honra de ser terapeuta de pessoas tão necessitadas, tão abandonadas, tão carentes de cuidados, de afetos, de investimentos.


É olhar nos seus olhos todos os dias e se sentir recompensada por uma lágrima de dor a menos, ou uma de felicidade a mais. É se sentir parte integrante de uma mudança essencial de vida, de uma evolução enquanto ser humano, de uma escapada de suicídio. É se perceber como agente ativo de uma visita familiar a mais, de uma ECT a menos, de mais questionamento, de menos atuação. É ganhar dois pacotes de Halls comprados no semáforo com os últimos troquinhos da condução.


É, de verdade, sentir que o ser humano é belo, mágico, único... e que agindo juntos tudo é possível. É sentir que se faz a diferença, quando se ama ao próximo com sinceridade.


E é assumir, antes de tudo, e da forma mais humilde possível, que ninguém é muito diferente de nós mesmos... basta entrar em universos paralelos, alternativos, doentios.

Doentios.
Mas nunca loucos.

Nunca!


* Os nomes verdadeiros foram trocados por fictícios, para se preservar a identidade real dos pacientes.