quinta-feira, setembro 14, 2006

AMÉLIA MODERNA

Eu sou machista.
As pessoas não acreditam, minhas amigas desaprovam e os homens me olham torto, mas eu não arredo o pé e não me canso de afirmar: sou machista.
A vida de nós, mulheres, parecia ser bem melhor naqueles tempos de Madame Bovary, em que os papéis eram bem definidos e nossas cabeças não eram confundidas por incoerências sociais tão freqüentes nos dias de hoje.
Naquele tempo – ah, aquele tempo! – mulheres eram mulheres, e homens eram homens. Ficávamos em casa enquanto os homens saíam a trabalho, numa nítida e óbvia continuidade dos padrões sexuais existentes desde que o mundo é mundo, em que os homens caçavam e as mulheres tomavam conta da caverna. E quando os machos chegavam, encontravam a casa limpinha, a comida pronta e nós cheirosinhas somente esperando pelo que vinha a ser o melhor momento do dia.
Depois que alguma imbecil feminista inventou de queimar sutiãs em praça pública – o que só serviu para deixar os peitos caídos – as regras mudaram. E todos sabem que mudar as regras do jogo no meio da partida só gera confusão, e here we go, o que vemos hoje em dia é o mais absoluto caos sócio-sexual. Nós, mulheres, somos taxadas de dondocas se ficarmos gastando o cartão de crédito do marido enquanto ele sai pra trabalhar, mas ao mesmo tempo não somos muito bem aceitas na maioria das empresas, onde continuamos ganhando cerca de 40% menos do que nossos colegas.
Somos cobradas de sermos delicadas e meigas, mas ao mesmo tempo devemos ser mais fortes, práticas e objetivas (características essencialmente masculinas, neuro e psicologicamente falando). E se formos meigas demais, confundem a meiguice com submissão, o que é ultra mal-visto pelas feministas de plantão, que ficam à espreita para atacar a primeira lavada de cuecas que existir. Temos que ser sensíveis, elegantes, bonitas, inteligentes, delicadas e sensuais, e também temos que ser fortes mas ai de nós se não soubermos costurar uma meia.
Segundo a ideologia praticada pela revista Nova (a qual tive a infelicidade de comprar na semana passada) e congêneres, temos que ser liberais e disponíveis sexualmente, mas se formos pra cama com 2 da mesma turma, somos chamadas de levianas. Orgasmos múltiplos são a última moda, mas nada de fingi-los: Mulher de Nova é sincera e leva um papo na cama. Então como é que é? Não podemos fingir um orgasmo, mas temos que engolir os homens-britadeiras e ainda dizer que foi tudo de bom?
Além disso tudo, temos que ser ótimas amigas, ótimas profissionais, ótimas mães, ótimas esposas e ótimas parceiras sexuais, e uma simples falha nesse imbróglio todo já significa fraqueza de caráter. Ou seja: além de ficar com os peitos caídos, as mulheres somente ganharam acúmulo de funções com o movimento feminista.
É por isso que eu defendo, com unhas e dentes, o retorno do modo conservador, antiquado, castrador e machista dos tempos áureos de nossa sociedade: qual o problema em ficarmos em casa tricotando e vendo televisão em vez de sairmos para trabalhar todos os dias? Qual o problema de gastarmos a grana do maridão ao invés de ganharmos a nossa? Qual o problema em pedirmos ao parceiro para abrir o pote de palmito para nós, mesmo que ele já esteja aberto? E finalmente, qual o problema de recebermos nossos homens à noite em casa, mesmo tendo eles fornicado com a secretária o dia todo? Honestamente, não chegando em casa com manchas de batom no colarinho, não vejo problema algum: o que os olhos não vêem, o coração não sente.
Não pensem que é fácil ser mulher nos dias de hoje: é mais ou menos como ser adolescente, quando é esperado de nós atitudes totalmente contraditórias entre si. Somos mulheres demais pra algumas coisas, mas mulheres de menos pra outras. Devemos usar salto 12, mas não podem ser Manolo Blaniks – Mulher de Nova sabe poupar!
Eu digo, no alto de minhas tamancas (que não são Prada mas são bem bonitinhas): sou a favor da volta dos sutiãs, da volta do TFP, e, principalmente, do respeito à nossa feminilidade.

Pois posso ser moderna, mas, muito prazer: Amélia, mulher de verdade.

2 comentários:

Raphael disse...

Acho difícil falar de uma época em que não se viveu. É óbvio que o hoje é mais difícil do que eu imagino ter sido o ontem.

Fê Savino disse...

Uau.. meio radical este texto, não?!?! Mas devo admitir que concordo com várias partes... só não sei se gostaria de voltar aos tempos de ficar sentadinha em casa. Principalmente porque desde os meus oito anos de idade eu tenho essa vida louca vida... hahah
Mas, enfim, concordo inteiramente com você quando diz que a sociedade cobra demais de nós mulheres e que sim, é mto complicado ser mulher nos dias de hoje! E, pior, apesar de sermos cobradas por todos os lados - pois, devemos ser perfeitas em todas as "áreas" da vida - ainda sim, parece que estamos sempre erradas. Quando queremos agradar alguém, parece que estamos sempre fazendo a coisa errada. Não entendo o porquê que as coisas têm que ser assim. Não entendo porque cobramos tanto de nós mesmas e, ao mesmo tempo, como funciona essa máquina enorme que se deomina "mulher"! Pois somos assim: máquinas que precisam fazer tudo e tudo bem-feito! E, além de tudo, a essência fica pra trás, como uma simples lembrança, fazendo (ou tendo que fazer) prevalecer a fortaleza, a racionalidade, a imparcialidade!

Pqp... É duro ser mulher!!!