sexta-feira, julho 04, 2008

Dormir junto


Já disse Kundera, em A Insustentável Leveza do Ser, que o desejo de dormir junto a alguém é radicalmente oposto ao desejo de se fazer sexo com alguém. Dormir junto refere-se a uma experiência compartilhada com uma pessoa em específico, enquanto que o desejo sexual reflete os instintos de um corpo direcionados a um outro corpo, qualquer que seja ele.

Ao ler isso pela primeira vez, não encontrei o mesmo sentido que encontro hoje, meses após ter lido Kundera. Talvez as mais recentes experiências tenham trazido mudanças reflexivas; talvez as mudanças de pensamento tenham alterado a interpretação das experiências subsequentes.

Hoje concordo absolutamente com Kundera. Só durmo junto a quem me sinto absolutamente confortável. Na realidade, é quase automático – dependendo da pessoa, é completamente natural transar, beijar, conversar, fechar os olhos e dormir (não necessariamente abraçadinhos). Com outras pessoas, o momento ‘pós’ é praticamente um ato involuntário de vestir-se, apanhar suas coisas, e ir-se embora. Não tem clima. Não tem porque. E, absolutamente, não há sono.

Penso que a naturalidade do dormir-junto (aqui entre hífen devido ao conceito que pretendo transmitir) é diretamente proporcional à liberdade e intimidade experienciada pelo casal em questão. Transar com alguém é, inevitavelmente, um ato de intimidade, mas o que chamo aqui de intimidade é a sensação absoluta de poder ser espontâneo, você-mesmo, autêntico.

Acredito não haver outro momento em que somos tão nós-mesmos quanto durante o sono. Tem gente que fala, que é sonâmbulo, que ronca, que baba, que peida, que ri. Durante o sono, não há censuras, não há controle, não há máscaras. Não há melhor maneira de se observar quão genuína é uma pessoa do que enquanto ela está dormindo. E, veja, se não conseguimos ser absolutamente genuínos com alguém, despidos de máscaras e de falsas intenções enquanto acordados, que dirá dormindo? O desconforto de ser desmascarado provoca insônia em algumas pessoas. E fuga, em outras.

Minha amiga Helena*, 27 anos, publicitária, recusa-se a dormir com qualquer homem que não seja seu namorado. Veja bem, sua sexualidade é liberta, a cabeça aberta, e as pernas nem se fala... um dia, tendo ela vindo dormir em casa, percebi seu medo: ela é daquelas pessoas que abre o olho e vai fazer suas “necessidades”. É uma questão de urgência, impossível de controlar, coisa primária e primeira a se fazer ao acordar. Como compartilhar algo assim, tão íntimo, com alguém que sequer imagina que aquela beldade seja capaz de arrotar?

Já meu amigo Thomas*, 33 anos, instrutor de musculação, prefere levar o mulherio para casa após o sexo pois teme que o achem esquisito na manhã seguinte: ele realiza, religiosamente, uma meditação de silêncio absoluto durante cerca de 40 minutos, todas as manhãs. Consigo entender sua aflição: alguém te olhando, observando, analisando durante 40 minutos é o fim de qualquer meditação.

No meu caso, durmo mal quando não me sinto absolutamente à vontade com alguém. Meu medo é da fala e demais comportamentos noturnos. Dizem minhas amigas que até em japonês já falei durante a noite, e alguns namorados já se ressentiram por eu chamá-los, no meio da noite, pelo nome de outros homens. Além disso, quando tenho pesadelos choro que nem criança. Saem lágrimas e tudo. E, às vezes, confundo sonho com realidade – já cheguei a socar a cara um ex-namorado, em meio a um sonho mais do que violento.

O fato é que dormir com alguém é igual a estar junto e acordado: o bom é ser aceito e compreendido em ambos os estados de percepção, seja com olhos abertos, seja com eles fechados e respiração ressonante. Quem entende seu jeito de ser, irá entender se você não for daquelas que curte dormir grudado; quem sabe que você é matraqueira (como eu), não achará estranho se você bater altos papos com pessoas invisíveis durante o sono.

Trocando em miúdos, quanto mais à vontade, mais gostoso se torna. Se o abraço é ótimo acordado, dormindo é melhor ainda. Se a vontade de ficar junto é forte, não será fácil levantar da cama pela manhã, seja pra ir embora pra outra cidade, seja porque existem coisas a serem feitas, seja porque um dos dois está com vontade de fazer xixi.

Dormir junto é um ato de afeto, independentemente de que tipo de relação foi estabelecida. Não se trata de ser namorados, amantes, amigos ou fuck-buddies. Se trata da verdadeira cumplicidade e da naturalidade de se compartilhar o seu interior com quem se sente confortável em sua presença. E faltam pessoas por aí com as quais eu gostaria de verdadeiramente compartilhar meu sono. Entre tapas ou beijos, Joões ou Josés, risos ou choros, o melhor é estar sempre à vontade.

Porque já dizia o velho Raul: sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas SONO que se sonha junto é que é realidade :)
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PS: Os nomes verdadeiros foram substituídos... não pra mascarar nem nada...

4 comentários:

F. Rossini disse...

Sou suspeita pra falar de sono, adoro dormir, as vezes mais do que ficar acordada, o que irrita muitas pessoas, e outras nao se conformam...
Adoro os sonhos, sou tudo o que eles representam e como vc, também chuto, dou soco, choro e ainda dou risada e acabo acordando de tao real que sao as experiencias.
Eu e meu namorado somos dos que dormem grudados, se um vira de lado o outro vira também, e chutes a parte, nao ha nada melhor!
amooo

Priscila Rocha disse...

Também falo sozinha amiga... e esses dias só acordei quando Rafa falou: "Que que cê tá falando Pri?". Desencanei: "Aiii.. nada Rafa!"
Hahahaha

Beijuuuss

Fernanda S. disse...

Bom, eu falo pra caramba à noite também e sou meio esquisita... já bati em pessoas, já gritei, já chorei..
Mas este post foi muito lindo!!! E completamente verdadeiro!
Está bem difícil mesmo encontrar alguém para dormir junto!!!!
Beijocassss =)

Draconizuka disse...

Eu durmo com meu melhor amigo. É tão bom ele parece um filhotinho dormindo,ele fica se mexendo como a um filhotinho de cachorro, ou como eu disse um coelhinho. Mas eu me sinto tão bem nos braços dele. E ele dooooorme tranquilo comigo. A primeira vez que dormimos juntos na mesma cama, foi quando eu estava triste e elemuito decepcionado com as coisas que estavam acontecendo comigo, na segunda vez ele se levantou da cama dele num domingo de manhã e foi até a minha cama e se deitou comigo. Não somos amigos de anos,mas é como se nos conhecessemos a uma década XD