domingo, junho 01, 2008

Testando


Tenho me perguntado, com os mais recentes acontecimentos, se estou sendo testada. Por quem, por que e para que são apenas trivialidades, já que a dúvida que me cabe é se estou sendo bem sucedida.

Os temas atuais da minha vida têm se mesclado, e no final das contas, todos se resumem a única pergunta: eu realmente acredito no que venho fazendo?

# 1. Dizendo “não”

Após 25 anos de uma vida marcada por comportamentos ‘altruístas’, ‘generosos’ e ‘desapegados’, finalmente me peguei definindo melhor minhas verdadeiras motivações. Nada de altruísmo ou de generosidade: passividade sempre foi minha maior característica. Frustrar alguém? A morte! Negar um pedido? Nunca! É interessante reparar que, quando você resolve se amar, fazer o que você não quer se torna absolutamente impensável. Fatalmente, você começa a mudar sua postura, o que, vez por outra, acaba afastando as pessoas de você. Se antes você passava por cima de todos os seus desejos em prol do bem-estar alheio, hoje você está cheia disso e todo mundo te estranha. Você não vai cumprir as expectativas alheias e acaba virando uma megera abominável, uma filha da puta insensível e egoísta ao extremo, só porque não quer de jeito nenhum ir numa balada insuportável apenas pra agradar a sua amiga. O mais curioso é que você finalmente entende que, para muitos, é melhor que você esteja infeliz, desde que continue fazendo tudo o que esperam de você. Ninguém curte uma bela mudança. Eu paro por aqui e, como diz um amigo meu, só dou a mão e só.

# 2. Perdoando

Todo mundo já ouviu aquela máxima que diz que perdoar ao outro requer que, antes de mais nada, perdoemos a nós mesmos. O problema é que nem sempre damos ouvidos a estes clichês, especialmente quando a gente ainda não entrou numas de se prejudicar a ponto de ter que se perdoar. E convenhamos que é tão mais fácil culpar o outro do que assumir nossa responsabilidade. Perdoar a si mesmo é extremamente difícil, reconhecer nossas fraquezas humanas e finalmente compreender que sempre fazemos algo na tentativa de acertar torna-se, via de regra, impossível quando estamos recheados de culpa e auto-comiseração. Atenção, navegantes: não há perdão se não houver, antes de mais nada, aceitação. No balanço das coisas, se você se sente uma boa pessoa e dorme tranquilo com sua consciência, o perdão se torna mais fácil. Pare de negar e reconheça sua humanidade e sua infinita ignorância nesta vida. Errou por tentar acertar, errou e aprenda com o erro. Tem sido difícil me perdoar por ter sido tão cruel comigo mesma, por ter sido uma grande escrota com meu corpo e com minha mente, por ter me permitido afundar como afundei. As consequências disso são devastadoras, e tenho pago meus pecados: de remédios psiquiátricos a broncas do meu sensei, ando recuperando os sentidos perdidos. E aos outros que me magoaram? Se é difícil perdoar, imagina agradecer.

# 3. Agradecendo

Meu sensei, Mestre Rato, viu o quanto eu havia ficado puta da vida quando uma atleta da outra academia me acertou um Mawashi bem na boca no último treino. A raiva não se devia simplesmente ao fato de que, naquele momento em específico, golpes na cabeça estavam proibidos. Minha raiva vinha da humilhação do meu primeiro chute na cara em 2 anos de Muay Thay. Quando sensei Rato e sensei Jurandir viram minha mágoa (a despeito dos pedidos de desculpas da lutadora em questão), tentaram me consolar, dizendo que, por mais que minha defesa tivesse sido falha, havia sido falta e que eu ganharia o round em questão. Sensei Jurandir me pergunta então: “Você agradeceu a ela por ela ter te mostrado seu ponto fraco?” Não, sensei, ainda não consegui perdoá-la por isso. Como então agradecer? Se perdoar é difícil, agradecer a quem te machucou torna-se, fatalmente, uma guerra santa na busca pela paz. Meu Deus, quem já pensou em agradecer ao filho da mãe covarde que te enganou? Agradecer as mágoas, pois te ajudaram a ser uma pessoa melhor? Agradecer por ter sido levada ao fundo do poço, pra que sua ascenção fosse mais sincera?

# 4. Conclusões

Sensei, eu juro que tenho tentado agradecer a todas as pessoas cretinas que um dia me fizeram sentir uma bosta. Sei que elas, eventualmente, e indiretamente, me ajudaram a ser uma pessoa melhor, mais forte e mais honesta. Sei que, graças a elas, meus “nãos” têm sido mais articulados e menos radicais. Eu tento me perdoar todos os dias por ter me deixado levar, e tento agradecer por ter chegado neste ponto cruel de desejar coisas terríveis, pra verificar que, conhecendo o que é verdadeiramente amargo, todo o resto se torna mais doce.

Eu tento perdoar a todos que me machucaram. Tirar lições de suas palavras terríveis. Aprender com erros quase fatais. Eu ainda tenho muito chão pela frente. Ainda não sei, mas um dia espero poder agradecer, sem sede de vingança, os golpes que a vida me deu.

(Inclusive da vaca que me acertou o mawashi. O perdão até está próximo, mas eu juro que no próximo treino arrebento a cara dela.)

5 comentários:

F. Rossini disse...

Bom amiga estou postando no meu blog a oração do perdao... sei exatamente como vc se sente...
Diz que é preciso faze-la por 21 dias, que é o tempo que nosso incosciente, ou subconsciente nao lembro demora para entender e processar a informaçao...
se quiser, tente!
amoo
bjoos

Flavia Melissa disse...

Hahahaha
Vc é sensacional, irê...
E é muiot, mas muuuito bom ver a pessoa na qual vc está se tornando.
(às vezes meio mala, mas sempre com estilo!)

amo!

Ana disse...

Talvez a "vaca" também esteja precisando levar uma porrada para poder perdoar e agradecer. Aí, fica tudo perdoado e agradecido...rs...

Sinto força nas suas palavras e isso me parece muito bom...
Nem a conheço, mas sinto que preciso torcer por você.

Tenho a sensação de que sua alma algum dia ou em outra vida já esbarrou na minha...

Beijo!

Fiore. disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Fiore. disse...

Queridíssima!
Ao invés de TESTE que tal encarar a idiotaria como rascunhos não aproveitados ou preparações de tela para a pintura definitiva? Afinal, "a arte da vida consiste em fazer da vida uma obra de arte"*, e a cada pincelada nova surge uma cor e um desenho diferente, certamente mais bonito e mais adorável do que está logo abaixo...
Acredita, e continua a sua obra que eu tenho certeza, o resultado final vai ser perfeito!!! :)
GRANDE BEIJO!

*Frase de Mahatma Gandhi