domingo, julho 26, 2009

Anedonia


Quanto mais vivemos, dia após dia, mais vamos nos dando conta de que toda a nossa existência é apenas e tão somente a ligação entre diversos pontos que, reunidos, formam a figura de nossas vidas.

Cada ponto, um determinado tipo de problema que vai nos orientando ao longo do tempo, dando conta de nos mostrar do que afinal a vida diz realmente a respeito: quando pequenos, a fome insaciável ou um medo do abandono dos pais; crescemos e os dias são a sucessão interminável de dias na escola em que professores autoritários tratam de nos aterrorizar, nossa vida se resume a dar conta das provas, aulas de inglês ou natação, sermos boas crianças e isso jamais ser o suficiente; quando adolescentes nossa vida é uma droga, queremos encher a cara, fumar maconha e mandar nossos pais à merda, nossos pais que são os responsáveis pela nossa vida ser um inferno, nossos pais que nos obrigam a estudar, acordar cedo, nossos pais que não nos entendem e querem nos ver sofrer. Jamais entendemos que um dia as provas irão acabar e todos os hormônios irão assentar, nós desejamos a morte do mundo e todas as pessoas mais velhas nos parecem patéticas.

Se entramos na faculdade, os trabalhos e provas tratam de nos deixar extenuados; se não estudamos e vivemos para trabalhar, a vida é uma merda em que temos que sobreviver dia após dia. Crescemos e os conflitos básicos todos se parecem, temos que trabalhar para poder comer, para poder vestir, para poder se divertir. A semana é um sacrifício sem fim rumo ao sábado e domingo, que é quando a vida acontece de verdade e nós nos estragamos por dentro e por fora, tomando porres homéricos, usando drogas de péssima qualidade, dormindo pouco para sentir que estamos vivendo o bastante, no domingo a ressaca nos massacra, pra depois sermos punidos como uma nova e terrível segunda-feira.

Às vezes gostamos do que fazemos, mas isso não é o suficiente porque o compromisso diário nos oprime; às vezes detestamos nosso trabalho mas não temos alternativas, continuamos a ser manipulados por chefes, supervisores, orientadores, pseudo-parceiros de jornada que botam no nosso rabo todas as manhãs.

Quando não somos rejeitados, arrumamos um parceiro amoroso que vai levar a culpa por todos os nossos fracassos anteriores, o parceiro que um dia pensaremos em trair, que eventualmente nos trairá, mas um dia percebemos que é melhor assentar com ele mesmo e tratarmos de termos filhos. Os problemas então se transformam, viram fraldas, merda, mijo, vômito, choro, sarampo. É o preço da babá ou da escolinha em que tudo o que vai acontecer é que nossos bebês irão conhecer outros bebês.

Mais tarde seremos xingados de autoritários como um dia fizemos com nossos pais, teremos praticamente vendido a alma e dado a bunda por uns pirralhos que se acham maduros o suficiente para fumar maconha enquanto acham que não estamos olhando; um dia eles arrumam um trabalho, mas não pagam uma única conta, saem de casa e reclamam que estamos com mania de doença. De nada adianta explicar que tememos a morte. São jovens demais para entender. Um dia terão seus filhos, terão laços de sangue muito mais fortes do que conosco, as visitas se resumirão a uma ou duas vezes por mês.

Quanto mais velhos ficamos, mais saudades sentimos dos tempos em que éramos jovens, que corríamos rápido e não sabíamos, estudávamos para as provas e seríamos aprovados, reclamávamos do chefe que jamais faria qualquer diferença em nosso futuro, mimávamos nossos bebês que nos abandonariam. Nada nunca importou. Um dia nos damos conta de que o grande quadro de pontilhismo de nossa vida formou um desenho que jamais veremos – ficará para trás, para aqueles que vivem e que contam histórias a nosso respeito, histórias em que fomos heróis, em que fomos pais amorosos, adolescentes especiais, crianças teimosas, bebês barulhentos.

Um dia nos damos conta de que tudo se foi sem que percebêssemos, aprisionados que estávamos no piloto automático do nosso cotidiano. E um dia. Um dia, enfim. O Dia. O Fim.

7 comentários:

raulzitos disse...

O pessimismo capital está aflorado neste texto... apesar de muito real, é necessaria uma visão holistica da vida pra que tudo não se prenda há uma linha do tempo.

somos protagonistas de uma história de roteiro extremamente definido... o que torna as pessoas diferentes é a quantidade de luz, o perfume do ar, o som ambiente e o suor despejado pra que esse roteiro siga sua trajetória.

o imensurável se torna o alicerse fundamental para que os adendos sofriveis possam suavisar o nosso processo de alto conhecimento... que é no fim do dia, o grande objetivo deste mergulho sem fim em busca da nossa própria existencia!

gosto da sua intensidade maninha..
temo pelo seu punho duro de boxe e lapis...

Luli disse...

nana, eu tive esse insight, sobre a vida "tosca" aos 13 anos a primeira vez, e concordo, não tenho argumentos para suavizar, como o Raulzitos, mas tem um fato que é tão verdade quanto seu texto: a gente ama a vida tanto que a acha curta. Muito curta.

Luana disse...

Triste. Por um momento parar e pensar, que tudo o que acabei de ler, é a mais pura verdade, vista de uma forma clara, que de certa forma nos assusta, sempre, por isso evitamos nos deparar com ela. Triste e Engraçado, pois hoje mesmo, me peguei conversando a respeito do futuro, e desse medo que temos, e que estamos ficando velhos. É a vida, e de repente, quando a gente menos espera, ela acaba.

L.J disse...

Esses esforços diários que fazemos para sobreviver às vezes parecem tão desprovidos de sentido... O compromisso diário além de nos oprimir nos impõe essa espécie de script de vida a seguir. Ótimo texto, bastante realista sua visão.

Beijos

L.J

Johnny na Babilônia disse...

Que lindo, Nana.

Manda pra gente (MM)?

bjs!

junior, o cara da música disse...

Bom texto! Bem escrito, convincente mesmo!

Nâo posso argumentar em favor da existência de algum sentido, pq afinal, quem inventou e deu valor a esse negócio de sentido fomos nós humanos. A vida nâo reconhece a autoridade do discurso verbal...é como tentar convencer o mar de que ele seria melhor ou mais belo ou mais correto se só ondulasse durante dias pares: tantar submeter uma força primeva (vida, mar) a uma construçao recente (leis, palavras/sentidos) nâo é nada promissor...

Passei uns vários anos numa vibe que me deu textos como este e sejamos honestos: existe um prazer na nossa melancolia! Um prazer em escrever e saber que nos lêem! Um prazer que, por definiçâo (de forma mesmo redundante) nada tem de anedônico.

Mas muito bom texto...bom mesmo.
:)

David Mota disse...

Que lindo texto! Como você escreve bem! Parabéns!

Que prazer poder compartilhar contigo os pensamentos, balançar as ideias, levantar polêmicas!

Figura sem fim de ligações que ocorrem agora é o resumo de uma boa existência!
Cada ponto destas ligações é cheia de tudo e os nossos olhos estabelecem a seleção.
“Todo escriba instruído será como o pai de família que retira do seu baú coisas novas e coisas velhas.”

Novos olhares! Não nos é permitido delirar? Então, olhemos de outro modo. O que passou, passou. Este não precisa mais ser visto. Olhemos com outros olhos neste exato instante e sempre, e talvez, até o nosso passado se modificará.

Quando pequenos, a fome insaciável encontra um peito agradável. Que prazer!O medo infantil do abandono dos pais é totalmente superado com um forte abraço. Os dias intermináveis na escola são as portas abertas ao conhecimento, momentos mágicos de encontros e desencontros.

O terror das provas e tarefas é amplamente superado por uma vida bem sucedida. Quantas coisas novas em todas estas fases! Quantos desafios e quantos tombos!

Anedonia: que doença filha da puta! Vai retirando todos os nossos pequenos prazeres. Séria, doença que mata e que neste tempo parece um rio escandaloso tentando tragar os que se colocam em seu caminho.

Mas, se queremos mesmo mudar o mundo, mesmo que seja em delírios, deixemos para trás as frustrações e as angústias.

Que haja prazer em cada coisa, nas pequenas e quase sempre invisíveis ou imaginárias. Na leitura agradável e pessimista de um blog, na vista que nos permite ler, nas mãos que expandem nossos pensamentos, no simples e puro prazer de ser.

Tenhamos um gozo cósmico com nosso amante!

Mude! Saia da rotina, do cotidiano, faça novo cada amanhecer.
Mas se teus olhos forem trevas, não brinque, procure tratamento.