sexta-feira, agosto 10, 2007

Em recesso



A mesma casa, o mesmo quarto, a mesma cama... tudo igual novamente.

É o prazer e o sofrimento de voltar para casa depois de um curto porém intenso período de recesso.

As mesmas caras, os mesmos corredores, o mesmo hospital. As mesmas pessoas fúteis e mesquinhas que circulam à sua volta como carniças sob um urubu, pedindo informações, pedindo detalhes, pedindo seu sangue pra beber em copos de cristal. Elas pedem o que não posso dar, a parte mais íntima da minha alegria, a que sorri apenas quando está verdadeiramente feliz.

Se estou triste? Chateada? De mau humor? Por que eu estou tão diferente? Não, não posso lhes explicar... como fazê-las entender que eu volto sempre, mas meu coração jamais volta comigo? Que minha alma permanece num lugar encantado, numa fenda na história, e que quando saio de lá, já desalmada, o tempo pára e só se mexem os ponteiros daqui... Lá o tempo pára. E eu paro junto cada vez que tenho que enfrentar o difícil retorno.

Não, não tenho como lhes explicar que cada fato me lembra algum outro, que cada palavra me remete a outras, que cada pessoa me repele em direção a mim mesma. Então me calo. Como explicar que um corredor pode ser difícil, quando um outro provocou algo tão bom, dias atrás?

Como explicar que um telefonema me recordou outro, que sequer fora feito por mim? Como dizer-lhes que minha cama se tornou grande demais, pela ausência daquele que a compartilhou comigo, por apenas uma hora e meia?

Não, não tenho como dizer o quanto o trânsito me aborrece, o quanto tantas perguntas me aborrecem, o quanto a formalidade me danifica os sentidos. E eu pareço perdida, mesmo em lugares tão conhecidos, mesmo entre pessoas tão amigas. Eu me sinto vazia. Minha alma e minhas paixões não vieram comigo, ficaram para trás, gritando para que eu volte. E enquanto isso eu sou toda saudades.

Sou toda espera, sou fera que devora a hora que falta pra que a vida passe mais um pouco, mais um pouquinho, um outro tanto pelo qual ainda aguardo, e ainda ardo e quase explodo pelo tanto de minutos que ainda faltam pra que eu vá definitivamente, sem horários de retorno, sem balsa aos domingos, sem engarrafamento de sexta-feira. Sem tchau, até mais, volto em setembro.

Volto do recesso e também dos excessos, sabendo que isso aqui é pouco demais, é pequeno demais, é vazio demais pra uma alma do tamanho da minha. Eu volto pra labuta, mas é agora, definitivamente agora, que todas as minhas convicções entram de férias.

É ir... pra poder voltar.

3 comentários:

Fernanda Rossinih disse...

"É ir pra poder voltar" exatamente isso...
Qualquer dia desses, quando menos se espera pq o tempo corre rápido demais, vc só volta pra nos visitar...
Nossos futuros nos aguardam silenciosamente esperançosos do retorno de nossos sorrisos satisfeitos pela resolução de uma espera que enfim chega ao fim...
Até la, respira fundo e continua... amoooo

Flavia Melissa disse...

até que o ir se transforme em um eterno permanecer...

God bless us!

Anônimo disse...

Te entendo amiga , é mtooo difícil voltar ... mto difícil dizer tchau até breve ... mto difícil se desvencilhar das lembranças , lembranças boas que te fazem voltar pra aquele tempo que não volta mais ... mto difícil acordar e não ver na janela uma praia , um respiro , liberdade ...
Dói sentir falta ...