sábado, abril 03, 2010

Partida


Lidar com a saudade não é fácil. Agüentar a perda, seja ela concreta ou abstrata, é sempre doloroso, e para mim se torna especialmente difícil tolerar a falta e a passagem do tempo.

De nada adianta ter a consciência de que existe em mim um problema antigo relativo às separações. Perdas, abandonos, ausências – tudo fica sendo uma coisa só na qual se materializa o sentimento irracional, mas absolutamente concreto, da rejeição.

E enquanto me sinto só, olhando com olhos vazios para o quarto de dormir de minha irmã ausente, me pego constantemente sentindo um vazio que, desconfio, sempre esteve aqui. Seria a separação a única responsável por este sentimento eclodir? Ou estou ignorando outras tantas variáveis?

A sensação é de desamparo, apesar da tamanha esperança sobre o dia em que tornarei a encontrá-la. O destino é o oriente, na melhor das hipóteses, vencendo a ganância das posses e utilizando os bens materiais para matar a saudade. Os planos anteriores haverão de ser recapitulados. Notas de real vencendo obstáculos e superando distâncias, me aproximando de quem verdadeiramente me oferece companhia. Hoje, apenas isso faz sentido pra mim.

E enquanto isso não acontece, enquanto me vejo sozinha em meio às dores violentas da separação, tento encontrar as forças estruturais que haverão de me fazer emergir deste grande canyon, deste denso buraco negro nas qual todas as questões são engolidas, todos os afetos se dissolvem, onde tudo ecoa pela enorme dimensão do vazio.

O tempo se arrasta.

Neste momento, apenas o silêncio me consola.

5 comentários:

H. Machado disse...

Sou suspeito, mísero apreciador da solidão. As lacunas nem sempre são feitas para serem preenchidas, existem por si só e assim podem ser sempre. Só te desejo, então, aquela paz. A de dentro, que completa o todo. Um abraço forte!

Edilson disse...

No seu caso específico é torcer para o tempo passar, para ela, de forma vagarosa e lenta, para que cada segundo seja aproveitado da melhor forma possível, já para voce e os que ficaram, que o tempo transcorra necessariamente rápido para que cada segundo de saudade seja brevemente encurtado com as horas e os minutos da certeza da presença.

Beijo.

Marcela Marson disse...

Amiga, fique calma que tudo passa.
O que vc tá sentindo é suuper normal, mas ela volta e logo logo vc estará com ela. ;-)

Ps: vc recebeu minha msg? eu te respondi e nada...

Beijos

Isabela Dantas disse...

Oh, querida...
Transformar esta ausência em projeto de reencontro, em um novo sonho, em um belo texto como esse foi uma linda saída que você encontrou!
Viver dói mesmo e é por isso que caminhamos juntos: para ganhar carinho nessas horas!
Um beijão!

Thiago Ferraz disse...

Não deixarei, é claro, de prestigiá-la em retribuição à visita ao meu blogue!
Além disso, gostaria de pôr uma palavrinha aqui.

O sentimento da perda realmente é muito esquisito e desconfortável, mas é através dele que o que foi perdido é exaltado ao máximo, na essência e na existência.

A projeção sentimental da perda não deve suplantar os sentimentos bons cultivados que houveram na presença.