segunda-feira, novembro 07, 2011

Aqui, ali. Em qualquer lugar.




Recentemente, mais uma de minhas melhores amigas anunciou que iria morar fora do Brasil. Rumo a New York, minha amiga mais encantada vai trabalhar com o que sempre quis, na cidade que sempre quis, do jeitinho que sempre quis.

E hoje ela me disse que está angustiada com a partida.

Outra amiga, aliás amiga e mestra, dançarina mais FODA que já vi dançar, também está de partida. Vai construir sua nova vida junto ao marido na Inglaterra, e isso é tudo o que ela sempre quis, o que de mais fantástico poderia acontecer.

E ela também sente alguma angústia pela partida.

Não sei se sou eu, que sou avessa a despedidas, ou se vê-las trilhar este novo caminho de luz. Não sei o que me deixou, do lado de cá, também angustiada. Não se trata só das saudades que deixarão – outras amigas também se foram e inevitavelmente a gente aprende a conviver com a distância. Convivemos bem inclusive com a morte.

Acho que vê-las encarar esta angústia e tomar essa HUGE decisão é o que mais me toca. Me toca a ponto de eu ir às lágrimas. E, no fundo no fundo, eu sinceramente acho que choro por minha causa, e não por causa delas. Mas, direta ou indiretamente, elas têm tudo a ver com isso.

Acho fantástico que a coragem de tomar uma decisão tão gigante quanto esta(s) encontre alicerces firmes em grandes paixões. O trabalho, a arte, o amor. O amor que o trabalho, que no caso das duas, é pura arte, traz para a vida de ambas, enchendo os corações das duas de confiança de que sim, não importa onde você está, o seu lugar será sempre aquele em que você exerce livremente suas paixões. E ambas estão indo viver sonhos cheios de paixão e de amor – basicamente, por aquilo que fazem de melhor na vida, amar e trabalhar.

Enquanto acho tudo isso lindo demais, me pego pensando se eu conseguiria tomar uma atitude assim tão brutal em relação à minha própria vida. Meu primeiro palpite é de que não, não conseguiria deixar tudo pra trás, minha família, meus amigos, meu trabalho. Me borraria de medo de ser estrangeira num país estranho e não ser uma mera turista, e sim residente por tempo indeterminado. Teria muito, mas muito medo, de querer voltar em pouco tempo.

Por outro lado, se eu encaixasse nessa equação um trabalho fantástico (possível de ser exercido em terras estrangeiras, não como a Psicologia Clínica), ou um marido com o qual eu me sentisse totalmente em família... será que isso me daria forças? Será que me sentiria mais segura? Será que se pintasse A oportunidade de trabalho em outro país, e o amor da minha vida fosse junto (ou já estivesse lá, ou melhor, FOSSE DE LÁ), como no caso de uma delas, eu não jogaria tudo pro alto e arriscaria?

Pensar nisso me traz ansiedade e uma grande frustração, não apenas porque enquanto vejo as pessoas irem eu continuo por aqui fazendo as mesmas coisas, mas por que sei, dentro de mim, que o empecilho vital para uma jornada assim está, basicamente, dentro do meu ser mais profundo, uma parte de mim que procuro evitar. São minhas desconfianças, inseguranças e outras ânsias mais. É o meu apego, a minha carência, o meu medo de voltar atrás.

É frustrante perceber que minha vida poderia ser mais emocionante ou mais apaixonante, caso eu apenas permitisse. Caso eu apenas arriscasse. Caso eu apenas conseguisse dominar a grande inércia na qual me encontro volta e meia quando paro para reparar onde é que estou chegando com os passos que tenho dado. É frustrante e assustador me ver presa dentro de uma mesma rotina, andando pelas mesmas ruas do meu mesmo bairro, entrando todos os dias em meu consultório, encontrando e falando sempre com as mesmas pessoas sobre os mesmos assuntos.

Avanços fiz, fatalmente continuo em movimento. Mas a inspiração que vem de dentro dessas duas pessoas queridas demais, das quais vou sentir tanta saudade, me mostra que o que alcancei ainda é muito pouco perto do que meu lado mais selvagem e travesso às vezes grita pra eu almejar.

Hoje minhas duas amigas e suas histórias encantadas (cheias de dificuldades, claro, mas definitivamente BIG STORIES) me pareceram um soco no estômago. Uma verdadeira porrada na cara, e pela primeira vez me senti como se minha vida inteira dependesse disso. Triste e feliz ao mesmo tempo, engoli algumas lágrimas enquanto esperava pelo primeiro paciente do dia. Me acalmei e pensei nelas lá longe, e se algum dia eu também vou estar em algum outro canto do mundo.

Antes de mais nada, preciso me encontrar. Aí sim, eu vou poder chorar: vou estar comigo, aqui, ali, ou em qualquer lugar.

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Para Juju e Elis, que suas asas batam tão fortes e rápidas quanto for o tamanho de seus corações e das paixões que habitam neles. Vocês têm tudo o que precisam para fazer a sorte parecer apenas um detalhe.

quarta-feira, outubro 19, 2011

Pra gente sonhar



Pra você, que amo...

Quando te vi passar fiquei paralisado
Tremi até o chão como um terremoto no Japão
Um vento, um tufão
Uma batedeira sem botão
Foi assim viu
Me vi na sua mão

Perdi a hora de voltar para o trabalho
Voltei pra casa e disse adeus pra tudo que eu conquistei
Mil coisas eu deixei
Só pra te falar
Largo tudo

Se a gente se casar domingo
Na praia, no sol, no mar
Ou num navio a navegar
Num avião a decolar
Indo sem data pra voltar
Toda de branco no altar
Quem vai sorrir? Quem vai chorar?
Ave maria, sei que há
Uma história pra sonhar
Pra sonhar

O que era sonho se tornou realidade
De pouco em pouco a gente foi erguendo o nosso próprio trem,
Nossa Jerusalém,
Nosso mundo, nosso carrossel
Vai e vem vai
E não para nunca mais
De tanto não parar a gente chegou lá
Do outro lado da montanha onde tudo começou
Quando sua voz falou:
Pra onde você quiser eu vou

Largo tudo
Se a gente se casar domingo
Na praia, no sol, no mar
Ou num navio a navegar
Num avião a decolar
Indo sem data pra voltar
Toda de branco no altar
Quem vai sorrir? Quem vai chorar?
Ave maria, sei que há
Uma história pra contar

quarta-feira, agosto 31, 2011

Sentido

Eu não sei dizer ao certo qual é o sentido da vida.


Mas a minha tem me levado a caminhos óbvios: cada dificuldade que encontro aparece com cada vez mais freqüência em minha jornada. A cada passo, sinto que passei de fase, tenho novas armas e habilidades, mas o inimigo final a ser vencido parece tanto mais poderoso quanto avanço em meu caminho.


Não tenho tolerado os Game Overs da vida, pelo contrário, me parece cada vez mais necessário insistir em minhas tarefas atrás de algumas vitórias. Os desafios são grandes, falho na maioria das vezes, mas uma nova força se instala em mim me impulsionando a voltar e seguir em frente tudo de novo.


Medo do novo? Me arrisco. Receio de mudar? Me retransformo de dentro pra fora. Dificuldade em dizer o ainda não-dito... tento gritar ao mundo o quanto posso.


Sinto que o círculo vicioso de minha vida jamais terá fim enquanto algo homérico, bruto, duro, não romper esse ciclo. Precisa ser algo realmente grande, embora possa parecer infinitamente pequeno aos olhos de outros. Como diz a metáfora, quem se eleva sempre parece menor aos olhos do que ficam a observar.


A vida me diz para ser cada vez mais eu mesma, dentro das transformações que o caminho me obriga a fazer. De repente me parece cansativo demais correr atrás das expectativas alheias, para então sucumbir frente ao menor dos erros. Luta inglória... infelicidade certeira. O preço que esse tipo de vida cobra é absurdamente mais alto do que as moedas que tenho nos bolsos da alma.


De repente tudo parece um pouco mais claro: a tarefa é só minha e outros vem auxiliar, outros atrapalhar. O grande barato da vida é saber diferenciar o joio do trigo, e transformar as armadilhas do caminho em grandes oportunidades de sucesso.



Aprender... e apreender. Este é o sentido, que tenho cada vez mais sentido, ao acordar cada dia pela manhã. O Hoje nunca será o bastante.

domingo, julho 17, 2011

filtro

Parece que, conforme o tempo passa, as lembranças que eram muitas vão sendo naturalmente selecionadas pelo coração. Não só de histórias sobrevivem as amizades – é preciso ter a memória exata, emocional, visceral, daqueles momentos bonitos.


Conforme o tempo passa, certas lembranças dolorosas passam a pesar muito mais do que as boas. É que o tempo não tratou de depositar, crédito amoroso, novas experiências positivas que tratem de deixar o saldo positivo. As lembranças boas têm prazo de validade, expiram, enquanto as más duram parar sempre, e chega uma hora que você passa a se lembrar muito mais de todas as ligações que você não recebeu, das desvalorizadas que você tomou daquelas pessoas que já foram seu braço direito, das palavras duras que você ouviu quando só queria carinho.


E quanto mais o tempo passa, fica mais difícil ainda retomar as relações. Parece que perde o sentido. Uma hora já não dá vontade, só dá mágoa e uma espécie de saudade rancorosa, de quando a gente começa a pensar nos momentos bacanas como falsas memórias e se sente enganada. Será que aconteceu mesmo, daquele jeito que você se lembra? Será que aquelas palavras foram mesmo bonitas, ou você estava intoxicada pelo sentimento lindo de amizade que o momento evocou?


Enquanto o tempo passa, meu filtro mnemônico trabalha a todo vapor, me desvencilhando das relações efêmeras e superficiais que só acrescentaram lembranças vazias apesar de bonitas – pois o que não se sustenta, com o passar do tempo, corrói tudo aquilo em que se fundamentou. Procuro desatar os nós. Os nós. Nós.


Não sei se este inverno trouxe um rigor emocional desmedido e implacável, mas apesar do sol lá fora, minhas lembranças mais nítidas estão frias e cinzentas. Minha aquarela de cores, já não uso mais em telas baratas – que fiquem os retratos vazios, tão vazios quanto os vínculos aos quais me apeguei ferrenhamente durante todos estes anos, e que hoje deixo para trás sem dó, sem piedade, e também sem o menor remorso em não continuar atrelada a eles. Prefiro a liberdade.

segunda-feira, maio 16, 2011

Questiono

Ando oscilando.

Oscilo entre a segurança e confiança, a fé no futuro brilhante que me foi prometido desde o dia em que nasci, que me foi encomendado pela bondade que sei que existe em minha alma, que me logicamente é confiado pelo investimento de energia nas minhas ações.

De repente me deparo com a sombra de tudo em mim – insegurança, desconfiança, desesperança. Percebo a falta de garantias que esse futuro me reserva e questiono, questiono, questiono. Estou fazendo tudo o que posso? Existem sinais do meu fracasso? Devo confiar no fluxo das coisas que vão? Há como sobreviver ao presente?

Há muito tempo não conto com a sorte e somente com meu próprio esforço. Mas conforme as coisas mudam rapidamente sem que eu tenha nenhum controle, questiono, questiono e questiono – de que adianta o meu esforço? Nesse mundo sem garantias minha preocupação parece perda de tempo, a ansiedade some pra de repente explodir.

Me dizem para confiar. Que a potência leva tempo para se tornar ação. Que a natureza do grão é germinar: basta que se plante. Plantei já há tanto tempo, planto diariamente em meus pensamentos e o produto final ainda é a incerteza enquanto eu questiono, questiono e questiono: confiar em que?

Vou explodir se mais alguma vez tiver que responder a mim mesma: confiança no Eu. Me parece apenas uma desculpa sem graça para racionalizar a verdade indubitável: nesta vida, você simplesmente não sabe o que irá frutificar. Você aposta, corre os riscos, e de vez em quando você ganha; então você atribui ao esforço a qualidade do seu sucesso.

Mas quando perde, só te resta dizer: azar, paciência. Outras oportunidades virão.

Questiono, questiono, questiono.

quarta-feira, maio 11, 2011

Ei, você aí, me dá um cobertor aí, me dá um cobertor aí


Eu apostaria umas cem pratas como você tem um cobertor sobrando em casa. Aquele velhinho, meio detonado, que fica no fundo do armário ou na caminha do cachorro. E eu também aposto que você tem sentido um friozinho à noite. E eu DU-VI-DO que você use esse mesmo cobertorzinho velho nessas horas. To errada?

Agora que tal se você botar esse cobertor dentro do seu carrão-zero-quilômetro-último-tipo, e quando se deparar com alguém dormindo na rua, você ir lá e doar esse cobertor?

A não ser que você seja daquele tipo que acha melhor que essa gentalha morra mesmo de frio, você vai simpatizar com a idéia. E eu te desafio a me dar um bom motivo pra não fazer. Um bom motivo não – tem que ser um motivo do caralho.

Não, não vai mudar o mundo. Não, você não vai resolver o problema social. Por favor, não me fale em governo, todo mundo sabe que a responsa é deles e que eles que não fazem porra nenhuma. O cachorro vai ficar com frio? Bota ele pra dormir com você, o que o bichinho ta fazendo sozinho? E se você disser que não tem um cobertor sobrando, eu vou rezar pra seja porque você já doou o seu pra alguma campanha.

Você não vai fazer uma macrodiferença, mas vai fazer uma puta diferença na vida da pessoa que vai ficar quentinha. Que tal essa? Não deveria bastar?

Melhor ainda se isso acontecer de noite e a pessoa já estiver dormindo. Ela vai dormir melhor, vai acordar e vai ter uma mega surpresa de ver um cobertor lá. Super bacana, gestos anônimos são o máximo. Você poupa a pessoa do constrangimento de ter que ser infinitamente e publicamente grata a alguém por ela não morrer na madrugada.

Bora vasculhar os edredons?

Eu já separei o meu ;)

segunda-feira, março 28, 2011

Depois daquele post...

As reflexões sobre o último texto me renderam tanto, mas tanto, que de lá pra cá uma cacetada de coisas mudaram. Cansei da resignação com a falta de pacientes (falta? Também decidi reavaliar isso!) e resolvi investir energia no sistema, me inscrevi num curso que ta sendo fodástico, no qual eu espero não só atualizar minhas técnicas e agilizar meu raciocínio clínico, mas também espero fazer contatos. O próximo passo é fazer um cartão bem mais legal do que o que eu tenho hoje em dia, depois criar um blog/site (o que for mais fácil) com informações sobre psicoterapia e jogar na rede, tentando capturar esse público gigante internético. Porque uma coisa é fato: não é que o número de pessoas com ansiedade aumentou, acontece que hoje em dia elas sabem que isso que elas sentem é ansiedade e buscam ajuda. E adivinha onde elas pesquisam os sintomas? Assinar um link patrocinado no Dr. Google pode ser uma boa. Mas afora todas estas estratégias publicitárias, estou mais acreditando, neste momento, que o meu nível de envolvimento, disposição e de energia na minha profissão é que vai ser determinante pras coisas melhorarem. Se eu estou fazendo isso no intuito de ter grana pra casar são outros 500. Vocês podem até me fazer esta pergunta, mas eu ainda não sei responder. Na angústia de perceber que eu não sei o que eu acho sobre o assunto, fui ler o livro aí do lado, fui conversar com a terapeuta, parei pra observar melhor meu namorado. Não é que eu não ache legal, só não sei bem o que eu iria querer com isso... Papo pra outro post! Melhor investir energia no atendimento que começa daqui a 15 minutos. E eu estou cheia de ouvidos pra oferecer :)

sábado, fevereiro 19, 2011

Sobre anjos e casamentos




Ultimamente, tenho pensado muito sobre o amadurecer. Coisas bobas me fazem sentir-me adulta, coisas que via minha mãe fazendo e que sempre julguei serem coisas de “velhos”. Ter talões inteiros de zona azul, fazer a contabilidade, ouvir a CBN no trânsito. Tenho pensado muito no quão adulta me sinto diante da minha própria vida, o quão autônoma sou, quais os níveis de dependência que eu apresento, quando, onde, com quem.

Cheguei à conclusão de que me sinto muito, muito nova. No sentido ruim - sinto-me inacreditavelmente imatura no que se refere aos aspectos práticos da minha vida. Tenho 28 anos, e não tenho minha própria casa. Meu trabalho anda a passos lentos; até aí, sempre soube que seria assim, um consultório de Psicologia não se estrutura e se estabiliza do dia para a noite. Com dois anos e meio de clínica, já atingi 33% da minha meta inicial, o que até considero um bom resultado. Mas ando impaciente, inclusive financeiramente. Não pago todas as minhas contas. Não me sustento. E não é que não ganhe o suficiente para isso – simplesmente continuo na casa da minha mãe, por não ver exatamente quais os motivos para sair.

Sempre fui de falar que não queria sair de casa apenas para casar. Ontem fui à casa de uma amiga que fez exatamente isso – enquanto estava na casa dos pais, reuniu parte do dinheiro para dar entrada numa casa, na qual hoje está morando linda e feliz com o marido. MARIDO!

Minhas amigas estão casando... tendo suas casas. Ao entrar na casa dela, vendo sua aliança dourada no dedo, vendo o seu lar construído com esforço, e agora devidamente desfrutado, senti algo que não sei explicar. Uma quase inveja, se não fosse por ter ficado tão feliz a ponto de ter me emocionado com a conquista dela – alguém que sempre sonhou, sempre acreditou, sempre quis casar com seu príncipe encantado, e que por acreditar, conseguiu.

Voltei pra casa feliz por ela, fiquei imaginando a sensação de se ter sua casa e seu marido, voltar para casa todo dia e encontrar ali o homem que você escolheu para ser seu companheiro diário. Imaginei que deve ser fantástico. Me peguei, pela primeira vez em muito tempo, idealizando isso em minha própria vida, imaginando uma aliança dourada na minha mão esquerda, e fiquei incrivelmente triste por perceber que eu absolutamente não acredito que isso irá acontecer comigo.

Na verdade, foi difícil imaginar. Não consigo imaginar que um dia serei pedida em casamento. Desde cedo me senti diferente, do tipo que surpreende a família ao ir simplesmente “morar junto” de alguém. Imaginava meus tios, ultra-católicos, se perguntando “e o casamento??” e meus sem-graça pais explicando “ah, você sabe como são os tempos modernos...”. A bem da verdade, nunca achei que meus pais se importassem muito com isso, nunca revelaram fantasias sobre meu casamento e de minha irmã, ou sobre o desejo de ter netos. Acho que meu núcleo familiar sempre foi diferente e, por ser assim, cresci me sentindo diferente.

Mas eu sempre ri desta idéia. Sempre achei normal, ou até “bonito”, ser diferente, calar a boca dos meus tios que nunca viram com bons olhos as sobrinhas tatuadas e fumando nas festas de fim de ano que eram rotina até meus 17, 18 anos. Hoje, passei a achar um pouco triste e talvez até um pouco preocupante o fato de nunca ter acreditado que as coisas “convencionais e românticas”, como um pedido de casamento e uma casa própria, pudessem acontecer comigo.
Passei a achar triste não conseguir me imaginar vestida de branco com padrinhos no altar. Pois se meu próprio pai e minha própria mãe, um dia divorciados, hoje vivem relacionamentos estáveis porém pouco convencionais, incluindo um filho inesperado, serei eu a recuperar as tradições familiares, de uma família Doriana, com filhos e cachorros no quintal?

Me pergunto com tristeza: não acredito mesmo ou fui levada a não acreditar, de maneira a me proteger de uma frustração, evidenciada pelo divórcio dos meus pais? Ou será que se, tal como minha amiga, eu tivesse acreditado em vestidos brancos e príncipes encantados, poderia hoje realmente sonhar com um casamento e uma casa familiar? Será que realmente não quero ter filhos, como desde os 18 anos grito ao mundo, ou será que eu simplesmente não gostaria de ter filhos fora de um relacionamento estável, como acredito (?) que jamais terei?

Como diz Clarice Lispector, tão lindamente lembrada no vídeo de casamento de minha amiga, “eu acreditava em anjos, e por acreditar, eles existiam”. Cansei de repetir isso aos meus pacientes e não a mim mesma, mas creio que agora se abre um período de intensa reflexão em que preciso desesperadamente descobrir no que acredito – anjos, demônios, casamento, filhos. Adultos.

Se acredito em mim mesma.

quarta-feira, fevereiro 02, 2011

Allah Akbar!





Enquanto todo mundo se debruça sobre as telinhas de Tv e notebooks para falar e debater sobre a situação política do Egito, eu me pego torcendo pelo povo árabe. Não porque ache isso ou aquilo do que “camarada Obama” acha ou desacha, mas porque tendo estado no Egito recentemente, não consigo fazer outra coisa senão vestir a camisa daqueles milhares de Mohammeds, Abduls, Omars.

Eu não me pego discutindo política – me pego com medo de que tudo aquilo acabe mal. Não, não estou falando do Canal de Suez, não estou falando do petróleo. Tenho medo da perda da cultura. Não me preocupa muito que um possível xiita assuma o poder e foda com o bolso do Ocidente, mas me dá pânico pensar que meus filhos podem não conseguir ver as maravilhas que eu vi por lá, simplesmente por serem ocidentais não-islâmicos.

O Egito é tão lindo, mas tão lindo, que eu tremo de ansiedade de pensar que o bairro copta-cristão, incrustado no meio da maçulmana Cairo, possa vir abaixo e que seus habitantes vivam um holocausto moderno. Morro de medo que rompam o tratado de paz com Israel e que bombas e mísseis destruam o Khan el Khallili, mercado a céu aberto que existe há mais de 600 anos e por cujas ruas andei feliz, assobiando, falando “ma salama!” para todos os seus simpáticos comerciantes.

Relembrando os textos bíblicos, que medo do Nilo ficar novamente vermelho de sangue... sangue árabe, sangue judeu, sangue cristão ou simplesmente ocidental. Tristeza de pensar que futuramente, tanques de guerra ocupem suas margens, que a represa Nasser seja danificada e que o leito do rio seque ou que as cidades sejam inundadas.

Temo pelos amigos que lá fiz e pelos filhos que terão um dia. Receio não vê-los nunca mais, não por se ferirem neste protesto relativamente pacífico, mas por terem de se refugiar em algum país vizinho por serem “liberais demais”. Por serem a favor da igualdade. Por serem meus amigos.

Me pego rezando pelo Egito. Pela sua história milenar, pelos templos suntuosos que resistiram a ventos, chuvas, sol, faraós, mas que talvez não resistam aos homens, como os Budas gigantes do Afeganistão. Torço para que os árabes guerreiros que tomaram a Tahrir caminhem em paz tanto quanto eu, que caminhei por esta mesma praça há menos de 6 meses, já desejosa de voltar.

Ao meio-dia ouço os sinos da igreja mais próxima que, tal qual as mesquitas egípcias que gritam em seus minaretes, anunciam que o sol está a pino – Deus está vendo tudo, e é hora de rezar. Rezo então, para todos os santos, deuses, budas, exus e elementais da terra e do ar iluminem os caminhos, as ruas e as mentes no Cairo, expandindo raios de consciência para todo o oriente, Iêmen, Tunísia, Terra do Nunca.

Meio-dia, hora de rezar.

Allah Akbar!

Alá é grande.

terça-feira, janeiro 11, 2011

Ano-Novo

Essa preguiça de final de ano sempre se abate sobre mim com uma intensidade incrível. E neste fim de ano não foi diferente, desde o bode do Natal até a inércia do final de férias. Mas surpreendentemente, as coisas correram melhores do que eu pensava. O Natal foi terrível mas não horripilante, o Ano Novo foi bão e as férias tão bacanas que deu gosto de voltar. É legal descobrir que na maioria das vezes, quase todas as coisas chatas da vida passam logo se você não der muita bola, mesmo que todo fim de ano, até o fim da vida, continue sendo Natal. E é redundante, mas gostoso perceber que aquilo que é legal pode continuar sendo legal ou ser mais legal ainda se você alimentar, e acaba durando ainda mais dependendo da qualidade de adubo que você usar.
Descobri que a objetividade, a serenidade e a convicção são as únicas coisas que realmente fazem a diferença – são essas as minhas conclusões de Ano Novo, e ponto final :)

quinta-feira, dezembro 02, 2010

Pagando pra ver

Cansei de brincar com coisa séria, e de levar a sério demais o que é simples brincadeira. Nesta vida existem vários pesos e várias medidas e já faz tempo que não consigo mais ser absoluta em nada do que eu digo. Mania essa de relativizar. Mas como dizem por aí, é caminhando que se faz o caminho, e a viagem só vale a pena se o processo também valer. Já não quero me arrastar por aí sem ter foco no futuro, nem ficar tão de olho no futuro que me perca do presente. É sempre esse, o desafio de balancear. Não transformar o remédio em veneno, não errar na dose do equilíbrio que se torna tão estável que fica monótono. O que quero não é a paz serena de ser pacata cidadã eternamente, quero a paz do valer a pena, a paz da recompensa e da consciência tranqüila, a paz de uma partida que paga o preço mínimo dos lances, seja você ganhador, seja você o último da fila. Não existe essa de jogar a toalha sem sequer ter começado a partida, resolvi abrir a guarda e fazer minhas apostas, guardei comigo aqui algumas fichas, estou jogando alto mas tô pagando pra ver.

segunda-feira, novembro 08, 2010

comida, cuidado, amor

Como herança de uma família de italianos e portugueses, adquiri nos últimos anos o gosto pela cozinha. Avessa às artes culinárias por puro preconceito feminista, foi uma deliciosa surpresa entrar em contato com as magias do criar, cozinhar, alimentar.

Comida é símbolo de afeto. Desde cedo o bebê recebe os seios de sua mãe e o leite dele proveniente como fonte inquestionável de amor e segurança. Ora, por que com os adultos seria tão diferente? Alimentar sua família, servir os amigos, não seria um ato igualmente afetivo, amoroso, de cuidar de quem se ama?

Nos últimos tempos, descobri meu amor pelos antepastos. Roubando dicas aqui, acrescentando coisas ali, dando vazão ao puro feeling gastronômico, fui criando um cardápio humilde porém cuidadoso de receitas fáceis e charmosinhas. E qual não foi o encanto de descobrir que, para a família e amigos, o momento da cozinha era um programa especial, Dia de Cozinhar.

Na minha casa todos sempre cozinhavam e eu ficava de fora, vendo TV ou no máximo lavando pratos. Foi maravilhoso finalmente me incluir nas tarefas culinárias e descobrir o prazer de ver o alho, picado com carinho, se juntar ao fio de azeite cuidadosamente despejado na panela de inox. A voz de meu pai me vem imediatamente à memória: “Todo bom prato, filha, começa com alho, azeite e cebola num fundo de panela”. Está certo pai - o cheiro contamina o ambiente; bocas salivam, olhos pulsam ao ver os tomates, cebolas e temperos serem unidos num abraço gastronômico. A fatia do pão italiano serve de leito à mistura simples e honesta, formando uma bruschetta ao pomodoro das mais caseiras. A folha de manjericão é um ornamento aos olhos: hora de se deleitar.

Com o passar do tempo, fui ganhando segurança. Nunca soube usar o sal, visto que vivo numa família de hipertensos. Como flexibilizar o paladar e agradar a todos? Pura arte humana de se relacionar! Uma experiência aqui, outra ali, o saleiro na mesa garante a segurança da situação. Tem pra todos. Afinal, nem sempre o que está sendo levado em conta é o sabor em si, mas arte do processo, da criação, das descobertas de um novo tempero ou da habilidade incrível de uma amiga de cortar rapidamente os ingredientes: criação coletiva porém liderada, assim é o cozinhar amoroso que une a fome, a vontade de comer e o desejo de cuidar, com delicadeza, dos desejos alheios.

Bruschettas, molhos, pastas. Símbolos de afeto que pouco têm a ver com comida. Iniciante na gastronomia, porém veterana do amor, entrei em um dilema sobre em qual seção este texto melhor se encaixaria. Pura formalidade, como a separação e ordenação dos pratos de uma refeição. Na dúvida, resolvi por priorizar o concreto, a comida em si – não fosse isso, serviria de bom grado meu coração numa bandeja, totalmente imerso num fio de carinho e pedaços de consideração.

sábado, outubro 23, 2010

ressaca de você

Dentre todos aqueles rostos na multidão, só o seu estava realmente em foco. No meu foco. Ali, na fila dos livros, te vi nervoso, esperando para ter meus textos em mãos. Os textos em que me apoiei ao precisar te esquecer. Sempre achei que fosse força de expressão, mas fiquei completamente zonza ao sentir seu cheiro naquele abraço longo que tardou a acontecer. Nossos olhos se comunicaram sem que ninguém percebesse o que ali acontecia: a troca, a comunhão, os corações que se reaproximaram. Um ano e meio não bastou longe de você, minha boca secou como sempre secava, meu coração falhou uma, duas vezes, só voltou a bater quando por fim nos separamos. Quis te falar milhares de coisas. Aos homens com quem tenho andando, já disse tudo que interessava. Eles já sabem tudo o que é preciso saber: sou mulher, estou disponível, sinto tesão quando me tocam aqui ou ali. Isso deveria bastar. Mas pra você quero contar o que sonhei essa noite, quero mostrar o sapato que comprei, quero ler aquele artigo enquanto você toma seu banho, quero te contar uma sessão difícil que tive hoje. Você iria entender. Não te disse nada destas coisas, me contentei em contar as novidades, fingi uma naturalidade que jamais me pertenceu quando estive ao seu lado. Seu cheiro me intoxicou, fiquei bêbada de saudades, enchi a cara com vontades, dei PT com o coração. Amarguei essa ressaca na boca de outra pessoa, fantasiando suas artes médicas curando minha alma obcecada por você. O que te disse um dia ainda está valendo, meu coração continua sendo seu, meu corpo implora pra novamente te ter, mas minha honra está selada – a nossa porta não está trancada, nossas possibilidades continuam encostadas, mas elas têm uma senha, você já sabe qual é.

segunda-feira, outubro 18, 2010

Jogos na terceira idade




Semana passada, fui dar um role na Argentina e visitar uma amigona minha em Buenos Aires. E embora a viagem tenha sido muito boa, não, este post não é para contar as minhas desventuras pelas calles argentinas. Esse post é pra falar de algo triste: a solidão da velhice.

Fomos num Casino lindo em Puerto Madero. A idéia era tirar onda. Enfiamos nas maquininhas 2 pesos cada uma (cerca de 1 real), só pra puxar a alavanquinha e ver as figurinhas rodarem. Perdi meus pesos em menos de 10 segundos, mas eis que ouvi um som de moedinhas caindo na maquina do lado. Não, não foi sorte das amigas.

Uma senhorinha, toda enrugadinha e usando óculos, ganhava vários pesos e juntava as moedinhas. A princípio sorri, feliz pela sorte dela, até ver o maço de notas que ela tirou do bolso pra novamente enfiar na maquininha. Era óbvio que aquele mulher estava perdendo mais do que ganhando.

De repente parei pra observar o salão no qual estávamos e o que vi me chocou. Monte e montes de velhinhos, como os que eu via entrar no Bingo Angélica quando este ainda existia e o jogo era permitido no Brasil, sozinhos em suas maquininhas, vendo as figuras rodarem e enfiando notinhas no lugar indicado. As alavancas eram puxadas sistematicamente, as moedinhas enfiadas compulsivamente, os olhares apáticos vidrados no visor: BAR, BAR, BAR. Dias depois, visitamos outra casa de jogos em Tigre e a cena se repetia.

Fiquei deprimida com a cena. Não é que eram grupos de velhinhos se divertindo juntos. Eram indivíduos, solitários, gastando suas economias ou aposentadorias, com rostos longe de parecerem felizes, funcionando no piloto automático. A mais pura ausência de vida humana, o retrato mais fiel da solidão de quem não encontra mais lazer na vida social, nas relações humanas, e se ensimesma no vício atordoante de ouvir o tilintar das moedinhas.

Cadê a família dessa gente? Cadê os filhos destes pais? Onde estão seus amigos?

Fiquei pensando na falta de iniciativas sociais que incluam a terceira idade ou que pelo menos prestem atenção neste setor da sociedade que está sofrendo a falta de reforçadores intrínseca ao envelhecimento. Cadê os programas destinados aos idosos? Os Centros de Convivência? As facilidades culturais?

Parece que a Argentina, na qual o jogo ainda é permitido, acha mais fácil empurrar os velhinhos pra dentro destas casas sem janelas onde o tempo não corre. É mais fácil do que criar alternativas criativas e saudáveis, o velhinho ali dnetro não enche o saco de ninguém, nem da família, nem do Estado, e deixa as calças ali.

Acho que Serra e Dilma, qualquer que fosse, ganhariam uma eleitora de abordassem esse tipo de questão. O que vi naquele Casino só me fez decidir uma coisa: cultivar a família, as amizades, e se todos morrerem antes de mim, é melhor tratar de descolar um bom e saudável hobby solitário.

segunda-feira, outubro 04, 2010

Sexo, drogas & balada no Morumbi

Quem me conhece sabe que eu sou uma das pessoas mais ditas “certinhas” que há. Não pego troco errado, não furo fila de cinema, não roubo jogando tranca, dificilmente passo em sinal vermelho. Também não sou muito de festinhas nem sou chegada a drogas. Isso não significa, claro, que eu jamais tenha fumado um baseado nem enchido a cara, mas é fato que minha personalidade não é exatamente do tipo viajandão, extrovertida, sexo subversivo. E é claro que sendo assim, nos dias de hoje muita coisa me espanta e até me desagrada.

Dia desses, fui parar numa festinha. De galera conhecida, a festa é produzida por um cara conhecido do meio musical, e reúne mais ou menos sempre as mesmas pessoas. Então fui lá, achando que a festa ia ser sussa como os forrós que costumo freqüentar. A festa foi numa casa linda lá no Morumbi, cheia de gente bonita e arrumadinha, mas assim num estilo informal. E eu, como sempre, pairei na posição de observadora durante um bom tempo (tempo suficiente pra me divertir e ao mesmo tempo me desanimar).

Eu já comentei por aqui que fico impressionada de ver como as pessoas parecem viver pro final de semana. Mais ou menos como se elas segurassem a onda a semana inteira pra então extravasar no sábado a noite, vivendo o restinho de vida que o dia a dia lhes permite. É claro que isso é produto de viver uma vida insatisfatória, pra mim isso é bem claro: de segunda a sexta se sobrevive; de sexta a domingo a vida acontece de verdade. Escolhas à parte, independente do que eu ache a respeito, é fato que 90% das pessoas naquela festinha estavam tentando viver a vida como se não houvesse amanhã, ficando muito loucas, falando baixaria a maior parte do tempo e se detonando com vários tipos de drogas.

Tendo tomado umas cervejinhas, fui amargar na fila do banheiro. Depois de mais de 20 minutos esperando, me sai uma turminha farinhenta de dentro do banheiro apertadinho. Que fique claro: cada um que meta o nariz onde quiser, mas quando eu fico contorcendo a bexiga porque tem gente cafungando em vez de fazer xixi, aí eu começo a me invocar.

E essas pessoas, à base de birita e de farinha (e maconha igual cigarro), carregaram o ar da festinha com uma libido sem tamanho. A cada duas frases, uma era do naipe “comer fulana”, “chupar meu pau”, “enquadrar a gostosa” e congêneres. Um tal de fulano dando em cima da fulana, que tava ficando com sicrano, que veio dar em cima de mim a despeito de eu estar batendo papo com beltrano. Meio que uma filosofia Woodstock de “vamos foder e amar, somos todos espíritos livres”.

Diálogo testemunhado:
- Quero ver Comer Rezar Amar.
- Vamos abolir o segundo verbo. Aliás Comer e Amar não dá na mesma?
- Hahahahahhahaha.

Participei de um mínimo de conversas bacanas (que dada a véspera eleitoral, era basicamente sobre as eleições). O que salvou a noite foi um encontro especialíssimo com alguém que eu não encontrava há 10 anos e por quem sinto um carinho infinito e sobre quem guardo ótimas memórias. Papo inteligente, interessante, de verdade, que me fez ficar na baladinha até o dia clarear. Mas o simples fato de estar rodeada de gente limitada, adicta e sexualmente invasivas me bodiou até os ossos. Ouvir os papos vazios e as investidas sexuais a cada 5 minutos arrepiou meus cabelos e desagradou os ouvidos – jogaria 90% de todo o conteúdo escutado no lixo sem dó nem piedade.

O mais difícil foi ver meus próprios amigos partilhando destes comportamentos – falando bosta, se insinuando vulgarmente, enchendo a lata e dando bafão. Mulher bonita empinando o peito e dizendo que vai dar uma de biscate; homem inteligente (?) dizendo “eu vou é pegar geral”, turminha de bizarros dando murro na janela de um quarto onde dormiam meninas meio bêbadas (argumento: “vai dormir em casa!” Ainda paguei de chatona pedindo pra deixar as meninas dormirem, era melhor do que irem pra casa dirigindo naquele estado).

Juro por Deus, no próximo sábado à noite desligo o celular ou faço um Dia de Sofá, esquento a cadeira montando meu quebra-cabeças lindo do Taj Mahal que tá ficando sensacional. Ou, no máximo, ligo praquele carinha, pra tomar um café e bater um papo num lugar que tenha, no mínimo, um banheiro livre de cocaína. Ah, e com libido opcional.

quarta-feira, setembro 08, 2010

(des)equilíbrio

De vez em quando eu sinto vontade de gritar. Gritar assim bem alto, que é pro mundo inteiro perceber que alguma coisa ainda acontece aqui dentro. Mas sendo de raiva, alegria, tristeza ou inconformismo, eu me contenho bem a tempo de só gemer bem baixinho, às vezes em forma de risinhos ridículos para comemorar grandes feitos, às vezes apenas um sorriso para oficializar a serenidade, vez em quando um suspiro de resignação, um bufo de raiva perfeitamente controlada. Era pra ser assim? O equilíbrio então é isso? Não ser frio, nem mesmo quente, ser morno a ponto de realmente quase vomitar? Eu, que sempre defendi os meios-termos, o bom-senso e os tons de cinza, assim num quê de solicitude, acabei por me conformar em não celebrar as grandes conquistas, nem espernear os grandes revezes. Como me disseram uma vez, o certo talvez seja ser egoísta: me refestelar em banquetes, nem aí para quem passa fome; sofrer minhas agruras como se fossem as piores sobre a face do planeta; me sentir a pessoa mais importante não apenas do meu universo, mas de todos os existentes – tudo isso sob o falso pretexto do altruísmo: eu mesma feliz ajuda o mundo a ser feliz. Talvez seja simplesmente saudade dos dramas, talvez seja minha dificuldade de ficar em paz com a paz, talvez seja só a vontade de gritar que se tem de dominar a partir da meia-noite, embora eu o faça sempre. Pode ser simplesmente vontade de viver intensamente, mas hoje, e somente por hoje, eu tenho que admitir: esse coisa de equilíbrio nunca durou muito pra mim. Me sinto apenas e tão somente uma versão entendiante de mim mesma.

terça-feira, setembro 07, 2010

Mudando

É preciso ter muito cuidado quando se tem o ilusório desejo de mudar o passado.

É preciso lembrar: muda-se uma única coisa, e todo o resto também será modificado.

Algumas coisa devem simplesmente permanecer como estão...

sábado, agosto 21, 2010

Suicídio

Hoje, ao chegar em casa de uma noite deliciosa na companhia de uma grande amiga, me deparei com policiais e carros de resgate na frente do meu prédio. Imaginei ser coisa boba. Um gato preso na árvore, uma árvore caindo na rua, a rua inundada por algum cano d'água. Acontecimentos banais do cotidiano. Perguntei ao oficial, como quem não quer nada, o que havia acontecido. Deu pra ver o constrangimento e o desconforto estampado na cara dele quando me respondeu: "Uma senhora do seu prédio se jogou da janela".

Uma onda elétrica percorreu meu corpo como se tivesse sido atingida por uma pedra. "Quem?", perguntei ao porteiro. "Dona Fulana, do 174".

Subi até meu apartamento, 3 andares abaixo do dela, em completo estado de choque. E uma tristeza profunda atravessou meu peito quando me dei conta de que sequer sabia quem era a finada moradora.

Os vizinhos dizem que era uma senhora acometida de terrível depressão. Já tentara o suicídio outras vezes, já estivera internada outras tantas. E nada, nem ninguém, pode demovê-la de acabar com seu sofrimento à própria maneira.

Sentei na cama e chorei, abraçada à minha mãe, assolada por uma enorme culpa por não saber quem era Dona Fulana, por não ter tido a chance de ajudá-la. Senti raiva de quem a deixou sozinha, deprimida, solitária até em seus momentos finais. Senti raiva dela própria, por ter deixado tanta gente triste pela sua morte. Mas não ousei julgar a validade da sua atitude.

Fiquei pensando na proporção do desespero que deve existir para levar alguém a causar a própria morte. O grau de sofrimento deste ser, a falta de perspectiva, a assustadora falta de possibilidades. A completa ausência de alternativas que não por fim à própria existência, a única forma de se aliviar a dor.

Por que me afetou tanto a morte da Dona Fulana? Por que é que sinto como se fosse minha própria família? Será que andamos tão ensimesmados, entocados em nossas próprias covas, alheio a tudo e a todos, que não sabemos sequer que um ser próximo está em profundo sofrimento? Morando empilhados uns em cima dos outros, sem saber o que acontece na existência de pessoas 3 andares acima de nós? Essas pessoas que andam, dormem e sentam em cima de nossas cabeças todos os dias, e nada sabemos delas? Se são felizes, se são serial killers, pedófilos, noivos, cancerosos, suicidas?

Será que o que me entristece tanto é que me vejo refletida dentro desta velha senhora, por ter pensado vezes a fio num final trágico como o dela, em momentos de tristeza profunda e de rancor sem igual?

Enquanto procuro compreender os mistérios por detrás de todo suicídio, me afasto para sempre das fantasias sobre o meu próprio, rezando a Deus para que perdoe Dona Fulana por tamanha desgraça. Que seus parentes não se assolem pela culpa que eu mesma sinto por não poder fazer quase nada por quase ninguém, por ter que me conformar que este mundo tão bonito carrega existências não tão felizes e prósperas quanto a minha.

Que de hoje em diante eu conheça mais meus vizinhos e entenda melhor a dor de todos - é a minha própria, estampada nos olhos de um cadáver, a me fazer agradecer por cada sorriso que ainda darei, a partir de hoje e para o resto da minha vida.

sexta-feira, agosto 20, 2010

Paz



Eu tenho andado tão calma, tão pacífica, que mal tenho sentido o tempo passar. E cheguei num ponto tão estranho que já nem sei dizer se essa passagem veloz do tempo é boa ou ruim.

Porque os dias vão passando numa calmaria tão atípica que o dia acabar é bom, começar o próximo também, dormir é gostoso e acordar também, trabalhar é ótimo e ter folga idem, sair de casa é tudo e ficar na toca é uma delícia.

E tudo isso por ter simplesmente passado a aceitar a vida e todas as coisas que a fazem ser o que é, como realmente são. Boas e ruins. Calmas e turbulentas. Difíceis e fáceis. Tudo ao mesmo tempo.

Coisa doida é viver. Coisa boa essa que chamam de existência. Demorei pra descobrir o que era tão óbvio: a paz e a felicidade estão dentro da gente. Ser feliz é simplesmente uma questão de ponto de vista.

sábado, agosto 14, 2010

Saudade eterna de você

Para F.

Quando penso em você
Meu olhar se enche d’água
Não tenho um pingo de mágoa
É só saudade da boa

E fica na lembrança de um beijo
Do abraço que ninguém me deu igual
Da noite que valeu por todas que vivi
O tempo foi passando e eu fiquei
Por todos os amores onde andei
Tentei mas nunca deu pra esquecer de ti

Ai, ai meu coração
Que passa dia, mês e ano e não consigo te esquecer
Ai, ai meu coração
Ainda bate apaixonado com saudade de você...


(Accioly Neto)