segunda-feira, outubro 23, 2006

DEZ COISAS QUE APRENDI EM UMA SEMANA DE ISOLAMENTO NA PRAIA

1. A sensação que temos quando o feriado acaba, de "ai que pena, ficaria aqui para sempre" é absolutamente ilusória. A vontade que temos não é de ficar mais tempo ali, e sim de que o tempo parasse naquele instante que causou tal sensação. O que, aliás, invalidaria totalmente o tal momento, já que ele só é tão bom porque é único e especial porque é finito. A imortalização de um momento bom é tão desejada porque é utópica: sempre vamos querer o que não podemos mais ter: semana que passou, a música que já tocou, o feriado tudo outra vez.

2. Ficar sozinho (sem gato nem cachorro por perto) emagrece. Comida é símbolo de afeto, e eu percebi que comer perde a graça no dia em que comprei uma caixa de Amanditas, pensando em finalmente devorá-la sozinha, e não consegui comê-la até o final. Rezei para que alguém me pedisse umazinha sequer na rua, só pra poder compartilhar o prazer e poder dizer "Hmmm é tão bom, sou viciada nessa merda!!". Comer sozinho não tem a MÍNIMA graça. A gente come só pra matar a fome mesmo, sem ninguém junto de nós a gula perde o sentido. Comprei uma garrafa de 2L de Coca Light achando que ia ser pouco, e até agora não abri! E hoje comi, de maneira totalmente sem graça, restos do macarrão de ontem... ah, e jantei um sorvete por kg, e esse sim estava ótimo - comi na companhia de uma amiga.

3. Depois de um tempo sozinha, sem Tv, rádio, msn ou sem ninguém no telefone pra fofocar, você começa a duvidar da sua própria existência. Será que eu realmente tô aqui? Será que alguém me vê? Será que se eu sumir vão notar a minha falta, ou dizer "sim, eu a vi pela última vez na banca, comprando uma cruzadinha"?? Dizem que se uma árvore cai no meio da floresta e não há ninguém ali vendo, sua queda não emite qualquer som. Será que alguém me ouve cantando no chuveiro? Nossa existência só é admitida como tal por nós mesmos porque temos um outro nos servindo de espelho e nos refletindo (pelo menos se este outro responder às nossas perguntas ou elogiar nossa mini-saia!). Por isso eu agradeço aos céus quando o telefone toca - eu existo sim! Quando ele não toca, considero seriamente comprar uma bola de vôlei, escrever WILSON nela e fazer seus cabelos com as folhas do abacaxi que está apodrecendo na geladeira (como eu já disse, comê-lo sozinho não teria a menor graça). Depois de uns 3 dias sem abrir a boca, até considerei arrumar briga com o vizinho, só pra ver se ele me escutava.

4. Falando em telefone, quando a gente está sozinho é que a gente aprende a valorizar certas coisas que a gente adora dizer que detesta. Tipo tecnologia. A gente descobre que, na verdade, a gente A-DO-RA a tecnologia, especialmente o telefone - ah, o telefone!! E torpedo no celular então?? Bicho, que alegria! Parece até videogame - manda, recebe, responde, recebe de novo, iupii, que alegria!! A gente também começa a sentir saudades dos paus que o PC dá, religiosamente, uma vez por semana. Aí a gente idolatra o DVD, o cinema e até mesmo o Galvão Bueno começa a fazer falta. Eu admito: fui ao cinema em São Sebastião, dei uma fuçadinha no Orkut na casa de uma amiga, e tô doida-biruta pra ir logo na lan house escrever esse texto (para, mais uma vez, receber comentários depois e perceber que de fato existo). Porque olha, sinceramente, agora acabo de descobrir que adoro um bom teclado - escrever tudo à mão dói pacas!

5. A praia só é linda de morrer e o pôr-do-sol só é super romântico quando temos alguém pra compartilhar. É tipo o lance da comida, sozinho perde a graça. Na boa? Não tô nem um pouco afim de ir ver o pôr-do-sol, nem de torrar na praia, nem de contar estrelas. Tudo bem que tá chovendo... não tá dando praia, não tem pôr-do-sol e não tem nem uma única estrela no céu, mas acredite em mim: é bem menos legal quando estamos sozinhos. Especialmente numa terra como Ilhabela, lotada de borrachudos e pernilongos. Outra descoberta: a gente tolera os insetos pra não cortar o barato dos amigos, quando na verdade tá todo mundo igualmente pensando o quanto eles são insuportáveis!!!

6. Tem uma coisa muito legal de se estar sozinho: a gente descobre que é uma ótima companhia para nós mesmos. Afinal, tudo o que queremos fazer é sempre amplamente apoiado por nós mesmos. É como se fôssemos 2 pessoas, melhores amigos(as). Nunca tem alguém querendo fazer outra coisa. Somos só nós: eu e Eu. Quando eu tô com fome, Eu também está. Quando eu pensao em tomar banho, isso é exatamente o que Eu está afim de fazer. Eu tô sempre na mesma pegada que Eu. Sempre queremos fazer as mesmas coisas, comer as mesmas comidas, vestir as mesmas roupas - e eu não tenho o menor ciúmes de emprestar minhas roupas pra Eu mesma! Só tem algumas situações em que entramos em conflito. Como agora, por exemplo: Eu está com dor na mão, mas eu quero continuar escrevendo. Ou quando eu quero dormir de lado, e Eu, de bruços. Assim. Tudo ao mesmo tempo. Uma loucura.

7. A gente dorme muito mais, muito melhor, com muito menos culpa, e o dia rende muito menos quando estamos sozinhos. Explico: independentemente da hora que fui dormir ou do dia da semana, sempre que estou dormindo, exatamente às 10 da manhã, me bate uma culpa excruciante. O dia está passando e eu estou dormindo. Não quero dormir 1 terço da minha vida, o que me leva a dormir, no máximo, 5 horas por noite. Se tem gente por perto, pior ainda, porque escuto as vozes e quero logo levantar pra conversar, contar os sonhos, etc. Sozinha não: não tem ninguém pra conversar, nem pra achar ruim eu dormir tanto, nem nada a resolver. Só me resta dormir. O sono dos justos. E o dia rende menos não só porque dormimos mais, mas porque, sozinhos, podemos parar a hora que quisermos pra fazer qualquer coisa que quiser ou necessitar. Por exemplo: eu já levantei umas 3 vezes para ir ao banheiro enquanto escrevo esse texto, e no caminho parei para beber água, fumar um cigarro, lavar um copo. Quando não tem nada nem ninguém interferindo ou fazendo uma pressão social básica (mesmo que projetiva), a gente deita e rola, e não faz o que tem que fazer (no meu caso, absolutamente nada!).

8. A nossa imaginação se torna muito fértil quando estamos sozinhos. Qualquer barulhinho vira cães acasalando, um ladrão entrando, ou alguém vindo informar que ganhamos na loteria (mesmo sem ter jogado). Confesso já ter fantasiado meia dúzia de vezes que o estalo da madeira tão comum aqui em casa era, na verdade, um homem lindo que errou de casa, me viu, me achou bonita e simpática e quis conversar um pouco. E fazer sexo, claro. A gente se pega imaginando que coisas estranhas podem acontecer, como surgir um periquito dentro da geladeira (era o barulho do motor ligando e desligando), alguém estalando os dedos no banheiro à meia-noite e meia (eu não havia fechado direito a torneira) ou alguém com uma moto-serra do lado de fora da janela (era o vizinho roncando - como a esposa aguenta??). Já bati altos papos comigo mesma na frente do espelho, já fingi umas duas vezes que era a Madonna dando entrevista pra MTV (em inglês, claro!) e já esbocei mentalmente centenas de vezes o que gostaria de dizer praquele ex-namorado - sem cortes nem censuras, óbvio.

9. Cuidar de uma casa sozinha dá um trabalhão! Deus abençoe as empregadas e faxineiras! Vocês não imaginam quanta coisa tem pra fazer que a gente nem se dá conta: fazer comida e lavar a louça depois, varrer a sala, tirar lixo do banheiro, arrumar a cama, guardar as coisas na geladeira, dobrar as roupas de cima da cama, recolher os copos espalhados pela casa, apagar as luzes (incrível como sempre sobra uma acesa!). É uma manutenção constante. E é um saco. Ufa.

10. Ficar sozinha e isolada é muito bom, mas não vale o preço de uma boa fofoca, um bom cinema, um bom almoço em família, uma boa briga de trânsito. Não vale a delícia que é brigar com a irmã ou fazer manha pra namorado, e também não vale o prazer que é reunir as amigas pra ir comer num japonês na 2ª feira a noite. Taí a coisa mais importante que aprendi nesta semana: o danado do Vinícius de Moraes estava certo, é impossível ser feliz sozinho, fundamental é mesmo o amor. Amor de mãe enchendo o saco, de pai superprotetor, de irmã maravilhosa, de amigos preciosos. Sozinho a gente valoriza coisas que no dia-a-dia a gente nem dá bola - um cineminha ou um baralhinho no meio da semana na casa de um amigo, nem que tenha que atravessar a balsa pra isso (THANKS BABY!!!). A maior descoberta é essa: sou absurda, demasiada, deliciosa e ridiculamente dependente dos meus amigos e família. E também tô morrendo de saudades, voltando correndo! Japa na segunda feira?

Amor,
Eu

PS: Eu manda lembranças!!

2 comentários:

Julia Perissinoto disse...

finalmente li.
muito bacana! é realmente delicia ficar sozinha às vezes, é realmente enlouquecedor ficar sozinha às vezes e na maior parte delas, o barulho do silêncio é ensurdecedor. mas vale cada minuto - que faz o acorde dos teus pensamentos!

Raphael disse...

Eu já imagina que você não iria aguentar a Ilha Bela por muito tempo. A Ilha Bela é só para os bons momentos, não é para o cotidiano.