segunda-feira, novembro 06, 2006

FIXAÇÃO

Já faziam 3 noites que ela andava sonhando com ele.

Sonhos intensos, profusos, às vezes até eróticos, mas sempre significativos. Alguns haviam sido realmente ruins, especialmente o último, e foi por isso que, naquela noite, quando o relógio marcou 4:44 da manhã, ela desejou não sonhar. Além disso, contava também com uma amiga, de longa data, dormindo na cama ao lado, o que sempre lhe trazia segurança.

Era véspera de Finados, ela sabia que as fronteiras entre os dois mundos estavam abertas, o Véu havia sido suspenso e, portanto haveriam outras companhias ali a protegerem seus sonhos. Pediu a seus protetores que não a deixassem sonhar.

Às 10:45, despertou. Sentiu o rosto molhado, imaginou que fosse o calor, mas tremia de frio. Eram seus olhos, mais uma vez, denunciando: ainda o amava.

Havia sonhado com ele. Um sonho bonito, de muitas metáforas. Caminhavam lado a lado na praia que já havia sido palco de tantas palavras de amor, mas desta vez, caminhavam em silêncio. Ela pergunta a ele as horas. 4:44. Ela olha para seu relógio e vê que está parado.

Ainda lembrava da última frase dita por ele, segundos antes de largar sua mão, entrar no mar e desaparecer dentro de uma grande onda: ‘pra que serve um relógio parado?’

A frase martelava em sua cabeça, ela olhou para o lado, a amiga dormia. Queria gritar, queria dizer a ele tudo o que sempre quisera. Queria dizer a ele que não era o relógio que havia parado, fora seu coração. Queria gritar os 3 anos passados longe daquele que havia sido considerado seu Grande Amor, ainda jovem, aos 18 anos de idade. Queria acertar os ponteiros.

Sentiu raiva de si mesma, por ter parado no tempo enquanto o relógio dele era tão duramente, tão esmagadoramente real. ‘Eu paro no sinal, ele cruza mesmo fechado.’ A imagem dele deitado ao lado de outra a enervou. Lembrou-se das tantas brigas, sentiu saudades delas. Sentiu saudades da voz, dos cabelos, dos olhos, do peito, das sardas tão delicadamente pintadas em cada ombro. Sentiu saudades de sua letra, sempre tão inclinada, sempre tão forte, sua caligrafia marcando o papel ao escrever que a amava. Como pudera isso ter sido perdido?

Olhou novamente para a amiga, companheira fiel, leal, a guardiã de seus sentimentos mais escusos. Sentiu vergonha por saber quais seriam suas palavras. Uma vontade arrebatadora a assaltou. Decidiu-se por ligar para ele, naquela hora mesmo, às 11 da manhã. Queria apenas ouvir sua voz, ainda sonolenta, como que saindo de um transe. Decidiu por ligar, levantaria silenciosamente, e ninguém jamais saberia. ‘Eu sei.’ Mas isso já não fazia a menor diferença.

Um movimento na cama, e a amiga acordou. Estava feliz por estar acordada, mas bastou um olhar para ver que algo acontecia. Ela a questionou, e lágrimas rolaram. Nada fez quanto ao telefonema, já não importava, o momento havia se perdido. Exatamente como 3 anos atrás.

O dia, como que por ironia, estava cinzento, o céu chuvoso, como que a lembra-la da escuridão de seus sentimentos que, ela sabia, deixava negro tudo mais ao seu redor. A areia, como que por ironia, estava escura, exatamente igual ao que fora da última vez em que abraçaram-se, já numa distante primavera. O mar, como que por ironia, estava escuro e espumante, como ele gostava. Quando choveu, algo rompeu dentro de si. Ainda o amava.

Tentou se concentrar num livro, mas não conseguiu – as letras embaralhavam-se no papel. Pegou-se procurando as letras que formavam seu nome, sentiu vergonha de si mesma mais uma vez. Tentou escrever um verso, e tudo o que conseguia era escrever seu nome. Tentou distrair-se ouvindo uma música que sempre a animava, mas de repente ela só a lembrava dele.

Naquela noite, ela não fez nenhum desejo. Seus protetores a advertiram que continuaria sonhando, enquanto não acordasse de verdade. Era a pena que pagaria pela sua ingenuidade. Ela o enfrentaria – senão pessoalmente, enfrentaria em sonhos. Entregou-se aos sentimentos, parou de lutar.

Naquela noite, nada sonhou. Pelo menos não que se lembrasse. A angústia ainda doía, mas reconfortante. Uma frase não saía de sua mente.

Um relógio parado ainda marca as horas certas, ao menos 2 vezes por dia.

2 comentários:

Julia Perissinoto disse...

fantástico!

Fê disse...

Lalalala eu tava la...
hihi
Interessante como historias do passado sejam tao presentes!
Adoro os relogios parados, mas ainda prefiro os que andam!
Amooo