sábado, agosto 21, 2010

Suicídio

Hoje, ao chegar em casa de uma noite deliciosa na companhia de uma grande amiga, me deparei com policiais e carros de resgate na frente do meu prédio. Imaginei ser coisa boba. Um gato preso na árvore, uma árvore caindo na rua, a rua inundada por algum cano d'água. Acontecimentos banais do cotidiano. Perguntei ao oficial, como quem não quer nada, o que havia acontecido. Deu pra ver o constrangimento e o desconforto estampado na cara dele quando me respondeu: "Uma senhora do seu prédio se jogou da janela".

Uma onda elétrica percorreu meu corpo como se tivesse sido atingida por uma pedra. "Quem?", perguntei ao porteiro. "Dona Fulana, do 174".

Subi até meu apartamento, 3 andares abaixo do dela, em completo estado de choque. E uma tristeza profunda atravessou meu peito quando me dei conta de que sequer sabia quem era a finada moradora.

Os vizinhos dizem que era uma senhora acometida de terrível depressão. Já tentara o suicídio outras vezes, já estivera internada outras tantas. E nada, nem ninguém, pode demovê-la de acabar com seu sofrimento à própria maneira.

Sentei na cama e chorei, abraçada à minha mãe, assolada por uma enorme culpa por não saber quem era Dona Fulana, por não ter tido a chance de ajudá-la. Senti raiva de quem a deixou sozinha, deprimida, solitária até em seus momentos finais. Senti raiva dela própria, por ter deixado tanta gente triste pela sua morte. Mas não ousei julgar a validade da sua atitude.

Fiquei pensando na proporção do desespero que deve existir para levar alguém a causar a própria morte. O grau de sofrimento deste ser, a falta de perspectiva, a assustadora falta de possibilidades. A completa ausência de alternativas que não por fim à própria existência, a única forma de se aliviar a dor.

Por que me afetou tanto a morte da Dona Fulana? Por que é que sinto como se fosse minha própria família? Será que andamos tão ensimesmados, entocados em nossas próprias covas, alheio a tudo e a todos, que não sabemos sequer que um ser próximo está em profundo sofrimento? Morando empilhados uns em cima dos outros, sem saber o que acontece na existência de pessoas 3 andares acima de nós? Essas pessoas que andam, dormem e sentam em cima de nossas cabeças todos os dias, e nada sabemos delas? Se são felizes, se são serial killers, pedófilos, noivos, cancerosos, suicidas?

Será que o que me entristece tanto é que me vejo refletida dentro desta velha senhora, por ter pensado vezes a fio num final trágico como o dela, em momentos de tristeza profunda e de rancor sem igual?

Enquanto procuro compreender os mistérios por detrás de todo suicídio, me afasto para sempre das fantasias sobre o meu próprio, rezando a Deus para que perdoe Dona Fulana por tamanha desgraça. Que seus parentes não se assolem pela culpa que eu mesma sinto por não poder fazer quase nada por quase ninguém, por ter que me conformar que este mundo tão bonito carrega existências não tão felizes e prósperas quanto a minha.

Que de hoje em diante eu conheça mais meus vizinhos e entenda melhor a dor de todos - é a minha própria, estampada nos olhos de um cadáver, a me fazer agradecer por cada sorriso que ainda darei, a partir de hoje e para o resto da minha vida.

sexta-feira, agosto 20, 2010

Paz



Eu tenho andado tão calma, tão pacífica, que mal tenho sentido o tempo passar. E cheguei num ponto tão estranho que já nem sei dizer se essa passagem veloz do tempo é boa ou ruim.

Porque os dias vão passando numa calmaria tão atípica que o dia acabar é bom, começar o próximo também, dormir é gostoso e acordar também, trabalhar é ótimo e ter folga idem, sair de casa é tudo e ficar na toca é uma delícia.

E tudo isso por ter simplesmente passado a aceitar a vida e todas as coisas que a fazem ser o que é, como realmente são. Boas e ruins. Calmas e turbulentas. Difíceis e fáceis. Tudo ao mesmo tempo.

Coisa doida é viver. Coisa boa essa que chamam de existência. Demorei pra descobrir o que era tão óbvio: a paz e a felicidade estão dentro da gente. Ser feliz é simplesmente uma questão de ponto de vista.

sábado, agosto 14, 2010

Saudade eterna de você

Para F.

Quando penso em você
Meu olhar se enche d’água
Não tenho um pingo de mágoa
É só saudade da boa

E fica na lembrança de um beijo
Do abraço que ninguém me deu igual
Da noite que valeu por todas que vivi
O tempo foi passando e eu fiquei
Por todos os amores onde andei
Tentei mas nunca deu pra esquecer de ti

Ai, ai meu coração
Que passa dia, mês e ano e não consigo te esquecer
Ai, ai meu coração
Ainda bate apaixonado com saudade de você...


(Accioly Neto)

terça-feira, agosto 10, 2010

Saudades de Shangahi!


Shanghai Sisters: souvenir no Dragon Boat.


Com a volta eminente de minha irmã ao Brasil, faltando apenas 20 dias para que estejamos juntas novamente, tenho sido invadida por memórias de Shanghai. Não foi simplesmente o fato de ver minha irmã novamente, mas foi como nos divertimos juntas, como fazíamos antes de todas as responsabilidades tomarem conta de nosso cotidiano.

Logo que cheguei a Shanghai, no Aeroporto Internacional de Pudong, o chororô já começou. Em parte, por ver minha irmã, em parte pela emoção de estar literalmente do outro lado do mundo! De pequena que me achava para viagens dessa magnitude, de repente me senti super cidadã do mundo, descobrindo o que nosso gigante Planeta Terra tem a nos mostrar.

Sabrina e Xuxu: carregadores oficias de malas!


Ao encontrar minha irmã, me senti novamente com 17 anos de idade, quando nos divertíamos tanto que mal sobrava espaço pros dramas do dia-a-dia. A sintonia estava fina e o cenário absolutamente inovador dava conta de me deixar 100% ligada o tempo todo, com energia e alegria suficientes pra viver os próximos 5 dias com plenitude!

Logo que cheguei, as primeiras maravilhas de Shanghai já me foram apresentadas: o Maglev, famoso trem-bala que anda a 430km/h e que flutua a 15cm do solo, foi o que me conduziu a Puxi, onde minha irmã mora. E uma vez chegando no dorm onde moraria pela próxima semana, eu mal poderia imaginar quanta coisa boa me aguardava.

Mag-leeev, mag-leeeev!



Logo na primeira noite já fui apresentada a pessoas maravilhosas, especialmente o Rapha e Lincon, parceirões de primeira que me conquistaram de imediato. De cara fizemos uma balada incrível, num navio maravilhoso, onde fui apresentada a quase toda a comunidade brasileira de Shanghai.

São muitas as lembranças desse período incrível, o metrô de Shanghai com suas 13 linhas gigantescas, a Expo Mundial onde honramos nossos ancestrais no pavilhão da Lituânia e onde nos emocionamos no pavilhão brasileiro, nas ruazinhas fofas e amontoadas do Bund, a paz do Yu Yu Garden, o palácio do antigo imperador, a cervejinha em happy-hour na Hong Mei Lu com panyo Lincon, o Simple Thai com a Ju, o Latina, restaurante brasileiro onde matei a fome de picanha mal-passada e pão de queijo, a Nanjin Lu abarrotada de gente, o Jaddhe Buddha Temple, o Rio Pudong, o "cafezinho" hilário na casa do Rapha.

Panyo em plena Old City!



Rapha, aliás, que me encantou e que lamento tanto morar tão longe. Que coisa esse destino, que traz pessoas especiais mas as mantém longe da gente. Tinha que morar na China? Não, eu não podia voltar com esse nível de dilema na cabeça...

Os dias passaram voando, em meio a passeios, festas, massagens nos pés à uma da manhã, em meio ao Gucci Cafei com Sabrina e Xuxu (thanks man!), e principalmente em meio a conversas longas e profundas com minha irmã... e também conversas que não aconteceram, simplesmente porque não precisaram acontecer, dada a intensidade da comunicação pelo olhar.


Para Vó Vera: viva a Lituânia!


Maravilhoso resgatar a sensação de afinidade e de conforto quando se está junto aos seus. Quando se pode ficar confortavelmente em silêncio enquanto se sente completa, plena. Descobri, da melhor maneira possível, que minha vida nunca estará completa se minha irmã não estiver nela, ativamente, presente de corpo e alma. Alma: tenho certeza que as nossas já se conheciam antes dessa vida. Talvez sejamos nossas próprias almas gêmeas, e devemos parar de ficar procurando por aí o que já temos tão perto de nós.



Huang Pu River: o famoso Rio Amarelo.


Voltar ao Brasil, me despedir das pessoas, das ruas, dos chineses, doeu mais do que eu imaginava. Mas foi bom ter conseguido voltar para casa com a certeza de que eu já sei exatamente com quem, como e onde devo estar: é no lugar em que nossos corações escolhem para se sentirem verdadeiramente em casa, com pessoas que realmente te acrescentam, descobrindo as maravilhas de um mundo tão gigante.

Incrível, isso de ter que ir para o outro lado do mundo para descobrir algo que estava debaixo do meu nariz: já tenho tudo o que possuo para ser feliz, enquanto eu tiver o bem mais precioso e insubstituível – amor-próprio, e meu coração aberto.


Rapha, eu, Lincon e Ire: saudades eternas de momentos inesquecíveis! Thanks guys!

Gambei!

quarta-feira, julho 28, 2010

Contato

Tem sido muito difícil colocar em palavras o que venho sentindo. Afora a vontade de descrever como foram aqueles 28 dias idílicos em que viajei por aí, tenho sentido uma necessidade urgente de escrever sobre meus sentimentos, mas as palavras, surpreendentemente, não têm me ocorrido.

Acho que as palavras poderiam chegar a definir o meu interior, mas também limitariam essencialmente a intensidade e a força dos meus sentimentos. Então, tenho basicamente sentido. Tenho passado muito tempo sozinha, o que hoje, graças a Deus e a uma série de fatores, tem sido uma coisa agradável. Já não me sinto triste, ou sequer raivosa, com a pessoa que sou, como vinha me sentindo antes de viajar. Na verdade, tenho sentido quase que uma gratidão por tudo o que vivi ter me colocado novamente em contato comigo mesma, essa Eu de verdade que tem se formado ao longo dos anos.

Não acho que cheguei onde queria chegar – conseguir me enxergar como realmente sou e no que venho me tornando conforme as mudanças acontecem. Mas acredito estar me vendo com olhos mais suaves, sem tanta pressão em ser o que acredito que deveria ser, em fazer o que é esperado, em ser bem-sucedida, rica ou reconhecida. O engraçado é que, de repente, o que pareço ser perdeu completamente o sentido, ao mesmo tempo em que o que verdadeiramente sou não aparece muito nitidamente por entre esta névoa diante dos meus olhos.

Mas talvez o mais bonito disso tudo seja que, com bastante simplicidade, finalmente consegui entender que o importante da vida é ter essencialmente a leveza dentro de si, é ter momentos agradáveis com as pessoas que amamos, é estar em harmonia e sem conflitos dentro e fora. É ser simpática com a moça da padaria, é tratar bem o manobrista do shopping, é rir da piada do porteiro. Reconheci que não preciso sempre da profundidade, mas que esta também não deve se manter por muito tempo longe das minhas vistas.

Talvez ser feliz seja muito mais fácil do que parece – talvez baste jamais perder este contato delicioso que se tem consigo mesmo quando, pura e simplesmente, sentimos amor por nós mesmos.

quarta-feira, julho 21, 2010

Tamally Maak



É com o coração apertado e com os olhos querendo vazar que hoje escrevo estas linhas. Impossível converter em palavras tantos sentimentos, tantas saudades, tantas vivências. São sons, cheiros e fotos que despertam em mim sentimentos que nunca antes experienciei, como a saudade da sensação de familiaridade inexplicável que senti em terras egípcias.

Quase como se eu já tivesse passado por lá, quase como se estivesse voltando pra casa. A novidade, misturada ao conforto. Estar à vontade num lugar absolutamente estranho, e nem por isso menos conhecido. Os cheiros não me importavam, o trânsito não me aborrecia. O calor castigando a pele e apesar disso, se sentir renovada. A areia entrando nos olhos e você não se importar de fechá-los. Uma língua estranha soando surpreendentemente bonita aos ouvidos.

Estar de volta chega a ser dolorido, não pelo retorno à realidade, mas pela impossibilidade de construir esta realidade num novo cenário. A utopia da união de uma vida amada em terras brasileiras, com a magia e as sensações das terras desérticas. Me revolta pensar que tantos acreditam que somos tão diferentes, ocidentais e orientais, sem enxergar a beleza das nossas semelhanças. A maravilha das nossas mesmas origens, nossas crenças tão parecidas, nosso amor ao próximo expresso de maneiras tão singulares, e ao mesmo tempo, exatamente as mesmas.

Estar no lugar certo, na hora certa, com as pessoas certas – acho que isso é plenitude. Perceber a existência como algo tão divino, tão absurdamente lindo, que todos os problemas se tornam insignificantes. O toque dos derbaks e dos snujs, os chamados dos minaretes, tudo isso se torna tão maior, que tenho certeza que este sentimento se chama amor.

Hoje tenho certeza – meu coração ficou no deserto, e minha alma no fundo do Nilo. Tamally Maak, sempre com você. Quero voltar e nunca mais partir, quero viver em meio a Ahmeds, Mohammeds, Bassams, Mostafas... quero não mais ser Aziza, sequer Ana ou Paula, mas apenas Ser, ser tão eu mesma quanto o Egito me permitiu.

Que estas lágrimas que brotam sejam como o Nilo foi durante tantos séculos: uma época de cheias tornando a terra fértil, aguardando farta e tão esperada colheita...

quinta-feira, julho 01, 2010

La fora




Reaprendi a viver sem voce
Surpreendente perceber ser mais facil do que eu podia imaginar
Ha tanta vida la fora!
Que hoje eu so temo a hora
Em que tiver que voltar.

domingo, junho 27, 2010

News from Cairo!!




Hotel maravilhoso, companhias agradaveis, piramides e esfinges e realizacao de sonhos...
Precisa de mais pra voltar a sorrir??

domingo, junho 20, 2010

Fui!!!!




A partir de hoje, eu sou apenas um pontinho caminhando por este mundo tão gigante.
Um pontinho, deixando temporariamente todos os problemas fora da área de serviço...

sábado, junho 19, 2010

Maktub



Estando a meio passo de dar a maior passada da minha vida, percebo hoje o quanto tenho a agradecer. Eu não estaria neste lugar hoje, se não tivesse passado por tantos outros, tenham sido eles bons, tenham sido ruins.

Mas agradeço. Agradeço a quem me fez sorrir por pouco tempo, e depois me feito chorar por muito, e agradeço também à rejeição imposta, porque sem ela eu jamais teria percebido o desperdício de energia que teria sido apostar num jogo cujas cartas já estavam tão marcadas... como costumo dizer, o universo conspira a favor, nós é que deturpamos. Então agradeço por terem me impedido de deturpar uma triste, porém concreta realidade: para duas pessoas ficarem juntas, não basta querer, precisa haver afinidade de almas, precisa haver amor sincero e criativo, e por isso agradeço por ter sido forçada a ver, por mais dolorido que tenha sido, que nenhuma das duas coisas jamais existiu sinceramente dentro de mim. Estar apaixonado pode ser muito bom, mas há algo de muito errado quando é mais gostoso a sensação de estar apaixonado do que as conseqüências que o apaixonamento deveria trazer.

Então agradeço por ter sido forçada a admitir que na verdade não era amor, não era sequer paixão, era mais carência e necessidade de perdoar a mim mesma, expiando as culpas do passado numa nova relação. Era teimosia e carinho, que juntos podem se revelar uma combinação fatal. A gente tem que saber a hora de parar, e não fosse o medo alheio, eu não teria parado na hora que devia. Agradeço.

Agradeço pelo outro lado da moeda, das relações verdadeiras que duram apesar das décadas, em que o encontro genuíno não se dá através do beijo, se dá através da cumplicidade. Maktub: o beijo é o selo oficial da veracidade daquela relação, que não se sabe estável, estruturada, mas que não precisa nem ser. Basta que exista por conta própria, que a intimidade resista aos anos e às outras pessoas que cruzaram nossos caminhos, às brigas e mágoas. Basta que tudo o que foi de ruim se dissolva quando os olhares se encontram e quando simplesmente nada precisa ser dito. O beijo somente sela a autenticidade do nosso elo, e agradeço por isso tudo me fazer lembrar que não, não estou pedindo demais, apenas pedi à pessoa errada. Não adianta pedir a alguém por algo que este alguém é incapaz de dar, não por capricho, mas por simplesmente não possuir. Agradeço a quem realmente está junto de mim mesmo não estando... como um anjo da guarda que me protege à distância, como um dia comentamos.

Eu agradeço também às inovações. Porque se eu não estivesse no vazio, jamais haveria espaço pra esse outro ser entrar, e na verdade não importa quanto tempo este ser irá ocupar este espaço, importa que nos momentos que ocupou, este espaço foi verdadeiramente preenchido. Me fez perceber que na vida sempre há movimento, a gente se movimentando junto ou não. Então eu agradeço pela possibilidade de me ver novamente como sou e gostar do que vejo, sem ser forçada a me moldar tal qual massinha para corresponder às expectativas de outrem. A espontaneidade reforça o quão especial algo pode ser, apesar de efêmero e incerto, e esta aceitação das coisas como elas simplesmente são é o verdadeiro perdão que procurei encontrar no lugar errado.

Está na hora de dar este passo mágico e abandonar as antigas crenças e culpas. Sem buscar nada, sem fazer perguntas, apenas vivenciar o que pede para ser vivido, o que estava escrito nas linhas tortas da minha vida: eu já sou exatamente a pessoa que desejo me tornar e, por enquanto, este é todo o amor de que preciso.

quarta-feira, junho 16, 2010

Deruchett

Se existe algo que eu realmente abomino em mim são as contradições absurdas que encontro aqui dentro. A eterna batalha do inconsciente VS ego, do racional VS emoção... são tantos os paradoxos que se torna difícil de organizar minha mente.

As terríveis sensações de perda de coisas que nunca tive. Saudades de coisas que jamais vivi. Ódio e amor caminhando lado a lado. E as perguntas. As perguntas: quando foi que tudo aconteceu? Como? Por que? Para que?

Para que?

Parece realmente banal que, há menos de 5 dias de realizar um grande sonho, eu ainda esteja apegada a questões tão... mundanas. E outras questões tão mundanas quanto, porém fontes óbvias de prazer e expiação de culpas, carregam tão menos peso que me sinto extremamente tendenciosa e apegada ao sofrimento. Melancólica mesmo.

Mas... eu finalmente voltei a ouvir música. E, surpreendentemente, elas me lembram outros olhos e outras vivências. Saudades de décadas que nunca morrem. Relação de verdade. Afinidade real, subjetividade sem limites, verdadeira compreensão. Amor de almas.

Para F., com carinho.

Parei de ser só eu, meu bem.
E você vai sem mesmo saber o quanto vai passar
desse mundo que nos dói.
Eu procurei ficar mais perto do lugar que é você.
Foi como ver que perto de um fim, ou mesmo um final,
Nada vai morrer.
Como os lares querem par.
Venha e não quererá que eu passe outra vez.


Deruchett - Solana

segunda-feira, junho 07, 2010

Quem tem medo do lobo-mau?


Há cerca de 100 dias, quando finalmente me decidi por investir boa parte das minhas economias numa viagem de sonhos, eu não imaginava o quanto eu ainda teria que me preparar emocionalmente para conseguir embarcar – e chegar! – inteira para o outro lado do mundo.

Ou melhor: eu acho que imaginava sim, pois um dos primeiros pensamentos que me surgiram diante da idéia de ficar 28 dias longe do namorado foi “Será que vou estar namorando até lá?” Acho que era intuição: pouco mais de 30 dias depois, já estava sem namorado, mas com a primeira parcela da viagem devidamente paga.

Nunca viajei sozinha como estou prestes a fazer. Pra falar a verdade, a solidão sempre foi um super lobo-mau para mim, sempre me assustou um pouco, e se existe uma lei na vida que eu finalmente entendi é que não adianta ficar fugindo da raia por muito tempo: se existe uma questão pra você enfrentar, o universo vai tratar de te forçar a isso.

E é por isso que esta viagem, para a qual faltam míseros 13 dias para acontecer, deverá ser tão importante neste contexto: tirando minha queria professora Elis, não conheço mais absolutamente ninguém que estará por lá. No Cairo, sei que estarei bem assessorada e a realização do grande sonho da minha vida não deverá me permitir ficar sentindo muito a solidão. Mas a idéia de estar em Aswan, Luxor, Karnak, Sharm el Sheikh SEM Elis, e depois um dia inteiro sozinha em Istambul aguardando a conexão para Shanghai, ah, isso eu confesso que me angustia um pouco.

Desde a preparação para a viagem (cartões para desbloquear, seguro para fazer, visto pra tirar) eu já sinto o treinamento em autonomia sendo exercitado. Afinal, são coisas de super responsa que só eu mesma posso fazer. E acho que tava mais do que na hora. Hora de largar a mão de me sentir meia, e me sentir inteira. De largar a mão de pensar como o outro está, e pensar e me responsabilizar por como eu estou. Eu, eu eu.

Já tava mais do que na hora de eu mudar, e junto transformar o lobo-mau em bichinho de estimação.

quinta-feira, junho 03, 2010

Saudades

E muita, mas muita vontade de jogar boliche...

segunda-feira, maio 31, 2010

Next anyway

Quando se passa tempo demais equilibrando-se em cima de um muro de fina largura, é quase um alívio finalmente cair. Seja para o céu, seja para o inferno, creio que o mais importante é sair do limbo.

Após o duro silêncio, com tormentas, xiliques e estranhas calmarias, estar solo novamente pode ser uma perspectiva desanimadora. Eu nunca acreditei que realmente houvesse esse estágio assustador de estar à beira dos 30 anos e ainda não estar nem perto de constituir uma família. Essa é a deixa pros moderninhos de plantão elevarem suas vozes: é isso o que eu quero, ou é o que a sociedade nos impõe? Você realmente gosta do cara, ou gosta de ter um namorado? Você sente saudade dele, ou de não estar sozinha?

Eu certamente não sei responder essas perguntas nada sutis com convicção, mas a verdade é que, após qualquer rompimento amoroso, a gente sempre acha que quer, que gosta, que sente. A gente só lembra das coisas boas e esquece todos os mil defeitos, os amigos não tão legais assim, os hábitos estranhos ou mesmo as frustrações sexuais.

A carência fala tão alto que de repente eu, que nunca tive assim loucura por crianças, comecei a desejar uma casa barulhenta e com fraldas all over. C’mon! Tudo o que eu quero é ter algo mais importante pra me preocupar do que homens, relacionamentos e a falta deles (filhos costumam sem ótimos para quem realmente acredita que transferir o problema pruma outra coisa é resolver o problema).

É triste, porque ser mulher nos dias de hoje é complicadésimo. E ser uma mulher como eu, caseira, introspectiva e mais voltada pras coisas intra do que pras coisa inter, fica mais complicado ainda. Qualquer menção a conhecer novas pessoas já me dá preguiça: preguiça de conhecer alguém. Saber com que trabalha e falar do meu trabalho. Ter que agüentar as perguntas que invariavelmente assombram uma psicóloga. Ter que compartilhar gostos musicais, explicar porque não como sushi, que não sei andar de bicicleta, que eu não sou agressiva por lutar kickboxing nem super sensual por fazer dança do ventre, que eu tenho alguns problemas com intimidade... affe, já cansei.

Dá vontade de montar um dossiê pessoal e entregar pro camarada (que camarada?), com todos os prós e contras já descritos, todos os defeitos já escancarados, e pedir pra ele assinalar sim ou não no final da página. Prático, rápido e eficiente.

Mas a vida real bate na nossa porta e a gente tem que então se conformar que a partir de agora é isso aí: noites frias enrolada no edredon, convites sem graça, homens babacas com papos chatos. E se convencer de que a vida de solteira também tem, afinal, seu lado bom – sem horários, sem satisfações, podendo escolher P, M ou G a qualquer momento, ir pro forró ou pra casa do amigo, não ter que sorrir amarelo nem fazer social quando tudo o que se quer é ficar de calcinha velha deitada na cama.

Se agora a perspectiva da solidão me assusta, que venha... afinal, por dentro, não somos todos sozinhos? Como diz minha amiga Luli, I´m not ok, but NEXT!, anyway...

sexta-feira, maio 21, 2010

Silêncio

Tento, aqui dentro, reencontrar meus fragmentos. Mas as palavras fogem súbitas enquanto aguardo o seu momento – esperando respostas encontro apenas mais perguntas, desça sua espada sobre mim, seja ela um não, seja ela um sim, qualquer que seja o peso desse fardo. Esse silêncio bastardo que corrói é o mesmo que constrói expectativas sem fim, unindo pontos, ligando formas e buscando fórmulas para dissipar esse nó aqui dentro de mim. A cabeça pesa procurando uma saída, um desenlace firme para essa cilada, a frase é triste, mas quem poderá negá-la? – eu admito, é verdade, apenas quem te inflige dor pode tirá-la.

sexta-feira, maio 14, 2010

Boas Novas



Há muito tempo que eu não escrevo aqui sobre o Projeto Mulherzinha. Bom, na verdade, faz tempo que eu não escrevo aqui sobre qualquer outra coisa além do sentimento de rejeição que estava acabando com a minha beleza.

Mas a verdade é que o Projeto Mulherzinha deu tão, mas tão certo, que eu levei oficialmente meu primeiro pé na bunda e chorei como uma mocinha dos filmes de faroeste. Deprê daquelas com direito a litros de lágrimas, espinhas no rosto e 5kg a menos (oba!).

Minhas amigas mais chegadas me dariam a maior bronca por eu usar o termo “pé na bunda”. Mas a real é que eu não acredito em términos de comum acordo, sempre tem uma parte que fica sentindo aquele gostinho de ‘quero mais’ que, apesar da iniciativa do término ter sido minha, amargou a minha boca nas últimas 4 semanas. Então eu sinto que na verdade quem foi a rejeitada fui eu mesma, já que não houveram protestos do outro lado sobre a possível e tenebrosa separação.

Nas últimas 4 semanas, eu confesso não ter tomado banho todos os dias e não ter depilado as pernas com a mesma frequência. A preguiça dominou – ai que se não fossem meus atendimentos e minha própria terapia, promovida a duas vezes por semana, eu teria ficado em casa com o mesmo pijama todo dia. Meu cabelo andou meio negligenciado, os hidratantes foram postos de lado e o resultado disso é a pele rachada estilo solo do sertão. O fato de estar entrando em calças há muito abandonadas não estava sendo muito animador.

Mas aí eu lembro que tudo nessa vida é impermanente e que até as piores cólicas menstruais têm fim após 5 dias. É claaaaaro que as ligações do ex e uma nova perspectiva de futuro deram uma animada na potranca aqui, mas no fundo no fundo, ter recuperado uma parte da minha vida foi indispensável pra minha sobrevivência psicológica.

Revisitar amigos, retomar família, recuperar o gosto por certas coisas, dançar forró até os pés doerem, girar os véus na dança do ventre e até mesmo ter os cabelos cheirosos novamente deram um up cerebral daqueles, e eu finalmente consigo vislumbrar como é que era ser eu mesma. E é uma delícia voltar a ver os olhos mais brilhantes e as pálpebras desinchadas.

Hoje, ainda a 50% da recuperação completa, eu vejo um pouquinho mais de fé no futuro dentro deste coraçãozinho magoado. Mas quem me conhece sabe: dentro da mesma mulherzinha habita a guerreira que distribui socos e pontapés na tristeza quando se cansa de reclamar.

Eu ainda quero mudar o mundo. No maior estilo Scarlet Ohara, eu digo que jamais (jamais??) sentirei dó de mim novamente.

segunda-feira, maio 10, 2010

A outra

Uma amiga minha disse: você só sabe se realmente gosta de alguém quando transa com outra pessoa.

Que pena, essa de se conhecer tão bem a ponto de saber, de ante-mão, que nada disso seria necessário pra poder consultar com toda sinceridade o meu coração.

A ignorância, às vezes, é tudo o que se precisa para ser feliz.

quarta-feira, maio 05, 2010

Feliz aniversário

Eu queria poder olhar no relógio e achar que já são horas de te ligar. Te diria bom dia e diria que estou muito feliz pelo nosso aniversário. Eu faltaria ao treino somente pra ficar com você. Eu te levaria uma flor e sorriria como sorri há muito tempo atrás. Eu escreveria uma poesia, compraria sorvete, compraria lingerie nova, e me perfumaria toda só pra receber teu abraço apertado, sabendo que nosso futuro estaria apenas começando, como o nascimento de algo que acaba de acontecer, apenas neste minuto. Eu dormiria bem. Eu não teria pesadelos. Eu jogaria no lixo minhas bolinhas de dormir. Eu tiraria do lixo as coisas que amargamente descartei. Eu atiraria no lixo meus sentimentos maldosos. Meus pensamentos cruéis. Se hoje ainda tivesse você, eu daria uma festa, esta mesma na qual o mundo inteiro hoje dança, andando pela Angélica, falando nos telefones, acelerando os carros, rindo no trânsito, ouvindo música, nos cafés na padaria, nas risadas no metrô, nos cigarros ao longo da calçada. Se ainda tivesse você, apagaria eu meu próprio meu cigarro e retomaria minha vida, aquela mesma que ficou lá atrás, no dia em que nosso amor tão prematuramente morreu.

sábado, maio 01, 2010

Maio




Abril passou por mim como um tufão que destelha as casas. Mais particularmente, diria que abril me arrancou o chão. Exatamente um mês atrás, tudo era muito diferente, muito constante, e não posso deixar de afirmar – tudo estava muito crônico. Inexplicavelmente, os últimos anos têm sido assim para mim, com bons presságios de verão e ventos duríssimos no inverno. Gela também aqui dentro.

De certa forma, minhas folhas também estão caindo junto com as das árvores que balançam nas ruas. Como em outros outonos, a sensação é de hibernar num constante farfalhar de sentimentos, em busca do galho mais forte que sustente a última folha. As distâncias, as separações, tudo o que tem permeado meu cotidiano me lembra a solidão que já senti em outras estações, que passaram incólumes enquanto o tempo me trazia novos focos.

A semeadura tão batalhada revelou necessidade de plantar novas flores, engolindo a seco os fracassos da última colheita. Perda, solidão, luto. Percorro todos os estágios do elaborar ao mesmo tempo: negação, raiva, barganha, tristeza. Espero pacientemente pela aceitação sem colocar carros na frente dos bois, sem me forçar a adentrar esta festa da vida da qual me sinto temporariamente excluída. É hora de escolher bem as sementes, cuidar bem do solo, adubar.

Este primeiro de maio não encerra em si esta fase avassaladora, mas traz novos ventos de que, afinal, qualquer lugar que estejamos se trata do primeiro passo rumo a uma existência mais edificante. Eu ainda não cheguei lá, onde sempre quis estar, mas sinto que o caminhar, de agora em diante, precisa romper esta espiral e seguir em frente.

Levanto da cama à uma da tarde com uma estranha sensação de dejà vu. Ouço na voz de Paula Toller o veredito final. Quase que um presságio...

Maio
Já está no final
O que somos nós afinal
Se já não nos vemos mais
Estamos longe demais

Maio
Já está no final
É hora de se mover
Pra viver mil vezes mais
Esqueça os meses
Esqueça os seus finais
Esqueça os finais

quarta-feira, abril 28, 2010

Parece, mas não é




Sensibilidade às vezes é intolerância.

Convicção, arrogância.

Impulsividades se disfarçam de coragem, confiança pode bem ser prepotência.

Determinação pode ser teimosia. Perseverança, negação da realidade.

O que era crença se revelou necessidade. O otimismo, ilusão.


Sobem-se os véus do desencanto, primo antigo da paixão.


A história de amor era apenas dejá vu.