domingo, setembro 08, 2013

Se apaixonar

Chega aquele momento na vida em que você consegue enganar a qualquer um – menos a si mesmo. Pode contar quantas mentiras for a respeito do que você realmente acha da vida e dos relacionamentos, mas no fundo no fundo, você sabe muito bem que essas racionalizações só tem uma função: justificar o medo que você sente de sofrer de novo.

Nos últimos tempos, eu andei bradando por aí que nunca mais queria um relacionamento. Que eu queria viver o agora, sem amarras e sem posses. Pois bem, isso foi exatamente o que o universo me proporcionou: relações profundas, porém atipicamente desapegadas de qualquer sentimento mais romântico (pelo menos da minha parte).

Então houve a fase em que eu achei que sentimentos de amizade poderiam ser bons substitutos para o romance que eu queria fora da minha vida, e descobri que não, isso não funciona – fatalmente, um dos lados da balança tende a pesar mais e um dos dois sai ferido.

Agora eu me vejo num certo “limbo”: um grande vazio se instalou e justamente nesse vazio eu descobri (ou melhor, admiti) que o que eu não quero não é a relação em si, mas todas as agruras que eu vivenciei nas últimas em que me dispus a ter. Não quero o sentimento catastrófico de uma parte do seu coração ter sido dilacerada, não quero as insônias constantes, nem o sentimento de culpa, nem as responsabilizações frustradas pelo sentimento alheio.

Mas quero SIM (e que delícia admitir isso) a companhia gostosa e cúmplice de alguém por quem, de quebra, você sente uma mega atração e não quer tirar as mãos de cima. Alguém que você olhe com ternura, amizade e paixão, alguém em quem você fica pensando o dia inteiro e que, mal vai embora, você já está com saudades. Eu quero sim me apaixonar.

Nos últimos tempos, tem sido difícil me envolver amorosamente por alguém – ou melhor, amorosamente é bastante fácil, me sinto amando toda a humanidade, mas me apaixonar é algo desafiador. Faz séculos que não me sinto apaixonada por ninguém. E eu me pergunto se isso se deve a um bloqueio meu (todo mundo sabe que, se você não quer, você ABSOLUTAMENTE NÃO VAI se entregar), um puta auto-boicote, ou se a coisa anda mesmo feia por aí. A real é que conheço tanta gente interessante, e nenhuma delas me desperta um pingo de encantamento, ou pelo menos não a fascinação necessária pra cair apaixonada. Pra piorar, um ou outro que chegou perto disso tratou de, em bem pouco tempo, se mostrar uma grande fraude – o que me levou a, cada vez mais, desconfiar dos personagens “bacanudos”, zen e equilibrados que cruzaram meu caminho. Não tem jeito: uma hora a máscara cai. E cai feio.

Isso se torna um grande problema se você já está tentando largar a premissa de que, de perto, ninguém é tão legal assim. De repente chega um sujeito que se mostra incrível, sensível, profundo e descomplicado, simples mesmo, você quase chega a acreditar que aquilo é possível. Mas volta e meia um cheirinho de neurose escapa e você de repente vê que as farsas comem solto por aí. Como abrir a guarda assim?

Minha estratégia tem sido as músicas. Eu boto um som gostoso e de repente sou teletransportada para uma situação em que não apenas estou perdidamente apaixonada, como me sinto já namorando o ser mais incrível desse universo. Um ser que não tem máscara, mas falhas em que luta muito pra lidar, dificuldades concretas que ele assume e não tenta fingir que é um problema “da sociedade moderna”, é alguém que se responsabiliza inteiramente por si mesmo e seus atos. Então eu caminho na rua, ouvindo uma música linda, e ao meu lado anda esse ser, essa pessoa imaginária que me faz me sentir cada vez melhor sendo eu mesma, e eu sei que ela existe e está por aí, me esperando também, talvez ouvindo uma música bonita, talvez correndo pelos parques da vida buscando no meio da multidão o meu olhar.

É quase como se esse namoro já estivesse acontecendo. Por alguns segundos, eu me sinto totalmente apaixonada por essa pessoa que eu ainda não sei quem é. E me sinto segura e confiante em sua companhia. Me parece apenas uma questão de tempo. Eu olho ao meu lado e vejo esse espaço: esse lugar em que esse alguém se encaixará perfeitamente, e com o qual eu me permitirei ser cuidada e cuidar, ser amada e amar, sem máscaras, sem palavras falsas, sem esforço.


Esse espaço hoje vazio, mas naturalmente brilhante.

sábado, agosto 03, 2013

Exorcismo


(Auto-retrato, por Lucian Freud)



Quanto nos custa sair da idealização e entrar na realidade?


Diferente do que parece, nossa memória pinta com as cores mais lindas os tons de cinza brutos de um cotidiano distante que, visto sob o prisma correto, não era tão mágico quanto parecia ser. A magia fica por conta das lembranças, que tornam a fantasia, por vezes, muito mais interessante do que a realidade. A lembrança dá mais saudade do que o fato em si, a aquarela da memória tem tons muito mais bonitos do que os tons reais a que tivemos acesso. 

Os cabelos - não são tão negros quanto você lembrava. E o cheiro já não é o mesmo (foi algum dia?). A cadência da voz, que continua exatamente a mesma, hoje te parece um script perfeitamente formulado, um texto divinamente formatado, paralisado no tempo, e por isso mesmo, irreal e fabricado. Um tapa na cara e um vendaval arranca todas as telhas do seu templo: você se encantou por um personagem, e quem construiu esse personagem foi você mesmo. Na verdade, nada mudou - foi você que, inesperadamente, fez uma releitura do mesmo cenário. Tirou os óculos. Suspendeu os véus. Abriu os olhos: quem mudou foi você.

Confrontar o cenário real e reeditar as memórias te dá um poder concreto sobre a situação, coisa que a fantasia bonita e ingênua é incapaz de oferecer. Mas cair na realidade também te arranca velhos referenciais sem deixar nada no lugar, e de uma hora pra outra você se vê sem qualquer parâmetro. Não tem mais nada no pedestal. Fica aquele vazio no lugar da saudade (saudade de sentir saudade), e os olhos que antes pareciam tão poéticos e etéreos, hoje - hoje você sabe! - se revelaram apenas e tão somente vagos e desinteressados. 

Percepções à parte: a verdade é que, apesar de saudável, exorcizar fantasmas é também surpreendentemente doloroso. 

Às vezes você quase prefere uma casa mal-assombrada, do que dormir a noite toda com o silêncio pesado de um imóvel vazio.

quinta-feira, julho 11, 2013

Antagonia

Um braço seu me conforta, enquanto o outro se torna puro castigo. Nesta briga entre hemisférios esquerdos e direitos, existe um empate inegável entre nossos impulsos angelicais e macabros. Tudo entre nós traz luz e escuridão, confirmando o equilíbrio de uma situação tão particular - nas palavras, poesia e palavrões; na vida, liberdade e apego. Nos ideais, honra e hedonismo, e na pele, como não podia deixar de ser, o amor e a libertinagem. Nos opostos que contém, em si, o seu exato reverso, se faz essa mistura preciosa de abnegação e possessividade, de teoria e prática, de razão e emoção, de eu e você, e assim nos encontramos no exato ponto médio da reta espectral que envolve a nós dois. No silêncio ensurdecedor do seu olhar, mora o caos calmo da minha própria conduta, refletida com primor e com tanta, tanta generosidade, no brilho da sua retina. Somos apenas e tão somente os pólos opostos de um mesmo imã. Céu e terra se fundem por fim num êxtase inédito e invisível aos olhos alheios: os 7 mares nunca uniram com tanta maestria esses nossos mundos, que de antagônicos em suas idiossincrasias, passaram a ser tão poeticamente equivalentes. 

terça-feira, junho 11, 2013

Uma vez apenas

Era pra ser uma vez apenas, era para ser casual. Era pra ser uma coisa normal da qual se esquece dois dias depois. Era pra gente fingir que não tinha amanhã, nos justificarmos no passado e pular pro futuro próximo onde outros próximos figurariam a nossa cena. Era pra ser um hiato entre dois pontos distantes entre si por centenas de quilômetros – fechasse a conta, passasse a régua e nós dois só teríamos coisas boas pra lembrar. “Eu volto logo”, você disse, e pra mim era mais uma frase de novela, daquelas em que a mocinha se derrete no final.

Você voltou, eu derreti, e fui recolhida pelas suas mãos, elas não foram tão doces mas souberam bem marcar o tempo, esse senhor avarento que vive pregando suas peças em mim, levando você daqui. Eu estava quase esquecendo, os hematomas já haviam sumido, mas seria só mais essa vez, mais uma vez apenas!, e um cataclisma baixou sobre mim: me ressensibilizei ao seu cheiro e seu gosto, minhas células se viciaram de novo quando quebrei essa abstinência. Eu inspirei o seu ar como se sufocasse, tentei fundir o seu corpo ao meu. Vibrei baixinho quando seu toque doeu. Queria de você um pedaço pra relembrar.

Desta vez, nenhuma marca ficou, você já não é mais visível aos meus olhos, e eu já não sei como te citar nas minhas orações. A sua imagem, assim em branco e preto, é tudo o que me sobrou, e em breve também se fragmentará. “Volta”, eu pedi pra você, um pouco antes de desistir de ir embora. Era pra ser uma vez apenas, mas por um segundo pequeno eu traí o nosso trato, e pedi que o tempo fosse bom comigo também, que congelasse um instante ou trouxesse você de volta pra mim. "Muß es sein? Es muß sein! Tem que ser assim!" O tic-tac do relógio gritou na madrugada e ocupou nosso silêncio - confirmou aquilo que eu já sabia: nessa novela, um segundo a mais acaba sendo, sem dó nem piedade, um outro segundo a menos pra estar ao lado de você.

segunda-feira, junho 10, 2013

Universo módafucka

Não adianta brigar com o Universo. Se ele quiser te deixar no vazio, é no vazio que você vai ficar. Não importa quantos números na agenda você tenha, nem quantos potenciais encontros rolem no seu fim de semana, nem se você tem a tarde cheia de atendimentos ou 3 entrevistas de trampo na mesma semana – se sua tarefa for trabalhar a ansiedade e ficar no nada, é exatamente o nada que você vai receber.

Frustração, crítica e rejeição. São apenas palavras bonitinhas que a gente usa quando não consegue aceitar que aquilo que a gente quer não está em sintonia com o que a gente pode ter.  E olha que eu nem estou falando da grana que vai estar na sua conta no final do mês (talvez essa seja mais previsível do que o que vai acontecer com você mesmo dentro das próximas 24 horas).

Lição da vez: trabalhar no improviso sem dar nada como certo nessa vida. Você no máximo faz aquele esboço. No máximo rascunha seus planos. A arte final fica por conta do andamento da vida e daquilo que você precisa aprender right here right now.


Ou de repente não é nada disso. E não existe nenhum plano do universo pra você. Não existe nenhum sinal de nada, mas você prefere acreditar que foi o Universo-com-U-maiúsculo, só para tolerar melhor sua frustração. Pelo sim, pelo não, acho melhor não duvidar. Que adianta brigar? Percebe, respira e acolhe... até isso!

segunda-feira, junho 03, 2013

Lacuna

Começam a desaparecer as suas marcas em mim. E muito antes que suas manchas amarelem e por fim se desvaneçam, minhas lembranças se embaraçam e te carregam, pouco a pouco, para longe de mim. Você foi, e agora 200 e tantas milhas e muitos lapsos de memória moram entre nós, como se não houvessem bastado os 7 mares, os 3 anos e agora estes poucos dias que nos separam. Quase nada sobrou – agora mal me lembro do timbre da sua voz, me fogem todos os detalhes e, em pouco tempo, tudo terá sido perdido. Nessa lacuna entre passado e futuro, sobrou somente a gratidão pelo tempo, que apesar de em muito breve apagar o nosso encontro, nos foi generoso: te deu o grisalho dos seus cabelos, uma história linda para eu contar, e a remota lembrança do seu cheiro que, ainda hoje, eu sinto por toda parte.

quinta-feira, março 21, 2013

Retrato



O que dizem seus olhos por detrás da fotografia? Procuro, atenta, nos sinais de sua fisionomia, algo que me ajudasse a prever nosso futuro. Mas observo, ali em seus olhos escuros, o ar profundo de quem nada sabia, um olhar tranquilo que nada revelava. Haveria algum indício de nossa jornada? Ou algum prenúncio da nossa separação? Pois vi suas pupilas dilatarem, e os cantos de seus lábios se retesarem, segundos antes da sua confissão. De lá pra cá, quase nada mudou, e o seu retrato continua igual. A minha vida seguiu o curso normal de quem carrega o peso da história que restou: poemas lascivos com temas recorrentes, rimas estranhas e versos reticentes, palavras espalhadas em todos os cantos da casa - na contracapa do meu livro favorito, na palma da minha mão esquerda, na última página da agenda, num guardanapo molhado de bar, no encarte do CD que me lembra você, ou na mensagem de texto que não cheguei a enviar. Se os olhos são a janela da alma, quanto tempo ate a minha secar? Os seus, na foto, jamais irão mudar, e o nosso passado eu jamais vou reverter. O que me sobra, então, para fazer? Fumar cigarros, beber e escrever, textos lindos que você nunca irá ler. E se acaso ler, que diferença faz? O transtorno do tempo é jamais voltar atrás! E as histórias que não chegamos a viver ficam ali, contidas neste hiato: nós moramos, felizes para sempre, aqui, dentro do meu porta-retrato.

terça-feira, março 05, 2013

Alerta vermelho

Você e eu, nós nos entendemos muito bem. Sabemos o que falar para evocar o passado em nossas entrelinhas, esses chiados da nossa música que ninguém mais é capaz de decodificar. Nosso diálogo tem senha, a qual ninguém mais tem acesso, só eu e você sabemos nossos pequenos sinais desencadeadores de nós dois. É um gesto com as mãos, é um estreitar de olhos, é a menção a uma velha canção. Nosso alerta vermelho e profano.


Nossos versos quase nunca rimam, mas são bem feitos, curtidos com o tempo, que vai  dando um amargor especial a uma história que, bem sabemos, nunca terá final feliz. Nessa novela, de caracteres marcados, sabemos de antemão o drama e o ápice de nossos personagens. Interpretamos muito bem. Fingimos não saber que essa peça logo tem seu desfecho. Amarramos em nossos punhos as cortinas para que nunca fechem. Reprisamos sempre as mesmas cenas, num eterno retorno de disco riscado de tantas perguntas não feitas, ganhando tempo para que perdure esse teatro sagrado fadado ao fracasso.

O antes, o depois, quem se importa com o que será de nós dois? No passar dos anos que esculpiu a nossa imagem, não sobrou pedra sobre pedra pra ter esperança. Tudo se resume a pó – esfarelamos entre os dedos tudo aquilo que foi bonito um dia, torcendo para que o vento sopre forte, conduzindo você pra longe de mim, mesmo sabendo que de uma forma ou de outra, o vendaval produzirá novos chiados, novos ruídos, dizendo... por que, por que, porque. 

segunda-feira, fevereiro 11, 2013

A Leveza




Como é gostoso tirar as mágoas do coração. Às vezes só precisamos de um tempo. De nada adianta tentar acelerar esse processo, engolir as decepções como se elas fossem líquidas e pudessem ser digeridas com facilidade.

A mágoa é fibrosa, pegajosa e consistente. Ela cola em tudo o que estiver ao alcance, ela contamina mesmo as coisas mais puras. Todas aquelas memórias bonitas, vívidas, coloridas, de repente assumem uma cor pálida e triste, um cheiro ruim exala destas lembranças que, no final das contas, foi tudo o que sobrou daquilo que você viveu. Então parece que tudo foi ruim, todo o tempo foi perdido, tudo foi inválido e eis que uma aversão se instala. Tudo que remete minimamente à situação em questão é sentido como terrível.

Perdemos músicas que amávamos; deixamos de ir a lugares que sempre trouxeram alegrias. Nos afastamos de pessoas relacionadas à questão; jogamos roupas fora; aposentamos nosso perfume preferido. Mudamos o cabelo. Ganhamos ou perdemos alguns quilos. Compramos novos sapatos. Tentamos ser outra pessoa.

Engavetamos todas as fotos – nada sobrevive à esterilização mental que tentamos fazer.  Queremos, na verdade, eliminar a mágoa pegajosa que grudou em tudo o que era relativo àquilo que tanto nos feriu. Como uma lobotomia parcial, quando na verdade o que mais precisamos é de uma higienização emocional.

Então, passado algum tempo, percebemos que essa lavagem emocional só requeria algum tempo – e, principalmente, que nenhum outro elemento “sujo” fosse adicionado ao cenário já caótico. E é por isso que muitas vezes a distância é fundamental. É inútil forçar a barra e passar a adicionar mágoa sobre mágoa, como se fôssemos verdadeiros depósitos de sujeiras alheias, um galpão sem limites.

É preciso tempo e distância para varrer cada canto obscuro da nossa alma, cada aba do tapete das memórias, cada pontinho sujo dos nossos corações. É preciso passar o pano delicadamente para não espalhar a poeira. É preciso, antes de mais nada, aceitar a imundície que se encontra nossa alma, fechar as portas e interditar o local. Lacrar ali: INSALUBRIDADE.

E deixar decantar. Cada dia contará para que, em um momento oportuno, o ar volte a circular sem aquele ranço de antigamente. As músicas voltam a ser legais. O perfume que você sente passar por você, no meio da rua, te traz uma sensação boa de familiaridade. As fotos já não assustam – não precisam mais ser amarrotadas no fundo do armário. Você consegue vê-las e sorrir. A memória verdadeira volta a fluir: sim, você foi feliz.

Como alguém que vê ir preso quem te jurou de morte, você volta a caminhar tranquilo na rua, sabendo que está novamente em segurança. E você volta a se sentir feliz por saber que o outro também está feliz. Na verdade, a felicidade do outro passa a ser fundamental para que a sua também faça sentido – do contrário, você sabe que aquele visco pegajoso da mágoa logo voltará a se instalar, como uma bactéria maligna que se prolifera em lugares escuros e úmidos como um coração fechado.

É de fato uma sensação indescritível retirar um fardo pesado das costas. Mas não existe maneira de retirá-lo sem antes tê-lo aceitado. Não há sensação de leveza sem o peso prévio; não há o torpor da felicidade para quem não sentiu a tristeza. Nenhum sentimento deste mundo existe sem seu equivalente oposto – e da mesma forma, a mágoa que um dia pesou se torna, hoje, a leveza inacreditável de uma história de amor.

segunda-feira, janeiro 14, 2013

Promessa



Até os passarinhos pararam de piar; as águas ruidosas se calaram naquele instante. Até mesmo o vento cessou de uivar para ouvir nosso silêncio - eu sei e você sabe que ele nos disse mais que qualquer palavra. Não há necessidade de um verbo sequer para traduzir a força daquele encontro, mesmo que a magia tenha acabado tão rápido quanto se criou. Se fomos interrompidos não importa tanto; se o medo fez o momento se perder já quase não faz diferença. Dentro de mim, aconteceu, e é como se o mundo tivesse parado de girar por um segundo, para testemunhar nossa conexão e a força da nossa coragem ou covardia de seguir ou não em frente. Aquele dia selou uma promessa: nossos corações ainda se tocarão mais uma vez, mesmo que, a despeito de todos os desejos, nossos lábios jamais o façam.

sábado, novembro 24, 2012

choque


Até onde se pode ir para se evitar o desconforto?

Sacrificamos tantas coisas, todos os dias, apenas para evitar que um mal-estar se instale. Vivemos tensos, procurando, na “bula” da vida, todos os efeitos colaterais que qualquer atitude nossa sempre traz. Natural, crescemos assim: tome cuidado com o que você diz, com o que você faz, senão...

Senão o que?

Acabamos vivendo com a espada em cima de nossas cabeças, temendo pelas consequências que o fluxo da vida traz a todo momento, e infelizmente sacrificamos partes importantíssimas de nós mesmos em busca do que achamos se tratar de bem-estar. Mas, repare: não buscamos bem-estar. Buscamos nos salvar do desconforto que nossos ímpetos podem trazer.

Parecemos bastante com o ratinho aprisionado dentro da caixa experimental: apertamos sem parar o botão que evita que tomemos choques. E nessas, não fazemos absolutamente mais nada de nossas vidas senão evitar desgraças imaginárias. Estamos sempre alertas, vivendo no mundo das ideias em que estamos nos comportando adequadamente e evitando que o mundo caia em nossa cabeça. À espreita, nosso inconsciente está sempre vigiando cada gesto e cada movimento.

O que aconteceria se fôssemos apenas espontâneos?

Não prego a negligência, nem tampouco a displicência de se acreditar que tudo é da lei, que tudo é permitido. Não podemos, obviamente, fazer tudo o que quisermos – a não ser, obviamente, que acatemos todas as consequências que possam aparecer. Temos nossas responsabilidade, e especialmente no que tange os sentimentos humanos, somos de fato responsáveis por quem cativamos.

Mas quantos de nossos receios são infundados? E quantos deles merecem ser confrontados?

Sacrificamos desejos, criatividade, fluxo e uma série de outros ímpetos que, fossem desprovidos de hiperreflexão, trariam suas doses de bem-estar e reações adversas. Mas seriam elas tão graves quanto pensamos? E se forem... aguentamos?

Seres humanos racionais e “educados” que somos, colocamos tudo na balança. Certas coisas valem ser sacrificadas, trazem mais dor do que benefícios. Mas existem outras coisas, às vezes partes de nós, que quando sacrificadas em prol de um “bem maior”, trazem ainda mais dor. E diante disso nos vemos em um dilema, uma sinuca: sacrificamos a nós ou ao outro?

Dentro desta pergunta, se encontra a mais funesta armadilha - não estamos poupando o outro. Estamos poupando a nós de nos vermos refletidos em olhos de decepção. Poupar o outro é um ato extremamente egoísta.

Se correr o bicho pega; se ficar... Certos hábitos e certas relações são intrínsecos à minha existência e seu tempo de sacrifício acabou. Poupei dores, acredito, mas me infligi outras tantas, tantas privações emocionais que, neste momento, gritam em desespero para serem atendidas.

Escrever é uma parte tão fundamental da minha alma quanto dormir é para o corpo. E eu realmente sinto muito que isso traga alguma dor a quem me importa, mas que, de alguma forma, não pode nem nunca poderá ser mais prioritário do que o meu próprio bem-estar.

Não tentarei mais fechar esta porta. Ela ficará escancarada ao mundo como sempre me foi característico. Que seja mais um entre vários gritos de guerra que foram dados: não tenho mais medo do que posso parecer, do que posso despertar, nem das retaliações que possam disso advir. Abandono, nesse instante, o botão – estou pronta pra qualquer tipo de choque.

Bem-vinda de volta, a casa é realmente sua. As regras se encontram pregadas na porta de entrada: todos os amigos estão convidados.

quinta-feira, outubro 25, 2012

Transe literário


Os dedos tamborilam o teclado em busca das palavras. Letras e letras se alinham e dançam sob meus olhos, enquanto perco o foco e avisto ao longe. Palavras se formam; frases desconexas e sentidos soltos marcham à frente, delineando nossa história na tela-papel em branco. Entro em transe; os dedos frenéticos se movem; os arquivos da memória são esquadrinhados em busca dos significados há muito atribuídos, as sentenças vão sendo construídas e dadas ao longo deste novo e tardio julgamento. Paro: releio. A pele do rosto se avermelha. Está ali a nossa condenação – mais um texto obscuro, condenado a permanecer escondido, mais uma confissão, oculta para sempre nas velhas pastas do PC.

domingo, abril 22, 2012

os preços que a gente paga


Quando vamos às compras, não tardamos a reclamar. Tudo anda caro demais.
Mas volta e meia, apesar dos abusos financeiros praticados, voltamos cheias de sacolas. E costumamos nos justificar: isso aqui, ó, vale o preço que cobra.
Pagamos fortunas todos os meses, seja em sapatos, cosméticos ou arroz com feijão, sempre nos ancorando nessa velha história de que os preços que as coisas cobram frequentemente valem em relação ao que oferecem. Ok, nem todas. Mas pagamos mesmo assim. Mas saindo do âmbito comercial, e adentrando o obscuro mundo das emoções, é inegável que pagamos preços bem caros por outros bens de consumo nada comparáveis a um saco de farinha.
Separações, relações, empregos, família. Adoramos falar que tudo nesta vida cobra um preço. E inevitavelmente, nos pegamos reclamando que os preços a pagar são altos demais. A liberdade, o amor, a segurança e a paz de espírito – claro que tudo isso tem um preço. Mas quando não conseguimos visualizar nitidamente os ganhos ou benefícios que estamos almejando, é impossível não se questionar: vale o preço que cobra?
Gastar uma fortuna numa viagem fabulosa claramente vale a pena. E nenhuma mulher pode negar que um par de sapatos lindo e confortável vale alguns dígitos a menos na conta corrente. São vantagens que justificam e tornam a relação custo-benefício algo perfeitamente aceitável. Mas em se tratando de sentimentos, nem sempre esse benefício é algo tangível.
Costumamos dizer que todo esforço vale a pena. Mas que recompensa é essa que esperamos no final de todo processo difícil, que justifique o tamanho desta pena? E se esta pena for a tristeza, a ansiedade, a solidão? Esse sofrimento realmente vale, quando comparado ao que ganharemos depois? Ou se trata de mais uma falácia da vida moderna, no maior estilo ‘no pain, no gain’, como a promessa de um pote de ouro no final do arco-íris?
Acreditar nessa recompensa merecida após um duro período de sacrifícios, seja numa dieta, seja num término de relacionamento, pode parecer simplesmente um ato de fé. Afinal, não existe nenhuma garantia nesta vida que não seja a morte. Receber a recompensa, fazer valer a pena, pagar o preço às vezes pode significar esperar que algo bom aconteça após este período tenebroso de expectativas, um bálsamo acolhedor que nos mitiga da dor e nos faz confiar no futuro.
Mas como calcular essa difícil relação?
Digamos que você se separou de alguém e comeu o pão que o diabo amassou por alguns meses. Um bom tempo depois, quando resgata a paz de espírito ou faz uma viagem alucinante ou, digamos, encontra um novo alguém, você tende a comparar os ganhos com os prejuízos, faz a conta, passa a régua e declara: valeu a pena sofrer tanto assim.
Mas digamos que outro bom tempo se passa e você entra numa nova crise, seja financeira, familiar ou existencial, e lá se encontra novamente chorando algumas pitangas. É justo questionar se tudo aquilo valeu a pena mesmo?
Em se tratando de roupas, ou de um apartamento fantástico, a conta fica fácil. Você calcula quanto gastou, em quantas vezes pagou, vê o número de vezes que vai usar ou o período de tempo que usufruiu do apê, compara com outras coisas do mercado, soma aqui, divide ali, e o saldo final te conta se o quanto você se beneficiou justifica preço que você pagou. Mas quando olhamos em retrospecto para nossa vida emocional, aparece na fórmula um X bem gigante sem qualquer referência. Uma equação de N graus, insolúvel, justamente porque o fator ‘T’, o tempo, se encarrega de incluir ali, entre parentes avassaladores, inúmeras variáveis, tantos outros dígitos, tantas outras parcelas, a perder de vista e com um milhão de juros envolvidos.
X + T (A + B + C...) = ?????
Aquele X insolúvel incomoda. O ‘T’ pode ser tudo ou nada. No final das contas (desta vez no sentido figurado), você nunca vai saber se realmente valeu o preço que você pagou. O fator ‘T’ acaba sendo um vilão que traz coisas inomináveis – inclusive mais dor e sofrimento, hora ou outra, pra você pagar.
O que talvez diferencie nossas finanças da nossa matemática da vida é justamente o fato de que o preço que você paga também é variável. Nem sempre 500 sofrimentos vão ser 500. Às vezes, se o fator ‘T’ for bonzinho, esse 500 reduz drasticamente, dependendo das outras variáveis que você mesmo pode incluir na sua conta. ‘V’ de viagens, ‘A’ de amor, ‘L’ de liberdade. Nas contas emocionais, existe uma pequena autonomia que a Receita Federal nem sempre nos deixa desfrutar. A gente paga, na verdade, o quanto quiser. Nossa fórmula e só nossa.
É como a Nota Fiscal Paulista: você pode gastar, declarar que gastou, e talvez (apenas talvez) você receba um dinheirinho ano que vem. Quase que um pedido de desculpas do governo-cosmos por te cobrar tantos impostos. É óbvio que isso significa você não poder mentir, de jeito nenhum, sobre o quanto gastou, seja financeiramente, seja no lado afetivo. Sonegar já não é possível, fingir é improvável, assumir tudo o que você sofreu é a única saída. Essa pequena restituição não vai chegar aos pés de tudo o que você gastou. É claro que o que você pagou, tá pago e não se fala mais nisso.
Mas talvez, quando admitimos nossos preços, quando enfrentamos nossas contas diárias e assumimos que não, não sabemos se vale o quanto cobra, sejamos um pouquinho recompensados.
Pode ser um almoço inesperado com amigas queridas. Pode ser sim aquela viagem maravilhosa. Pode ser sua liberdade de escrever um texto numa tarde fria de domingo, de meias furadas e silêncio na casa. Eis nossos lucros diante de tantos dividendos.
Podemos resgatá-los a qualquer momento, mesmo que continuemos com dúvidas sobre o nosso fator ‘T’. No fringir dos ovos, não há solução final. O saldo será sempre parcial - é uma conta eterna que vai mostrando resultados igualmente parciais, temporários, tendenciosos, superficiais, impermanentes como é a própria vida, mas que, ainda assim, significam alguma coisa: você pagou o preço, assumiu os riscos, e está mais pronta do que nunca para receber os lucros decorrentes de tudo aquilo que um dia você abriu mão.
E talvez esse sentimento, esta receptividade em relação à vida, seja o maior ganho que qualquer tipo de perda pode oferecer. Esse valor, esse sim, é incalculável.

quarta-feira, abril 04, 2012

Crer ou não crer. Eis a questão.

Eu consigo perceber exatamente quando chego num ponto existencial específico – o qual costumo denominar “o troço”: começo a passar boa parte do meu tempo absorvida em livros românticos ou seriados em peso, e gasto muitos minutos antes de dormir imaginando uma vida totalmente diferente. A nostalgia é palpável, e sem mais necessidade de terapia para descobrir, posso com franqueza admitir que me perco nas fantasias e nas histórias bonitas.
Sim, eu sei que são histórias. Eu sei que são personagens. Eu sei que alguém escreveu aquela fala, eu sei que não foi espontâneo. Sei que cada vírgula foi cuidadosamente colocada ali para dar o tom perfeito e o sentido ideal ao contexto. E também sei, dolorosamente, que esse tempo gasto produzindo sentimentos nostálgicos poderia estar sendo gasto vivendo a vida real.
Mas ouvimos desde cedo, desde pequenos, que para que algo aconteça nós temos que acreditar. Que tudo nesta vida se trata de uma questão de fé: acreditar no que você não vê, seja lá o que isso for. Deus, energia cósmica, calorias. Amor.
De um lado, temos todos os elementos da vida moderna nos chamando para o que alguns chamam de “realismo extremo” – você deve acreditar apenas nas duas únicas certezas da vida: morte, e impostos. Do outro lado, existem as fantasias, as histórias, o cinema, a Bíblia, os sonhos (ah, os sonhos...!) e as histórias que ouvimos falar mas nunca vimos acontecer, como Kony 2012 ou a Mega Sena, por exemplo.
Quando algo acontece em nossas vidas, e esse algo abala todas as nossas estruturas, fica fácil perder-se neste limbo emocional em que tudo são incertezas. Acreditar em algo pode realmente tornar-se um ato único de fé, ou uma fuga da realidade. E os únicos que podem julgar se este tipo de crença é válido ou não somos nós mesmos. O único meio de testar se nossas crenças são feitas de esperança ou de ilusão é avaliar como estão as nossas vidas.
Quando ouvimos alguém dizer que não acredita em nada que não se possa ver, costumamos dirigir a este um olhar preocupado, como se estivéssemos vendo um grande desperdício ocorrer bem na nossa frente. Internamente, desaprovamos esse tipo de conduta cética de ser. Algumas pesquisas recentes da Psicologia Positiva (sim, existe uma área da psicologia que se dedica somente a estudar as pessoas felizes) indicam o otimismo e a religiosidade como indicativos da bem aventurança, enquanto a ausência destes apontam para depressão e ansiedade.
Se deixar de acreditar faz de alguém um ser amargo e potencialmente vazio de esperança... acreditar então é bom? Ou é justamente do ato de acreditar que advém todas as nossas frustrações? Não se diz, aliás, que a expectativa é a mãe da frustração?
Afinal, no que se pode e no que se deve acreditar?
A vida se encarrega de nos rechear com exemplos do dia-a-dia. Mas nunca se sabe, com segurança, o que eles querem realmente dizer. Uma amiga se casa e você então conclui que sim, o amor existe inerentemente. Um ano depois ela se separa, e você pensa... então o que?
Num dia chuvoso de fim de mês você encontra 50 reais na rua e agradece ao “universo”, esse bonzinho, que te ajudou a terminar de pagar suas contas. Alguns dias depois você recebe em casa uma multa de 100 reais. E o universo, de bonzinho, passa a temível ou mesmo inexistente.
Uma recém divorciada é paquerada na rua por um homem lindo e volta para casa acreditando que nada é por acaso, que a felicidade está batendo em sua porta. Depois de dois meses, descobre que o homem lindo era casado.
Afinal, existem “sinais” sobre no que você pode ou deve acreditar? Ou o que chamamos de sinais são eventos aleatórios aos quais adoramos atribuir significados?
Eu costumava acreditar em muitas coisas, de vida extraterrestre a almas gêmeas. Hoje, confesso estar questionando até mesmo a realidade do agora – será que tudo isto, esta vida, este computador, esta cadeira, esta dor e saudades que sinto são de fato... reais? Ou seria tudo produto de um delírio humano? Estaria eu conectada à Matrix? Seria eu uma invenção de alguém?
Seria tudo isso invenção minha? O amor, as amizades, a ambição, o divertimento, a motivação... seriam criações da minha mente? Será que, na verdade, sentimentos não existem, e o que existe então é uma sensação associada a um pensamento... e portanto, apenas percepção? Será que tudo o que sempre imaginei para minha vida são criações que sequer são minhas, mas que outras pessoas (leia-se família, igreja, sociedade) colocaram na minha cabeça?
Às vezes me sinto culpada de fazer este tipo de questionamento. Como se Deus ou a energia universal fosse um dia me punir colocando um buraco no meio da rua para eu tropeçar, simplesmente por eu estar colocando em xeque toda a minha própria existência...! Mas, uma vez que eu nem mesmo sei se acredito em Deus, no universo, ou na eficiência da punição, todo este medo e esta culpa perdem a razão de ser.
E o que resta, em meio a todos os contos de fada, as fantasias, as músicas de amor e os sonhos de futuro, é a distante mas nunca tão próxima pergunta, quase que colada na minha pele... quem sou eu, afinal de contas?

sexta-feira, março 30, 2012

Sobre voltar para casa

Uma frase popular bem famosa diz: não há lugar como o lar.

Supostamente, as pessoas que usam esse provérbio deveriam experimentar uma verdadeira tranquilidade ao chegarem em suas casas e verem ali, todos reunidos, os elementos de maior importância no estabelecimento de sua segurança: seus familiares, seus gatos, seu travesseiro.

Mas quando tudo na sua vida parece ter sido revirado de pernas pro ar, e nada mais se encontra onde normalmente estava, chegar em casa pode ser um martírio. Pode ser aquele período fúnebre onde cada roupa, cada bibelô, cada livro e cada item do seu armário te provoca uma sensação angustiante. As memórias se tornam inimigas: você reza por uma lobotomia parcial ou quem sabe por um bom pote de pílulas para dormir.

Quando nosso interior está bagunçado, nada mais se encaixa. A paz nunca vem de fora, dizem os mais sábios. E embora isso seja bem nítido no nosso dia-a-dia, não consigo evitar de perguntar: em termo de bem-estar pessoal, o que é voltar para casa?

É fácil se perder em lembranças do passado – tempos de outrora que não voltam mais, em que a declaração do Imposto de Renda era uma fábula, as multas de trânsito uma lenda urbana e os términos horrorosos de relacionamento eram coisas de filme. Sentimos saudades à vontade das épocas em que uma tarde de ócio em casa era um presente e, às vezes, até fruto de uma doença inventada pra mãe; sentimos falta de passar horas no telefone com as amigas. Sentimos falta inclusive das amigas – estas que hoje são casadas e não podem te atender por estarem lavando roupas.

Em tempos em que a realidade é dura e madura – contas, carnês-leão, fraldas e plano de saúde conjunto – é inevitável pensar em quantas coisas fomos perdendo pelo caminho. Talvez boa parte dos sonhos, boa parte das nossas ilusões. Os projetos de glória pessoal que vão intimamente perdendo o brilho, quando você de repente percebe que outras coisas ocupam esta prioridade com uma rapidez assombrosa.

Voltar para casa, no sentido literal, pode ser assustador, e não saber que casa é essa, no sentido figurado, às vezes leva ao desespero. Às vezes essa casa foi um abraço; às vezes, os pratos quadrados que se sonhou ter em casa um dia. Mesmo um filme monótono na sexta-feira a noite pode ser um lar em tempos de solidão, naquelas noites em que o tempo começa a esfriar e você subitamente sente necessidade de aconchego.

O drama da vida adulta é o fato de jamais poder vivenciá-la duas vezes. Perde-se oportunidades pelos caminhos. A casa a qual retornamos de repente nos lembra, dolorosamente, de todas as coisas que não fazem parte deste quadro-cenário ao qual acostumamos a chamar de lar. Como um script perfeito, vagamos neste palco sabendo exatamente onde encontrar cada copo, cada corpo, cada lembrança. E quando não encontramos, esta ausência dói e nada mais pode ser feito a não ser se reincorporar nesse cenário como se aquele espaço vazio simplesmente não existisse.
Às vezes é necessário estar longe para poder, por fim, voltar para casa. Mas esta viagem longínqua é igualmente sofrida: deixamos para trás todos os elementos de nossa segurança, nossos gatos, nossos travesseiros, nossa sensação de pertencimento a algo. Quando estamos próximos demais, nossa visão se torna embaçada. Distanciar-se do objeto é inexoravelmente necessário para se ganhar perspectiva. É ir, para poder voltar.

quarta-feira, fevereiro 29, 2012

O casulo da dor

"A bíblia diz: não idolatre falsos deuses. Mas é o que fazemos. Idolatramos o Deus do conforto e do prazer e da segurança. E louvando este Deus, destruímos nossas vidas.

Temos muitas maneiras de lidar com a dor e encontrar prazer e conforto. Mas todas se baseiam na mesma coisa: o medo de encarar o desprazer.

Se precisamos ter tudo sob o nosso controle, é porque queremos evitar qualquer tipo de desprazer. Se nós compreendermos tudo, se pudermos ser espertos de encaixar tudo numa espécie de ordem e sentido, numa completa intelectualização, então talvez possamos não nos sentir ameaçados.

Todas as filosofias e sistemas religiosos da história da humanidade são variações do mesmo tema: táticas para lidar com este medo básico da dor. E somente quando estes sistemas falham é que encaramos a tarefa de praticar (o zen). E estes sistemas invariavelmente falham. Porque eles não são baseados na realidade.

Precisamos abrir mão de nossa escravidão a qualquer sistema de evitação da dor e perceber que não podemos escapar do desconforto apenas correndo mais rápido ou tentando mais intensamente. Quanto mais rápido corremos da dor, mais nossa dor nos assola. E quando aquilo do que dependemos para dar sentido à nossa vida não funciona mais, o que faremos?

Para nos tornarmos borboletas, o primeiro passo é perceber que não podemos mais nos manter larvas. Precisamos enxergar além do nosso Deus de conforto e segurança. Temos que entrar no casulo de dor para retornarmos ao absoluto que, diferentemente do que é relativo, abarca tudo que existe, inclusive o sofrimento, a dor e o desconforto.”
(tradução livre de trecho de Nothing Special - Living Zen, de Charlotte Joko Beck)

sexta-feira, fevereiro 17, 2012


É carnaval.
Não é adequado usar nenhuma fantasia.
Quando estou longe de você, todas as máscaras caem e só
sobra a hesitação constante: pra qual lado seguir? É fácil dizer que devemos
pagar os preços por aquilo que lutamos, quando sabemos exatamente onde queremos
chegar. Mas se torna extremamente difícil aceitar as consequências de uma
atitude em relação à qual se desconhece os motivos.
Será que consegue entender?
Consegue entender que, a partir do momento em que deixei de
te culpar, não sobrou mais ninguém para responsabilizar a não ser eu mesma?
Esta eu pequena, tão insatisfeita, que sente que incomoda tanto toda vez que
deseja alguma coisa, esta eu que sente que não tem direitos, que não pode ficar
insatisfeita, esta eu que fica infeliz quando sente que não pode entristecer.
Esta eu permanentemente sob cobranças.
Como te explicar que uma parte de mim deseja mais do que
tudo renunciar a este projeto ambicioso de tentar me apaziguar antes de mais
nada, para encontrar a paz junto ao seu lado, enquanto meu outro lado, este
mesmo ambicioso me pune me lembrando, a cada beijo que eu te dou, que não era
isso que eu tinha me proposto?
Como explicar que longe de você eu sofro, mas ao seu lado
sofro também, por detestar a imagem que vejo refletida no espelho? Por
visualizar uma eu tão fraca, tão instável, alguém que simplesmente não suporta
o próprio vazio a ponto de ter vontade de simplesmente sumir do mapa sem deixar
vestígios! É possível compreender isso?
Como poderia te pedir para esperar? Como posso pedir para
você algo que eu não consigo executar? E me apego em textos, em palavras, mesmo
sabendo que estas não dizem nada e perdem a força diante da imagem que passa
veloz na minha frente de um você deitado debaixo dos meus lençóis. Como posso
te pedir serenidade, diante do caos que se transformou a minha mente?
Como posso te explicar que na sua imagem vejo muitas, muitas
coisas, que sinto muitas, muitas coisas, dentre elas a esperança de um futuro
brilhante, em que nós juntos iluminamos um ao outro? Como posso te explicar que
vejo o futuro em você, mas não o vejo em mim, a cada dia que passa e que sinto
as lágrimas corroerem meus olhos e descerem lentas até a ponta do meu rosto,
molhando os papéis em que planejei escrever?
Como posso esperar qualquer coisa, qualquer palavra,
qualquer som, qualquer sorriso, se não vejo o brilho necessário dentro de mim?
Me sobra a esperança de desatar estes nós, chegar à raiz do
problema, ao fio da meada, ao xis da questão. E penso poder te entregar esta
fórmula, e juntos resolvermos esta difícil equação de cabeça e peito abertos,
de olhos pareados, mãos dadas com dedos cruzados apontando o futuro.
“Naturalmente vazio, maravilhosamente brilhante.”

quarta-feira, fevereiro 08, 2012

"Coisas que não podemos esquecer" - sobre perda

Por Monja Coen Sensei



As verdades e as mentiras não disputam mais pelo mesmo espaço. Luz e sombra conversam tranquilamente no sofá.


Livres de validades, os prazos, as dívidas, as dúvidas, os contratos, os créditos, e as senhas saem batendo asas.

Um velho segredo é descoberto dentro da gaveta, outro mais novinho, sorri maroto no fevereiro da agenda.


Engraçado, mas o bibelô da estante que sempre foi verde agora parece azul.

Sem dramas, a metamorfose caminha pela casa implacável, irreversível, silenciosa.


Nenhum sonho fica escondido embaixo da cama.

Apenas lembranças exalam como perfumes que a gente sente de olhos fechados.


Desesperada, a caneta esferográfica insiste nas anotações, números de telefones, coisas que a gente não pode esquecer, coisas que a gente não pode esquecer, coisas que a gente não pode esquecer, coisas que a gente não pode esquecer.

Mas o importante já foi guardado.


A morte de alguém que amamos é uma enxurrada, um desabamento dentro de nós , sem sobreviventes.

Meu amigo Fred levou consigo a alma da casa e de cada objeto.


Levou a paisagem da janela, nossos finais de semana, levou uma batida do meu coração.

Levou as caipirinhas, os sorvetes e uma linha da minha mão que era só dele.

terça-feira, janeiro 31, 2012

ORAÇÃO PELAS MENTES ANSIOSAS

Venerável Mestre Hsing Yün

Ó grande e compassivo Buda!

Por favor, por tua bondade amorosa, ouve meu clamor!

Por favor, por tua compaixão, vê minha angustiante condição!


Minha mente assemelha-se a um emaranhado de fios, e a menos que ela se desembarace e desvencilhe, não conseguirei libertação!
Minha mente assemelha-se a um barco à deriva, e a menos que ela encontre um porto seguro, afogar-me-ei num mar de sofrimentos.


Ó Buda! Rogo a ti: por favor, afasta-me destas preocupantes condições; e guia-me pelo caminho da libertação.


Ó grande e compassivo Buda! Quero revelar-te minhas transgressões; quero arrepender-me de minhas faltas: diante das circunstâncias, nada delineio; na vida, ando sem rumo; confusas são minhas ideias e troco os pés pelas mãos; como pessoa, sou ignorante e apegada; na ação, não me adéquo às circunstâncias, e assim, divago sem saber como agir; meu coração está tomado por ganância, raiva, desconfiança e inveja; à minha mente faltam confiança e convicção no Caminho; no dia-a-dia, vivo a me queixar com ansiedade e inquietude; falta-me preparo para a autodisciplina; sou incapaz de agir com determinação, e assim, titubeio sem saber o que fazer.


Sei que todos os erros são por mim acarretados; e que todo carma e preocupação são por mim suscitados. Faltam-me, no entanto, determinação para emendar-me e motivação para arrepender-me; e assim, equivoco-me ao contemporizar, perdendo o bom senso e desperdiçando meu precioso existir.


Ó Buda! rogo para que me assistas com teu grandioso poder.

De hoje em diante, abandonarei minha estreiteza de espírito; de hoje em diante, eliminarei o vício da impaciência; de hoje em diante, desenvolverei o espírito da cooperação; de hoje em diante, levarei uma vida de otimismo.


Ó grande e compassivo Buda! Tantas são as pessoas que neste mundo, vivem tão ansiosas e confusas e, por conseguinte, perdem como eu, a noção de risco lamentando-se pelos irremediáveis erros cometidos.


Ó Buda! rogo por tua perene e imensa bênção para que possamos: subjugar Mara² que reside na profundeza de nossas mentes; eliminar nossos vícios de acomodação enegligência; reforçar nossa tolerância e paciência ao professar os teus preceitos; apreender teu meio hábil de aquietar corpo e mente; cultivar a concentração meditativa e prajña³; aumentar nossa coragem para sermos diligentes e não esmorecer; desenvolver bondade amorosa, compaixão, alegria e equanimidade; eliminar os três venenos existentes em nós, por incontáveis eras.


Ó grande e compassivo Buda, peço, por favor:

recebe esta minha sincera oração!

recebe esta minha sincera oração!
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² Māra: O demônio para o budismo. Tecnicamente um deus (deva). Māra é o inimigo do Buda que constantemente tenta aviltar seus ensinamentos com o objetivo de impedir que os seres possam vir a atingir o nirvana, estado no qual eles estariam fora do alcance da sua malignidade.


³prajñā (sânscrito: “sabedoria”): a mais sublime forma de sabedoria; compreensão intuitiva do vazio de todos os fenômenos e da não-dualidade; o mais elevado dos seis paramitas (perfeições). A realização da sabedoria prajñā costuma ser equiparada à conquista da iluminação e é um dos objetivos essenciais da natureza búdica.

quinta-feira, janeiro 26, 2012

Naipe de Água, as Emoções...

O SONHO



Isto tem sido dito repetidas vezes no decorrer dos tempos. Todas as pessoas religiosas têm afirmado que: "Sozinhos nós chegamos a este mundo, e sozinhos partiremos".


Toda idéia que envolve estar junto é ilusória. A própria idéia de companheirismo aparece porque estamos sós, e o isolamento fere. Queremos neutralizar nosso isolamento com relacionamentos... Por isso é que nos deixamos envolver tanto com o amor.


Tente entender a questão. Normalmente você pensa que se apaixonou por uma mulher, ou por um homem, porque ela é bela, ou ele é belo. Essa não é a verdade. A verdade é exatamente o contrário: Você "caiu de amor" porque não consegue ficar sozinho. Você estava mesmo pronto para "cair". De uma maneira ou de outra você iria fugir de si mesmo.


E existem pessoas que não se apaixonam por mulheres ou homens – então se apaixonam pelo dinheiro. Elas passam a acumular dinheiro, ou embarcam na aventura do poder – elas se tornam políticos. Isso também é fugir do próprio isolamento.


Se você observar o Homem, se observar com profundidade a si mesmo, ficará surpreso: todas as suas atividades podem ser reduzidas a uma única origem. Essa origem é o medo que você tem da solitude. Tudo o mais são apenas desculpas. O motivo verdadeiro é que você se sente muito só.




(O Baralho Zen de Osho)