sexta-feira, julho 25, 2008

SINCERIDADE

Gravura: Miyamoto Musashi, o maior Samurai de todos os tempos


"Uma das qualidades que mais importam ao Mestre no Caminho é a sinceridade de espírito do discípulo. Sincero vem do latim sine cera, que costuma ser associado a “sem cera”. Os antigos costumavam dizer que as colunas de mármore que ficavam desgastadas com o tempo eram completadas com cera em seus buracos. Eram colunas “com cera”. Os pilares que não escondiam falhas eram sine cera.

Existem pessoas que têm cera no coração e procuram tomar vantagem para si próprios a qualquer custo, mentindo, enganando e causando males aos outros. O samurai deve se esforçar no Caminho da Retidão, que em japonês se escreve com os ideogramas sei e jitsu.

Sei significa “correto”, jitsu significa “verdade”. Para o samurai, ter o espírito voltado para a retidão é ter o espírito correto no sentido de preservar a sinceridade e buscar a verdade.

Os mestres dos caminhos da iluminação ou das várias manifestações artísticas da cultura japonesa sabem que o Caminho é difícil, não é para qualquer um. Há que se persistir e insistir para chegar à perfeição. Sendo sine cera, conseguirá seguir fielmente os passos do Caminho, sem ser tentado a pegar um atalho ou um outro rumo."
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Retirado do livro "ShinHagakure - Pensamentos de um Samurai Moderno", do Sensei Jorge Kishikawa.

segunda-feira, julho 21, 2008

Fake

Ontem à noite, motivada por mais um ataque bravo de insônia, me flagrei zapeando a TV a cabo. Entre um milhão de seriados inúteis, comerciais, e filmes nada favoráveis à inteligência, um programa em especial me estarreceu.

Imagine você uma casa não muito grande, porém luxuosa, onde se trancafiam 10 lindas mulheres, todas com um objetivo em comum: conquistar um solteirão tudo-de-bom e cobiçadíssimo. O reality show envolve, basicamente, a disputa feminina pelo homem ideal que, deitado eternamente em berço esplêndido, limita-se a beijocar quantas quiser provar, e a dispensar as que menos o atraíram.

Este é o conteúdo de The Bachelor, programa exibido no Warner Channel, à 1h00 da manhã de segunda-feira. Com uma hora de duração, o programa apresenta os conflitos femininos, as brigas entre as candidatas, o dilema do solteirão, os encontros românticos e as lágrimas das rejeitadas - sem cortes, sem censura, sem privacidade.

Fiquei absolutamente chocada com a natureza do programa – nunca antes a já mal-falada competitividade feminina recebeu tanto incentivo, tanto escárnio e tanta publicidade. Além de quase voar pena durante as conversas entre as candidatas, era nítido o quanto as mulheres ainda são, infelizmente, umas tapadas nos relacionamentos.

Alto lá! Não estou culpando os homens. As próprias mulheres se fazem de trouxas e se desvalorizam perante os olhos masculinos, se colocando como meros corpos malhados e bocas sensuais, ignorando o fato de que o que sustenta uma relação é, basicamente, o quanto de parceria irá haver entre os amantes – o que decorre, fatalmente, do quanto você tem em comum com o parceiro.

Numa das cenas mais patéticas do programa, uma candidata tingia os cabelos (naturalmente escuros) de loiro-claro, horas antes de ter seu primeiro encontro em particular com o bonitão. Justificava ela: “o Charlie até agora só convidou as garotas loiras da casa para saírem sozinhos. Acho que irá perceber que estou tentando agradá-lo e irá gostar de mim.” Surpresa: o tal do Charlie rejeitou a moça, justamente por esta ter tentado ser o que não é, apenas para agradá-lo. Palavras do meninão: “Será que ela não pensou que, se a chamei para sair sozinhos, é porque aprovei a aparência dela?”

Não, Charlie, parece que não. Até que você é um garoto esperto... já a coitadinha dizia, entre lágrimas pretas de rímel, não entender por que fora rejeitada – sentia-se um fracasso e penso que, certamente, adquiriu aí alguns problemas de auto-estima.

De forma geral, o programa nada mais é do que um retrato fiel da realidade: as pessoas usam um milhão de máscaras, fazem mil e um joguinhos, e varrem pra debaixo do tapete toda e qualquer característica pessoal que possa ser minimamente mal-vista pelo pretendente. Mudam cores de cabelo, fazem tatuagens, mudam o gosto musical, o estilo de se vestir e fingem ser o que não são, na vã tentativa de fisgar o ser amado.

Tudo isso para, meses depois, surpreenderem-se quando o relacionamento se transforma numa verdadeira arena, lotada de frustrações e decepções. Os “eu te amo” transformam-se em “quem é você??”; de gatinhas manhosas as mulheres passam a neuróticas enraivecidas, e os homens, antes super cavalheiros, se tornam ogros desleixados, que arrotam e peidam sem a menor cerimônia.

Então os parceiros se perguntam quando foi que a(o) namorada(o) mudou tanto, e lá vêm os clichês: “no começo tudo são flores”; “só se conhece alguém após o divórcio” e outras baboseiras do tipo.

A verdade é que o parceiro não mudou: ele jamais foi o que você achava que era. Apenas nos momentos de real explosão afetiva é que as pessoas costumam se revelar, mostrando finalmente aquilo que deveras são. No fundo, a neurótica sempre foi uma maluca completa que se controlava; o ciumento sempre foi completamente lunático, mas disfarçava; e o peidorreiro apenas não comia feijão com tanta frequência.

Eu mesma já meti os pés pelas mãos, fingindo ser completamente equilibrada, resolvida, feliz da vida, sem problemas financeiros, com uma família perfeita, super descolada e cabeça aberta – máscara essa que caiu por terra em menos de 2 meses, evidenciando assim diferenças irreconciliáveis entre eu e o ex-namorado em questão.

Na realidade, as pessoas morrem de medo de mostrar o que são de verdade – o estereótipo social de como um homem, mas especialmente de como uma mulher devem ser, é o cúmulo da opressão, da falta de autenticidade, um incentivo ao automatismo e à massificação das pessoas.

Se fôssemos mais genuínos no início da relação, um bilhão de divórcios seriam evitados, muitas caixas de Prozac apodreceriam nas prateleiras e garanto que 50% dos acidentes de carro causados por embriaguez não aconteceriam. Os consultórios de Psicologia certamente ficariam meio às moscas (o que não deixa de me ser um pouco desinteressante), e todo mundo viveria mais feliz.

Se a gente fosse mais longe ainda, teria sempre certas perguntas-chave na manga pra fazer no primeiro encontro, tipo uma triagem, pra saber se valeria a pena sair de novo ou se seria pura perda de tempo.

(Obviamente, a honestidade seria condição sine qua non neste cenário – o que nos leva de volta ao tema inicial: por que é que as pessoas têm tanto medo de se revelar? Será carência, o medo fundamental humano da solidão? Será auto-exigência, o perfeccionismo de ter que ser sempre a divindade em forma de gente? Por que é que as pessoas sentem vergonha de si mesmas, e não percebem que são fantásticas assim, exatamente como são, e que certamente serão o par perfeito para alguém igualmente maravilhoso, sem que seja necessariamente o bonitão da praia?? Quando foi que ser fake virou fashion???)

Enquanto estas e outras perguntas não são respondidas, só me resta voltar à minha poltrona e ouvir, com tristeza, as angústias dos meus pacientes (maravilhosos) que sofrem horrores em seus relacionamentos.

E me conformar com meu atual status de solteira, confiando de que, algum dia, eu hei de ser aceita exatamente como sou: um pouco ciumenta, certamente um tanto neurótica, com problemas financeiros e tretas familiares – mas, graças a Deus, absolutamente eu mesma.

quarta-feira, julho 16, 2008

No smoking, FOR GOOD!

A HISTÓRIA

Há cerca de um ano e meio, escrevi uma longa carta a um querido amigo*. Nela, me despedia. Me despedia de um vício que sustentei durante anos apesar de saber o mal que me fazia. Apesar disso, não tive força suficiente pra romper uma relação tão longa, tão profunda, tão íntima como a que existiu, durante 12 anos, entre mim e o cigarro.

No começo deste ano, alcancei a incrível e assustadora marca dos dois maços diários. Culpava o Transtorno Ansioso que eu havia desenvolvido (todo mundo sabe que o cigarro é o melhor amigo dos ansiosos), igualzinho a manco que põe a culpa na muleta.

Dois meses atrás, tomei um xeque-mate: Sensei Rato afirmou categoricamente que a conquista da graduação verde no Muay Thai dependia, INTEGRALMENTE, do meu hábito de fumar. Sem parar, sem graduar. Ao mesmo tempo, minha querida professora de canto, Luciana, insistia que o cigarro havia prejudicado horrores a minha potência vocal. Me assustei quando não consegui responder à pergunta dela sobre como era minha voz sem fumar – não consegui lembrar.

A DECISÃO

Simples como uma escolha entre este ou aquele sanduíche, a decisão foi fácil: pararia de fumar. Entre algo precioso e algo destrutivo, me parecia um pouco óbvia a escolha que deveria fazer. Escolher o contrário seria o cúmulo do retardamento mental.

Loira sim, burra nunca, estava decidido: como uma grávida que abandona o fumo em prol de seu bebê, eu abandonaria meu Marlboro azul em prol da luta e do canto. Simples assim. Bem simples. Super.


A DESPEDIDA

Aproveitei meu último dia de fumante como uma louca. Fumei dezenas de cigarros até a bituca, como quando se abraça um amigo mil vezes antes de vê-lo partir para sempre para outro país. Passei um frio de 9 graus, ficando do lado de fora do Sarau da Samma (tema para outro post), só pra pitar. Eu sabia que era o último dia, sabia que ia travar uma luta contra mim mesma ao parar, mas não sabia que seria tão, mas tão dificil.

Pra facilitar o processo, desmarquei tudo que tinha agendado na próxima semana. Iria pra praia, pararia de fumar lá, já que São Paulo me agita e lá eu fico mais tranquila. Encarei como uma semana de desintoxicação. Uma internação voluntária. Uma medida desesperada.

A AÇÃO

No primeiro dia sem fumar, fumei que nem doida. Me senti um fracasso. Duas horas depois de acordar, já estava com um cigarro nos lábios. A simples lembrança de que não iria mais fumar me deixava com mais vontade de fumar do que nunca. Tinha uma viagem pela frente (quem fuma sabe o prazer que é dirigir fumando), e não resisti, fumando mais de meio maço em meras 3 horas. Me senti totalmente looser, mas não amarguei – no dia seguinte joguei fora todos os meus cigarros e entrei pra batalha.

Nos 3 primeiros dias sem fumar, quase morri de nervoso. Tive tremores e sonhava com cigarro, tive crises de mal-humor e precisei ir embora de uma baladinha para não bater em alguém. Chorei de desespero. Nas piores horas, visualizava a graduação, o calção verde, visualizava a sala da casa da Lu, imaginava minha voz mais limpa.

Quando ia correr, na tentativa de substituir a vontade de fumar pelo exercício, parecia que estava correndo de mim mesma – uma Eu ex-fumante fugia da fumante inveterada, como diabo foge de água benta. Terminava a corrida e ficava desesperada pra fumar. Só falava nisso. Tratei mal as pessoas à minha volta. Fumei um milhão de cigarros apagados (meu querido Apagadinho, como a Pri bem explica no seu último post).

Os dias subsequentes foram mais suaves. Livre da dor de cabeça, procurei outras coisas pra substituir o hábito. Nas horas mais críticas, tomava litros de água e cantava sem parar, e a vontade de fumar logo passava. Voltei a fazer origamis e comecei a fazer mosaicos com minha irmã e a Pri, na tentativa de conseguirmos descolar algum dinheiro expondo as peças na pousada do Rafa e no estúdio do Ick, e descobri que o artesanato é uma terapia fantástica pra quem está ansioso.

Houveram desafios. TODAS as minhas amigas fumam. As de Sampa e as da praia. Aliás, o mundo fuma. E fuma perto de mim (por enquanto ainda acho gostoso). Ao contrário das outras tentativas feitas anteriormente, não parei de tomar cerveja, nem de tomar café, nem de encontrar as amigas. Já que é pra ser difícil, que seja de uma vez!

E DEPOIS DA TEMPESTADE...


Hoje completo exatos 10 dias sem fumar. Ando orgulhosa das minhas conquistas, e esta, em especial, merecia até uma comemoração! Comemorei – hoje de manhã passei litros de hidratante Victoria Secrets, e é maravilhoso perceber como, mesmo horas depois, um não-fumante ainda está cheiroso.

Não fumante não tem bafo, as mãos não fedem, o quarto de dormir é inodoro e o bolso agradece (façam as contas: R$3,25 X 30 dias: R$97,50 por mês!!!). Sensei Rato então ficou feliz da vida e a graduação já está garantida!

Só pra concluir, não pretendo virar ex-fumante mala... o cigarro é uma delícia e todo mundo que fuma sabe disso, não importa que tenha parado há não sei quantos anos. O cigarro é um puta companheiro e eu bem sei que ele alivia qualquer tensão, qualquer fome, qualquer espera em fila, qualquer ódio no trânsito. O cigarro é um amigão.

Mas cigarro é droga e vicia. Cansei de depender dele, como cansei de depender de um monte de coisas externas a mim mesma. Então não tem jeito, a não ser sentir saudades – e, às vezes, aquela vontade louca de fumar um maço inteiro.

O bom é que, como diz a Pri, vontade dá e passa! Já a consciência... ah não, senhores, essa permanece inabalável! Um dia de cada vez... para o alto e avante!!
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* A carta pode ser lida na íntegra em

sexta-feira, julho 04, 2008

Dormir junto


Já disse Kundera, em A Insustentável Leveza do Ser, que o desejo de dormir junto a alguém é radicalmente oposto ao desejo de se fazer sexo com alguém. Dormir junto refere-se a uma experiência compartilhada com uma pessoa em específico, enquanto que o desejo sexual reflete os instintos de um corpo direcionados a um outro corpo, qualquer que seja ele.

Ao ler isso pela primeira vez, não encontrei o mesmo sentido que encontro hoje, meses após ter lido Kundera. Talvez as mais recentes experiências tenham trazido mudanças reflexivas; talvez as mudanças de pensamento tenham alterado a interpretação das experiências subsequentes.

Hoje concordo absolutamente com Kundera. Só durmo junto a quem me sinto absolutamente confortável. Na realidade, é quase automático – dependendo da pessoa, é completamente natural transar, beijar, conversar, fechar os olhos e dormir (não necessariamente abraçadinhos). Com outras pessoas, o momento ‘pós’ é praticamente um ato involuntário de vestir-se, apanhar suas coisas, e ir-se embora. Não tem clima. Não tem porque. E, absolutamente, não há sono.

Penso que a naturalidade do dormir-junto (aqui entre hífen devido ao conceito que pretendo transmitir) é diretamente proporcional à liberdade e intimidade experienciada pelo casal em questão. Transar com alguém é, inevitavelmente, um ato de intimidade, mas o que chamo aqui de intimidade é a sensação absoluta de poder ser espontâneo, você-mesmo, autêntico.

Acredito não haver outro momento em que somos tão nós-mesmos quanto durante o sono. Tem gente que fala, que é sonâmbulo, que ronca, que baba, que peida, que ri. Durante o sono, não há censuras, não há controle, não há máscaras. Não há melhor maneira de se observar quão genuína é uma pessoa do que enquanto ela está dormindo. E, veja, se não conseguimos ser absolutamente genuínos com alguém, despidos de máscaras e de falsas intenções enquanto acordados, que dirá dormindo? O desconforto de ser desmascarado provoca insônia em algumas pessoas. E fuga, em outras.

Minha amiga Helena*, 27 anos, publicitária, recusa-se a dormir com qualquer homem que não seja seu namorado. Veja bem, sua sexualidade é liberta, a cabeça aberta, e as pernas nem se fala... um dia, tendo ela vindo dormir em casa, percebi seu medo: ela é daquelas pessoas que abre o olho e vai fazer suas “necessidades”. É uma questão de urgência, impossível de controlar, coisa primária e primeira a se fazer ao acordar. Como compartilhar algo assim, tão íntimo, com alguém que sequer imagina que aquela beldade seja capaz de arrotar?

Já meu amigo Thomas*, 33 anos, instrutor de musculação, prefere levar o mulherio para casa após o sexo pois teme que o achem esquisito na manhã seguinte: ele realiza, religiosamente, uma meditação de silêncio absoluto durante cerca de 40 minutos, todas as manhãs. Consigo entender sua aflição: alguém te olhando, observando, analisando durante 40 minutos é o fim de qualquer meditação.

No meu caso, durmo mal quando não me sinto absolutamente à vontade com alguém. Meu medo é da fala e demais comportamentos noturnos. Dizem minhas amigas que até em japonês já falei durante a noite, e alguns namorados já se ressentiram por eu chamá-los, no meio da noite, pelo nome de outros homens. Além disso, quando tenho pesadelos choro que nem criança. Saem lágrimas e tudo. E, às vezes, confundo sonho com realidade – já cheguei a socar a cara um ex-namorado, em meio a um sonho mais do que violento.

O fato é que dormir com alguém é igual a estar junto e acordado: o bom é ser aceito e compreendido em ambos os estados de percepção, seja com olhos abertos, seja com eles fechados e respiração ressonante. Quem entende seu jeito de ser, irá entender se você não for daquelas que curte dormir grudado; quem sabe que você é matraqueira (como eu), não achará estranho se você bater altos papos com pessoas invisíveis durante o sono.

Trocando em miúdos, quanto mais à vontade, mais gostoso se torna. Se o abraço é ótimo acordado, dormindo é melhor ainda. Se a vontade de ficar junto é forte, não será fácil levantar da cama pela manhã, seja pra ir embora pra outra cidade, seja porque existem coisas a serem feitas, seja porque um dos dois está com vontade de fazer xixi.

Dormir junto é um ato de afeto, independentemente de que tipo de relação foi estabelecida. Não se trata de ser namorados, amantes, amigos ou fuck-buddies. Se trata da verdadeira cumplicidade e da naturalidade de se compartilhar o seu interior com quem se sente confortável em sua presença. E faltam pessoas por aí com as quais eu gostaria de verdadeiramente compartilhar meu sono. Entre tapas ou beijos, Joões ou Josés, risos ou choros, o melhor é estar sempre à vontade.

Porque já dizia o velho Raul: sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas SONO que se sonha junto é que é realidade :)
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PS: Os nomes verdadeiros foram substituídos... não pra mascarar nem nada...

terça-feira, julho 01, 2008

Oba, tem gente boa por aí!

Ontem a noite, dominada pela insônia que há anos me acompanha, assisti uma entrevista incrível no programa do Jô. Nunca gostei muito dele, pela sua arrogância, prepotência e sua mania insuportável de interromper os entrevistados a cada 2 minutos, aparentemente apenas para mostrar o quão inteligente, esperto e antenado ele é.

Bom, Jô’s Soares’s à parte (sabemos que existem milhares deles à nossa volta), a entrevista em questão foi fantástica. A filósofa Márcia Tiburi, que também participa do programa Saia Justa na GNT, estava apresentando seu novo livro “Filosofia em Comum – para ler junto”, e compartilhou um pouco de seus pensamentos e reflexões com a platéia e telespectadores.

O que me chamou a atenção não foi apenas o conteúdo da entrevista, mas a postura da Márcia. Uma verdadeira questionadora, cravava seus comentários de perguntas, especialmente referidas ao Jô. Um simples “Você não acha?” o deixou embaraçado algumas vezes (o que achei fantástico, pois naquele momento foi estabelecida uma relação verdadeiramente horizontal entre entrevistador e entrevistado, sem a disputa de poder intrínseca a estas situações).

Márcia é filósofa e escritora, e defensora da arte de pensar livremente, de adquirir conhecimento através da conversação, da troca de informações que realmente acrescentem algo em nossas reflexões. Eu, psicóloga e famosa pelo meu gosto por falar e, principalmente, ouvir, me senti acolhida e, assim, compreendida.

Sua simples presença durante aquela meia hora, ou quase isso, despertou em mim um encantamento que há tempos não sentia: saudades da minha mania de pensar profundo. Quando foi que o pensamento tornou-se para mim um inimigo, por me causar crises e mais crises de ansiedade? Por mais que me tenha sido sugerido o silêncio (verbal, analógico), de antemão eu já sabia que minha cabeça não se calará nunca. E, de uma vez por todas, senti que meus pensamentos finalmente se tornaram meus aliados, ao invés de adversários temíveis.

Pra finalizar, fuçando no site da Márcia, ainda descobri que ela é uma escritora maravilhosa, que escreve sobre o que realmente importa, e ler seu blog e artigos é uma tarefa mais do que prazeirosa, e eu ouso dizer que é leitura obrigatória a seres pensantes (raaaaaro por aí).

Eis os links – deliciem-se, repitam o processo, tomem doses cavalares do pensamento de Márcia Tiburi. É alimento pra alma.

http://www.marciatiburi.com.br/
http://www.pinkpunk.globolog.com.br/

Programa Saia Justa: Canal GNT, quartas-feiras, 22h30.

segunda-feira, junho 30, 2008

adendo

Foto: Nana Ferreira, julho de 2007.



Tem dias que a gente se sente assim - menos gente e mais planta.

Impassível a tudo que ocorre.

Parada diante do mundo.

Sem precisar falar sobre nada.

Basta o sol, a brisa, o sangue-clorofila correndo nas veias. Minha seiva bruta.

Eu tenho admirado mais as árvores do que as gentes: para o alto, e avante.

sexta-feira, junho 27, 2008

De inverno


Assim como muitas pessoas, eu costumo ficar carente no inverno. Época de edredom, chocolate quente e de cafuné, o inverno é a estação ideal pra iniciar um novo romance, ou pra estreitar laços com quem já se dividiu os ventinhos do outono.

Acredito que isso não acontece apenas comigo. O Tim Maia cantou, durante um tempão, que era primavera, mas que quando o inverno chegasse, ele queria estar junto à pessoa amada. A Adriana Calcanhoto chegou a dizer que o inverno no Leblon era quase glacial, e óbvio que isso é porque ela estava sem par.

No inverno, todo abraço é quente, toda mão te aquece e todo peito nu tem calor para dar. Se as pessoas já evitam sair porque está frio, com um parceiro o frio vira a oportunidade ideal pra não fazer nada juntos, pra ver filmes românticos na TV ou apenas para se agasalhar mutuamente.

Porque no verão, tudo já é quente demais, e o abraço, em vez de aquecer, se torna gosmento. As pessoas ficam assim, meio cremosas demais, para estarem num contato muito próximo. Então no verão a solidão pode até passar despercebida – verão é época de romances fugazes, de histórias pela metade sem capítulos finais faltando, e época de tomar picolés, que são sorvetes individuais.

Inverno é época de fondue com os amigos, e assim todos partilham da mesma comida. É época de vinho, cuja garrafa serve ao menos 2 pessoas. Tudo no inverno é mais coletivo, e até um ônibus cheio pode te aconchegar – fica assim quentinho, todo mundo cobertinho, tudo fica gostosinho.

Eu sou uma pessoa especialmente veranista – amo o calor, a praia, o sol, a cor saudável e dourada das pessoas que costumam sorrir mais e andar pouco vestidas por aí. O frio me deprime – especialmente quando minha enorme cama quentinha fica grande demais para eu dormir sozinha.

O fato é que é ótimo estar solteira no verão, onde tudo é descompromissado e pode-se facilmente praticar a política do cada-um-na-sua-canga, evitando assim jorros de areia, peles grudando e micoses praianas. Mas estar solteira em pleno inverno é um saco. Incomodam-me as referências meramente primaveris, e refrigerantes tornam-se totalmente desinteressantes e gelados.

E não adianta fingir que o inverno não existe, nem tentar aproveitar pra comprar biquinis em liquidações como se estivéssemos num eterno verão. Pra mim, é como já dizia a velha música (acho que o Tim Maia também se sentia meio solitário no inverno), não adianta vir com Guaraná, é chocolate o que eu quero beber.

(sorte a minha que o Brasil é um país tropical, abençoado por Deus, bonito por natureza, e que aqui o inverno passa rapidinho!)

segunda-feira, junho 16, 2008

OSSU!!


Família Seiwakai: preparando o corpo, a mente e o espírito.
Porque a água estagnada apodrece, a água fluente é sempre boa!

segunda-feira, junho 09, 2008

Goodbye Stranger

Eu prefiro me despedir destes seus seus olhos tão castanhos que me fitam intermitentemente do que permanecer na eternidade das nossas ilusões. Foi assim e sempre seria, se não houvesse finalmente chegado o momento da nossa despedida. Pois foi ali, naqueles olhares dúbios ao final de uma festa já sem graça, em que nós nos perdemos para sempre – foi na promessa de uma brincadeira já manjada em que todas nossas virtudes foram deixadas de lado.

Sem mais encontros às escondidas e sem mais mentiras no dia seguinte. A sua crise de consciência nos salvou. A nossa história, que todos sabem mas evitam comentar, teve seu último capítulo terminado junto com a sua moralidade e a minha falha de caráter em meio às impulsividades de um sábado à noite. Convenhamos: não há necessidade de nem mais um inverno sequer. Encaremos os fatos de que nossas vidas sempre seguiram caminhos separados, havendo se encontrado unicamente dentro do meu próprio sexo. Nós dois sabemos: eu te quero e você sempre me quis, mas de alguma forma, tudo isso perdeu o sentido.

Houveram noites mal-dormidas e esperanças por meses a fio; houveram frases duras e carinhos inesperados. Você pegou minha mão na sua e elogiou minha maciez, sem notar que ao seu lado, toda minha fluidez desaparece. Somos apenas e tão somente jogadores de uma partida de cartas marcadas. Não há maneiras de mudar as regras no meio desse jogo – elas foram determinadas há muito, muito tempo atrás. Você propôs, eu aceitei. Sem falsos moralismos.

Acho que é hora de nos despedirmos de verdade. Encarei seu blefe de jogador experiente pela última vez. Não aposto tudo – que momento mais amargo para alguém que se propôs a dizer adeus a tantas coisas menos superficiais. O seu semblante rígido, porém sempre doce, fica gravado no fundo das minhas retinas, como uma foto em branco e preto que esmaece com o tempo. Nosso filme ficará trancado nas gavetas da memória: tudo o que sobra é seu cheiro de maresia e a negação da sua partida.

Hoje esfriou de repente - vá na vida e eu irei na sorte. Mestre dos mares que ainda será, você navegará bem pelos rumos determinados pelos ventos a soprarem suas velas. Eu pegarei meus remos e seguirei com destino certeiro: você coube dentro de mim, mas eu sou grande demais para caber dentro de você.

domingo, junho 01, 2008

Testando


Tenho me perguntado, com os mais recentes acontecimentos, se estou sendo testada. Por quem, por que e para que são apenas trivialidades, já que a dúvida que me cabe é se estou sendo bem sucedida.

Os temas atuais da minha vida têm se mesclado, e no final das contas, todos se resumem a única pergunta: eu realmente acredito no que venho fazendo?

# 1. Dizendo “não”

Após 25 anos de uma vida marcada por comportamentos ‘altruístas’, ‘generosos’ e ‘desapegados’, finalmente me peguei definindo melhor minhas verdadeiras motivações. Nada de altruísmo ou de generosidade: passividade sempre foi minha maior característica. Frustrar alguém? A morte! Negar um pedido? Nunca! É interessante reparar que, quando você resolve se amar, fazer o que você não quer se torna absolutamente impensável. Fatalmente, você começa a mudar sua postura, o que, vez por outra, acaba afastando as pessoas de você. Se antes você passava por cima de todos os seus desejos em prol do bem-estar alheio, hoje você está cheia disso e todo mundo te estranha. Você não vai cumprir as expectativas alheias e acaba virando uma megera abominável, uma filha da puta insensível e egoísta ao extremo, só porque não quer de jeito nenhum ir numa balada insuportável apenas pra agradar a sua amiga. O mais curioso é que você finalmente entende que, para muitos, é melhor que você esteja infeliz, desde que continue fazendo tudo o que esperam de você. Ninguém curte uma bela mudança. Eu paro por aqui e, como diz um amigo meu, só dou a mão e só.

# 2. Perdoando

Todo mundo já ouviu aquela máxima que diz que perdoar ao outro requer que, antes de mais nada, perdoemos a nós mesmos. O problema é que nem sempre damos ouvidos a estes clichês, especialmente quando a gente ainda não entrou numas de se prejudicar a ponto de ter que se perdoar. E convenhamos que é tão mais fácil culpar o outro do que assumir nossa responsabilidade. Perdoar a si mesmo é extremamente difícil, reconhecer nossas fraquezas humanas e finalmente compreender que sempre fazemos algo na tentativa de acertar torna-se, via de regra, impossível quando estamos recheados de culpa e auto-comiseração. Atenção, navegantes: não há perdão se não houver, antes de mais nada, aceitação. No balanço das coisas, se você se sente uma boa pessoa e dorme tranquilo com sua consciência, o perdão se torna mais fácil. Pare de negar e reconheça sua humanidade e sua infinita ignorância nesta vida. Errou por tentar acertar, errou e aprenda com o erro. Tem sido difícil me perdoar por ter sido tão cruel comigo mesma, por ter sido uma grande escrota com meu corpo e com minha mente, por ter me permitido afundar como afundei. As consequências disso são devastadoras, e tenho pago meus pecados: de remédios psiquiátricos a broncas do meu sensei, ando recuperando os sentidos perdidos. E aos outros que me magoaram? Se é difícil perdoar, imagina agradecer.

# 3. Agradecendo

Meu sensei, Mestre Rato, viu o quanto eu havia ficado puta da vida quando uma atleta da outra academia me acertou um Mawashi bem na boca no último treino. A raiva não se devia simplesmente ao fato de que, naquele momento em específico, golpes na cabeça estavam proibidos. Minha raiva vinha da humilhação do meu primeiro chute na cara em 2 anos de Muay Thay. Quando sensei Rato e sensei Jurandir viram minha mágoa (a despeito dos pedidos de desculpas da lutadora em questão), tentaram me consolar, dizendo que, por mais que minha defesa tivesse sido falha, havia sido falta e que eu ganharia o round em questão. Sensei Jurandir me pergunta então: “Você agradeceu a ela por ela ter te mostrado seu ponto fraco?” Não, sensei, ainda não consegui perdoá-la por isso. Como então agradecer? Se perdoar é difícil, agradecer a quem te machucou torna-se, fatalmente, uma guerra santa na busca pela paz. Meu Deus, quem já pensou em agradecer ao filho da mãe covarde que te enganou? Agradecer as mágoas, pois te ajudaram a ser uma pessoa melhor? Agradecer por ter sido levada ao fundo do poço, pra que sua ascenção fosse mais sincera?

# 4. Conclusões

Sensei, eu juro que tenho tentado agradecer a todas as pessoas cretinas que um dia me fizeram sentir uma bosta. Sei que elas, eventualmente, e indiretamente, me ajudaram a ser uma pessoa melhor, mais forte e mais honesta. Sei que, graças a elas, meus “nãos” têm sido mais articulados e menos radicais. Eu tento me perdoar todos os dias por ter me deixado levar, e tento agradecer por ter chegado neste ponto cruel de desejar coisas terríveis, pra verificar que, conhecendo o que é verdadeiramente amargo, todo o resto se torna mais doce.

Eu tento perdoar a todos que me machucaram. Tirar lições de suas palavras terríveis. Aprender com erros quase fatais. Eu ainda tenho muito chão pela frente. Ainda não sei, mas um dia espero poder agradecer, sem sede de vingança, os golpes que a vida me deu.

(Inclusive da vaca que me acertou o mawashi. O perdão até está próximo, mas eu juro que no próximo treino arrebento a cara dela.)

sexta-feira, maio 16, 2008

Conta pra mim?

Ei, você aí. Você mesmo. Não finja que não é com você, não entra no Orkut, não muda de página, não diz que não está... eu sei que você está. Isso aqui é importante.

Escuta, você ainda não cansou? Dessa vida bandida? Não cansou de sobreviver ao invés de viver? Não cansou de trabalhar horas a fio, durante dias e dias intermináveis, pra poder respirar aliviado no fim do mês ao ver sua conta zerada, porém sem dívidas?

Olha só, você aí, você mesmo, sentado na sua poltrona vendo a vida passar... não tá de saco cheio de estar enfiado nesse maldito sistema? Ter que correr, cumprir horário, engolir sapo de chefe, sacrificar finais de semana, e achar que tudo isso é o mais importante? Você não se encheu dessa maldita obrigação de ter que viver nos conformes?

Pergunta: você ainda vive no piloto automático? Ainda faz o óbvio? O que todos esperam que você faça? “Ahhh, mas tão linda assim, uma menina tão inteligente... dava pra esperar tão mais dela... !”. Você ainda acredita nisso aí?

Você tem tempo pros seus amigos? Ou sempre responde a mesma coisa: “Putz, hoje trabalho até tarde, e vou esticar pro fim de semana...”? Sua família tem sentido sua falta? Me diz, você aí, confessa... quando jogou baralho com a sua mãe pela última vez? Quando viu um filme com sua irmã pela última vez? Ah... você não tem tempo...? Tá... entendi. E pra você, tem tido tempo? De se curtir? Ou curtir pra você significa amargar uma bela ressaca no domingo?

Pergunta de novo: tem realizado seus sonhos? Ou melhor: você sabe quais são eles? É, eu sei que é difícil. Mas você pensa sobre eles? Pular de para-quedas, fazer aquela viagem, diz pra mim: qual é o seu sonho? (Não, não falo de objetivos, mas de sonhos, aquilo que a gente nem se permite mais fantasiar porque nunca haverá tempo, dinheiro ou disposição o suficiente. Aquilo que chamamos de ‘loucura’. Sacou?)

A título de curiosidade, me diz uma coisa. Você tem se olhado no espelho? Tá gostando de você? Ou tá se achando gordo, feio, com rugas? Tem se achado fantástico ou patético? Se julga uma boa pessoa? Achou sentido na sua vida? Vamos mais fundo – que tipo de pessoa você acha que é? Usa lenços ou os vende? Ah... você não entendeu? Desculpa.

Mas vem cá, e me diz uma coisa... você se sente cansado?

Ou você é feliz?

quinta-feira, maio 08, 2008

Resgate em versos

Ao resgate insano minha vida leva
O sonho morto de teu desencanto
No homem impuro em que se fez o pranto
Uma história de amor se encerra

A nobre luta pela paz levanta
Bandeira branca que de luz se ofusca
Do sangue vivo em que se fez a busca
Sobra orgulho desta guerra santa

Da lua clara que no céu desmonta
Nasce a honra que a mim foi dada
E em minha alma o calor desponta

Pois se foi justa a batalha travada
E dela tenho-me em alta conta
Do doido acaso sairei curada

quarta-feira, abril 23, 2008

por um segundo mais feliz

Ah, mas que coisa boa é ver a vida como ela realmente é, quando os véus se erguem e a gente vê que o que importa mesmo é sempre o sentimento.

Que coisa boa é ver que se tem tantos amigos maravilhosos que fica até difícil ver todos, que se desse você reuniria todos dentro de uma caixinha e levaria no bolso pra todos os lugares do mundo.

Coisa boa mesmo é se sentir feliz só de ver céu azul e sentir o vento lestando nos seus cabelos. Entrar na água gelada de um mar tão calmo quanto seu coração, sentir que sua alma está em perfeita harmonia com aquele oceano – a ponto de você e o oceano quase virarem uma coisa só.

Coisa boa que é encontrar uma pessoa nova que você nunca viu na vida e em 15 minutos de conversa descobrir que quer conversar mais ainda, porque aqueles minutinhos acrescentaram algo em sua aprendizagem nesta vida.

Coisa gostosa que é torta de limão às 3 da manhã jogando Driver derrubada no colchão da casa de um amigo, dando risada e fazendo mímica de músicas idiotas, tomando baldes de café e não querendo ir embora porque rir é bom demais!

Coisa boa de verdade é olhar pra si mesma com olhos generosos e se fazer um cafuné, sentindo que seus cabelos merecem todas as mãos do mundo o acariciando, mas que a mão mais importante é a sua própria.

Que coisa fantástica é se sentir bem por dentro e por fora, sentir-se útil, produtiva, boa no que faz. Linda por fora, fabulosa por dentro, inteligente e sensata na maioria das decisões que toma. E vale lembrar: tudo isso sem ninguém pra te confirmar, ninguém pra dizer que você realmente é tudo isso ou que não é nada disso. Bom mesmo é opinião própria!

Bom mesmo nessa vida é perceber que cada instante é consequência de um outro, e que esses instantes é a gente que faz. Bom mesmo é perceber que, como a responsabilidade, o mérito também é todo nosso: a gente que escolhe a felicidade ou a tristeza.

Bom mesmo é essa coisa de cada dia ser uma nova etapa desta busca incessante por um segundo sempre mais feliz.

terça-feira, abril 15, 2008

Quem canta seus males espanta


Eu tenho bem viva na memória a lembrança de, aos 10 anos de idade, cantar na frente do espelho fingindo ser a Madonna. Eu fazia caras, bocas e até beicinhos, cantava Like a Virgin tudo errado e me escondia rapidinho, disfarçando caso alguém entrasse no quarto.

Desde pequenininha eu sonhava em cantar. Não pela fama, mas tinha vontade de ter uma voz bonita e ser admirada por isso. Tinha inveja de crianças que cantavam, como o Jordy (sim, aquele pentelhinho) ou o Jairzinho e a Simony. Morria de vontade de cantar, mas detestava minha voz. Continuava disfarçando quando alguém entrava no quarto, e cantava baixinho durante as aulas de música, pra professora não ouvir a minha voz.

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Ilhabela, 30 de março de 2008 – 17h45

Estamos na sala de casa, eu, minha irmã, a Ady, seus dois filhotes, a Lícia e um cara que eu nunca vi na vida, o Edílson. Estamos falando sobre vida, morte, experiências, dores e amores, quando algo me faz abrir minha alma. E eu falo. Falo durante horas sobre o verdadeiro resgate de vida que tenho feito, e confesso que, após essa tormenta toda pela qual passei, decidi por fazer aulas de canto, um desejo antigo mas nunca esquecido. Falo dos sonhos infantis e de como meu coração se aquieta e meus pensamentos se distraem quando canto. Todos apóiam. Me vira o tal do Edílson, que até então eu não sei o que está fazendo ali e nem quem é ele.

- Você deve mesmo cantar. Cantar é divino, você entra em contato com você mesma, eleva a alma. Você já cresceu muito nestes 2 meses que contou, eu vejo nos seus olhos o quanto você já evoluiu. Mas cantar vai ajudar muito mais. É fato: você precisa cantar.

Assombrada, me pergunto quem é aquele cara e por que está falando aquilo tudo, com ares de quem sabe das coisas e de quem muito me conhece. Ele fala com tanta propriedade que eu sinto confiança: eu preciso cantar.

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Quando era adolescente, convivi algum tempo com um pessoal da área musical. Conheci uma cantora bastante talentosa, e sempre senti aquela pontinha de inveja branca, vontade de fazer igual.

Nas rodinhas de violão, cantava baixinho porque sabia que sempre havia alguém que cantaria melhor, mais alto e mais afinadinho, mas no fundo morria de vontade de soltar o gogó. Deixava pra cantar no chuveiro as músicas que havia ouvido, contando com a acústica do banheiro que, como a do metrô, sempre favorece até mesmo gralhas como eu.

Adorava ouvir minha irmã cantar – sua voz é limpa, suave e afinada, e me desperta sorrisos.

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Ilhabela, 30 de março de 2008 – algumas horas depois

Depois da conversa da tarde, seguimos todos para o Santa Mia. Quer dizer, todos menos o tal Edílson, a Ady e os pimpolhos. Lá está o Jorge Pinheiro, cantor e violonista talentosérrimo – voz de Toquinho e cadência de Chico Buarque. A Lícia vira pra mim e diz que não era à toa que o Edílson fora à minha casa naquela tarde – se trata de um espírita ultra evoluído, médium de verdade, e que o que ele fala, se escreve. Lembro de suas palavras: “Você precisa cantar”.

O bar inteiro canta “Killing me Softly” enquanto o Jorge apenas dedilha o violão. Eu acompanho a cantoria, certa de que estou devidamente camuflada em meio a tantas vozes. Dali a pouco, lá está ele apontando pra mim, dizendo que está ouvindo minha voz, e me chama para cantar. Recuso, roxa de vergonha e convencida de que ele está enganado – deve ser a voz da minha irmã, limpa e afinada, que ele está escutando. Quando ele termina de tocar, vem à minha mesa e pergunta meu nome.

- Nana.
- Nana, você vai me prometer uma coisa: quando você vier de novo aqui, vai trazer uma música que você vai escolher, vai treinar e vai cantar comigo.
- Desculpe, mas o senhor se enganou. Eu não canto! Minha voz é rouca, grave e eu não sei cantar! Você deve ter ouvido a voz da minha irmã aqui ó, super afinada.
- Foi a sua voz rouca e grave que eu ouvi. Vem aqui de novo e canta. Promete?
- Puxa, assim nunca mais venho aqui! (rio sem graça)
- Não diz isso... você precisa cantar!


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Eu adorei quando a Ana Carolina fez sucesso porque finalmente havia alguém com voz grave cantando bem. Odiava a Zizi Possi e o Edson Cordeiro com todas as minhas forças, porque sabia que jamais cantaria como eles – nem no chuveiro, nem no metrô.

Então eu gostava mais da Ana Carolina e um tempo depois veio a fase da Mônica Salmaso. A Cher também me agradava bastante, mas eu cantava baixinho porque podia parecer estranho sair por aí cantando “do you believe in life after love?”. As pessoas podiam achar que eu estava deprimida, e pra mim a música sempre foi fonte de alegria.

Nos últimos tempos, comecei a cantar músicas tristes. Era a comprovação de que algo estava profundamente errado comigo. A depressão entristecera até mesmo minhas músicas favoritas.


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São Paulo, 4 de abril de 2008 - 23h45

Na festa de uma amiga, começo a contar a um amigo especialíssimo e ultra sensível a grande coincidência da semana anterior, quando havia sido chamada para cantar em público. Ele me ouve atentamente.

- ... e então ele me chamou para cantar no palco, e imagina, isso para mim é im-pen-sá-vel! Nunca aconteceu isso comigo em toda a minha vida, pra mim era um sinal claro de que eu realmente tinha que fazer a aula de canto.
- E você foi cantar?
- Não, claro que não. Mas depois, presta atenção, ele veio falar comigo e você não sabe o que ele me disse.
- Que você precisava cantar.
- ... mas como você...?
- Porque você PRECISA cantar e logo.

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Depois que decidi mudar de vez a minha vida, empenhei forças para realizar todos os antigos desejos e o primeiro deles no qual me debrucei foi a vontade de cantar. Pensei, pensei, pensei... e resolvi fazer aulas de canto. Decidido isso, não parei mais de cantar pela casa. Cozinho cantando Marisa Monte, tomo banho cantando Alceu Valença, dirijo cantando Adriana Calcanhoto. Aceitei as músicas tristes como partes de mim mesma, como minha Voz Interior se fazendo ouvir. 10 vezes por dia me pego cantando “tudo em você é fugaz”.

Tomei coragem e liguei pra professora de canto indicada pela minha terapeuta, a qual, assim que contei a idéia, me disse que, era óbvio, eu precisava cantar. Liguei e marquei. Começa essa quinta. Eu estou ansiosérrima – muito embora a palavra ansiedade hoje em dia me deixe com os cabelos de pé, nada pode definir melhor o meu estado de excitação musical.

Continuo cantando mal e destruindo rodinhas de violão. Mas hoje eu me peguei a cantar as canções do velho Raul e ele não podia estar mais certo: “não sei onde tô indo, mas sei que tô no meu caminho”.

quinta-feira, abril 10, 2008

Que nem jiló


Fico absolutamente besta com as voltas que o mundo dá. Já me referi a isso estes dias, aqui, neste mesmo blog, e um dos comentários foi especialmente provocante: o mundo gira tanto que é só dar um pulo que acordamos no Tibet.

Das voltas que o mundo dá, resolvi dar minhas próprias voltas, vasculhar aqui por dentro o que anda acontecendo, como se eu finalmente resolvesse abrir aquele livro que está encostado na estante, empoeirado, há tantos e tantos anos. Como uma verdadeira represa, que quando abre suas comportas, inunda todo o resto com suas águas – sem retorno. Não consigo mais parar esta auto-leitura.

Há tempos que Eu tentava falar, me explicar, me fazer ouvir. Mas Eu jamais quis ouvir nada do que Eu tinha a dizer. Preferi calar suas mil vozes, seus mil ruídos, como quando alguém comenta sobre o placar do último jogo de futebol em meio a um enterro – “Shh, não é apropriado!”. Ou como falar sobre morte a crianças (não, vamos esconder delas o fato de não haver somente beleza no mundo, que tal?).

Encontrei tantas cores aqui dentro que minha visão chegou a ficar turva. Não me senti dentro de mim, me senti dentro de um sonho, e achei que estava, finalmente, após 25 anos, definitivamente, absolutamente pirando. Me perguntei se eu estava normal e não estava, meu corpo estava ali mas minha alma estava perambulando por caminhos ainda desconhecidos. Li e reli bulas de remédios, tentando achar uma explicação. A química devia estar me deturpando.A sensação permaneceu mesmo após alguns dias totalmente clean. Realmente achei que estava à beira de um surto.

E então compreendi: despertei. Havia encontrado um muro em meio ao meu caminho e nada além dele eu conseguia enxergar. Só concreto, vigas, tijolos, pedra. Tentaram me avisar que além dele existia muito mais – mas a proximidade de meus olhos em relação ao obstáculo embaçava minha visão. Foi preciso distanciamento pra ver que esse muro tinha lá suas falhas, tinha um término. De repente, um bloco de cimento caiu e vi que atrás daquele buraquinho que se abriu existia tão mais – tão mais vida, tão mais amor, tão mais energia e especialmente movimento. Existia vida além dele, um mundo de coisas acontecendo do lado de lá, enquanto eu me aprisionava do lado de cá vendo terra, argila e cal.

Um instante de lucidez: isso não tem preço. Abrir a mente e ver suas escolhas, revisitar uma por uma e resgatar antigos desejos. Eis o grande barato da vida – não é clichê a recomendação de se viver cada minuto como se fosse o último. Cada segundo, cada minuto, cada dia ou semana são únicos, particulares. Quando passam, é quase como se nem existissem mais, viram sombra e fica apenas o gosto (amargo? doce?) das escolhas realizadas.Um segundo não volta nunca. Um abraço não volta nunca, nem um beijo, nem um sorriso. Uma vez apenas não vale, pois jamais poderá se repetir. Uma vez apenas não conta. “Uma vez é nada”.

Faço, a partir deste momento, de cada instante uma sombra mais colorida nas memórias que virão. Tento com todas as forças sustentar o contentamento o máximo que consigo, mesmo sabendo que aquilo já nem existe mais, somente dentro de mim mesma – e por isso é eterno. Sigo na busca de momentos felizes como se fosse esta minha única opção, pois ela o é. Qualquer outra coisa, hoje, não é mais uma alternativa.
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É curioso como as voltas que o mundo dá te levam geralmente a lugares quase inimagináveis, como o Tibet ou um sebo desconhecido e empoeirado no centro da cidade, cheirando mofo e história. Cada um desses momentos tem suas dores e suas delícias, como óleo de rícino ou puro jiló.

A amargura de um remédio sempre pode ser atenuada pelo reconhecimento do bem que ele nos faz...

quinta-feira, março 27, 2008

Back to the track

1 .love.

Achei que num momento desses eu ia mais era querer cortar os pulsos. Cortei, mas de uma forma diferente. Amor foi o que gravei nele: sempre. No outro pulso virá a vida. Amor à vida, este é meu lema atual.
Não doeu nadinha. Meu tatuador, homem mais confiável impossível, me perguntou: “Nana, o amor dói?”. Tinha achado que não e desdenhei. Depois ele passou a tinta por cima. Ardeu pra burro, reclamei. Palavras do sábio Maurício: “O que dói não é o amor, mas passar por cima dele”. Éééé....!
A tatuagem tá linda e soltando as casquinhas. Como toda ferida de amor, leva um tempo pra cicatrizar.

2. Da separação à reparação

Todo mundo sabe: terminar um namoro é um porre. Primeiro tem a fase do inconformismo, que a gente reza pra passar logo. Tudo o que conseguimos fazer é abrir a boca de cair o queixo: “Ahn? Como assim?”. Depois vem a fase do conformismo e da raiva. A sede de vingança. Informações pipocam por todos os lados sobre o infeliz. Você fica sabendo dos podres. Por fim vem a aceitação: acabou e a vida continua. Mesmo assim a gente se corrói de lembranças. E um belo dia, tudo passa. Enquanto isso você retoma sua vida, seus amigos, suas viagens e seu amor-próprio. Retoma também os pretês do passado (a gente sabe: terminou, eles caem matando. É um pegapracapá). Você retoma também os amores antigos que te faziam tanta falta no dia-a-dia, e relembra como é bom tomar café com ele toda quinta (ou quase toda) ali do ladinho, às vezes rindo e às vezes chorando. Às vezes você lembra daquela desgraceira toda e respira aliviada: o mundo girou e você graças a Deus não está no mesmo lugar. E finalmente entende – a amplitude emocional do cara era de uma colher de chá. Você? Um poço sem fim.

3. Better now

A única coisa que eu não ando entendendo é por que raios algumas pessoas que eu nem sequer falava oi de repente estão desejando-me melhoras. Ou dizendo que não querem me ver assim. Assim? Amores, vocês não me viram 1 mês atrás.

4. Na beira do portão

Na onda do amor-próprio, finalmente me dei conta: não sou mulher de curtir às 5 da manhã, nem de dar beijinho na beira do portão. Ok, a carne é fraca, o diabo tenta e a gente gosta, mas não tô pronta. Desculpa, não tô. Tô mais pra ter orgasmos mentais do que propriamente sexuais. Minha cabeça tem sido meu principal órgão sexual, e me dói um pouco pensar em outras mãos me fazendo carinho. Ainda não me acostumei, me dá vontade de dizer ‘se liga, tenho dono’. Mas não tenho – pelo menos não uma terceira pessoa. A dona sou eu, o corpo é meu e vão ter que esperar. Se quiserem. Super okei, sou totalmente a favor do ‘bola pra frente que atrás vem gente’. Mas como diz um amigo meu... calma, mané. Pra que tanta pressa?

5. Luz pra cego... que piada!

A gente só vê aquilo que quer. Ignora os instintos e interpreta tudo na busca por resoluções mais coloridas e românticas. Como diz meu mais novo amigo Aruã (picareta pra caramba), o homem tem é que voltar a ser bicho. Parar de viver de ilusão. A vida é obscena de tão lúcida, já dizia a Senhora D. Concordo com ela: a maior das obscenidades é a hipocrisia. E ponto final.

6. E no balanço das coisas...

Eu ando melhor. Tô respirando melhor, comendo melhor, rindo melhor, vivendo bem mais. Não minto: tô ainda lá pelos 30%. Ainda dói. Ainda tô confusa com o rumo da minha vida. Pego minhas trouxas e vou de vez? Faço aquele curso? Aqueles bicos? Saio com aquela galera? Vou no forró, no sambarock ou no cinema? Como pizza ou guarda-chuvinhas de chocolate? Peço o tamanho M ou P? Vale a pena gastar tudo isso? Anel neste dedo ou naquele? Vejo comédia ou um documentário belga? Excluo do orkut? Bloqueio do msn? (que porra de tecnologia, não?) Café com açúcar ou adoçante? Cianureto ou arsênico? É tanta escolha na vida que eu nem sei o que escolher. Mas a vida é uma só, e eu escolho escolher tudo. Ao mesmo tempo. De uma vez só.

Eu sou o que sou. Me perdôo pelo meu passado, perdôo meu presente. Estou livre.

quinta-feira, março 06, 2008

Na cara

Um almoço que virou um suco, uma conversa pra matar a saudades que virou um monólogo.

Encontro um amigo, muito querido e talvez o mais de todos, ali na esquina da Wisard com a Fradique, e a princípio o papo está ameno. A baladinha de sexta, ah, super legal, valeu pelo vip, e as bandas? Ah, andam bem, cada um faz sua parte. A conversa passa pelos meus cabelos e chega à inevitável pergunta “Como você está?”

Difícil de responder. Até tento disfarçar, o rosto não convence, esse cara sabe muito de mim. Ele evita me olhar nos olhos como sempre, e isso a princípio me incomoda. A princípio apenas, porque depois é um alívio – mal eu consigo olhar para seus olhos.

Ali está ele, falando de mim como quem me conhece há tantos e tantos anos, revelando seus dissabores e seus desapontamentos a meu respeito. Me imaginava uma líder. Alguém de sucesso. Alguém de respeito. De forma alguma esperava que eu chegasse ao ponto que cheguei, precisando da química farmacêutica pra fazer meu sangue correr pelas veias, passando tardes modorrentas a fio esperando por uma resposta, pensando nas duas únicas alternativas que restam a alguém como eu, segundo sua visão: mudar o mundo ou cair fora dele.

- Cair fora dele?
- Talvez se matar?


Esse cara conhece muito de mim, definitivamente. Mudar o mundo? Tanta coisa pra alguém pequena como eu.

Volto pra casa com uma sensação de desolamento total, um frio na espinha de quem vê o último lampião da rua apagar repentinamente. Desapontei talvez a última pessoa que ainda tinha esperanças a meu respeito, que me enxergava ir longe. Estourei o último fio da cordinha que segura meu barco a este tosco atracadouro.

Como um tapa na cara, eu percebo o que tantos tentaram me dizer: cavei minha própria cova. Onde estava aquele ser de luz, aquele ser de esperança? Aquela pessoa grata e feliz com as pequenas coisas, que amava ter tempo livre e se sentia criança? Aquela menina ainda não tão egoísta, que sonhava com a revolução, com a bondade sobre todos, que tinha força nos punhos pra fazer diferente? Terá mesmo virado ela alguém tão opaca, tão fraca, tão desalmada? Esqueci meus sonhos?

Sigo em sua busca nem que seja em uma volta pelo bairro, arfando como o cão que trago na guia. Em meio a milhões de cigarros e latas tombadas, ergo as mãos e as fecho com força, cravando na pele a lembrança das unhas, um dia quebradiças e hoje recuperadas, como garras recém-descobertas.

Eu ainda vivo. Se alguém me vir por aí, por favor me encontre.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Half-empty


Half-full?
Half-empty?
Or, maybe, twice bigger than it should be?

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Previsível

Tem certas coisas que a gente lê tempos depois e percebe que o destino era certo.
Às vezes a gente só se dá conta milênios depois.
Graças a Deus às vezes a gente ainda se dá conta...
Em 06. 08. 07 - pra quem conhece o fim da história, previsível é até pouco...
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20h00 em ponto, segunda feira, retorno de férias.
Toca o celular.

- Alô?
- Olha só hein, volta de férias e nem avisa nada?
(ahn??)
- Ah, oi querido, tudo bem?
- Tudo! E aí, já de volta? Como foi de viagem? Tinha trânsito na estrada? E o tempo? Já foi pro hospital hoje?
- Ah, que? Já, fui sim, lá tava sol, a estrada tava sussa.
(algo mais??)
- Que horas você chegou?
- Umas 8. Peguei a balsa de 4h30.
(cacete, virei o elói)
- Cedinho! E aí, me conta, tudo bem?
- Aham! E vc?
- Tudo ótimo, tô fazendo plantão hoje.
- Ah... legal...
(super)
- E aí, como tá sua semana, poxa você nem manda notícias né?
- Ah... sabe como é... vc passou por isso, voltar de férias é foda.
(ainda mais depois da noite de sábado, loucura!)
- É, eu sei, eu sei, tô brincando. Queria te ver, como tá sua semana?
- Amanhã treino, quinta treino, quarta ainda não sei, mas fim de semana tô aí.
- O que você disse?
- Eu disse que no fim de semana estou aqui em Sampa.
(ou quer que eu desenhe?)
- Ah tá. A gente podia tentar se ver na quarta, né? (previsííível!) Ou amanhã quando sair do Central podia passar na sua casa se vc estiver de bobeira, vou estar tão pertinho.
- Ah, até pode ser, sei lá.
- Tô com saudades de você.
- Ah... eu... eu tam-tam---bém...!
(será que tou??)
- Então amanhã eu te ligo, vamos ver se a gente se vê logo.
- Firmeza.
- Que?
- Eu disse "beleza"!
- Então tá linda, boa noite, se cuida viu?
- Ah, você também, bom plantão. Beeeeeijo.


Depois ainda dizem que mulher é previsível!

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

O Carnaval finalmente acabou. Não foi preciso usar nenhuma máscara.

Então, esta sou eu: 25 anos pré-feitos, sem emprego, sem um real no bolso, e uma dívida enorme para com a minha mãe. Algo que, certamente, não poderei pagar tão cedo. Tenho uma profissão que não me serve para nada neste momento, um título de especialização que jamais sai. Uma família fragmentada, um coração doído.

Sem emprego, sem dinheiro, sem muitas perspectivas pro futuro. Um namorado lindo que adoro e com o qual me sinto bem, com quem dou as melhores risadas, mas que ultimamente quase não vejo. Ando anestesiada.

Desconfio de tudo e de todos. Acho que alguém quer me fazer mal. Não conto meus segredos com medo deles serem revelados. Não acredito mais nos meus amigos, em Deus, em mim mesma. Olho as pessoas na rua com medo que elas descubram meu mais novo rótulo: Depressão Ansiosa. E, infelizmente, minha consciência aponta: Nana, você está enlouquecendo.

As crises de ansiedade se intensificaram. Tem dias que passo o tempo todo com taquicardia, dor no estômago, os joelhos bambos. De repente, de um minuto pro outro, rio maniacamente. Pego uma cerveja, fumo um maço inteiro de cigarros. Estas oscilações preocupam minha terapeuta; não sei o que me preocupa mais, os honorários dela ou a sua opinião a meu respeito: Sertralina ajudaria bastante, disse ela nesta mesma tarde. Recuso-me a ser medicada. Nem mesmo na Medicina acredito mais.

Me assusto com minha inversão de valores: minha mãe, subitamente, virou a pessoa que mais admiro na face da Terra. Jamais imaginei que pensaria assim. Por um lado, é reconfortante – elimina a idéia de que podemos prever as catástrofes do futuro. Por outro, me arrepio diante da imprevisibilidade da vida.

Finalmente acabou o Carnaval. Caíram-se todas as máscaras. Chega de euforia desmedida. De bundas perfeitas balançando ofensivamente dentro da minha TV. Começa agora aquele período insuportável que vai do Carnaval até o Ano-Novo.

As águas de março se adiantaram este ano. Chove também aqui dentro. A saudade aperta... e um grito na garganta se sufoca quando vejo uma pequena planta nascer entre as rachaduras do asfalto da violenta São Paulo.

Se Deus existir e estiver me vendo, só peço que entenda.