quinta-feira, março 27, 2008

Back to the track

1 .love.

Achei que num momento desses eu ia mais era querer cortar os pulsos. Cortei, mas de uma forma diferente. Amor foi o que gravei nele: sempre. No outro pulso virá a vida. Amor à vida, este é meu lema atual.
Não doeu nadinha. Meu tatuador, homem mais confiável impossível, me perguntou: “Nana, o amor dói?”. Tinha achado que não e desdenhei. Depois ele passou a tinta por cima. Ardeu pra burro, reclamei. Palavras do sábio Maurício: “O que dói não é o amor, mas passar por cima dele”. Éééé....!
A tatuagem tá linda e soltando as casquinhas. Como toda ferida de amor, leva um tempo pra cicatrizar.

2. Da separação à reparação

Todo mundo sabe: terminar um namoro é um porre. Primeiro tem a fase do inconformismo, que a gente reza pra passar logo. Tudo o que conseguimos fazer é abrir a boca de cair o queixo: “Ahn? Como assim?”. Depois vem a fase do conformismo e da raiva. A sede de vingança. Informações pipocam por todos os lados sobre o infeliz. Você fica sabendo dos podres. Por fim vem a aceitação: acabou e a vida continua. Mesmo assim a gente se corrói de lembranças. E um belo dia, tudo passa. Enquanto isso você retoma sua vida, seus amigos, suas viagens e seu amor-próprio. Retoma também os pretês do passado (a gente sabe: terminou, eles caem matando. É um pegapracapá). Você retoma também os amores antigos que te faziam tanta falta no dia-a-dia, e relembra como é bom tomar café com ele toda quinta (ou quase toda) ali do ladinho, às vezes rindo e às vezes chorando. Às vezes você lembra daquela desgraceira toda e respira aliviada: o mundo girou e você graças a Deus não está no mesmo lugar. E finalmente entende – a amplitude emocional do cara era de uma colher de chá. Você? Um poço sem fim.

3. Better now

A única coisa que eu não ando entendendo é por que raios algumas pessoas que eu nem sequer falava oi de repente estão desejando-me melhoras. Ou dizendo que não querem me ver assim. Assim? Amores, vocês não me viram 1 mês atrás.

4. Na beira do portão

Na onda do amor-próprio, finalmente me dei conta: não sou mulher de curtir às 5 da manhã, nem de dar beijinho na beira do portão. Ok, a carne é fraca, o diabo tenta e a gente gosta, mas não tô pronta. Desculpa, não tô. Tô mais pra ter orgasmos mentais do que propriamente sexuais. Minha cabeça tem sido meu principal órgão sexual, e me dói um pouco pensar em outras mãos me fazendo carinho. Ainda não me acostumei, me dá vontade de dizer ‘se liga, tenho dono’. Mas não tenho – pelo menos não uma terceira pessoa. A dona sou eu, o corpo é meu e vão ter que esperar. Se quiserem. Super okei, sou totalmente a favor do ‘bola pra frente que atrás vem gente’. Mas como diz um amigo meu... calma, mané. Pra que tanta pressa?

5. Luz pra cego... que piada!

A gente só vê aquilo que quer. Ignora os instintos e interpreta tudo na busca por resoluções mais coloridas e românticas. Como diz meu mais novo amigo Aruã (picareta pra caramba), o homem tem é que voltar a ser bicho. Parar de viver de ilusão. A vida é obscena de tão lúcida, já dizia a Senhora D. Concordo com ela: a maior das obscenidades é a hipocrisia. E ponto final.

6. E no balanço das coisas...

Eu ando melhor. Tô respirando melhor, comendo melhor, rindo melhor, vivendo bem mais. Não minto: tô ainda lá pelos 30%. Ainda dói. Ainda tô confusa com o rumo da minha vida. Pego minhas trouxas e vou de vez? Faço aquele curso? Aqueles bicos? Saio com aquela galera? Vou no forró, no sambarock ou no cinema? Como pizza ou guarda-chuvinhas de chocolate? Peço o tamanho M ou P? Vale a pena gastar tudo isso? Anel neste dedo ou naquele? Vejo comédia ou um documentário belga? Excluo do orkut? Bloqueio do msn? (que porra de tecnologia, não?) Café com açúcar ou adoçante? Cianureto ou arsênico? É tanta escolha na vida que eu nem sei o que escolher. Mas a vida é uma só, e eu escolho escolher tudo. Ao mesmo tempo. De uma vez só.

Eu sou o que sou. Me perdôo pelo meu passado, perdôo meu presente. Estou livre.

quinta-feira, março 06, 2008

Na cara

Um almoço que virou um suco, uma conversa pra matar a saudades que virou um monólogo.

Encontro um amigo, muito querido e talvez o mais de todos, ali na esquina da Wisard com a Fradique, e a princípio o papo está ameno. A baladinha de sexta, ah, super legal, valeu pelo vip, e as bandas? Ah, andam bem, cada um faz sua parte. A conversa passa pelos meus cabelos e chega à inevitável pergunta “Como você está?”

Difícil de responder. Até tento disfarçar, o rosto não convence, esse cara sabe muito de mim. Ele evita me olhar nos olhos como sempre, e isso a princípio me incomoda. A princípio apenas, porque depois é um alívio – mal eu consigo olhar para seus olhos.

Ali está ele, falando de mim como quem me conhece há tantos e tantos anos, revelando seus dissabores e seus desapontamentos a meu respeito. Me imaginava uma líder. Alguém de sucesso. Alguém de respeito. De forma alguma esperava que eu chegasse ao ponto que cheguei, precisando da química farmacêutica pra fazer meu sangue correr pelas veias, passando tardes modorrentas a fio esperando por uma resposta, pensando nas duas únicas alternativas que restam a alguém como eu, segundo sua visão: mudar o mundo ou cair fora dele.

- Cair fora dele?
- Talvez se matar?


Esse cara conhece muito de mim, definitivamente. Mudar o mundo? Tanta coisa pra alguém pequena como eu.

Volto pra casa com uma sensação de desolamento total, um frio na espinha de quem vê o último lampião da rua apagar repentinamente. Desapontei talvez a última pessoa que ainda tinha esperanças a meu respeito, que me enxergava ir longe. Estourei o último fio da cordinha que segura meu barco a este tosco atracadouro.

Como um tapa na cara, eu percebo o que tantos tentaram me dizer: cavei minha própria cova. Onde estava aquele ser de luz, aquele ser de esperança? Aquela pessoa grata e feliz com as pequenas coisas, que amava ter tempo livre e se sentia criança? Aquela menina ainda não tão egoísta, que sonhava com a revolução, com a bondade sobre todos, que tinha força nos punhos pra fazer diferente? Terá mesmo virado ela alguém tão opaca, tão fraca, tão desalmada? Esqueci meus sonhos?

Sigo em sua busca nem que seja em uma volta pelo bairro, arfando como o cão que trago na guia. Em meio a milhões de cigarros e latas tombadas, ergo as mãos e as fecho com força, cravando na pele a lembrança das unhas, um dia quebradiças e hoje recuperadas, como garras recém-descobertas.

Eu ainda vivo. Se alguém me vir por aí, por favor me encontre.

segunda-feira, fevereiro 25, 2008

Half-empty


Half-full?
Half-empty?
Or, maybe, twice bigger than it should be?

sexta-feira, fevereiro 22, 2008

Previsível

Tem certas coisas que a gente lê tempos depois e percebe que o destino era certo.
Às vezes a gente só se dá conta milênios depois.
Graças a Deus às vezes a gente ainda se dá conta...
Em 06. 08. 07 - pra quem conhece o fim da história, previsível é até pouco...
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20h00 em ponto, segunda feira, retorno de férias.
Toca o celular.

- Alô?
- Olha só hein, volta de férias e nem avisa nada?
(ahn??)
- Ah, oi querido, tudo bem?
- Tudo! E aí, já de volta? Como foi de viagem? Tinha trânsito na estrada? E o tempo? Já foi pro hospital hoje?
- Ah, que? Já, fui sim, lá tava sol, a estrada tava sussa.
(algo mais??)
- Que horas você chegou?
- Umas 8. Peguei a balsa de 4h30.
(cacete, virei o elói)
- Cedinho! E aí, me conta, tudo bem?
- Aham! E vc?
- Tudo ótimo, tô fazendo plantão hoje.
- Ah... legal...
(super)
- E aí, como tá sua semana, poxa você nem manda notícias né?
- Ah... sabe como é... vc passou por isso, voltar de férias é foda.
(ainda mais depois da noite de sábado, loucura!)
- É, eu sei, eu sei, tô brincando. Queria te ver, como tá sua semana?
- Amanhã treino, quinta treino, quarta ainda não sei, mas fim de semana tô aí.
- O que você disse?
- Eu disse que no fim de semana estou aqui em Sampa.
(ou quer que eu desenhe?)
- Ah tá. A gente podia tentar se ver na quarta, né? (previsííível!) Ou amanhã quando sair do Central podia passar na sua casa se vc estiver de bobeira, vou estar tão pertinho.
- Ah, até pode ser, sei lá.
- Tô com saudades de você.
- Ah... eu... eu tam-tam---bém...!
(será que tou??)
- Então amanhã eu te ligo, vamos ver se a gente se vê logo.
- Firmeza.
- Que?
- Eu disse "beleza"!
- Então tá linda, boa noite, se cuida viu?
- Ah, você também, bom plantão. Beeeeeijo.


Depois ainda dizem que mulher é previsível!

quinta-feira, fevereiro 07, 2008

O Carnaval finalmente acabou. Não foi preciso usar nenhuma máscara.

Então, esta sou eu: 25 anos pré-feitos, sem emprego, sem um real no bolso, e uma dívida enorme para com a minha mãe. Algo que, certamente, não poderei pagar tão cedo. Tenho uma profissão que não me serve para nada neste momento, um título de especialização que jamais sai. Uma família fragmentada, um coração doído.

Sem emprego, sem dinheiro, sem muitas perspectivas pro futuro. Um namorado lindo que adoro e com o qual me sinto bem, com quem dou as melhores risadas, mas que ultimamente quase não vejo. Ando anestesiada.

Desconfio de tudo e de todos. Acho que alguém quer me fazer mal. Não conto meus segredos com medo deles serem revelados. Não acredito mais nos meus amigos, em Deus, em mim mesma. Olho as pessoas na rua com medo que elas descubram meu mais novo rótulo: Depressão Ansiosa. E, infelizmente, minha consciência aponta: Nana, você está enlouquecendo.

As crises de ansiedade se intensificaram. Tem dias que passo o tempo todo com taquicardia, dor no estômago, os joelhos bambos. De repente, de um minuto pro outro, rio maniacamente. Pego uma cerveja, fumo um maço inteiro de cigarros. Estas oscilações preocupam minha terapeuta; não sei o que me preocupa mais, os honorários dela ou a sua opinião a meu respeito: Sertralina ajudaria bastante, disse ela nesta mesma tarde. Recuso-me a ser medicada. Nem mesmo na Medicina acredito mais.

Me assusto com minha inversão de valores: minha mãe, subitamente, virou a pessoa que mais admiro na face da Terra. Jamais imaginei que pensaria assim. Por um lado, é reconfortante – elimina a idéia de que podemos prever as catástrofes do futuro. Por outro, me arrepio diante da imprevisibilidade da vida.

Finalmente acabou o Carnaval. Caíram-se todas as máscaras. Chega de euforia desmedida. De bundas perfeitas balançando ofensivamente dentro da minha TV. Começa agora aquele período insuportável que vai do Carnaval até o Ano-Novo.

As águas de março se adiantaram este ano. Chove também aqui dentro. A saudade aperta... e um grito na garganta se sufoca quando vejo uma pequena planta nascer entre as rachaduras do asfalto da violenta São Paulo.

Se Deus existir e estiver me vendo, só peço que entenda.

quinta-feira, janeiro 24, 2008

Apêndices

- Eu simplesmente adoro desfilar com ela na frente de outras mulheres. A sensação é incrível.

Foi assim que meu amigo Téo*, 30 anos, bonitão, descreveu o estado atual de sua relação com a gatinha da vez. Ela tinha 6 anos a menos, era bonita e - ao contrário de todas as outras mulheres que o Téo havia ficado após ter saído de um relacionamento de 6 anos – era inteligente e gente fina.

- Mas acho que ela ficou meio puta quando eu disse isso.
- Você disse isso para ela?
- Disse, mas a intenção era outra. Queria dizer que não tava no climinha pegação, que preferia estar com ela em vez de estar com as menininhas.
- E é claro que ela não entendeu assim.
- Claro. Ficou nervosa, achou que eu estava fazendo dela um troféu. Foi uma cagada, eu admito. Ela quase chorou, você acredita? Acho que ela tem aqueles complexos e tal, de ser vista só como uma bundinha bonita.
- Talvez ela goste mesmo de você.
- Acho que foi vaidade.


Péra lá! De quem ele estava falando? A vaidade era dela por ter quase chorado, ou a vaidade era dele por desfilar por aí?

- E você se explicou.
- Expliquei, lógico.
- E ela não acreditou, lógico.
- Lógico. Disse que eu era quem nem os canalhas que ela tinha conhecido.
- Você foi mesmo um filho da puta.
- E não é disso que vocês gostam?


Ouch! Confesso: quase desliguei o telefone. Era tão, mas tão nítido que aquilo fazia parte da necessidade de auto-afirmação do Téo que não era preciso um pingo de Psicologia pra perceber. Super ok, eu sabia que o Téo ainda nutria um amor recolhido pela ex, e esta era a primeira tentativa mais séria de esquecê-la. Além de estar com o coração estraçalhado, o Téo era um homem inseguro. Ele precisava provar sua virilidade, esquecer da bota que tomara da ex. No fundo, no fundo, ele queria era causar um ciuminho na garota. Eu entendia tudo isso, mas assim que desliguei o telefone e abri a primeira cerveja, não consegui sossegar.

Mais tarde, me peguei pensando no Téo e na coitada que estava saindo com ele, e então me lembrei do cara fantástico que conheci no inverno passado: carro bacana, profissão respeitável, gentil e educado. E no máximo 10cm de instrumento, o que me confirmou a teoria de que o que importa não é o tamanho da varinha, mas a mágica que ela produz – o sexo era melhor do que muito pintão por aí. Aí me lembrei porque não tinha dado certo: o filho da puta tinha namorada.

Pensando em troféus, desfiles e em auto-afirmação, não pude evitar de me perguntar: precisam os caras emocional e/ou fisicamente desfavorecidos fazer um “esforço extra” para se destacarem e se sentirem seguros? Precisam eles ser abutres no trabalho, ogros no futebol, machistas na cama? Me veio, na hora, a imagem mental de um HD externo: algo fora de si, um apêndice, a confirmar sua capacidade de “armazenamento”. Um falo. Um grande pinto externo.

Mulheres bonitas a tira-colo? Pau-externo.
Músculos? Pau-externo.
Carro do ano? PAU-EXTERNO.

Mas e se esse “HD externo” transformar o cara, internamente, em um mau candidato? Não seria trocar seis por meia dúzia? No caso do Téo, aquilo o tinha transformado em uma perfeito babaca. Me imaginei na situação da mocinha: eu continuaria saindo com um cara que me dissesse aquilo? Só se estivesse muito apaixonada.

Então eu me lembrei de como também tinha adorado aparecer com outro cara na frente do bonitão da praia, e tive que admitir para mim mesma que eu também tinha lá meus HD´s... foi um choque perceber que eu também desfilava, com ou sem carnaval. Adorava estar com um cara e sentir que ele tinha um ciuminho, motivado ou não. Afinal, eu também sou uma grande insegura.

Seria o grande problema ficar dependente dessa função externa? Não seria desejável que todos nós deixássemos de precisar disso em algum ponto da relação, em que finalmente nos sentíssemos seguros, possuidores de tudo o que precisamos ter para fazer alguém feliz? Afinal, não seria esse tipo de padrão o que Freud chamara, lá no comecinho do século XX, de histeria??

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Mais tarde, naquela mesma noite, eu voltei a ligar para o Téo, meio que para me redimir da culpa por tê-lo chamado de filho da puta. E garanti para ele que, se encontrasse com a mocinha, faria o filme dele.

Porque em um momento ou em outro, todo mundo precisa de um HD extra. E desde que na hora H se passe as coisas para o papel, tudo estará a salvo. Na pior das hipóteses, é só não falar nada pra gatinha.

E nem pro bonitão da praia!
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*Nome fictício, pra não acabar de vez com o filme desse anjo...

quarta-feira, janeiro 16, 2008

2008, still alive!


Dizem por aí que o que se planta, se colhe.

Nada nesta vida poderia ser mais verdadeiro... 2008 começou trazendo para mim todo o resultado final de uma abertura emocional que eu julgava nem existir mais. Todo o produto de uma somatória longa, um processo, uma equação de escolhas, decisões, sacrifícios e separações. E o saldo final, graças a Deus, se revelou positivo.

Se dizem que a cada segundo somos a evolução do segundo anterior, sinto hoje que certas coisas estão em pleno processo de evolução. Talvez eu esteja simplesmente contagiada pela febre do Ano-Novo, Vida Nova, mas o fato é que certas coisas começaram a mudar.

Me sinto mais corajosa... embora em alguns momentos eu trema de pânico. As crises de ansiedade têm sido cada vez mais frequentes, cada vez mais intensas, mas tenho aprendido a aceitá-las como momentos que trazem o novo, trazem reflexões, descobertas sobre mim mesma. A cada taquicardia eu percebo um medo diferente, e com ele, algo novo que assumiu novos valores, significados, importâncias. Um mundo ainda desconhecido se abre a cada palpitação e a cada gota de suor que eu sinto escorrer pela minha espinha, quando pensamentos corrosivos se manifestam e eu percebo o que há de valioso atualmente na minha vida.

O puro medo da perda. A perda do mínimo que se espera, do mínimo que se tem, do mínimo que se realmente valoriza quando percebo que no fundo, nada jamais teremos a não ser nós mesmos. O extra. O lucro. O medo da perda.

Fico aqui divagando... se eu não tivesse sacrificado um grande amor... se não tivesse dado a cara a tapa... se eu não tivesse ido naquela bendita festa... se não tivesse aberto a mente e o coração pra maré de coisas que nos inunda o tempo todo mas que geralmente secamos internamente com a aridez de nossas desilusões, de nossas frustrações, de nossas mágoas... onde eu estaria? Em que penumbra estaria me escondendo? No mesmo e antigo medo de sofrer? Na comodidade do conhecido, do reconhecido, do que achamos estar falsamente, mas muito falsamente mesmo, garantido?

Não se trata de merecer ou não certas coisas... se trata de se abrir para o novo e receber quem te bem quer como se fosse uma experiência única e livre de idéias pré-concebidas. Fácil? Jamais. Um treino constante. Um mantra: assertividade, disponibilidade e tranquilidade. 7 dias por semana. Uma luta.

Houveram vezes, há muito tempo atrás, em que achava que vivia só para morrer. Não eram apenas pensamentos fúnebres de uma mente adolescente. Era o pedido de ajuda de alguém arrasada por uma violação de sua infância, alguém que se julgava para sempre condenada a sentir dó de si mesma, que queria às vezes juntar um monte de comprimidos e enfiar goela a baixo, e não fazia por medo.

Certos pensamentos e crenças não somem facilmente. Ainda sou assombrada por certos fantasmas, sem rosto, sem nome, só com cheiros e barulhos. Ainda sofro às vezes com isso, a morte às vezes não me parece assim tão ruim. Mas decidi, de agora em diante, a acrescentar cada vez mais farinha na mistura que me faz ser uma pessoa cada vez mais forte, cada vez melhor, cada vez mais útil e aberta a qualquer tipo de emoção, qualquer tipo.

A antiga criança, a sofrida e suicida, há muito tempo não aparece. Deixou somente um cheiro de insegurança no ar. De paranóia e de certa melancolia. Aprendo com esses resquícios todos os dias. E me sinto renovada e disposta a aceitar o que a vida pode me oferecer.

Pois, se no momento em que julgava que apenas uma cerveja gratuita me faria feliz, encontrei tanta coisa boa, e um coração aberto para me deitar, o que não encontrarei daqui em diante?

Como dizia Lennon, a vida é aquilo que acontece enquanto fazemos planos para o futuro. Meu futuro é agora, e meu lugar é aqui – ainda viva!

terça-feira, dezembro 18, 2007

Sem julgamentos*

Para R. - feliz aniversário...
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E o tempo parou por alguns segundos sem que você soubesse que isso tinha acontecido – natural, eram apenas dois corpos fazendo aquilo que seus instintos pediam. Minha roupa escolhida a dedo mal tinha importado, tampouco a lingerie vermelha que não cobria quase nada. A cama mal tinha sido usada, é verdade, mas nossa pele estava marcada: do meu batom, das minhas unhas, da intensidade dos tapas ferindo minha perna. E ambos concordamos: a efemeridade da coisa agrava o processo. Sem julgamentos.

Não tinha sido nada do que não tivéssemos feito antes, mas o seu jeito fora especial: suas palavras foram mais chulas, seu caráter cada vez mais duvidoso, seu corpo mais agressivo e eu cada vez mais submissa. O nosso jogo de gato e rato havia apenas começado, e sua ratoeira era grande. Bem grande, como só podia acontecer.

Então é isso, você tem seu plantão e eu meus pacientes, e a gente finge que acredita que eu vou pra minha casa e que você vai dormir. Sem julgamentos: um coração dilacerado não é nada comparado a uma trepadinha rampeira ou um boquetinho rápido com uma enfermeira já meio rodada daquele hospital. Enquanto houver vendas suficientes pra tapar meus mil olhos e olhares a coisa anda bem, a gente encena essa peça e eu digo que não me importa seus cabelos meio emaranhados ou que você tenha terminado meio rápido demais: eu sou só de você, e você finge que acredita que isso é verdade.

Tanto faz se costumava ser verdade por algum tempo, conforme os meses passam a gente aprende que quase nada vale a pena, exceto continuar mantendo um sexo fantástico toda quarta-feira à noite, um amasso num consultório vazio, um cumprimento formal com risadas internas na frente de toda a equipe. Discutimos pacientes e somos também pacientes, esperando o momento de ficarmos de novo sozinhos, de nos engolirmos com olhos, lábios e dentes, de nos invadirmos com dedos, línguas e suor, mas nenhum sentimento.

Sem julgamentos - a modernidade nos exigiu isso. São tantas bocas e tantos corpos, tantos egos feridos que a despedida era mais que inevitável. Amor, eu te entendo: são muitos espermatozóides e milhares de possibilidades por aí, pouco espaço pra eu poder entrar, enquanto aqui tem coração de sobra e nenhuma disposição em tolerar seus atrasos ou marquinha de outro batom na manga do avental. A minha cama continua intacta e a sua desarrumada, bem como sempre fomos um com outro: nada macula essa dinâmica doentia que por fim se encerrou. O relógio volta a tique-taquear e eu continuo marcada – desta vez por dentro.

Sem julgamentos: éramos apenas e tão somente dois corpos, fazendo o que nossos instintos pediam...
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*Escrito em 12.09.2007

quinta-feira, dezembro 13, 2007

Ao Mestre, com carinho




São Paulo, 13 de dezembro de 2007.


Querida Ana Maria,

É com um misto de alegria e tristeza que encaro o final do semestre letivo. Alegria por ter vivido bons momentos na companhia de todos da NANE, tristeza por ter de me despedir.

É extremamente difícil descrever com palavras a satisfação que foi conhecê-los – vocês da equipe docente e todos os alunos – e mais difícil ainda pensar que pessoas que estiveram tão presentes no meu dia-a-dia serão, de agora em diante, lembranças boas de um período muito especial.

Nesta carta simples, feita às pressas, gostaria de expressar todo o meu contentamento, todo o meu agradecimento, e deixar aqui algumas palavras sobre a vivência ao lado de todos vocês.

Eu costumo dizer que são os princípios de uma pessoa que determinam a força de seu caráter; nada mais verdadeiro se aplicaria a você, querida professora Ana Maria. Sua força e determinação são valores raros hoje em dia, e pelo pouco que posso dizer a seu respeito, acredito faltarem profissionais como você por aí. Não apenas pelo conhecimento pedagógico e pelo trabalho que você desempenha com maestria – o que falta atualmente neste mundo, principalmente, é carinho e amor por uma população tão especial (em ambos os sentidos da palavra) como nossos meninos e meninas da NANE.

Ao seu lado obtive uma experiência bastante diferente de toda a história escolar que eu tinha conhecimento: ensinar não se faz apenas por meio de livros, mas por meio de afeto e compreensão.

A maneira como fui acolhida por todos da escola, mas principalmente por você, Ana Maria, me dão a certeza de que todas as crianças que aí estudam sairão pessoas melhores, mais desenvolvidas e prontas para enfrentar um mundo tão difícil como o nosso.

Ao pensar na forma como você conduz o trato com cada uma das crianças, com ternura e ao mesmo tempo respeito e firmeza, fico extremamente feliz. Me deixa bastante feliz saber que são tratadas com dignidade e igualdade, e que recebem muito amor na escola. Às vezes penso que a escola moderna se transformou num palco repressor, carregado de hostilidade e de competições, e ver uma realidade tão bonita e diferente como a da NANE me traz alguma paz de espírito.

Querida Ana, que você jamais mude seu jeito de ser professora. Que continue a ter tanto a ensinar quanto a aprender – em relação a isso, tenho bastante confiança em você e acredito que você está 100% preparada para continuar a conduzir as intervenções junto ao R. A maneira como você compreendeu o raciocínio por trás das ações que propus, e a forma sempre coerente como as executa, me deixa tranquila e confiante de que este menino está nas melhores mãos que poderia estar.

Sentirei falta de todos vocês!

Do jeitinho tímido e ambivalente da J., essa princesa são especial. Das coisas engraçadas que o M. diz, das idiossincrasias do K., P. S. e demais meninos. Do afeto do “pateta” do L. G., por quem me apeguei demais; da introspecção da D., da agitação alegre do P. C. Da ternura do G. C., sempre com alguma coisa para contar.

E da carência e da euforia do R., que talvez tenha sido meu grande professor nestes poucos meses que passei ao seu lado, e de quem jamais me esquecerei.

Da mesma forma que sempre lembrarei de vocês com amor e carinho, espero ter podido contribuir com vocês em algo além do que ser “a moça do caderninho” – essa sairá de férias, mas a Ana Paula pessoa, indíviduo, dotada de um coração, estará sempre com vocês.

Espero poder visitá-los no próximo semestre – sabemos que a vida nos leva a rumos inesperados e que nem sempre podemos fazer aquilo que planejamos. As tentativas de visitá-los com certeza ocorrerão, portanto não pensem que se livraram de mim tão cedo!

No mais, apenas obrigada. Faltam-me as palavras.

Um Feliz Natal, um Ano-Novo maravilhoso cheio de muitas e ótimas surpresas, e espero que mantenhamos contato, de acordo com o que a vida há de preparar para nós todos.

Um grande beijo,

N.

segunda-feira, dezembro 10, 2007

a vida é monografia

Está chegando o fim do ano, e com ele, o final do meu curso de especialização em Saúde Mental. Mas pra concluir as coisas direitinho, exigem que eu faça uma monografia, atestando, preto no branco, que eu realmente aprendi alguma coisa, nem que seja a fazer uma pesquisa.

Pois bem, eis que em um dado momento da parte metodológica, me deparei com um dado interessante: eu tinha que especificar, assim muito bem especificado, os critérios de inclusão e de exclusão que eu usaria pra selecionar os textos que embasariam a minha escolha, e por consequência, o produto final. Como eu triaria aqueles textos? O que de neles tinha de importante que encaixasse no meu estudo? Nunca tinha pensado nisso com um olhar tão técnico: eu precisava mesmo justificar tudo aquilo?

Na mesma semana, alguns acontecimentos me fizeram perceber que a vida não é muito diferente de um trabalho de conclusão de curso, com a diferença que a metodologia da vida é feita em etapas. Creiam: a vida é uma monografia.

A gente está sempre em busca de alguma resposta que satisfaça alguma pergunta; pra isso, a gente procura caminhos que sejam os mais objetivos possíveis, que nos dêem a resposta do jeito mais confiável, e a gente aposta num método. Às vezes a gente usa a religião pra saber o que acontece depois da morte, às vezes a gente usa o sexo pra descobrir nossa identidade, às vezes fazemos uma ou outra faculdade dependendo de que tipo de pergunta mais ocorre na nossa cabeça – e invariavelmente nos perdemos nos detalhes, não levamos em consideração variáveis importantes, e esquecemos, no meio do caminho, da importância dos critérios de inclusão e exclusão dos “textos” que embasam nosso percurso.

Esse papo já é até velho: começa na adolescência, quando as meninas fazem a célebre listinha com as características do homem ideal: louro pra umas, moreno pra outras, com ou sem tatuagem, olhos verdes ou azuis, advogado, executivo ou agrônomo. E a gente passa a vida procurando nosso objetivo final, estando à luz deste tipo de “teoria”.

E o que acontece quando a gente cresce é que vê que a listinha era pra lá de ingênua, os loiros são geralmente metidos pra caralho e os advogados meio caretões. E a gente revisa todo nosso método e resolve seguir por outro caminho, nunca esquecendo da revisão bibliográfica: o que já foi feito antes, e o que ainda existe a ser feito?

Assim como existem etapas cruciais numa metodologia, como a coleta dos dados e a interpretação dos mesmos, tem horas na vida em que a coisa é igualmente crítica: a gente analisa a idade, a profissão e a tatuagem com olhos muito mais rigorosos, preocupadas em não deixar escapar alguma falhinha no processo de obtenção de resultados. A coisa toda tem que ser original, afinal já estamos meio rodadas e tudo vira uma grande reprise. É nessas horas que a vida vira uma tese de Doutorado – tem muito mais que inventar do que descobrir, muito mais que acrescentar do que escrever por diversão.

Pensando em tudo isso, em teses e em monografias, em critérios de inclusão e de exclusão, e em alcance de objetivos, uma pergunta me invadiu a mente: existem critérios de inclusão e de exclusão também nos relacionamentos afetivos?

Tudo me leva a concluir que sim – e conforme o tempo passa, os critérios vão ficando cada vez mais rígidos, assim como as escolhas feitas ao longo do processo. Por vezes a gente tem que abandonar uma ótima idéia, deixá-la de lado e adiá-la, engavetando nas gavetas da memória ou nas pastas do PC, simplesmente e tão somente porque são idéias inviáveis.

Às vezes é porque falta tempo pra fazer; às vezes é por faltar maturidade e a gente não se sente muito pronta pra levar aquela coisa à diante. Quantas de nós já desejamos, algum dia, ter conhecido aquele cara fantástico uns 5 anos depois, quando a gente não tivesse que ir embora do país pra trabalhar na China? Ou ter conhecido alguém algum tempo atrás, antes de alguma coisa na nossa vida ter nos impedido de nos relacionarmos com aquela exata pessoa, naquele exato instante?

Nem precisa ir tão longe: comedores compulsivos certamente excluiriam parceiros que fossem chefs de cozinha; pais de família recém divorciados provavelmente gostariam de ter ao seu lado uma mulher maternal. Uma atleta dificilmente toleraria um homem sedentário, e um mestre em Filosofia teria problemas em namorar uma metereologista.

Esse é, pelo menos, o raciocínio metodológico mais coerente: se alguma coisa não encaixa na vida da gente, a gente exclui, tria, elimina – com certeza vai atravancar o processo e a gente vai ter muito mais dificuldade em alcançar os nossos objetivos. O que serve, a gente inclui, detalha, versa sobre, se apaixona e quer casar.

Mas é assim mesmo que a coisa funciona? Quanta gente a gente vê por aí que, junto de outra extremamente oposta, se “completa” e é feliz? Talvez a garota que não sonhe em ter filhos pode treinar um pouquinho sua maternagem ao lado do pai de família. O comedor compulsivo pode aprender que nem tudo que é gostoso necessariamente faz mal ao seu fígado, e a atleta pode puxar o sedentário rumo ao esportismo, ou o sedentário pode ensinar a ela que comer pipoca e ver TV também é super saudável.

Talvez seja apenas hora de revermos nossos objetivos e testarmos nossas hipóteses – às vezes elas são pra lá de irreais, prá lá de superexigentes, e a gente tem que reformular toda a coisa. Não se trata de mudar ou abandonar a pergunta inicial, mas às vezes a gente superestima os dados e esquece da interpretação, da discussão, da riqueza que é às vezes se embananar nos detalhes escondidos no meio do processo. São esses “chiados” no meio da “música” que despertam na gente as melhores idéias, as invenções mais originais, a solução pra um número lá que não bate. Às vezes as hipóteses não são confirmadas e a gente se abre pra novas idéias.

Por via das dúvidas, eu resolvi revisar a minha metodologia. Não a da monografia, esta está perfeita, mas os métodos que escolhi na minha própria vida pra alcançar meus objetivos finais – amorosos, profissionais e familiares. Eu resolvi revisar meus objetivos, já que eles não estavam batendo muito com os dados que eu tenho colhido, e resolvi fazer de novo toda essa conta maluca que assombra os românticos que ainda restam por aí.

Pois como dizem por aí, nada se perde: tudo se transforma.

terça-feira, dezembro 04, 2007

Verborragia

A gente tem um acordo não-declarado: eu gosto de você e você gosta de mim, mas não é permitido falarmos a respeito. Gostar: já faz tempo que esta palavra caiu em desuso nas bandas de cá, ela dava medo e me entristecia, então eu selei alguns pactos comigo mesma e a exorcisei do meu vocabulário. Eu andava preferindo outros verbos mais seguros, querer, desejar, atrair, comer, quem sabe até transar, mas sempre naquela neutralidade que tanta gente afirma ser incapaz. O verbo preferido sempre foi defender, às vezes zombar, tirar o time de campo. E durante algum tempo essa foi a conjugação da vez: eu dou, tu me pegas e Ele ainda faz tanta falta. Nós trepamos, vós tremeis... e eles continuam em silêncio.

Nas últimas semanas minha língua andou me traindo, apesar de que você nem percebeu. “Você me faz bem” em vez de elogiar sua performance, suspiros no lugar de gemidos, sorrisos abertos ao invés de olhares provocantes. Minhas mãos foram apenas até seus joelhos, e os beijos pararam na testa. Você ganhou um apelido, e apelidos são perigosos – mais ou menos como um cãozinho ao qual você não se apega até o instante em que lhe dá um nome. De repente aquele nome assume um formato e a gente sabe bem como apego demora pra passar.

Então a coisa fica assim: eu fumo meu cigarro compulsivamente do lado de cá, você fuma seu baseado e a gente toma tantas doses quantas couberem dentro da gente, mantemos a boca ocupada e não corremos o risco de falar baboseiras. No nosso acordo está implícito: nada de emoções “que é pra não estragar”. Somos dois calejados e meio entediados desses joguinhos românticos, sabemos bem que não vale muito a pena perder a cabeça por aí.

Eu tenho me policiado, mas o fato é que o desgosto me ronda dia e noite. Não lembrava que gostar de alguém era tão ruim. Não é a toa que paixão rima com insatisfação – as duas caminham lado a lado na beirinha do precipício (eu procuro não olhar muito lá pra baixo, às vezes o precipício se precipita sobre a gente).

Eu que te quero sempre mais perto ou é a tua proximidade que me incomoda? A sensação é a de que algo está constantemente errado e apesar disso é uma delícia tentar consertar. Não basta uma sessão de terapia broxante, nem “fazermos amor” como dois alucinados – o coração já nem reage mais. Basta a gente continuar fazendo valer o nosso acordo e se manter nos mesmos verbos: ligar, beber e trepar. E depois fumar. E fumar... e fumar...

quinta-feira, novembro 29, 2007

Nem melhor, nem pior


Eu simplesmente odeio ser comparada.
Odeio as comparações – as considero injustas, desnecessárias e absolutamente descabidas. Afinal, qual a lógica em se comparar coisas que, simplesmente por não serem a mesma coisa, dispensam comparações?
Ok, existe sentido em comparar preços, quilos, tons de azul, alturas e até quantidades. Dimensões que englobam as mesmas grandezas: quantos quilos, mais ou menos centímetros, quantos reais etc. É algo mensurável, é digno de uma comparação.
Mas e quanto às comparações ditas qualitativas? Uma coisa é medir o desempenho de um aluno, outra coisa é afirmar, arrogantemente, que ele é melhor ou pior que o coleguinha da mesa ao lado. Melhor pra quem? Melhor sob que perspectiva? Melhor como? O que é melhor??
Ora, que se estabeleçam critérios objetivos.
É totalmente frustrante se sentir comparada, e mais frustrante ainda se sentir compelida a se comparar a algo. Quando se trata de pessoas, qualquer comparação é tendenciosa – não existe uma unidade de valor, cada ser é único. E isso pode (ou não) ser melhor (ou pior) para uma (ou outra) pessoa. Nesse sentido, pode-se chamar de comparação? Ou de preferência? Perspectiva? Ponto de vista?
E daí se meus cabelos são igualmente compridos? E daí se gosto do mesmo tipo de música que outra pessoa, se gosto da mesma flor ou tipo de biquini? E daí se sou mais ou menos bonita? Mais ou menos inteligente?
Não, não venham me rotular partindo do princípio que sou mais ou menos divertida ou mais ou menos profunda, serei sempre diferente de tudo o que qualquer pessoa um dia poderá supor. Apenas eu mesma.
O grande problema das comparações é esse atributo de qualidade embutido nelas – e, como eu já disse, a cobrança pela superação que acabamos sentindo. E eu me sinto tipo apostando uma corrida com um fantasma que eu nem nunca vi, não conheço as características mas me cobro por ser melhor. E como poderia, se a sensação é a de sair largando 3 metros atrás, simplesmente por ter havido uma tentativa de comparação?
E daí se meu sobrenome não é italiano ou se não tem um popstar na minha família? E daí se, ao contrário do resto do mundo, eu curto um bom e velho controle de natalidade?
Eu fico muito puta, mas tipo assim, putona mesmo, quando ouço falar que eu sou “tipo fulana”, porque batalhei pra cacete pra construir uma identidade da qual eu me orgulhe. É simplesmente um ultraje alguém comparar alhos com bugalhos – a essência do ser humano, o que o faz tão especial, é sua capacidade de se diferenciar, de não se enquadrar em categorias, em serem absoluta e incondicionalmente subjetivas suas características mais marcantes.
É preferível que se admitam as preferências, tomem conta de seus sentimentos – se for pra comparar algo, que comparem sua inteligência com a de um chipanzé.
Não sou melhor nem pior, apenas diferente.

domingo, novembro 25, 2007

Mais de um mês*


No dia em que se despediram, ela sequer imaginava que seria para sempre. Não pensava que seria a última vez que se teriam, naquela vida ou em outras. Acreditou que seriam alguns dias, a verdade é que durou mais de um mês, um mês sem notícias, sem a voz, sem seus escritos, e um mês sem sentir o cheiro dos seus cabelos ou implicar com sua barba mal-feita. Fazia um mês desde que ele lhe confessara que gostava de outra pessoa. Seu coração bateu tão forte que ela teve medo que ele o escutasse, que percebesse o quão descompassado ficava na sua presença. Aquele dia ela não achou que fosse o último, e saiu pela porta acreditando que um dia a abriria novamente. Quando a porta do elevador se fechou, soube que não voltaria jamais.

Olhou o celular infinitas vezes naquele mês. Conferiu a caixa postal obsecadamente, esperando que o problema fosse do aparelho. Desviou os olhos tantas e tantas vezes para a porta pela qual ele costumava passar – e não o viu uma única vez, apenas suas lembranças. Toda quarta-feira suas esperanças se renovavam, mas sempre virava quinta antes que ela as perdesse. Ela morreu mil vezes naqueles 30 dias, e ressucitou todas elas apenas para ser mortal novamente. Com o tempo se esqueceu dele, se esqueceu do seu cheiro e também de sua voz, esqueceu da textura das mãos e do gosto da sua boca. Verdade seja dita – lembrava de seus olhos, mas apenas fechados. Lembrava do amuleto que ele carregava no pescoço. O que aquilo queria dizer?

De repente se deu conta de que se lembrava de muitas coisas que não exatamente ele. Da casa, com detalhes, pois um dia fora um pouco como a sua: acolhedora e sufocante ao mesmo tempo. Se surpreendeu com a riqueza de detalhes de suas memórias, lembrava de cada canto daquele apartamento: a estampa dos sofás, os cd´s empilhados perto da TV. As fotos de um Ele adolescente, de cabelos longos. A guitarra no chão. Red Label na estante. Manuais técnicos em cima da mesa. A conta telefônica de agosto. As horas no rádio relógio. A marca do seu shampoo. Os chinelos dentro do box. E as duas escovas de dente, onde tudo começara. Espantada pelas memórias, finalmente percebeu que naquele dia, 30 noites atrás, já sabia que se tratava de uma despedida: somente em despedidas tentava apreender cada detalhe do momento, cada detalhe da cena, registrar cada pedaço daquele cenário, para dizer adeus a tudo e poder para sempre se lembrar. Todas as despedidas de sua vida foram assim – se lembrava de cada uma delas, em detalhes impressionantes, e em todas as vezes, todas elas, sabia que não voltaria.

Ela repassou as lembranças. Naquele dia o cheiro era diferente. Mais forte e mais cítrico. A iluminação era diferente. Ao contrário do sempre acontecera, todas as luzes estavam acesas, tirando dali aquele tom quase de sonho que sempre houvera – tudo era muito real, real demais, não havia trilha sonora, sem blues ou rock ‘n roll naquela noite, somente o silêncio entre meia dúzia de frases trocadas. Lembrou-se que não disseram tchau, até mais, sequer um adeus fora dito. Mas os corpos disseram tudo. Um adeus em silêncio, um silêncio insuportável, como se nunca tivessem se encostado, como se tivessem passado anos sem se ver e se reencontrassem numa formalidade esquisita. Os joelhos distantes, os braços apoiados. Sem retirar os sapatos. Que tipo de homem não retira os sapatos dentro de sua própria casa se não for para terminar com alguém? Sim, tinha sido uma despedida, sem as palavras certas, mas havia sido um adeus. Não havia nada mal-resolvido.

Foi só aí que ela finalmente se despediu, se perdoando por não ter percebido os sinais a tempo. Ainda restava um pouco de romance dentro de si, afinal. Seu corpo se despediu com um choro leve, sua mente se despediu armazenando a memória. Sua razão despediu-se com tolerância, e sua alma enviou seu perdão. A boca sorriu, e seu coração se despediu batendo, mais forte do que nunca.

Ainda lembrava.
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* Texto antigo, mas que sempre vale a pena lembrar.

segunda-feira, novembro 12, 2007

Diálogo_Projetando


- Afinal, qual o sentido de ir em frente? Uma hora o trabalho dele vai me incomodar, melhor parar por aqui. Mais um chopp, por favor?

Eu já tinha visto esse filme. Minha amiga Amanda*, 26 anos, loira de 1,70m, gente boníssima, mais uma vez discursava, ali num barzinho bacana da Joaquim Távora, a mesma pauta das duas últimas semanas: o Rico*, homem lindo e bacanérrimo, porém com uma péssima profissão – o cara é policial civil. Milico, gambé, boina-azul.

- Você viu Tropa de Elite? Imagina se fosse eu? De repente o cara me liga do meio da Operação Alvorada?
- Amanda do céu... quantas vezes você saiu com ele mesmo??
- 3.
- Então. Tá tão preocupada por que? Você nem conhece o cara direito, vai que você se apaixona. Ou acha ele um bosta? Vamos pedir uma batatinha?
- Tô de regime, pede aí.

Eu logo vi na minha querida amiga os sinais clássicos de um comportamento de fuga e esquiva: pra não se confrontar com possíveis e hipotéticas e imaginárias consequências negativas, ela já estava tirando o time de campo. Pensei nos meus pacientes: quantos faziam a mesma coisa? Pior que eu concordava com a Amanda. Assim como já tinha concordado antes com meus pacientes. Mas, na dúvida...

- Olha só, amiga, você não acha que tá sendo meio precipitada?
- Gata, a coisa é simples: eu tô querendo que as coisas com o Rico sigam por um caminho em que o desfecho vai ser eu acabar querendo sair fora. Então o que eu quero? Eu quero o que eu não quero. Simples assim.
- Como toda boa histérica.
- Pode ser.
- Ainda acho que é ser racional demais. Passa o isqueiro.
- Bom, eu consigo ser racional.
- Guardar os sentimentos não resolve o problema.
- É o que você diz pros seu pacientes doidões?
- Hum...

Era o que eu costumava dizer aos meus pacientes. Mas eu sentia que com a Amanda era diferente. Eu realmente concordava com ela. Era tipo comprar um carro pensando em vender depois. Não era investimento. Mas eu tinha que tentar.

- Você acha que as outras opções são melhores?
- Que opções?
- Ah... desculpa, amiga, mas você só tem se metido em furada. Aquele carinha do curso que você fez... pô, tava na cara que o cara era casado.
- Eu não sabia!
- A gente nunca sabe. Mas agora você sabe logo de cara. Você pode escolher. Ser polícia não é ter câncer, vai...
- É como ter filhos. O cara ama a parada, nunca vai largar. Ele vai no banheiro armado.
- Você poderia se sentir protegida.
- Nã... não vai funcionar. Ele não é o cara certo.
- E quem é??

Àquela altura eu já estava à beira do desespero. Eu conhecera o Rico. Cara bacana. Gente fina de verdade. Atencioso, simpático, conversador. Eu não aguentava mais ver a minha amiga dispensar os caras legais e se meter com os filhos da puta, e o Rico não parecia ser filho da puta. Mas como assim, logo eu, defendendo um homem? Eu tinha que tentar.

- Você tá agindo como aquela minha paciente, que não compra um cachorro por medo de que ele fique velho.
- Ele vai ficar.
- Vai, mas daqui a quanto tempo? E o que puder rolar de bom até lá? E o quanto você pode se divertir, se sentir querida, ir ao cinema, andar de mão dada e ser tipo aqueles casais que nós odiamos, que se beijam a cada 5 minutos e que ficam em casa no domingo vendo futebol?
- Eles se beijam bastante né?
- Horrores! E você ainda vai ter quem te ligue. E quem diga que gosta de você. E quem te abrace no meio da noite. Pô, Amanda, pára de julgar os outros... você nem sabe por que o cara virou polícia. E se você sofrer e se machucar, porra e daí? É isso aí, faz parte do jogo, não seria nem a primeira nem a última vez, arrisca, dá a cara a tapa, vai deixar de viver um monte de coisa que você nem sabe o que é, pra ficar reclamando da sua vidinha que você tá cansada de saber como é, PRA FICAR RECLAMANDO QUE NINGUÉM TE QUER NO MEU OUVIDO PORRA??? LIGA PRA ELE CARALHO!

Eu fora longe demais. Gritara com a minha amiga. Por causa do dilema dela. Eu sabia porque, e a Amanda também. Ela deu um trago no Marlboro azul dela, cerrou os olhos e deu um sorrisinho safado. Soltou a fumaça e pegou o celular.

- Só por você mesmo.
- Brigada, Amanda.

Respirei fundo.
Eu ainda tinha esperanças.

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* Nome fictício, exatamente como faço com meus pacientes...

sábado, novembro 10, 2007

Eu avisei

No fim de semana eles iam ficar juntos, e o feriado todo iam se conhecer melhor.

Ele ia levá-la num lugar fantástico onde estariam todos os amigos aos quais ele a apresentou naquele churrasco tudo de bom. E eles vão passar uma tarde juntos, vão jantar no mexicano e aí ele não vai mais poder dizer que ela nunca comeu nada na sua frente. No dia seguinte ela vai deixar um recado pra ele, como ele tinha pedido.

Aí quando o sábado chegar ela vai se produzir toda, vai começar a se desesperar e então finalmente vai entender que ficar olhando pro telefone não faz ele tocar. Vai, no máximo, fazer ela perceber que precisa de outro aparelho.

Aí ela vai pensar e vai lembrar que isso já aconteceu um montão de vezes com um montão de gente (com ela 4 vezes, só neste ano!) e vai finalmente entender a máxima: falar é fácil, fazer é que são elas.

Então ela vai me chamar, e vai me contar a história toda, entre um e outro copo de JD’s. E aí eu, com dor no coração, vou ter que dizer pra ela... eu te avisei.

Bem-vinda à Era da Inocência.

Pára o mundo, querida, que eu quero descer.

quinta-feira, novembro 08, 2007

exposè

Deu um lance.
Contou com a sorte.
Acreditou no mundo.
Procurou um rumo.
E fugiu de tudo.
Calou palavra.
Dançou um samba.
Resolveu um problema.
E logo arrumou mais dois.
Fez sua parte, fez de tudo.
Recitou poemas, confessou pecados, abriu a mente.
Sentiu-se diferente.
Jogou os dados.
Pagou pra ver.
Teve arrepios.
Se arrependeu por antes.
Rezou de joelhos e entoou um mantra.
Se açoitou.
Agredeceu a benção, e disse amém.

quinta-feira, novembro 01, 2007

Por opção


Outro dia, meu amigo Beto me alertou quanto ao fato de que, geralmente, as pessoas (as mulheres principalmente) acreditam que os fracassos de seus relacionamentos se deve a um erro processual, ou seja, uma falha no processo de relacionar-se. Apontou-me este me amigo que tal crença é absolutamente ilusória: na maioria das vezes, o erro das mulheres era um erro de escolha.

A princípio, concordei por concordar. Afinal, ele estava maluco? Como assim escolhemos a opção errada? Desde quando temos bola de cristal para adivinhar que aquele homem lindo irá quebrar nossos corações dali a alguns meses? Como poderíamos adivinhar que se tratava de um ciumento clássico? Ou de um cara com fortes complexos maternos?

Entretanto, após alguns meses, tendo tido algumas experiências interessantíssimas com os seres do sexo masculino, não posso mais negar: é indisfarçável, inegável, indiscutível: eu escolho os homens errados.

Imaginem só vocês o susto que levei ao me deparar com esta nova descoberta. Foi um choque: sempre acreditei que isso era papinho de seriado americano, coisa de mulherzinha, gente neurótica que não está há 4 anos em terapia. Mas eis que então percebo, repassando mentalmente minhas últimas relações fast-food: eu ignorei todos os sinais (sim, eles existem) de que algo ali não cheirava bem.

Como não percebi que aquele gatinho ótimo fazer análise 3 vezes por semana só podia significar “encrenca”? No que eu devia estar pensando? Talvez na qualidade do sexo, no jeitinho de falar, pra ter esquecido tudo o que aprendi em 5 anos de faculdade? Toda estudante de Psicologia está careca de saber: homem que faz análise por opção é problema a vista. Dificuldades relacionais seríssimas. Caso de livro. Tema prum outro post.

E quanto aquele gatinho da praia, que logo de cara me contou que havia terminado com a namorada quase 10 anos mais nova, menor de idade? Isso sem contar no quanto todo mundo babava no cara. Incluindo minhas próprias amigas – como não haveria uma concorrência braba, com tanta cobiça em cima de um partidão de coração partido?

As escolhas atuais também têm se revelado pouco inteligentes: homens mais novos, usuários de drogas, com pais ausentes (ou filhos em demasia), portadores de armas, criadores de pitt bulls ou respondendo a processos legais. Sinais que podem ser apenas meros potenciais de problemas, mas que, geralmente, apontam para possíveis confusões.

Os mais céticos podem debochar; os comportamentalistas de plantão diriam que são os mantenedores de tal padrão de escolha que é o que realmente importa; os astrólogos diriam que é só coisa de 2007, ano de número 9; os psicnalistas teriam um prato cheio (ainda mais analisando minha família), e meu amigo Beto, em especial, teria orgasmos múltiplos: ele está certo, eu escolho os errados, os mais complicados, os verdadeiramente perturbados.

Será que quando alguém escolhe pela pior opção, está realmente querendo errar? Seria assim uma espécie de masoquismo, como numa roleta russa com o tambor da pistola cheio? Afinal, pode uma pessoa escolher se machucar? E a pergunta que não quer calar: deveria EU fazer análise 3 vezes por semana?

Alguns conselheiros de meia pataca diriam que eu me esquivo da felicidade. Outros, que sou viciada em rejeição, em melodrama, em melancolia. Outros ainda poderiam especular que o que eu quero mesmo é mudar um homem: curá-lo das drogas, amadurecê-lo alguns anos à força, transformá-lo num homem bom e fiel. Mas e quanto aos outros “senão”s? Poderia eu voltar no tempo e impedir o suicídio da mãe daquele carinha bacana?

Será que eu realmente deveria escolher melhor? Talvez aqueles caras tranquilos, sem traumas familiares, sem problemas sexuais, sem leucemia, sem filhos, sem drogas, sem dívidas, com carrinhos cheirosos, apartamentos perfeitos, trabalhos convencionais, fins de semana tradicionais, seus vinhos clássicos, suas roupas sóbrias, suas carteiras de couro, e suas vidinhas-padrão? Argh! Escolher melhor? Melhor pra quem??

Sim, talvez eu goste de uma boa tragédia. Talvez eu ame um bom dramalhão mexicano, uma boa confusão. E sim, talvez eu costume escolher quem tem menos probabilidade de me escolher de volta, ou quem, no máximo, procure uma relação efêmera. Mas, ao contrário do que vejo por aí, das pessoas afundadas na moralidade e padronização de suas vidinhas regradas e relacionamentos perfeitos, eu costumo viver intensamente. E, às vezes, a intensidade vem da adversidade, ou das tentativas de mudança que fazemos. Das batalhas que travamos na vida.

Às vezes, o mais interessante das pessoas são suas próprias falhas, o fato de serem humanas, demasiado humanas. Suas idiossincrasias são o que as tornam seres únicos – e, pelo menos por enquanto, esta escolha tem valido a pena.

Ok, talvez eu tenha uma certa atração pelas dificuldades. E talvez esta seja a minha falha, que pode acabar espantando alguém por aí. Ou atraindo.

Mas tenho consciência de que, mesmo com todas as minhas imperfeições, dramas familiares e facetas um pouco distorcidas, tudo isso me transforma numa pessoa extremamente falha, porém estremamente humana, extremamente real. E, por enquanto, minha melhor opção.

sexta-feira, outubro 26, 2007

Se eu... você...?

Se eu te disser que não sei o que sinto você irá me entender?

Se eu te disser que tá tudo confuso, você compreende? Se eu te disser que foi esquisito?

Se eu te disser que me sinto perdida, você me ajuda a me encontrar? Se eu confessar que não sei quem eu sou, você me ajuda a descobrir?

Se eu me irritar, você vai ter paciência? Vai escutar se eu precisar falar?

Se eu de repente pirar, vai saber ouvir minhas paranóias, os meus delírios, minhas histerias, e vai acreditar em mim? Vai me dizer que eu tenho razão?

Se eu me sentir triste e não souber porque, você pesquisa comigo? E se for por coisas terríveis, você segura essa pra mim? Me diz que tudo vai ficar bem?

E se eu por acaso errar? Você me perdoa? Diz que confia em mim?

Se eu me perder no caminho, você me ajuda a achar a saída? Sai comigo do labirinto? Se eu perder o leme, a vela, o rumo, o prumo? Você rema comigo? Me ajuda a descobrir onde fica o Sul?

Se eu chorar no meio da noite, você afasta os fantasmas de mim? Diz pra eles irem embora? E se eles não forem, você fica comigo até amanhecer? Reza comigo uma reza vazia?

E se eu te disser que nem tudo são flores? Você planta algumas pra mim?

Se eu me afastar de tudo, você chega e me impede? Se eu resolver desistir, você me mostra motivos pra continuar? Se eu não vir meu valor, você os relembra pra mim?

Se eu me decepcionar, você me mostra o bom lado da vida? E me faz sorrir de novo? Me faz acreditar no amanhã? Me aponta o futuro que eu quis?

E se eu chorar, você seca minhas lágrimas?

Se eu sair por aí, e mostrar a cara pra vida, você espera eu voltar? E quando eu voltar, você vai me querer?

E se eu resolver que ainda não sei o que quero?

Você vai acreditar?

quinta-feira, outubro 18, 2007

Seis por meia dúzia

Semana passada, minha amiga Alice* sofreu a sua mais recente desilusão amorosa. O gatinho com o qual ela saía quase todos os fins de semana e feriados que passava em sua cidade, subitamente mudou de jeito e de costume, e pegou umazinha bem na sua cara. Desnecessário tentar descrever a dor de Alice: fora substituída por outra enquanto estava fora! Mais tarde, levantamos a hipótese do gatinho (agora transformado em palhaço) ter descoberto que ela também o substituíra por outro carinha, mas apenas uma vez, uma vezinha só, em que ela estava na cidade dele, mas ele não. Logo descartamos a possibilidade. Afinal, quem poderia ter contado à ele? Talvez aquele cara, amigo em comum dos dois caras, aliás, amigo de um, PATRÃO do outro, que apresentou ambos à Alice? Magina.

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O desfecho da história foi a Alice muito louca numa festinha, dizendo pra mim entre dentes que não tinha nada não, logo aparecia algum melhor que ele.

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E por falar nesse amigo em comum aos dois palhaços de Alice, é importante lembrar que ele também é um partidão. Eu mesma tive a (in)felicidade de com ele me envolver. Foi coisa assim de sonho, espetacular e que dura pouco tempo, pois tão logo começou, fui trocada por uma(s) de peitos maiores. Aliás, vale ressaltar que não, isso não aconteceu enquanto eu estava fora, mas pareceu que eu nunca tinha estado. Após uma semana de indignação, tratei de logo o substituir por um genérico: igualmente moreno, cabelos igualmente cacheadinhos, partidão igual porém sem o mesmo tanquinho. A pilantrice também era exatamente a mesma.

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Minha outra amiga Marina* estava saindo há 3 meses com um gatinho lindo, residente do hospital em que ela trabalhava. A despeito de sua avó sempre a ter advertido que onde se ganha o pão não se come a carne, ela decidiu arriscar. E a coisa foi de vento em popa até que ele saiu de férias, e a coisa esfriou. Mesmo assim ele telefonava bastante. Quando ele voltou, foi a vez dela sair de férias, e quando ambos estavam novamente juntos no mesmo ambiente de trabalho, tudo parecia que ia dar certo. Mas não é que o cara continuava a chamando pra sair somente de quarta-feira? Quando ela achou isso estranho, e chamou o cara pruma conversa, ele deu uma de bom moço e jurou que queria se aproximar mais dela, e ela que não deixava. Marina quase se enforcou de tanta culpa, e jurou que dali em diante ia se abrir mais. Dois dias depois, o camarada a chamou pra conversar, e, meio assim sem jeito, confessou que tinha mentido: estava saindo com outra gatinha. Passou 40 minutos dizendo que sofria por não saber o que fazer. Na mesma noite, minha amiga não se deu por satisfeita e fuçou o orkut do calhorda. Status: namorando. Mais um palhaço.

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Algum tempo depois, Marina soube que o doutor-palhaço havia feito a exatíssima mesmíssima coisa com outra pessoa do hospital: sua própria orientadora. Ao que parece, a coisa era sempre assim: na hora que uma pressionava, ele substituía por outra.

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Recentemente, passei pela mesma situação da Marina. Também foi com um cara do trabalho e também fui trocada por outra na calada da noite, que por ironia do destino, tinha o nome mui parecido com o meu. Primeiramente me revoltei. Depois lembrei que também o havia susbtituído enquanto eu estava viajando e ele em São Paulo (com o mesmo palhaço-partidão da história da Alice. Aliás, é a mesma história: cabelos cacheados e muita safadeza). Vai, confesso: o substituí duas vezes. Na mesma cidade. Mas não com o mesmo partidão. Mas foi de saudades. Fazer o que? Ele estava longe...

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Meu amigo Otávio* recentemente terminou com a namorada depois de 7 meses de ponte aérea Rio-São Paulo. Ele é paulistano, mora no Brooklin. Reclamava das horas perdidas em Congonhas. Ontem me telefonou dizendo que estava novamente feliz. A responsável? Mora no Morumbi. E tem casa em Paúba.

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Minha antiga porém fabulosa sandália preta arrebentou bem na tira do dedinho. Ontem o sapateiro me deu a triste notícia, em tom de pesar: “Vale a pela consertar não, dona. Melhor comprar uma nova.” Quase chorei de desespero. Jamais tinha imaginado que um dia isso aconteceria. Afinal...

Somos todos substituíveis???
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* Para preservar a identidade real dos meus amigos, seus nomes foram substituídos...

terça-feira, outubro 16, 2007

Drama


“Achei o final babaca demais, tudo deu certo, que graça tem nisso?”

Foi a partir de uma discussão sobre literatura e cinema com algumas amigas que me peguei a pensar no quão viciadas em drama parecemos estar. Amores impossíveis se tornaram fascinantes, e lágrimas um bom produto final. Um simples filme para crianças só fica bom se sua reviravolta for triste, e os clássicos do cinema estão cheios de romances sofríveis. Finais felizes se tornaram obsoletos.

Pensei em Romeu e Julieta, um romance lendário e absolutamente trágico, sempre um sucesso. Pensei em Love Story, outro grande filme, com Jenny sendo leucêmica. Pensei em Titanic e seu final catastrófico. Pensei em Cidade dos Anjos, Ghost e no amor impossível entre Molly e seu finado Sam, apenas um fantasma – este marcou minha adolescência, com meus hormônios a vapor e muitas lágrimas para chorar. Recentemente, um filme do gênero foi lançado, “E se fosse verdade?”, considerado um filminho “sessão-da-tarde”, bobinho e água com açúcar. Motivo? Um final feliz demais. Shrek ia bem, até a princesa descobrir que também era uma ogra, e transformar um amor improvável em um par mais que perfeito. Suas sequências foram consideradas inferiores ao primeiro filme (como quase sempre acontece), assim como Fiona, que teve de se rebaixar à condição de ogra e abrir mão de seu sangue-azul. Praticamente o oposto de A Bela e a Fera. Tudo feliz demais.

Quantas vezes já estive na tradicional situação do “está tudo bem demais, há algo errado nisso”? Estranhamos quando não há problemas, e chamamos trabalhos confortáveis de desmotivadores, reduzimos relacionamentos saudáveis a simples rotinas, e sentimos falta de fortes emoções, desafios, ou um bom e velho frisson. Mas afinal, de que emoção estamos falando? Por que insistimos em dizer que um final feliz é previsível, se o que de menos previsível existe na vida real são os finais felizes?

Será que nos acostumamos tanto com as dificuldades afetivas de nossas vidas modernas que passamos a considerar finais felizes absolutamente utópicos e inatingíveis? Ou será que a dificuldade vem justamente do fato de considerarmos os finais felizes um pouco demais para nós, e então criamos problemas? Será que os homens estão certos quando dizem que estamos tentando fazer tomada virar focinho de porco? Em que momento o romance se perdeu e os dramalhões tomaram conta? Somos realmente viciados em rejeições e problemas? Pensando em finais felizes e amores impossíveis, ogros e fadas, amor entre primos ou desigualdade social, no que se refere aos relacionamentos, não pude evitar de me perguntar: nós precisamos de drama para fazer nossas relações funcionarem?

Praticamente todos os meus amigos homens evitam ligar para uma mulher no dia seguinte, mesmo que tenham realmente gostado de conhecê-la. Motivo? Correm o risco de serem vistos como bobos. Preciso concordar com eles: em algum momento entre Adão & Eva e Pitt & Jolie, as mulheres passaram a gostar do improvável. Canso de ver mulheres por aí inventarem motivos para discutir a relação, sem pensar que talvez pela própria relação suas perguntas possam ser respondidas. Também vejo montes de mulheres desprezarem homens incríveis justamente por eles estarem interessados nelas. Eu mesma me encanto com amores idealizados e totalmente impossíveis, tenho gosto por um bom canalha e uma certa pena dos bonzinhos, como se a meta final fosse um coração partido e uma linda história para contar. Este sim, um Grand Finale!

Afinal, qual o problema com os finais felizes? Será que nos borramos de medo de que um dia aconteça conosco, e então, desesperadas, tenhamos que dizer “Sim, eu aceito” e aí encarar todas as agruras de uma vida feliz? Ou somos simplesmente histéricas, incapazes de aceitar nossa própria falta, e assim, ficaremos sempre procurando, procurando, procurando, e achando apenas aquilo que um dia, fatalmente, viremos a perder, para então recomeçar a busca, nos arrependendo pelos erros do passado e desejando voltar no tempo?

Odeio dizer isso, mas tem horas em que ser mulher me cansa. Os finais felizes me cansam, mas o drama tem me cansado mais ainda.

E é por isso que, a partir de agora, vou tomar menos champagne e mais cerveja, ver menos romances e mais comédias, vou assistir menos filmes e mais futebol, que embora também seja dramático, tem pelo menos um lado bom: há sempre uma nova chance de final feliz quando um novo campeonato recomeça. Corta!