quarta-feira, setembro 10, 2008

mini-surto

As perguntas invadem como se as portas de uma represa lotada fossem finalmente abertas. Lutar se tornou inútil. Me rendo.

Como discernir uma oportunidade de recomeço de um teste de perseverança? Como distinguir o que é uma segunda chance do que é uma escorregada e um retorno a velhos padrões?

As coisas realmente precisam de um desfecho? Ou o desfecho já aconteceu, mas não nos apercebemos dele por estarmos, talvez, focados demais na nossa própria dor? É possível negar claramente o ponto final de uma história permeada de vírgulas e reticências?

E quanto a arriscar todas as fichas? É certo arriscá-las num jogo em que existe uma probabilidade de cerca de 90% de derrota? Aí dizem “Como você sabe? Pode ser uma questão de sorte!” Eu replico: vale a pena arriscar TODAS as suas fichas em algo cujo sucesso é determinado pelo acaso, pela sorte, pelo... azar?

A gente ouve dizer que é preciso tentar até o final. Espremer o limão até a última gota. Mas se sobrar apenas o bagaço, nenhum sumo... o que se pode fazer com este bagaço a não ser jogá-lo fora? Vale realmente a pena tentar de tudo, ao invés de tentar preservar um pouco do respeito, do carinho, do... caráter?

Segue seu coração”, ouvi um dia. E se o meu coração for bobo demais, tonto demais, pra ser confiável numa situação emocionalmente complicada? E se na verdade, ao seguir meu coração, eu estiver sgeuindo minhas neuroses? Recaindo em erro? Atuando, à completa mercê do meu conflito? Qual é de fato a medida entre evoluir... e fingir?

E se eu já souber que não é aquele caminho que devo trilhar, mas não houver nenhuma outra alternativa disponível no momento? Eu tenho mesmo que seguir em frente? Não é possível parar, respirar, avaliar as possibilidades? 5 minutinhos? Bola pra frente que atrás vem gente... é isso?

Às vezes acho que a única diferença de hoje em dia para o começo do ano é que continuo tão perdida quanto... apenas achei o balcão de informações. Aprendi a fazer as perguntas certas, mas as respostas parecem longe de serem encontradas...

segunda-feira, setembro 08, 2008

OSSU!

Família Seiwakai Lapa ** OSSU!
Da esq. para a dir., em pé: Tecchio, Thiago, Rodolfo, Clayton,
Sensei Rato, Caio e Douglas
As meninas: Vivi, Fabi, Dani, Mariana, Shirlei, Fabi e eu
Ajoelhados: Rafa, Ligeirinho, Renan e Carlos


O combinado era às 9h30 da manhã (nem um minuto a mais, disse o sensei) ali na academia. Da Lapa, a gente seguiria em comboio até o Campo Belo, pra todo mundo chegar junto.

Na noite anterior, senti o sintomas de uma crise de ansiedade se aproximando: taquicardia, suor frio, pensamentos a milhão. E se eu não conseguisse? E se eu fosse reprovada? Pensei em ligar pras meninas, mas achei meio nóia. E respirei, respirei horrores. Mal dormi, porque fantasias terríveis vinham na minha cabeça – na pior delas, éramos chamados, individualmente, para demonstrar os golpes: Nana, uchi kakato otoshi! Ossu sensei! Yoko geri – ossu sensei! Ushiro mawashi – ferrou, sensei!

Acordei às 6 da manhã, totalizando no máximo 4 horas de sono... a ansiedade era grande. E se eu errar? E se confundir os golpes? Vou ter que lutar? Chegando na academia, toquei na porta da casa da Vivi esperando que ela me acalmasse – por sorte ou não, ela estava quase tão ansiosa quanto eu... o resto da galera estava agitado, mas ninguém parecia estar na mesma vibe que eu, até eu encontrar a Shirlei. A gente se abraçou e confessou que estava com dor de barriga de nervoso, e naquela hora estava mais do que determinado que não importava quantos golpes me pedissem: uma avaliação era sempre a maior porrada na vida de uma perfeccionista.

Chegamos na academia do sensei Luciano após pegar um puta trânsito, e no carro mesmo, com a Vivi, a Shirlei, a Fabi e o Thiago, eu já saquei que a galera estava muito mais nervosa do que queria demonstrar. Quando chegamos na academia-matriz, eu quase sentia que tinha que ficar em silêncio, um quê assim de reverência... nos trocamos e em pouco tempo o exame de faixa ia rolar.

O treino técnico começou e senti que dava pra dar uma relaxada - já havia feito aquilo centenas de vezes, era campo seguro, território neutro, dentro do controle. Beleza, estava tranquila, apesar do calor de mais ou menos 30 graus que estava rolando lá dentro. Também, pudera: eram 44 alunos, além dos senseis e convidados. Tudo isso gerava um calor humano dos mais potentes...

O problema recomeçou quando que eu me liguei que os 4 senseis presentes (Luciano, Rato, Edivan e Jurandir) ficavam passando entre nós, olhando detalhadamente o que estávamos fazendo. Recomeçou o nervosismo, e quando o Luciano me corrigiu no bloqueio de um mawashi, eu tremi na base - pronto, tinha havido uma falha. Quase chorei, mas o olhar tranquilo da Fabi, que no auge da sua porra-louquice estava achando tudo aquilo o maior barato, me tranquilizou... só dava pra seguir em frente.

Acabado o treino, foram nos chamando em ordem de faixa. Dava pra sentir uma energia incrível rolando ali no meio daquela galera, todo mundo sentado esperando ansiosamente seus nomes serem chamados, o sensei Luciano com um livro preto na mão, iguais àqueles que as professoras usavam no colégio para escrever anotações e advertências sobre os alunos. Então... então eu estava na maior adrenalina e na maior tensão ao mesmo tempo.

Faixa azul eu sabia que não tinha pegado, mas na amarela eu dei uma titubeada... será que tinha conseguido superar? O sensei chamou as meninas, e eu via na cara delas o orgulho e o sentimento de conquista. Fiquei orgulhosa que todas as meninas da academia estavam com uma graduação mais alta, e vi que o Rato também estava bem feliz.

Quando o sensei começou a chamar os faixa-verde, eu quase explodi: tinha conseguido! Era de verde pra cima, e aquele era meu objetivo. Fora pelo calção verde que eu parara de fumar, fora pelo calção verde que eu havia abdicado de muita coisa em prol dos treinos. Foi pelo calção verde que minhas amigas se irritaram algumas vezes quando eu eliminei todas as segundas e quartas à noite do meu calendário de saídas noturnas– “é dia de treino, e eu não vou faltar”. De segundas e quartas, eu incluí as terças e quintas à tarde, e depois a sexta-feira à noite. Minha família reclamou um pouco que eu só treinava, e foi meio duro fazer mamis compreender que os machucados faziam parte do negócio...
O pessoal era chamado um a um e eu fui ficando. Todo mundo morreu de rir quando o sensei chamou o Ligeiro por um nome meio americanizado, que a princípio ninguém reconheceu. Era óbvio que o apelido ia pegar. Ia não, já pegara: de Janílson, ele virara o Djénilson, e a gafe foi a oportunidade que todo mundo esperava pra poder rir, mostrar que estava feliz, tirando um pouco a cara de seriedade do rosto.

Quando o Luciano me chamou, eu queria pular, gritar, chorar. OSSU!, foi tudo o que eu disse, e orgulhosamente me sentei junto aos demais faixa verde. Enquanto os outros alunos eram graduados, um filminho passou na minha cabeça – lembrei da primeira aula que eu fiz, ainda na academia do Bruno, com o Thiaguinho... não sabia o que era jab, nem direto, muito menos um gedan. Minha irmã ainda lutava comigo, a gente achava tudo aquilo a maior doidera e às vezes até brigávamos no meio do treino.

Lembrei quantas vezes pensei em parar os treinos por achar que não levava jeito pra coisa, mas as palavras do sensei Rato sempre me motivavam e eu seguia em frente, até mudar pra academia da Lapa atrás dele quando ele saiu da Uru-Brasil. Lembrei que eu cheguei lá na Lapa cheia de medo, com a minha sempre presente dificuldade em fazer amigos, insegura, com vergonha... Lembrei que abandonei os treinos no começo do ano por causa da ansiedade, e que fui super bem recebida quando voltei com o rabo entre as pernas e disposta a recuperar o meu moral. Foi quando eu e as meninas metaforicamente baixamos a guarda e nos tornamos amigas, parceiras, que se ajudam nas horas difíceis, que puxam a orelha uma da outra durante os treinos – o mais honesto exemplo de seiwa: a união pela aprendizagem, a ação coletiva, o esforço conjunto.

Após a graduação, fomos todos tomar uma cerveja na pastelaria ali na Monteiro de Melo mesmo, e claro que o brinde foi um OSSU! bem alto e bem forte, como a gente merecia! A Shirlei tentou ir embora umas 12 vezes e em todas elas a gente a convenceu a ficar mais um pouquinho. Ninguém queria que ninguém fosse embora, pois havíamos conquistado aquilo juntos, e a Shirlei era o maior exemplo de superação – ela teve que usar a corda durante os primeiros meses, e estar ali era uma puta vitória!

A gente comeu e bebeu, e conversou e riu demais, todos meio anestesiados pela descarga de adrenalina: tinha acabado, e todo mundo tava mais que satisfeito! Dava pra ver que o sensei estava orgulhoso de nós, e o sorriso da galera quando viramos o último copo era algo de filme. Ninguém tirou foto porque nem precisava: eu tenho certeza que ninguém nunca vai esquecer aquele brinde.

Depois de um tempo os ânimos foram baixando, a adrenalina acabando, e sem falar nada, levantamos pra irmos embora. A despedida na frente da academia foi gostosa, com muitos parabéns e agradecimentos ao sensei, e todo mundo se comprometeu a, óbvio, estar lá de novo na segunda à noite pra treinar pesado.

Voltando pra casa o sorriso não saía do rosto... vitória, vitória, vitória! Não há nada igual ao sentimento de vencer os próprios fantasmas, e eu estava tomada por satisfação. Botei no som o meu hino à alegria, Girls just want to have fun, e cantei a plenos pulmões porque era bem isso: eu tinha vencido uma etapa importante e agora queria curtir a conquista, sentir orgulho, merecido orgulho, e me sentir finalmente confiante.

Chegando em casa, a adrenalina baixou total e veio o sono, merecido, após tantas noites mal-dormidas. Abracei minha mãe, que ficou toda orgulhosa da filhinha, e me fechei no meu quarto. Era a minha hora comigo mesma. Continuei com a roupa de treino, e me olhei no espelho com olhos de combate... sorri – agora, Ana Paula, é rumo ao ringue, rumo à faixa marrom, rumo às competições.

Com espírito guerreiro e de roupa de treino e tudo, adormeci, um sono profundo com sonhos intenso, povoados de príncipes, princesas e ringues em plenos verdes campos... no centro do campo estava eu, num lindo vestido. E quando eu subi naquele ringue, o Sr. Myagui, de Karate Kid, estava lá, me entregando uma flor verde.

Acordei agradecendo àquele mestre que na minha infância e em minhas fantasias me deu tantos exemplos, e dentro de mim nasceu uma nova sensação: a de que tudo está apenas começando...

sexta-feira, setembro 05, 2008

Outra de mim


Outro dia, conversando com um amigo dos mais queridos, cheguei a uma conclusão tão surpreendente que quase caí numa daquelas valas que acompanham toda a extensão da Praia Grande de Ubatuba.

- Xu... quer dizer então que eu me amo?

Bingo.

A conversa girava em torno das filosofadas que costumamos dar de vez em quando. Somos muito parecidos, este meu amigo e eu. Concordamos sobre quase tudo, fazemos o mesmo tipo de piadinhas irônicas, usamos de brincadeiras maldosas com a mesma culpa de uma criança quando rouba um pirulito: tá errado, mas faz...

Por voltas que o mundo dá, estava eu dizendo a este mesmo amigo que às vezes achava difícil conversar com as pessoas da maneira que eu desejava. Às vezes as pessoas não tinham tanto interesse pelo tema, às vezes não compreendiam meu ponto, às vezes se detinham ao “micro” quando eu queria falar do “macro”, às vezes preferiam assistir à tv, o que me deixava um pouco frustrada.

Comentei então sobre meu desejo de encontrar alguém igual a mim... não um homem, no sentido de “encontrar-alguém-romanticamente-falando”, e sim de ter uma parceira que pense, fale, filosofe como eu. Que me compreenda e que discorde de mim tantas vezes quantas quiser, porque no final, a conclusão (“não há conclusão”) será pacífica.

- O que eu queria mesmo era outra de mim. Pensa nas vantagens, xu... quando eu quiser ver um filme, ela também iria querer. Ou tomar banho, nunca teria conflito quanto ao horário. E se eu quisesse trocar essas minhas idéias meio doidas que às vezes aborrecem as pessoas, teria a parceira ideal pra ter essa conversa. Não seria fantástico?

- Talvez isso mostre que você é a melhor companhia pra você mesma.

Engraçado, às vezes parece que tenho dúzias de analistas. Naquela hora, fiquei estupefata, e me senti como quando tive meu primeiro insight em terapia, já há uns 4 anos... EUREKA! Descobri: sou minha melhor amiga.

Depois disso, parei pra olhar pra mim, e me achei ultra-bacana. Claro que tenho defeitos inúmeros, e um deles é ser crítica demais com as pessoas – tenho trabalhado duro nesse aspecto, praticamente entoando o mantra “não julgar, não julgar”. E eu também posso ser bem exigente às vezes, o que dá na mesma do que ser crítica. Às vezes eu também consigo ser bem grossa, mas quase sempre me desculpo na próxima meia hora.

Mas, pra falar bem a verdade, eu sou bem legalzinha. Além de gostar da minha aparência (viva, a terapia funcionou mesmo!), gosto da minha inteligência e das minhas sacadas bacanas. Tem dias que me sinto altamente espertinha e moderninha, tem dias que me sinto assim mais zen-budista: vendo amor e cor-de-rosa em todo mundo.

Tenho dificuldades para perdoar alguém, mas quando perdõo, eu absolutamente esqueço da mancada. Aliás, meu coração tem uma capacidade de perdoar bastante grande, o que é quase como dizer que eu sou generosa. Ah, sim, sou generosa, mesmo que isso não signifique que eu compartilhe minha comida com os outros. Sim, com comida sou egoísta. Odeio dar uma mordida do meu sanduíche, mas dou por educação. E mais egoísta ainda, cobro uma mordida dos outros.

Mesmo que todos os meus amigos venham, fatalmente, a se deparar com meu egoísmo alimentar algum dia, ainda assim me considero generosa. Às vezes dou o braço antes mesmo que peçam a mão. E dentro da generosidade, eu acabo sendo carinhosa. Acho importante o contato físico, acho legal falar que gosto das pessoas. Minha mãe me ensinou a abraçar ao menos 6 vezes por dia, a tal da Terapia do Abraço – às vezes esqueço algum e abraço meus gatinhos (de quatro patas).

Gosto do meu senso de humor e adoro que tenha me tornado cada vez mais espontânea. Admiro que eu tenha perdido tantos medos. Defendo minhas idéias com convicção, e mesmo detestando qualquer tipo de julgamento, páro pra pensar quando sou criticada (nem sempre concordo com a crítica).

Eu sou questionadora e amo esse meu lado: pra acreditar em algo, eu tenho que entender. Pra poder te ajudar em algo, preciso te conhecer. E se eu não entender alguma coisa no meio do caminho, eu vou perguntar.

Eu sou uma pessoa que se adapta facilmente aos mais variados lugares e situações, mas não sou do tipo que se adapta só pra te agradar. Ah não, isso eu não faço mais. Se tem algo que eu aprendi (e eu aprendo rápido) é a ser eu mesma, e parar de tentar ser o que os outros querem que eu seja: é falso, é desleal e nunca será convincente.

Se tem uma característica minha muito legal é que eu sou bem verdadeira. Odeio meias-verdades ainda mais do que odeio as mentiras, porque a mentira não envolve tanta manipulação. A meia-verdade é grotesca de tão dissimulada. Então da minha boca você pode até não ouvir nada e eu me recusar a responder, mas mentira você não ouve. Acredite: com isso eu tomo bastante cuidado. Eu falo na cara mesmo, com carinho mas bem na cara.

Me arrependo de pouca coisa na minha vida. Estou satisfeita com meu caminho, incluindo os tombos. Tenho orgulho dos ralados nos joelhos, dos hematomas nas coxas, dos nós dos dedos avermelhados. Eu sou uma vencedora. Tenho coragem e arrisco, mesmo enfrentando fracassos durante a jornada. E quem liga pra eles? Significa que a gente tentou: não deu e a gente aprende a fazer diferente. No final eu tenho certeza absoluta que vai dar certo, o que é outra caraterística legal em mim: eu sou positiva e bem-humorada (especialmente de manhã, o que às vezes irrita as pessoas).

Eu gosto do fato de eu adorar ler e curtir compartilhar as idéias que eu leio. Pouca gente faz isso hoje em dia. As pessoas estão mais interessadas em contar que leram, contar que assistiram, descrever a cena, narrar o acontecido. Mas quem hoje em dia quer compartilhar, dizer o que sentiu, pedir opinião? Ah, poucas. E acho que sou amiga da maioria delas, graças a Deus!

Falando em amigos, tenho orgulho de ter tantos. Tenho tanto amigo e amiga diferente que daria um cardápio interessante. Tem roqueiro, cocota, hype, hippie, intelectual, artista, músico, atleta, massagista, loiro, mulato, preto bem preto, branco dos mais brancos, tem ruiva, morena gigante e loira pequenininha, tem cabeludo e tem careca, tem careta e tem moderno, ter gordo e magro, tem gente politizada e gente anarquista, e o mais legal de tudo é que eu tenho tudo a ver com cada um deles.

Não tenho a ver com quem passa mais tempo criticando, exigindo e cobrando, não tenho a ver com gente opressora que demanda mais do que os outros podem dar. Não tenho absolutamente nada a ver com gente esnobe nem com gente que se acha a última bolacha do pacote (embora nesse texto eu não esteja sendo lá muito humilde. Quem liga? Todo mundo precisa auto-pagar-pau de vez em quando). Ah, e não tenho nada a ver com gente hipócrita, espiritualizados de meia-tigela que se dizem evoluídos mas que alimentam sentimentos negativos e inferiores. Ah, nada a ver comigo. Prefiro ateus honestos, agnósticos sinceros, do que projetos de Dalai Lamas absolutamente hipócritas e julgamentosos, que adoooooram apontar o dedo na cara dos outros e dizer onde estão errando. Pé de pato, mangalô, três vezes que eu não quero (mais) nada com esse tipo de ser humano!

Mas talvez o lado em mim que eu mais goste, e mais admire, é justamente o meu amor-próprio. Que delícia é se amar, e pouca gente sabe disso! Uma vez conquistado o amor-próprio, me tornei mais alegre, trato bem as pessoas, sorrio para o padeiro (não confundir com paquera). Não mudo porque alguém quer, a não ser que esse alguém me apresente ótimas razões para tal, e isso, até hoje, aconteceu apenas algumas vezes, me fazendo melhorar como pessoa, como amiga, como namorada ou parente. Às vezes até como profissional, se bem que me considero exemplar (o que não quer dizer que eu não tenha ainda muito o que aprender).

A verdade é que eu adoraria ter outra de mim 24 horas por dia, nem que fosse pra brigar a cada cinco minutos que nem quando a gente namora gente muito parecida conosco: sempre sai pau. Mesmo assim eu adoraria trocar idéia até dormir. Adoraria me dar uns amassos. Adoraria ganhar um cafuné ou um abraço meu. Curtiria bastante ser minha amiga.

Mas talvez eu não precise...

- Você tem a si mesma todos os dias, xu... o que mais você poderia querer?

terça-feira, setembro 02, 2008

Vício


O seu silêncio me enlouquece enquanto meu vício se torna o seu pecado. Não suporto esperar nem mais um segundo sequer. Meu ventre denuncia o que espero destes seus olhos fluidos – eles revelam a graça que existe neste seu espírito de combate. Não fecho os punhos e abaixo minha guarda, há tanto pra viver que aqui dentro bate freneticamente: a minha explosão é quase certa e deste vulcão não sairão lágrimas. Vamos quebrar esta ética hipócrita que dita quem devemos e quem não devemos amar, quem devemos respeitar ou a quem devemos gratidão. Chega de paradigmas, pois somos paradoxo. Aparemos estas arestas e arrisquemos todos os nossos princípios neste jogo de esconde-esconde: eu já não tenho o que esconder. É você, nada mais, sou eu e esta dança inesgotável entre os sentidos, as fantasias e um terno encantamento. Eu a gueixa, você um samurai – apenas e tão somente recebo seu corpo cansado de mais uma batalha. Dôo-me a ele, enalteço tua honra, e te faço dormir.

Hajime.

quarta-feira, agosto 27, 2008

sonhei com você


eu estava de joelhos.
um sonho espiritual.
eu estava ajoelhada diante de ti.
em minhas mãos eu tinha um terço.

os outros dois terços, eu tinha nos lábios.

alta sensibilidade.
espirituosidade.

amém...?

segunda-feira, agosto 25, 2008

Amigos, amigos...

Entre os mais curiosos mistérios da humanidade, a amizade entre homens e mulheres sempre me chamou a atenção.

Não sei se acredito. Ou melhor, talvez eu sempre tenha acreditado, mas esteja perto de começar a desacreditar.

Muita gente já disse que o comportamento dos homens em relação às mulheres (e vice-versa) é, primordialmente, instintivo. A velha e manjada preservação da espécie. Primeiro, homens e mulheres se olham como animais e verificam se o espécime em sua frente seria um bom reprodutor. Se isso não se confirma, nasce uma amizade (ou não).

Ok. Até aí tudo bem.

Mas e quando, de uma suposta amizade, nasce uma atração? Será que isso não confirma que, a bem da verdade, a amizade inteira foi uma puta questão de interesse, e que um dos dois estava apenas esperando o momento de dar o bote?

Pergunta: é possível realmente dois amigos fazerem sexo e a amizade continuar intocada? Ou melhor... se dois amigos chegam ao ponto de fazer sexo, pode-se dizer que eles eram mesmo amigos? E apenas isso?

Procurando pelo significado da palavra “amizade” no dicionário eletrônico Houaiss, me deparei com diversos significados. A palavra “amizade” vem do latim amicitas, que quer dizer aliança, pacto. Modernizada, amizade pode ser desde “sentimento de grande afeição, de simpatia (por alguém não necessariamente unido por parentesco ou relacionamento sexual)”, passando por “reciprocidade de afeto” e chegando até mesmo a “atitude ou gesto de benevolência, de complacência”.

Algumas linhas abaixo, constavam alguns regionalismos. E ali encontrei o que procurava.

amizade colorida
Regionalismo: Brasil. Uso: informal.
relacionamento amoroso e sexual, ger. passageiro, sem compromisso de estabilidade ou fidelidade

Então uma amizade entre homens e mulheres pode, facilmente, transformar-se em amizade colorida? Com que facilidade? A estabilidade referida acima, o que exatamente ela quer dizer? Que convites para o fim de semana, incluindo dormir na mesma cama, podem ser apenas um gesto de amizade?

Eu não sei mais no que acredito.

Quando um homem e uma mulher que se dizem amigos fazem sexo, é claro e evidente que a atração sexual superou todos os outros sentimentos, transformando uma hipotética relação de amizade em uma amizade colorida. É tipo uma quebra de barreiras, pois supõe-se que, em uma amizade, não exista posse, nem egoísmos, nem segundos interesses, o que absolutamente não condiz com a minha idéia do que permeia as relações sexuais mais-ou-menos contínuas, mesmo que casuais. Pra mim, isso muda um pouco a tal da “reciprocidade de afeto, sentimento de grande afeição e simpatia, atitude de benevolência” (a não ser que, após alguns meses de seca, seu melhor amigo tope transar com você por caridade, o que convenhamos, é bem esquisito).

Claro que às vezes a gente mistura as coisas, ou bebe demais e acaba fazendo algumas besteiras. Às vezes a gente confunde apoio com xaveco e dá uma escorregada (nesse caso, os amigos sentam e conversam, e não há mal-entendidos). Mas isso só acontece se, alguma vez na vida, você já olhou pro amigo (ou amiga) com outros olhos. Às vezes até inconscientemente. E, desculpa, um “deslize” dá pra entender, dois já vira um teretetê.

Talvez eu seja meio careta, mas acho que então não é amizade. Eu não tenho vontade de beijar diversos amigos meus, e muitos deles também jamais demonstraram querer me beijar. E olha que alguns são lindinhos, uma graça, tipo bons partidos. Mas de alguma forma, não rola.

Pra mim não é normal não senhor eu dormir na mesma cama com alguém com quem já fiz sexo até mais de uma vez, e isso não significar, necessariamente, que eu estou afim de mais uminha. Eu não costumo dormir numa boa (leia-se, desinteressadamente) na mesma cama de pessoas com as quais já transei. Na verdade isso nunca aconteceu comigo.

Já dormi sim na mesma cama com amigos, mas amigos com os quais nunca tinha rolado nem mesmo uma olhada pra minha bunda. E, se acaso amigos com os quais já rolaram coisas me convidam para dormir em suas residências, eu consigo distinguir direitinho as intenções, e se não quiser nadinha de nada, simplesmente não aceito o convite. O que faz com que eu me torne repetitiva e reforce: eu não durmo na mesma cama com pessoas com as quais já transei se não houver espaço prum repeteco.

Principalmente se ambos estivermos deitados e semi-nus (eu não fico semi-nua na frente de amigos meus).

Porque senão, como funciona isso aí? Quer dizer que se eu dou prum amigo e na semana seguinte ele me chama pra ir pra casa dele, eu devo considerar a hipótese de que talvez aquele convite nada tenha de sexual?

Ele quer é jogar videogame?
E eu não devo nem alimentar expectativas?
Mas devo estar preparada caso “pintar um clima”??
Mas que pode ser que não role?
Afinal acima de tudo somos amigos?

A verdade é que todo esse papo de modernidade me confunde e eu já não sei nem se minha cabeça deveria se atualizar. Será que um dia seremos todos amiguinhos coloridos, que ligam uma hora pra transar, outra hora pra chorar um coração partido? E aí tudo bem, o amigo que te comeu ontem conta pra você o quanto está afim de comer a gatinha da academia, e você sorri, acha o máximo e dá conselhos? Assim tudo numa boa?

Então eu devo olhar desconfiada pra todos os meus amigos, porque na real eles querem mesmo é papar a minha bundinha? E se não paparam é porque eu não seria uma boa reprodutora? E aí a culpa é minha?

Mas... e onde ficam todos os meus amigos queridões com os quais eu tomo cerveja, falo um monte de besteira, viajo sozinha (cada um dorme numa cama), conto meus casos amorosos?

Algo não se encaixa.

Pra mim amigo é amigo, amante é amante. Fuck-buddie já é outra categoria, definitivamente distante do que eu chamo de amigo. Porque amigo eu até fico abraçadinha, mas não beijo na boca nem transo loucamente.

Talvez então meus “amigos” devessem ser chamados de colegas. Ou talvez outro nome que sirva para definir aquele “amigo” que a gente adora, conversa horrores, tem a tal reciprocidade de afeto e às vezes até de ciúmes, mas que o sexo é bom pra caramba e você faria todos os dias, embora não esteja apaixonada.

Ainda não encontrei esse termo no Houaiss, por isso coloquei as aspas - acho que não existe. E se não existe o termo, será que existe de verdade? Não conheço nada que exista sem ter um nome... ou existe?

(Talvez somente isso aqui dentro)

Amigos amigos... mas por favor, o sexo à parte.

sexta-feira, agosto 22, 2008

Diálogo_Em Nárnia

(Explica?)

** Marcela Marson** diz:
o q?

¬¬ N. diz:
o q?

** Marcela Marson** diz:
o que eu não sei

¬¬ N. diz:
hahahahha

¬¬ N. diz:
porra

** Marcela Marson** diz:
mas só sei q vou embora!

** Marcela Marson** diz:
hahahaha

** Marcela Marson** diz:
hahhaa

¬¬ N. diz:
fechou a janela de novo?

** Marcela Marson** diz:
hahaha

** Marcela Marson** diz:
sim

** Marcela Marson** diz:
hahaahaa

¬¬ N. diz:
caralho marcela

¬¬ N. diz:
tb não falo mais!

¬¬ N. diz:
hahahahaha

¬¬ N. diz:
gente to em narnia

¬¬ N. diz:
rindo a valer

¬¬ N. diz:
nao sei pq

** Marcela Marson** diz:
hahahahahahaha

** Marcela Marson** diz:
eu tb!!

¬¬ N. diz:
pq só tomei uma cervejinha

** Marcela Marson** diz:
hahahah

¬¬ N. diz:
que divertido

** Marcela Marson** diz:
e eu??

** Marcela Marson** diz:
eu??

¬¬ N. diz:
que animado

** Marcela Marson** diz:
que nem isso tomei?

** Marcela Marson** diz:
o que será?

¬¬ N. diz:
vc está bebada de oxigenio

** Marcela Marson** diz:
tô com problemas?

¬¬ N. diz:
sérios!

** Marcela Marson** diz:
hahahhaa

¬¬ N. diz:
hahahaha

¬¬ N. diz:
somos felizes!

¬¬ N. diz:
hahahha

** Marcela Marson** diz:
bemmm grave!

** Marcela Marson** diz:
affe

** Marcela Marson** diz:
hahahha

** Marcela Marson** diz:
bommm

** Marcela Marson** diz:
eu vou embora pq não da mais

** Marcela Marson** diz:
chega!

** Marcela Marson** diz:
pra mim basta!

** Marcela Marson** diz:
e tenho dito!

** Marcela Marson** diz:
hahahhaa

¬¬ N. diz:
ó-quê..........

** Marcela Marson** diz:
hahahhahah

¬¬ N. diz:
vai lá

** Marcela Marson** diz:
:~

** Marcela Marson** diz:
nada

¬¬ N. diz:
9 horas to te pegando

** Marcela Marson** diz:
hahahaha

** Marcela Marson** diz:
kkk

¬¬ N. diz:
ui

** Marcela Marson** diz:
tá vou arrumar minha malinha

** Marcela Marson** diz:
aiiii como sou fofinha!

** Marcela Marson** diz:
hahahaha

** Marcela Marson** diz:
hahahaaha

** Marcela Marson** diz:
hahaha

¬¬ N. diz:
jhahahahhahkjhsagkjhskjgvbkfhglof

¬¬ N. diz:
ajfkusgfhsdgfuhsdiugugslg

¬¬ N. diz:
jhfgjtfgkshgfmsgbvkbjgftiruytihgksjçgujçhg

** Marcela Marson** diz:
de rugê

** Marcela Marson** diz:
hahahahahha

** Marcela Marson** diz:
hahhahaha

** Marcela Marson** diz:
sdhksafhkdhsfkdghfyewuiryfehnfc

¬¬ N. diz:
kkkkkkkkkk

** Marcela Marson** diz:
hdhciusdhcyiewhdfuchs jkfhl

** Marcela Marson** diz:
hdkjheywdwsd

** Marcela Marson** diz:
kkk

¬¬ N. diz:
somos ridiculaaaaaaaaaaaas

** Marcela Marson** diz:
:~

¬¬ N. diz:
hahahahha

** Marcela Marson** diz:
olha

** Marcela Marson** diz:
q linda]

** Marcela Marson** diz:
hahahah

** Marcela Marson** diz:
:~

** Marcela Marson** diz:
chegaa

** Marcela Marson** diz:
hahaha

¬¬ N. diz:
come merda e tamo rindo

** Marcela Marson** diz:
to indo

¬¬ N. diz:
aí sim

¬¬ N. diz:
vai

¬¬ N. diz:
tchau

** Marcela Marson** diz:
isso

¬¬ N. diz:
até as 9

** Marcela Marson** diz:
pra vc tb!

** Marcela Marson** diz:
hahaha

¬¬ N. diz:
hahha

** Marcela Marson** diz:
beijocasss

¬¬ N. diz:
bjos amiga

** Marcela Marson** diz:
até

** Marcela Marson** diz:
não demora

¬¬ N. diz:
;)

¬¬ N. diz:
podea

** Marcela Marson** diz:
bjoss

¬¬ N. diz:
podexá

¬¬ N. diz:
bjs

** Marcela Marson** diz:
ahahaha

** Marcela Marson** diz:
beijos da fofinha

** Marcela Marson** diz:
hahaha

¬¬ N. diz:
hahahahahha

** Marcela Marson** diz:
podeá

** Marcela Marson** diz:
hahahah

¬¬ N. diz:
jgkfjshgkjhfgbujhfkbjhfdkjgh

¬¬ N. diz:
nfhjksdhgfhsdgkksjd

¬¬ N. diz:
TCHAUUUUUUUU

** Marcela Marson** diz:
kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk

** Marcela Marson** diz:
fuiiiiiiiiiiiiiiiiiii

segunda-feira, agosto 18, 2008

Gremlin!


Quem me conhece sabe: eu sou boazinha até a página dois.

E, pra falar bem a verdade, já teve vezes em que eu me orgulhei disso. É sério: já aconteceu uma porrada de vezes de eu, uma babaca completa, achar até bacaninha surpreender todo mundo e dar umas surtadas às vezes. Surtadas seria exagero, mas é fato que tem hora que eu literalmente viro o bicho, já que nestes momentos minha fala chega a ficar incompreensível, sendo muito mais marcada por rugidos e grasnados do que por frases construídas com palavras.

Eu chego a montar frases sem verbo.

Todos os meus amigos e amigas sabem que, apesar de ser raro, o meu mau-humor é ímpar. Quando eu estou de mal com a vida, é melhor se benzer e sair da frente, ou corre-se o sério risco de virar alvo de patadas, ironias e piadas cruéis de humor negro. Se você não me conhecer muito bem, vai achar que é mentira. Mas pergunte a qualquer um que me conhece melhor: me aguentar puta da vida atinge o nível 200 da Escala de Paciência Necessária. Além de ser igualmente necessário ter bastante estômago.

É raro, mas acontece.

A verdade é que eu sou bem legalzinha até alguma coisa realmente feder perto de mim. Tipo uma pisada no calo. Tipo me passar pra trás. Tipo me julgar sem me conhecer. Porque com isso eu fico putona mesmo e então sai de baixo que a boiada vai passar. Aí não tem piadinha nem ironia, é na lata mesmo, é lavagem de roupa suja.

Mas às vezes (raramente, reforço) basta pouco, mas muito pouco mesmo, pra eu virar uma megera. Basta a porra da internet cair. Basta o imbecil do vizinho não ter deixado a chave dentro do carro quando vou manobrar. Basta embalagem de CD (existe algo mais insuportável?). Basta me deixar esperando. Basta eu cortar o cabelo (odeio).

Sendo assim, outro dia, em plena análise, cheguei a uma grande conclusão a respeito de mim mesma. Ok, talvez você não ache grande, nem sequer mediana, talvez ache até meio idiota, mas para mim fez todo o sentido do mundo: eu sou um gremlin.

Alguém aí lembra dos Gremlins? Aqueles bichinhos fofinhos e peludinhos, de olhar manso e carinha amorosa?

Os quais, ao menor contato com a água, viravam criaturas infernais, endiabradas, algo assim como pequenos demônios?

Pra quem não lembra, os Gremlins (que, na fase boazinha, chamam-se Mogwais), tinham três regrinhas básicas para uma boa convivência com os seres humanos: não serem expostos à luz forte; não entrarem em contato com a água; e, por fim, nunca, jamais, em hipótese alguma, ser alimentados após à meia-noite, não importando a carinha de dó que fizessem. Qualquer uma das alternativas faria com que o dócil bichinho virasse um mostrengo, que se multiplicaria indefinidamente.

A associação não é difícil: às vezes, realmente basta uma gotinha de água pra me enfezar (e eu confesso que às vezes qualquer gotinha de água faz meu copo transbordar), basta uma crise compulsiva de ataque noturno à geladeira para me deixar irritada pro resto da semana. E quando eu fico puta da vida, é bem capaz que eu fique assim, meio sacana. Meio filha-da-puta.

Dificilmente eu bateria em alguém – não sou disso, odeio briga e detestaria apanhar (já bastam os treinos). Sou realmente mais fã da agressão psicológica (como por exemplo fazer cara de “hmmm” quando o alvo da minha putice reclama que está ficando velha) e das molecagens estilo saci-pererê. Tipo amarrar os seus cadarços de um tênis nos do outro por debaixo da mesa. Ou jogar sal no seu refrigerante. Ou cuspir na maçaneta do seu carro: de baixo nível e tira qualquer um do sério, mas apenas estripulias.

Eu diria até que, quando estou “inspirada”, nada me passa despercebido. Eu chego a gostar de ser meio cuzona e assim vou me alimentando de comentários infelizes dos outros pra bolar a próxima piadinha malévola, como o gremlin do filme que pula numa piscina pra se multiplicar e dominar toda uma cidade. Pra resumir a ópera, eu me torno alguém 100% estúpida, 110% maldosa e 150% politicamente incorreta, mas incapaz de grandes estragos. É foda. E eu quase-quase me orgulho disso.

Mas vá lá, quem nunca cagou que atire a primeira pedra... no fundo no fundo, sou apenas como você ou como eles: tenho um lado irracional que aflora de vez em quando. Aquele lado meio bicho que fica egoísta e ri da desgraça alheia. Vai dizer que você nunca riu assistindo Vídeos Incríveis? Ou de um tombaço de alguém na rua? O princípio é o mesmo: o escárnio se torna um prazer e os palavrões estão presentes na maioria das frases.

A diferença é que, quando eu estou do avesso, eu geralmente crio motivos pra satirizar algo ou pra falar todas as palavras feias do mundo. Normal.

O que me deixa tranquila é que, no final do filme dos Gremlins, o velho chinês que vendeu o Guizmo pro pai do Billy (lembram deles?) vai buscar o bichinho de volta, e explica que a sociedade não está pronta pr’aquele tipo de criatura.

No fim tudo acaba bem (menos pro Guizmo que fica sem os amiguinhos e sozinho com o sábio chinês). A cidade é reconstruída e fica linda mesmo estando uma merda. O Billy fica triste mas compreende. Ele até sente saudades daquela bolinha de pêlos.

A melhor parte é que, no final das contas, o Guizmo vira uma criatura quase mágica, secreta e especial. A sociedade é que está despreparada. Moral da história: os culpados são os outros que não seguiram as regrinhas. Afinal, eles foram avisados!

O que... hm, bem... isenta os gremlins de toda a responsabilidade pelos seus atos!

Hãn, hãn?

Adooooooooooro!

segunda-feira, agosto 11, 2008

Diálogo_ Hipocrisia

Jix. diz:
e aí mocinha?

N. diz:
oiiiii querido

Jix. diz:
e aí, no que deu aquele dia com o seu “samurai”?

N. diz:
samurai?

N. diz:
nem sei do que vc está falando... tchururururu :p

Jix. diz:
hahahahaha

Jix. diz:
quer dizer que não deu em nada?

N. diz:
pulei fora. o cara tem namorada. dá pra acreditar?

Jix. diz:
claro que dá. mas isso é só até ele ficar com você. vai ver que a namorada vaza rapidinho

N. diz:
tá louco? você sabe que esse não é o meu estilo. cara que namora.

Jix. diz:
você é muito careta. só porque o cara namora deixou de ser homem... para com isso

N. diz:
eu não sou careta, só não faço com os outros o que não gostaria que fizessem comigo

Jix. diz:
ooooooooooo que profundo. pena que as outras não sabem disso hahaha

Jix. diz:
brincadeira. mas é que somos todos filhos de Deus, ninguém é de ninguém :)

N. diz:
foda-se os outros, interessa o que eu penso... o que eu sinto quando ponho a cabeça no travesseiro.

Jix. diz:
não fica bem uma linda mulher falando assim...

N. diz:
assim?

Jix. diz:
“FODA-SE”

N. diz:
eu tenho sido bem honesta ultimamamente. e honestamente isso é pura hipocrisia.

Jix. diz:
é?

N. diz:
se fosse FODA-ME você iria adorar.

Jix. diz:
é, seria bem melhor.

N. diz:
ai ai... o contexto é sempre mais forte que o conceito...

Jix. diz:
né?

N. diz:
hum-hum.

domingo, agosto 10, 2008

Sei lá


Eu acho que o mundo anda muito louco.

Na verdade, eu acho que as pessoas andam com uns parafusos a menos, que estamos vivendo os efeitos da Era de Aquário, ou então que alguém colocou o Veneno da Ansiedade ou o Fungo da Neurose na água da Sabesp.

Eu nunca vi as pessoas tão ansiosas quanto ultimamente. É um tal de crise de ansiedade pra cá, arritmia cardíaca pra lá, dedos formigando e uma afobação generalizada, uma dificuldade coletiva de se acalmar, que eu tenho ficado com os cabelos em pé. As pessoas parecem estar assustadas. E tire você seu burrico da chuva se acha que eu vou dizer que a causa disso é a situação político-econômica, as condições financeiras ou as transformações culturais da nossa pátria mãe gentil.

Tá todo mundo desesperado de medo da solidão e... blábláblábláblá.

E eu, que geralmente acabo caindo na minha velha tendência de querer explicar tudo, ando meio cansada. Cansada de tanta reclamação, de tantas idéias pré-concebidas sobre o amor, cansada de tanta ladainha e de tantas perguntas-sem-resposta-só-porque-você-acha-que-é-assim.

Outro dia, em pleno sábado à noite, me peguei numa rodinha feminina com mais 3 amigas fantásticas, mulheres lindas e inteligentes, falando sobre O Assunto: Relacionamentos. Chamei a atenção da mulherada pro fato de que eram 4 da manhã e que, até então, não haviamos abordado nenhum outro tema que não esse. Ninguém me escutou. E duas semanas depois, o mesmo aconteceu – só que desta vez, acabei dormindo no meio da conversa.

Argh! Não aguento mais ver pessoas inteligentes, bonitas, bem-sucedidas, com potencial pra felicidade e generosas de coração se transtornarem com perguntas retóricas e questionamentos existenciais-amorosos. Tenho achado meio perda de tempo. Tenho ficado um pouco decepcionada.

Alto lá: nem por um momento eu me excluo dessa patotinha. O que duplamente me incomoda - será que a gente não tem mais nada de importante pra pensar? E quanto aos nossos trabalhos, nossos hobbies, nossos sonhos, nossas famílias, nossos amigos, nossos sapatos, nossos cremes anti-rugas? Será que o amor ocupa mesmo um lugar central em nossas vidas? Ando farta de tentar responder perguntas manjadíssimas, mas que sempre estão na moda. Por que eles são assim? ou Se sou tão boa assim, por que estou sozinha? ou Será que ele ainda pensa em mim?

Ai, sei lá.

Sei lá pra todas as perguntas acima. Sei lá se os homens são mesmo assim tão diferentes de nós, sei lá se as pessoas percebem o que fazem. Sei lá. Sei lá se você vai casar, se eu vou ter 3 filhos, se ela irá encontrar seu grande amor na Áustria ou num cruzamento da Av. Brasil. Ééé, o amor é imprevisível. Éééé, pode estar do seu lado mesmo, sei lá. Sei lá e do que me adianta pensar? Sei lá e por que você ainda está me perguntando isso?

Sei lá e no que eu saber vai mudar a sua vida??

Super okei, adooooro filosofar, viajar longe nas idéias, hipotetizar o mundo. Na verdade isso é praticamente tudo o que eu faço: transformar coisas simples em coisas ultra-complicadas, pra depois quebrar a cabeça pra fazê-las voltarem a ser simples (e, às vezes, sou paga pra isso).

Acontece que meio que encheu pensar só sobre isso. Na verdade, estou cagando pra se o amor pode ser para sempre, se existe amor à primeira vista, e estou pouco me lixando pra se a traição é diferente pro homem e pra mulher. Deve ser. Sei lá (mas não ando muito interessada). Porque namorados brigam tanto? Sei lá. A gente ama o ser amado ou o sentimento de amar? Sei lá, ô. Os homens quando estão mal no trabalho é igual mulher em TPM? Ai, não sei, não quero saber e tenho raiva de quem sabe.

O que eu quero saber é como ser cada dia mais feliz, cada dia mais esperta, cada dia mais realizada profissionalmente. Eu quero saber em que canal vai passar um filme legalzinho, que festa bacana vai rolar na sexta-feira e quanto custa aquela sandália fantástica.

Eu quero saber se meus amigos estão bem, se minha mãe está feliz, se minha irmã está afim de almoçar fora e se minhas contas estão em ordem. Eu quero saber de cuidar de mim, fazer hidratação no cabelo, cuidar da mente e da alma, e de quebra ainda ajudar alguém fazendo um trampo voluntário. Eu quero saber de sombra, água fresca, água salgada do mar de Ilhabela e um livro gostoso. Sozinha ou acompanhada. Juro que tanto faz, contanto que eu esteja tranquila, em paz, com bem-estar.

Eu juro que eu só quero ser feliz, e que se você quiser ir comigo eu vou adorar. Mas a gente pode falar sobre abelhas? É que de papo de amor eu já meio que cansei.

Sei lá...

segunda-feira, agosto 04, 2008

Olhos


O que dizem estes olhos por trás da fotografia?

Observo, continuam azuis.

São os mesmos olhos que conheci? Possuem a mesma profundidade? Tento decifrá-los e não consigo, não capto o que existe no fundo destas retinas – será dor? Será saudades?


Será resignação, afobação, euforia? Será descaso?

Conheci algum dia estes olhos? O que por detrás deles existe que nunca consegui acessar? São olhos mesmo ou são vidros, estáticos, parados no tempo?

Jamais os vi de verdade. Via apenas sua cor e a achava bonita, a achava profunda, achava um abismo. Hoje, nada além de uma linda gota azul me evocam estes olhos. Não imagino que pensamentos existem lá dentro, que memórias estes olhos guardam, que feição deste rosto é essa - a mim não foi dirigida, mas observo como se anos tivessem se passado desde que respirei seu cheiro pela última vez.

Contemplo este rosto por mais de dez longos minutos, lhe faço mil perguntas que estes olhos não respondem. Por onde andou você? Que anda construindo de sua vida? Ainda possui recordações?

Eu guardo na memória momentos em que estes olhos tanto falaram. Lacrimejaram em momentos em que esta alma abriu uma minúscula brecha em sua armadura de pedra. Acreditei ter entrado neste mundo particular – acreditei ter decifrado estes olhos que hoje nada mais me dizem.

Que são estes olhos? São verdadeiras portas do espírito ou meros órgãos sensoriais? O mundo à minha volta parece menos verdadeiro depois que os foquei – meu corpo fugiu e meu entorno transformou-se no mais discreto pesadelo dos últimos tempos.

Que são estes olhos? São mesmo seus? Ou são os meus próprios, a me fitar, e a apontar, acusadoramente, as direções que minha vida não seguiu?

Se dizem que os olhos são as janelas da alma... quanto tempo até a minha alma secar?

segunda-feira, julho 28, 2008

Solteiros paulistanos

É duro ser uma mulher solteira na 5ª maior cidade do mundo. São Paulo tem 19 milhões de habitantes, e é a maior cidade japonesa fora do Japão, a maior cidade espanhola fora da Espanha, e a terceira maior cidade alemã fora da Alemanha.

Morar em São Paulo significa viver num caldeirão de cultura em plena fervura. Aqui, não existe fogo baixo: encontra-se o que quiser, na hora que quiser, da maneira que quiser. O mais engraçado é que, com tantas opções, as mulheres acabam sempre disputando o mesmo espaço. Assim, enfurnam-se sempre dentro dos mesmos bares lotados, em busca de uma bebida e de um papo. E após a noitada, invariavelmente, concluem que sair à noite em São Paulo já não traz nenhuma novidade, pois todos os homens são i-guai-zi-nhos.









Sair à noite em São Paulo já não traz novidades: todos os
homens parecem iguais.


Entretanto, a cidade oferece tantos tipos diferentes de pretendentes que, em menos de um ano, minha amiga Christie* experimentou de tudo: médico psiquiatra, professor de kitesurf, policial civil, jogador de futebol americano, estudante de Direito, produtor musical, ator e até mesmo um peão boiadeiro. Resultado: zero relacionamentos.

O paradoxo do igual-mas-diferente dá no que pensar: afinal, talvez esta seja uma das maiores dificuldades de ser solteira(o) na cidade: muita oferta, muita procura, muitas diferenças a serem colocadas na balança. Aqui, se encontra desde hippies charmosos até executivos fetichistas. Há de tudo, o que significa também que é possível ter tudo. O lema da vez: possua tudo, antes que fique sem nada! (Se você pode ter tudo, por que escolher uma coisa só? E se existem tantas opções, tantos estilos, tantas diferenças, por que esta sensação de que tudo é sempre igual?)










O sexo está nas entrelinhas de todas as nossas relações.




Os primeiros encontros costumam seguir um padrão: geralmente um jantar, ou um cinema, às vezes um cinema seguido de jantar. Se você já está calejada, talvez acabará na cama; se ainda estiver resistindo às exigências da metrópole, ou então farta do sexo sem compromisso, enrolará durante mais alguns encontros, na tentativa de que deste mato saia ao menos uma mísera lebre. Entretanto, uma coisa é certa: fatalmente, o dating tentará algo. O sexo está nas entrelinhas de todas as relações, incluindo aí as amizades entre homens e mulheres - se somos amigos, por que não fazemos sexo? A verdade é que o sexo em São Paulo é quase tão comum quanto os engarrafamentos.


Minha amiga Elisa* mudou-se para São Paulo há quase 2 anos e ainda se espanta (e sofre) com a banalidade das relações paulistanas. Ela não está muito acostumada ao fato de que dormir com alguém não significa, necessariamente, que ele a apresentará para a família ou que cuidará dela quando ela estiver gripada. Na verdade, ninguém disse à ela que, ao transar com alguém por aqui, é mais provável que este alguém suma do que a relação se estenda. Diz ela que lá, em sua cidade, fazer sexo é 50% do caminho rumo a um relacionamento de verdade, estável e monogâmico. E a diversidade de parceiros e a frequência com que uma mulher faz sexo é motivo para que toda a cidade comente sua moralidade, o que é, em parte, um grande fator para que as mulheres sejam mais recatadas (gostos diferentes e manias bizarras, logicamente, não são bem-vistos).

São Paulo oferece anonimato, mas cobra alto por isso - aqui, você é apenas mais uma entre os quase 20 milhões de cabeças-ocas. Então, ok, você apronta o que quiser, escolhe tantos quanto quiser, trepa com cada um deles em dias diferentes da semana... mas, em quase 90% dos casos, vai continuar se sentindo sozinha porque esqueceu do fato de que você poderia ser apenas a quinta-feira daquele homem fantástico.

Na maioria das vezes, continuamos nos sentindo sozinhas.



O curioso dos romances paulistanos é que, de maneira geral, eles estão baseados na qualidade do sexo. Foi-se o tempo em que o que contava era a personalidade, os princípios, o caráter de uma pessoa. Hoje em dia, um sexo fantástico pode ser motivo de prender duas pessoas que, na maior parte do tempo, não se suportam.

Aliás, um sexo incrível engana muita gente – mania que temos de nos encantar por corpos, e não por mentes, e acabar nos apaixonando por quem apenas te come muito bem, obrigada (o que me remete àquela frase: amamos mais o sentimento de amar do que o ser amado). Trocando em miúdos: a gente gosta do cara porque ele transa bem, ou a gente gosta de ver que o cara fica maluco com a gente? No fundo no fundo, vamos lá... isso não é puro narcisismo?

Independente de sermos homens ou mulheres, se estivermos sempre procurando novas formas de “masturbação egóica”, talvez esteja aí a origem da mais frequente reclamação feminina: elas se sentem substituíveis. Se falta algo na morena que faça um homem se sentir o Sr. Super-Sexy, a loira trata de compensar, e nem ao menos a dor de cabeça de ter que se explicar existe mais para o cara – nesta cidade, alguém desaparece sem deixar a menor pista, e um cara pode sumir tão facilmente quanto o salário do bolso do trabalhador.

Seria das mulheres a culpa por isso? Algo em nosso comportamento mostra aos homens algum risco em continuar agindo como agem? A bem da verdade... por que é que eles deixariam de agir assim? Que vantagem levariam eles? Afinal de contas... não fomos nós, mulheres feministas que queimam sutiãs em praça pública, clamando por igualdade entre os sexos, que fizemos de nós artigos de fácil acesso, rápido descarte, zero problemas na devolução?




Não seria a culpa das mulheres
que, feministas, insistem na
igualdade entre os sexos?




Numa sociedade em que o que impera é o princípio do prazer e a satisfação imediata, como alcançar a difícil integração sexo + amor? Se o sexo é uma razão válida tanto para manter quanto para terminar uma relação, e se o amor sempre traz consigo questões cuja resolução às vezes requer tempo e paciência, quem ainda está disposto a pagar para ver? Ainda vale a pena tanto esforço? Faça você as contas: de todos com quem já saiu, quantos deram realmente certo? 10%? 5%? A questão é estatística: de 10 homens com quem já saí, 12 não deram em absolutamente nada.

Enquanto essas perguntas ficam no ar, alguns punhados de pessoas já fartas dessa babaquice ficam achando que o problema é com elas - elas são gordas demais, interessantes de menos, pobres demais, ou qualquer-coisa-demais-ou-de-menos para serem amadas. E outros punhados já estão convictos de que o amor acabou, e limitam-se a prospectar novas presas sexuais, novos jantares-seguidos-de-cinema, novas desculpas para não se relacionar, novas noites solitárias. O velho medo de amar.

A verdade é que, assim como tudo na nossa sociedade moderna, a maioria dos romances nesta cidade são efêmeros. Podem durar menos de duas horas, dependendo de quão bom foi o beijo durante o filme. Podem durar minutos, num engarrafamento na Juscelino, ou na saída de uma lanchonete da cidade. Pois em São Paulo, um simples sorriso é capaz de colorir um dia cinzento, um abraço gostoso já deixa os cabelos em pé. Afinal, temos medo que seja o último – o último sorriso, o último abraço, o último sinal fechado.

O medo da solidão, a carência e o desejo de ter alguém parece estar infiltrado nos nossos corações e em nossas mentes como um câncer: dói, dá trabalho e por vezes destrói o que possuímos de mais importante – os sentimentos, a pureza, a autenticidade.

É tanta coisa no menu que eu já nem sei o que comer" - já dizia o velho Raul...

Solteiros em São Paulo: somos produtos de uma sociedade ansiógena, exigente e narcisista. Ávidos por romance, fartos de decepções, cheios de traumas, cansados desse troca-troca.


Quanto a mim, ando oscilando – me pego cantando desde canções românticas até mesmo as do velho Raul: “é tanta coisa no menu que eu não sei o que comer...”

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* Os nomes verdadeiros foram trocados para preservar a identidade destas lindas solteironas.

sexta-feira, julho 25, 2008

SINCERIDADE

Gravura: Miyamoto Musashi, o maior Samurai de todos os tempos


"Uma das qualidades que mais importam ao Mestre no Caminho é a sinceridade de espírito do discípulo. Sincero vem do latim sine cera, que costuma ser associado a “sem cera”. Os antigos costumavam dizer que as colunas de mármore que ficavam desgastadas com o tempo eram completadas com cera em seus buracos. Eram colunas “com cera”. Os pilares que não escondiam falhas eram sine cera.

Existem pessoas que têm cera no coração e procuram tomar vantagem para si próprios a qualquer custo, mentindo, enganando e causando males aos outros. O samurai deve se esforçar no Caminho da Retidão, que em japonês se escreve com os ideogramas sei e jitsu.

Sei significa “correto”, jitsu significa “verdade”. Para o samurai, ter o espírito voltado para a retidão é ter o espírito correto no sentido de preservar a sinceridade e buscar a verdade.

Os mestres dos caminhos da iluminação ou das várias manifestações artísticas da cultura japonesa sabem que o Caminho é difícil, não é para qualquer um. Há que se persistir e insistir para chegar à perfeição. Sendo sine cera, conseguirá seguir fielmente os passos do Caminho, sem ser tentado a pegar um atalho ou um outro rumo."
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Retirado do livro "ShinHagakure - Pensamentos de um Samurai Moderno", do Sensei Jorge Kishikawa.

segunda-feira, julho 21, 2008

Fake

Ontem à noite, motivada por mais um ataque bravo de insônia, me flagrei zapeando a TV a cabo. Entre um milhão de seriados inúteis, comerciais, e filmes nada favoráveis à inteligência, um programa em especial me estarreceu.

Imagine você uma casa não muito grande, porém luxuosa, onde se trancafiam 10 lindas mulheres, todas com um objetivo em comum: conquistar um solteirão tudo-de-bom e cobiçadíssimo. O reality show envolve, basicamente, a disputa feminina pelo homem ideal que, deitado eternamente em berço esplêndido, limita-se a beijocar quantas quiser provar, e a dispensar as que menos o atraíram.

Este é o conteúdo de The Bachelor, programa exibido no Warner Channel, à 1h00 da manhã de segunda-feira. Com uma hora de duração, o programa apresenta os conflitos femininos, as brigas entre as candidatas, o dilema do solteirão, os encontros românticos e as lágrimas das rejeitadas - sem cortes, sem censura, sem privacidade.

Fiquei absolutamente chocada com a natureza do programa – nunca antes a já mal-falada competitividade feminina recebeu tanto incentivo, tanto escárnio e tanta publicidade. Além de quase voar pena durante as conversas entre as candidatas, era nítido o quanto as mulheres ainda são, infelizmente, umas tapadas nos relacionamentos.

Alto lá! Não estou culpando os homens. As próprias mulheres se fazem de trouxas e se desvalorizam perante os olhos masculinos, se colocando como meros corpos malhados e bocas sensuais, ignorando o fato de que o que sustenta uma relação é, basicamente, o quanto de parceria irá haver entre os amantes – o que decorre, fatalmente, do quanto você tem em comum com o parceiro.

Numa das cenas mais patéticas do programa, uma candidata tingia os cabelos (naturalmente escuros) de loiro-claro, horas antes de ter seu primeiro encontro em particular com o bonitão. Justificava ela: “o Charlie até agora só convidou as garotas loiras da casa para saírem sozinhos. Acho que irá perceber que estou tentando agradá-lo e irá gostar de mim.” Surpresa: o tal do Charlie rejeitou a moça, justamente por esta ter tentado ser o que não é, apenas para agradá-lo. Palavras do meninão: “Será que ela não pensou que, se a chamei para sair sozinhos, é porque aprovei a aparência dela?”

Não, Charlie, parece que não. Até que você é um garoto esperto... já a coitadinha dizia, entre lágrimas pretas de rímel, não entender por que fora rejeitada – sentia-se um fracasso e penso que, certamente, adquiriu aí alguns problemas de auto-estima.

De forma geral, o programa nada mais é do que um retrato fiel da realidade: as pessoas usam um milhão de máscaras, fazem mil e um joguinhos, e varrem pra debaixo do tapete toda e qualquer característica pessoal que possa ser minimamente mal-vista pelo pretendente. Mudam cores de cabelo, fazem tatuagens, mudam o gosto musical, o estilo de se vestir e fingem ser o que não são, na vã tentativa de fisgar o ser amado.

Tudo isso para, meses depois, surpreenderem-se quando o relacionamento se transforma numa verdadeira arena, lotada de frustrações e decepções. Os “eu te amo” transformam-se em “quem é você??”; de gatinhas manhosas as mulheres passam a neuróticas enraivecidas, e os homens, antes super cavalheiros, se tornam ogros desleixados, que arrotam e peidam sem a menor cerimônia.

Então os parceiros se perguntam quando foi que a(o) namorada(o) mudou tanto, e lá vêm os clichês: “no começo tudo são flores”; “só se conhece alguém após o divórcio” e outras baboseiras do tipo.

A verdade é que o parceiro não mudou: ele jamais foi o que você achava que era. Apenas nos momentos de real explosão afetiva é que as pessoas costumam se revelar, mostrando finalmente aquilo que deveras são. No fundo, a neurótica sempre foi uma maluca completa que se controlava; o ciumento sempre foi completamente lunático, mas disfarçava; e o peidorreiro apenas não comia feijão com tanta frequência.

Eu mesma já meti os pés pelas mãos, fingindo ser completamente equilibrada, resolvida, feliz da vida, sem problemas financeiros, com uma família perfeita, super descolada e cabeça aberta – máscara essa que caiu por terra em menos de 2 meses, evidenciando assim diferenças irreconciliáveis entre eu e o ex-namorado em questão.

Na realidade, as pessoas morrem de medo de mostrar o que são de verdade – o estereótipo social de como um homem, mas especialmente de como uma mulher devem ser, é o cúmulo da opressão, da falta de autenticidade, um incentivo ao automatismo e à massificação das pessoas.

Se fôssemos mais genuínos no início da relação, um bilhão de divórcios seriam evitados, muitas caixas de Prozac apodreceriam nas prateleiras e garanto que 50% dos acidentes de carro causados por embriaguez não aconteceriam. Os consultórios de Psicologia certamente ficariam meio às moscas (o que não deixa de me ser um pouco desinteressante), e todo mundo viveria mais feliz.

Se a gente fosse mais longe ainda, teria sempre certas perguntas-chave na manga pra fazer no primeiro encontro, tipo uma triagem, pra saber se valeria a pena sair de novo ou se seria pura perda de tempo.

(Obviamente, a honestidade seria condição sine qua non neste cenário – o que nos leva de volta ao tema inicial: por que é que as pessoas têm tanto medo de se revelar? Será carência, o medo fundamental humano da solidão? Será auto-exigência, o perfeccionismo de ter que ser sempre a divindade em forma de gente? Por que é que as pessoas sentem vergonha de si mesmas, e não percebem que são fantásticas assim, exatamente como são, e que certamente serão o par perfeito para alguém igualmente maravilhoso, sem que seja necessariamente o bonitão da praia?? Quando foi que ser fake virou fashion???)

Enquanto estas e outras perguntas não são respondidas, só me resta voltar à minha poltrona e ouvir, com tristeza, as angústias dos meus pacientes (maravilhosos) que sofrem horrores em seus relacionamentos.

E me conformar com meu atual status de solteira, confiando de que, algum dia, eu hei de ser aceita exatamente como sou: um pouco ciumenta, certamente um tanto neurótica, com problemas financeiros e tretas familiares – mas, graças a Deus, absolutamente eu mesma.

quarta-feira, julho 16, 2008

No smoking, FOR GOOD!

A HISTÓRIA

Há cerca de um ano e meio, escrevi uma longa carta a um querido amigo*. Nela, me despedia. Me despedia de um vício que sustentei durante anos apesar de saber o mal que me fazia. Apesar disso, não tive força suficiente pra romper uma relação tão longa, tão profunda, tão íntima como a que existiu, durante 12 anos, entre mim e o cigarro.

No começo deste ano, alcancei a incrível e assustadora marca dos dois maços diários. Culpava o Transtorno Ansioso que eu havia desenvolvido (todo mundo sabe que o cigarro é o melhor amigo dos ansiosos), igualzinho a manco que põe a culpa na muleta.

Dois meses atrás, tomei um xeque-mate: Sensei Rato afirmou categoricamente que a conquista da graduação verde no Muay Thai dependia, INTEGRALMENTE, do meu hábito de fumar. Sem parar, sem graduar. Ao mesmo tempo, minha querida professora de canto, Luciana, insistia que o cigarro havia prejudicado horrores a minha potência vocal. Me assustei quando não consegui responder à pergunta dela sobre como era minha voz sem fumar – não consegui lembrar.

A DECISÃO

Simples como uma escolha entre este ou aquele sanduíche, a decisão foi fácil: pararia de fumar. Entre algo precioso e algo destrutivo, me parecia um pouco óbvia a escolha que deveria fazer. Escolher o contrário seria o cúmulo do retardamento mental.

Loira sim, burra nunca, estava decidido: como uma grávida que abandona o fumo em prol de seu bebê, eu abandonaria meu Marlboro azul em prol da luta e do canto. Simples assim. Bem simples. Super.


A DESPEDIDA

Aproveitei meu último dia de fumante como uma louca. Fumei dezenas de cigarros até a bituca, como quando se abraça um amigo mil vezes antes de vê-lo partir para sempre para outro país. Passei um frio de 9 graus, ficando do lado de fora do Sarau da Samma (tema para outro post), só pra pitar. Eu sabia que era o último dia, sabia que ia travar uma luta contra mim mesma ao parar, mas não sabia que seria tão, mas tão dificil.

Pra facilitar o processo, desmarquei tudo que tinha agendado na próxima semana. Iria pra praia, pararia de fumar lá, já que São Paulo me agita e lá eu fico mais tranquila. Encarei como uma semana de desintoxicação. Uma internação voluntária. Uma medida desesperada.

A AÇÃO

No primeiro dia sem fumar, fumei que nem doida. Me senti um fracasso. Duas horas depois de acordar, já estava com um cigarro nos lábios. A simples lembrança de que não iria mais fumar me deixava com mais vontade de fumar do que nunca. Tinha uma viagem pela frente (quem fuma sabe o prazer que é dirigir fumando), e não resisti, fumando mais de meio maço em meras 3 horas. Me senti totalmente looser, mas não amarguei – no dia seguinte joguei fora todos os meus cigarros e entrei pra batalha.

Nos 3 primeiros dias sem fumar, quase morri de nervoso. Tive tremores e sonhava com cigarro, tive crises de mal-humor e precisei ir embora de uma baladinha para não bater em alguém. Chorei de desespero. Nas piores horas, visualizava a graduação, o calção verde, visualizava a sala da casa da Lu, imaginava minha voz mais limpa.

Quando ia correr, na tentativa de substituir a vontade de fumar pelo exercício, parecia que estava correndo de mim mesma – uma Eu ex-fumante fugia da fumante inveterada, como diabo foge de água benta. Terminava a corrida e ficava desesperada pra fumar. Só falava nisso. Tratei mal as pessoas à minha volta. Fumei um milhão de cigarros apagados (meu querido Apagadinho, como a Pri bem explica no seu último post).

Os dias subsequentes foram mais suaves. Livre da dor de cabeça, procurei outras coisas pra substituir o hábito. Nas horas mais críticas, tomava litros de água e cantava sem parar, e a vontade de fumar logo passava. Voltei a fazer origamis e comecei a fazer mosaicos com minha irmã e a Pri, na tentativa de conseguirmos descolar algum dinheiro expondo as peças na pousada do Rafa e no estúdio do Ick, e descobri que o artesanato é uma terapia fantástica pra quem está ansioso.

Houveram desafios. TODAS as minhas amigas fumam. As de Sampa e as da praia. Aliás, o mundo fuma. E fuma perto de mim (por enquanto ainda acho gostoso). Ao contrário das outras tentativas feitas anteriormente, não parei de tomar cerveja, nem de tomar café, nem de encontrar as amigas. Já que é pra ser difícil, que seja de uma vez!

E DEPOIS DA TEMPESTADE...


Hoje completo exatos 10 dias sem fumar. Ando orgulhosa das minhas conquistas, e esta, em especial, merecia até uma comemoração! Comemorei – hoje de manhã passei litros de hidratante Victoria Secrets, e é maravilhoso perceber como, mesmo horas depois, um não-fumante ainda está cheiroso.

Não fumante não tem bafo, as mãos não fedem, o quarto de dormir é inodoro e o bolso agradece (façam as contas: R$3,25 X 30 dias: R$97,50 por mês!!!). Sensei Rato então ficou feliz da vida e a graduação já está garantida!

Só pra concluir, não pretendo virar ex-fumante mala... o cigarro é uma delícia e todo mundo que fuma sabe disso, não importa que tenha parado há não sei quantos anos. O cigarro é um puta companheiro e eu bem sei que ele alivia qualquer tensão, qualquer fome, qualquer espera em fila, qualquer ódio no trânsito. O cigarro é um amigão.

Mas cigarro é droga e vicia. Cansei de depender dele, como cansei de depender de um monte de coisas externas a mim mesma. Então não tem jeito, a não ser sentir saudades – e, às vezes, aquela vontade louca de fumar um maço inteiro.

O bom é que, como diz a Pri, vontade dá e passa! Já a consciência... ah não, senhores, essa permanece inabalável! Um dia de cada vez... para o alto e avante!!
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* A carta pode ser lida na íntegra em

sexta-feira, julho 04, 2008

Dormir junto


Já disse Kundera, em A Insustentável Leveza do Ser, que o desejo de dormir junto a alguém é radicalmente oposto ao desejo de se fazer sexo com alguém. Dormir junto refere-se a uma experiência compartilhada com uma pessoa em específico, enquanto que o desejo sexual reflete os instintos de um corpo direcionados a um outro corpo, qualquer que seja ele.

Ao ler isso pela primeira vez, não encontrei o mesmo sentido que encontro hoje, meses após ter lido Kundera. Talvez as mais recentes experiências tenham trazido mudanças reflexivas; talvez as mudanças de pensamento tenham alterado a interpretação das experiências subsequentes.

Hoje concordo absolutamente com Kundera. Só durmo junto a quem me sinto absolutamente confortável. Na realidade, é quase automático – dependendo da pessoa, é completamente natural transar, beijar, conversar, fechar os olhos e dormir (não necessariamente abraçadinhos). Com outras pessoas, o momento ‘pós’ é praticamente um ato involuntário de vestir-se, apanhar suas coisas, e ir-se embora. Não tem clima. Não tem porque. E, absolutamente, não há sono.

Penso que a naturalidade do dormir-junto (aqui entre hífen devido ao conceito que pretendo transmitir) é diretamente proporcional à liberdade e intimidade experienciada pelo casal em questão. Transar com alguém é, inevitavelmente, um ato de intimidade, mas o que chamo aqui de intimidade é a sensação absoluta de poder ser espontâneo, você-mesmo, autêntico.

Acredito não haver outro momento em que somos tão nós-mesmos quanto durante o sono. Tem gente que fala, que é sonâmbulo, que ronca, que baba, que peida, que ri. Durante o sono, não há censuras, não há controle, não há máscaras. Não há melhor maneira de se observar quão genuína é uma pessoa do que enquanto ela está dormindo. E, veja, se não conseguimos ser absolutamente genuínos com alguém, despidos de máscaras e de falsas intenções enquanto acordados, que dirá dormindo? O desconforto de ser desmascarado provoca insônia em algumas pessoas. E fuga, em outras.

Minha amiga Helena*, 27 anos, publicitária, recusa-se a dormir com qualquer homem que não seja seu namorado. Veja bem, sua sexualidade é liberta, a cabeça aberta, e as pernas nem se fala... um dia, tendo ela vindo dormir em casa, percebi seu medo: ela é daquelas pessoas que abre o olho e vai fazer suas “necessidades”. É uma questão de urgência, impossível de controlar, coisa primária e primeira a se fazer ao acordar. Como compartilhar algo assim, tão íntimo, com alguém que sequer imagina que aquela beldade seja capaz de arrotar?

Já meu amigo Thomas*, 33 anos, instrutor de musculação, prefere levar o mulherio para casa após o sexo pois teme que o achem esquisito na manhã seguinte: ele realiza, religiosamente, uma meditação de silêncio absoluto durante cerca de 40 minutos, todas as manhãs. Consigo entender sua aflição: alguém te olhando, observando, analisando durante 40 minutos é o fim de qualquer meditação.

No meu caso, durmo mal quando não me sinto absolutamente à vontade com alguém. Meu medo é da fala e demais comportamentos noturnos. Dizem minhas amigas que até em japonês já falei durante a noite, e alguns namorados já se ressentiram por eu chamá-los, no meio da noite, pelo nome de outros homens. Além disso, quando tenho pesadelos choro que nem criança. Saem lágrimas e tudo. E, às vezes, confundo sonho com realidade – já cheguei a socar a cara um ex-namorado, em meio a um sonho mais do que violento.

O fato é que dormir com alguém é igual a estar junto e acordado: o bom é ser aceito e compreendido em ambos os estados de percepção, seja com olhos abertos, seja com eles fechados e respiração ressonante. Quem entende seu jeito de ser, irá entender se você não for daquelas que curte dormir grudado; quem sabe que você é matraqueira (como eu), não achará estranho se você bater altos papos com pessoas invisíveis durante o sono.

Trocando em miúdos, quanto mais à vontade, mais gostoso se torna. Se o abraço é ótimo acordado, dormindo é melhor ainda. Se a vontade de ficar junto é forte, não será fácil levantar da cama pela manhã, seja pra ir embora pra outra cidade, seja porque existem coisas a serem feitas, seja porque um dos dois está com vontade de fazer xixi.

Dormir junto é um ato de afeto, independentemente de que tipo de relação foi estabelecida. Não se trata de ser namorados, amantes, amigos ou fuck-buddies. Se trata da verdadeira cumplicidade e da naturalidade de se compartilhar o seu interior com quem se sente confortável em sua presença. E faltam pessoas por aí com as quais eu gostaria de verdadeiramente compartilhar meu sono. Entre tapas ou beijos, Joões ou Josés, risos ou choros, o melhor é estar sempre à vontade.

Porque já dizia o velho Raul: sonho que se sonha só é só um sonho que se sonha só, mas SONO que se sonha junto é que é realidade :)
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PS: Os nomes verdadeiros foram substituídos... não pra mascarar nem nada...

terça-feira, julho 01, 2008

Oba, tem gente boa por aí!

Ontem a noite, dominada pela insônia que há anos me acompanha, assisti uma entrevista incrível no programa do Jô. Nunca gostei muito dele, pela sua arrogância, prepotência e sua mania insuportável de interromper os entrevistados a cada 2 minutos, aparentemente apenas para mostrar o quão inteligente, esperto e antenado ele é.

Bom, Jô’s Soares’s à parte (sabemos que existem milhares deles à nossa volta), a entrevista em questão foi fantástica. A filósofa Márcia Tiburi, que também participa do programa Saia Justa na GNT, estava apresentando seu novo livro “Filosofia em Comum – para ler junto”, e compartilhou um pouco de seus pensamentos e reflexões com a platéia e telespectadores.

O que me chamou a atenção não foi apenas o conteúdo da entrevista, mas a postura da Márcia. Uma verdadeira questionadora, cravava seus comentários de perguntas, especialmente referidas ao Jô. Um simples “Você não acha?” o deixou embaraçado algumas vezes (o que achei fantástico, pois naquele momento foi estabelecida uma relação verdadeiramente horizontal entre entrevistador e entrevistado, sem a disputa de poder intrínseca a estas situações).

Márcia é filósofa e escritora, e defensora da arte de pensar livremente, de adquirir conhecimento através da conversação, da troca de informações que realmente acrescentem algo em nossas reflexões. Eu, psicóloga e famosa pelo meu gosto por falar e, principalmente, ouvir, me senti acolhida e, assim, compreendida.

Sua simples presença durante aquela meia hora, ou quase isso, despertou em mim um encantamento que há tempos não sentia: saudades da minha mania de pensar profundo. Quando foi que o pensamento tornou-se para mim um inimigo, por me causar crises e mais crises de ansiedade? Por mais que me tenha sido sugerido o silêncio (verbal, analógico), de antemão eu já sabia que minha cabeça não se calará nunca. E, de uma vez por todas, senti que meus pensamentos finalmente se tornaram meus aliados, ao invés de adversários temíveis.

Pra finalizar, fuçando no site da Márcia, ainda descobri que ela é uma escritora maravilhosa, que escreve sobre o que realmente importa, e ler seu blog e artigos é uma tarefa mais do que prazeirosa, e eu ouso dizer que é leitura obrigatória a seres pensantes (raaaaaro por aí).

Eis os links – deliciem-se, repitam o processo, tomem doses cavalares do pensamento de Márcia Tiburi. É alimento pra alma.

http://www.marciatiburi.com.br/
http://www.pinkpunk.globolog.com.br/

Programa Saia Justa: Canal GNT, quartas-feiras, 22h30.

segunda-feira, junho 30, 2008

adendo

Foto: Nana Ferreira, julho de 2007.



Tem dias que a gente se sente assim - menos gente e mais planta.

Impassível a tudo que ocorre.

Parada diante do mundo.

Sem precisar falar sobre nada.

Basta o sol, a brisa, o sangue-clorofila correndo nas veias. Minha seiva bruta.

Eu tenho admirado mais as árvores do que as gentes: para o alto, e avante.

sexta-feira, junho 27, 2008

De inverno


Assim como muitas pessoas, eu costumo ficar carente no inverno. Época de edredom, chocolate quente e de cafuné, o inverno é a estação ideal pra iniciar um novo romance, ou pra estreitar laços com quem já se dividiu os ventinhos do outono.

Acredito que isso não acontece apenas comigo. O Tim Maia cantou, durante um tempão, que era primavera, mas que quando o inverno chegasse, ele queria estar junto à pessoa amada. A Adriana Calcanhoto chegou a dizer que o inverno no Leblon era quase glacial, e óbvio que isso é porque ela estava sem par.

No inverno, todo abraço é quente, toda mão te aquece e todo peito nu tem calor para dar. Se as pessoas já evitam sair porque está frio, com um parceiro o frio vira a oportunidade ideal pra não fazer nada juntos, pra ver filmes românticos na TV ou apenas para se agasalhar mutuamente.

Porque no verão, tudo já é quente demais, e o abraço, em vez de aquecer, se torna gosmento. As pessoas ficam assim, meio cremosas demais, para estarem num contato muito próximo. Então no verão a solidão pode até passar despercebida – verão é época de romances fugazes, de histórias pela metade sem capítulos finais faltando, e época de tomar picolés, que são sorvetes individuais.

Inverno é época de fondue com os amigos, e assim todos partilham da mesma comida. É época de vinho, cuja garrafa serve ao menos 2 pessoas. Tudo no inverno é mais coletivo, e até um ônibus cheio pode te aconchegar – fica assim quentinho, todo mundo cobertinho, tudo fica gostosinho.

Eu sou uma pessoa especialmente veranista – amo o calor, a praia, o sol, a cor saudável e dourada das pessoas que costumam sorrir mais e andar pouco vestidas por aí. O frio me deprime – especialmente quando minha enorme cama quentinha fica grande demais para eu dormir sozinha.

O fato é que é ótimo estar solteira no verão, onde tudo é descompromissado e pode-se facilmente praticar a política do cada-um-na-sua-canga, evitando assim jorros de areia, peles grudando e micoses praianas. Mas estar solteira em pleno inverno é um saco. Incomodam-me as referências meramente primaveris, e refrigerantes tornam-se totalmente desinteressantes e gelados.

E não adianta fingir que o inverno não existe, nem tentar aproveitar pra comprar biquinis em liquidações como se estivéssemos num eterno verão. Pra mim, é como já dizia a velha música (acho que o Tim Maia também se sentia meio solitário no inverno), não adianta vir com Guaraná, é chocolate o que eu quero beber.

(sorte a minha que o Brasil é um país tropical, abençoado por Deus, bonito por natureza, e que aqui o inverno passa rapidinho!)

segunda-feira, junho 16, 2008

OSSU!!


Família Seiwakai: preparando o corpo, a mente e o espírito.
Porque a água estagnada apodrece, a água fluente é sempre boa!

segunda-feira, junho 09, 2008

Goodbye Stranger

Eu prefiro me despedir destes seus seus olhos tão castanhos que me fitam intermitentemente do que permanecer na eternidade das nossas ilusões. Foi assim e sempre seria, se não houvesse finalmente chegado o momento da nossa despedida. Pois foi ali, naqueles olhares dúbios ao final de uma festa já sem graça, em que nós nos perdemos para sempre – foi na promessa de uma brincadeira já manjada em que todas nossas virtudes foram deixadas de lado.

Sem mais encontros às escondidas e sem mais mentiras no dia seguinte. A sua crise de consciência nos salvou. A nossa história, que todos sabem mas evitam comentar, teve seu último capítulo terminado junto com a sua moralidade e a minha falha de caráter em meio às impulsividades de um sábado à noite. Convenhamos: não há necessidade de nem mais um inverno sequer. Encaremos os fatos de que nossas vidas sempre seguiram caminhos separados, havendo se encontrado unicamente dentro do meu próprio sexo. Nós dois sabemos: eu te quero e você sempre me quis, mas de alguma forma, tudo isso perdeu o sentido.

Houveram noites mal-dormidas e esperanças por meses a fio; houveram frases duras e carinhos inesperados. Você pegou minha mão na sua e elogiou minha maciez, sem notar que ao seu lado, toda minha fluidez desaparece. Somos apenas e tão somente jogadores de uma partida de cartas marcadas. Não há maneiras de mudar as regras no meio desse jogo – elas foram determinadas há muito, muito tempo atrás. Você propôs, eu aceitei. Sem falsos moralismos.

Acho que é hora de nos despedirmos de verdade. Encarei seu blefe de jogador experiente pela última vez. Não aposto tudo – que momento mais amargo para alguém que se propôs a dizer adeus a tantas coisas menos superficiais. O seu semblante rígido, porém sempre doce, fica gravado no fundo das minhas retinas, como uma foto em branco e preto que esmaece com o tempo. Nosso filme ficará trancado nas gavetas da memória: tudo o que sobra é seu cheiro de maresia e a negação da sua partida.

Hoje esfriou de repente - vá na vida e eu irei na sorte. Mestre dos mares que ainda será, você navegará bem pelos rumos determinados pelos ventos a soprarem suas velas. Eu pegarei meus remos e seguirei com destino certeiro: você coube dentro de mim, mas eu sou grande demais para caber dentro de você.