domingo, setembro 30, 2007

Domingo

Acordo cansada e a cabeça gira.
É de novo domingo.
A casa está silenciosa, lembro que estou sozinha, todos viajando – um silêncio incômodo está sobre mim. Perambulo pela casa um pouco perdida, meio sem saber o que fazer, meio sem saber o que falar. Não tem ninguém – falar o que, para quem?
Checo os sinais. Não, não é a ressaca por ter bebido demais no sábado à noite.
É o “troço” chegando, meu velho conhecido, minha amiga melancolia.
Então já faz 2 horas que acordei e não emiti um único som, minha garganta está seca e meus cabelos cheirando a cigarro, o quarto está de pernas pro ar.
O que foi que aconteceu? – e não consigo me lembrar.
A cabeça gira de novo, por que bebi tanto assim??, e no momento odeio os domingos.
Me percebo sensível, vulnerável, às beiras do choro sem motivo e sem explicação. Este será uma dia delicado, propício a fazer muitas merdas, e penso em ligar pra alguma amiga. Mas não quero falar. Penso em cozinhar alguma coisa, cozinhar sempre me acalma, mas detesto comer sozinha.
Arrumo o quarto como há muito não fazia, acho que se passaram horas mas foram apenas 15 minutos, minha vida afinal não anda tão bagunçada, e o relógio continua me olhando impiedoso e eu tenho medo dele. Preciso ocupar o tempo, preciso me distrair, não deixar o troço entrar. Preciso encontrar um meio de me proteger. Penso em minhas atividades de resgate.
Ir ao cinema? Com esse frio não.
Ler as pilhas de textos que tenho pra ler? Sobre doença mental não. Nem sobre qualquer outra coisa.
Dialogo comigo mesma, onde foi que você se meteu? Como pôde ter chegado a esse ponto? Não respondo, com medo de mim mesma.
Repasso mentalmente uma dúzia de vezes os acontecimentos de ontem, em algum lugar está a resposta de porquê acordei assim. Alguma imagem, algum som, algum comentário. Alguma solução pra algum problema escondido.
Levanto, me sento, levanto novamente, começo a me desesperar enquanto acendo o décimo cigarro. É um dia de resgate, penso até em chamar o SAMU, alguém precisa me ajudar. Preciso recuperar o controle, não posso me deixar levar.
Ligar pra terapeuta? Não.
Fazer hidratação no cabelo? Não.
Assistir algum dos mil filmes do Woody Allen que estão aqui em casa? Definitivamente não.
O que acontece comigo?
Percebo os sinais: não, não estou tendo uma crise de ansiedade. Não vou ficar menstruada, não é a ressaca nem um momento de evolução.
Sou simplesmente eu e eu mesma, frente a frente, cara a cara, e um momento de redenção: preciso olhar para dentro de mim mesma, não dá mais pra evitar, essa criança aqui dentro acordou chateada e precisa de colo. Só eu posso lhe dar.
Estou com você. Pelo menos por hoje.
Sim, estou com você neste domingo, me dá sua mão, esquece os porquês. Hoje sou eu e você.
Ligo o computador, boto tudo pra fora, um vômito literário.
Amanhã é segunda, tudo vai ficar bem.

terça-feira, setembro 25, 2007

fusão

Penteia meus cabelos e arranha minhas costas. Puxa os fios para trás, e vou de encontro a você. O meu corpo é poesia é você lê bem minhas linhas, recita meus versos e enfatiza uma rima. O seu tom se altera a cada redondilha. Porque meu ventre é violino e você é tão músico. Você sabe tocar estas cordas que vibram intensas sob seus dedos – um som baixo ecoa no seu quarto de dormir.

Geme baixinho que eu consigo entender - você ofegante me confunde os sentidos, teu som mais suave traduzirá o meu depois. O suor realça teu gosto e seus olhos refletem uma boca entreaberta. As mãos estão junto ao quadril. O ritmo cresce, a velocidade enlouquece e então um elogio. Uma fissão nuclear dentro de mim. Um cheiro ácido se espalha, sou eu e você e uma nova invenção. São duas metades e uma fusão. Te sirvo um orgasmo, você um café. Brindamos a tudo.

Tim-tim.

segunda-feira, setembro 24, 2007

Um dia eu ainda acho o fim do universo, e conto pra todo mundo como é depois do fim da linha. Ainda digo pra todos que ele não é infinito, existe uma linha divisória bem ali no final, e que depois dela só tem um ar branco que também tem um fim.

Dia desses reservo um tempinho só pra ir ali no horizonte, olhar a cascata que se forma quando o mar encontra com essa linha azul. Os professores sempre disseram que essa linha era imaginária, mas eu sempre duvidei disso. O Horizonte é o nome de uma cachoeira bonita, fantástica, mas longe demais pra maioria poder visitar – quer vir comigo, se sobrar um tempinho?

No dia que for à Horizonte vou também ao final do arco-íris, ver se aquele pote de ouro ainda não foi levado. Algumas moedas devem ter sido apanhadas, mas eu trago o pote pra casa, o encho de flores e presenteio minha mãe, que sempre me mostrava quantas cores tinham nesta aquarela da natureza.

Vou me deitar numa cama de nuvens, pegar um punhado nas mãos. Então enfio um palito, jogo um tanto de açúcar, e mato a vontade de algodão-doce.

Ainda reencontro Iara, canto com ela, e empresto de novo aquele espelho bonito cor de jade que ela me mostrou um dia. O que será que veria hoje nele? Quando o olhei da primeira vez, vi apenas laços de fita... será que cresceram? No fundo do rio eles mudam de cor? Quer ser minha testemunha ocular?

Algum dia conto as gotas do oceano. Decoro o número Pi. Contorno o mundo a pé sem paradas para descanso. Leio o seu pensamento. Viajo um milhão de quilômetros em poucos segundos. E grito em silêncio que não existem limites.

Se um dia você conseguir contar todas as estrelas que existem no céu, pode me contar?

Que no dia que eu contar os grãos de areia da praia eu te conto também.

As estrelas lembram a mim; a areia da praia me lembra tudo e mais um monte de momentos. Se bons, se ruins, isso nem importa tanto – eles lembram do que vivi um dia, de um punhado de conquistas, e de transpor barreiras.

É o bastante para me orgulhar.

sábado, setembro 15, 2007

Fuga de Idéias II


Pois é, eu só vi o que eu vi porque assim eu queria, tanto faz se era verdade, eu precisava assim como todo mundo. Eu acreditei porque era conveniente, assim como eu e você. A conveniência me cai bem, caiu bem pra você também.

Verdade, eu fui amoral, eu sou imoral, minto pro mundo e rio por dentro, falei mal do seu tamanho e também do seu conteúdo, gargalhei até doerem as mandíbulas. Travei os dentes e joguei para cima. Cortei. Eu não fiz por acaso, fiz de propósito, existe maldade em mim. Existe mal e existe verdade, existe de tudo aqui dentro.

Afirmo: existe algo em mim que nunca saiu, me acompanha na cama, nos tapas, no banho, onde quer que eu vá eu vou comigo, e essa companhia não suporto com dor, mas tolero - por amor, pela bondade que fui um dia.

Eu sei, às vezes é uma merda, a merda vem de tanta esperança, de tanta criança, de tanta vingança de dentro de nós, de vós, deles. De todos os dias pensados a fio, de tanto frio, de tanto nó que já foi, já sumiu na neblina, partiu. Prum futuro distante e fantástico, o acessível do inacessível, o acesso negado por três vezes diante do espelho.

Se ainda não foi um dia virá a ser, eu deixo ventar mas confio na vela, no leme, no rumo, no prumo, confio na distância e nos caminhos, que marco com pedacinhos de pão. Se precisar me mudo, viajo por aí sem data de retorno, quebro os limites na tentativa insólita de crescer mais um pouco. Quem me viu não esquecerá.

É e não é, foi mas fugiu, eu vejo e escuto sem nunca ter estado, quem me garante uma troca justa? Quem me garante a satisfação pelo bem? Quem usará as cores desta aquarela?

A vida, a luta, a memória, as coisas guardadas a sete chaves, o sentido encontrado dentro de cada palavra, de cada gesto, de cada som. Palavra.

Depois uma oração, e amém.

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Fuga de Idéias I pode ser lido em: http://noiasedelirios.blogspot.com/2007/06/fuga-de-idias.html

O que me irrita em você

Tanta coisa me irrita em você. Seus hábitos, suas manias, suas tendências.

Me irrita a forma como você dirige, irresponsável por aí, costurando nas grandes avenidas, acelerando com tudo e sentindo prazer no perigo. Me irrita quando você se irrita com o trânsito e com a preferencial eterna dos pedestres.

Me irrita sua preocupação excessiva com o cabelo e com o quanto você pesa, sem perceber que você tem beleza assim mesmo, independente das olheiras ou de qualquer outro fator externo ao seu coração.

Me irrita o quanto você valoriza tudo o que não devia valorizar: as formas, os gostos e os cheiros. Seu modo de pensar, seu negativismo, sua prepotência quando se sente inferior. Tudo isso me irrita.

Me irrita sua volubilidade, sua capacidade de passar do sim para o não em questão de segundos.

Me irrita que você não perceba que tem luz dentro de você, que tem vida pulsando e gritando pra ser liberada. Me irrita tanto seu estilo blasé, esse seu ar de que nada aconteceu, de que é superior a tudo e todos, que às vezes eu não te suporto e quero que você suma assim que aparece.

Me irrita que você não deixe cair lágrimas em público, achando que ninguém as merece. Mania de achar que tem que ser forte, que tem que ser macho, tem que ser a fortaleza de um mundo inteiro. Decepção? Desilusão? Coração partido? Fichinha! Você tira de letra, não é?

Você tira de letra e isso me irrita.

Sou eu que limpo a sua maquiagem borrada no final da noite, te ponho pra dormir e te acolho nos meus braços. Isso me irrita. Que seja sempre eu a te confortar me irrita. Me enerva. Me tira dos eixos.

Saber que basta eu descuidar por dois minuto que você irá aparecer é tão irritante que às vezes desejo sua morte. Irrita tanto que eu quero bater em você, despentear você, chacoalhar você pra quem sabe, se você deixar, eu cuidar de você.

Enfio ambas as mãos através do espelho e pego em você, te sacudo com força e destruo esse seu sorriso solícito que tanto me irrita. Depois te boto no colo, te faço um carinho e você dorme em meus braços.

Olha, te amo.

E isso é o que mais me irrita em você.

quinta-feira, setembro 13, 2007

Encaixotando



Você achava o que?

Que eu ia chorar mais do que um dia?
Que iria espernear te pedindo de volta?
Que ia passar meus dias pensando no quanto poderia ter sido feliz do seu lado?

Minha concepção de felicidade se tornou outra, nem de longe passa perto do que vivemos juntos (juntos? Ou vivi sozinha?).

Você esperava o que?

Que pedisse pra você ficar?
Que jogasse na sua cara minhas qualidades, pra me comparar com ela?
Que explicasse pra você o quanto de mentira seu discurso continha?

Você pode descobri-las sozinho, minha idéia de mentira se tornou outra - essa sim se aproxima de tudo que vivemos um dia (vivemos? Ou será que eu sobrevivi?).

Você achava que ia ver o que?

Eu andando de um lado pro outro procurando por você?
Te esperando no estacionamento?
Rondando a porta do seu trabalho?

Seu trabalho ganhou outras formas perante meus olhos, finalmente percebi a razão de sua escolha profissional: chegar perto, mas não muito. O profundo traz risco demais (risco? Afinal, do que estávamos mesmo falando??).

E agora? Vai fazer o que?

Dizer que ainda não sabe o que fazer?

Dar uma de bom moço?
Sambar pra inglês ver?
Ser diplomático?
Ou simpático?
Ser político?
Ridículo?
Pedir desculpas de novo?
Ou mais um monte de mentiras?

A pena maior não foi não ter dado certo. Mas eu não ter achado que valia muito à pena te dizer tudo isso.

Eu fiz a minha escolha.

E você?
Quando vai assumir a sua?

sábado, setembro 01, 2007

Pó de estrelas


Dizem que vim de dentro da barriga de minha mãe.

Mas às vezes acho que vim das estrelas, que sou pó de diamante, de alguma explosão lá no espaço sideral. Um pó de estrelas. Meus pedaços, reunidos entre si, representam apenas partes de um todo muito maior, repleto de energia e que, definitivamente, não é deste planeta.

Dizem que vim de dentro de meu pai, mas acho que vim de um vulcão. Em minhas veias corre magma, de meus olhos brota fogo, meu espírito sempre em constante atividade pulsa em puro abalo sísmico.

Dizem que sou fruto de um amor; às vezes penso que sou produto de um delírio. Talvez eu seja apenas a alucinação de um doido lunático, sou sua amiga imaginária que ingenuamente acha que existe, e o enche de perguntas.

Dizem que sou feita de carne e ossos, mas sinto que sou feita de areia – sou resultado de algo em erosão, desmonto e me transformo tão logo venha a maré, faço parte do fundo mar, vôo com qualquer brisa que sopre. Sou leve, densa, cheia de vida.

Dizem que não vivo sem ar – eu digo que sou o próprio ar e suas partículas em suspensão. Sou um tornado que gira, cresce, ganha força e destrói tudo que é frágil, tudo o que estiver despreparado pra ter suas raízes arrancadas por um furor natural. Destruo o que for leve e sem alicerces, não deixo intacto nada que não tenha um mínimo de sustentação.

Fecho meus olhos e vejo as estrelas, girando em volta de mim como satélites em órbita. Sou apenas parte de uma coisa muito maior. Talvez apenas uma bolinha de pêlos numa blusa de um gigante, que um dia a bota pra lavar, e vira minha vida de pernas pro ar.

Dizem que sou grande.
Eu digo que isso é relativo.

No fundo, sou apenas mais um pontinho, num quadro de pontilhismo, na obra de alguém por aí.

Um vulcão, um delírio, o vento. Um grão de areia, um solo em erosão.

Pó de estrelas...

Eu, em expansão.

sexta-feira, agosto 31, 2007

Se arrependimento matasse



Se arrependimento matasse...

Eu morreria de orgulho. Morreria de ilusão, morreria de ócio. Morreria de crenças e também de temores.
Morreria de orkut. De preguiça. De brigas e tragédias. Morreria de copos d’água, de birras e manhas, morreria de cagaços e covardias.
Morreria de receio, morreria de desviar do trânsito. Morreria de porres homéricos. De omissões e de denúncias não feitas. De injustiça. De egoísmo. Morreria de ataques noturnos à geladeira.
Morreria de falta de confiança, de falta de determinação e de menos-valia. De DR’s sem fim. De superficialidade.
Morreria de acreditar em mentiras e em verdades desnecessárias. De vinganças. De invejas. De desesperança. De tempo perdido.
De decisões adiadas, remédio não tomados, atitudes desesperadas. De conclusões precipitadas. De não ouvir a mim mesma.
Morreria de ciúmes, de dor, de amor.

Se arrependimento matasse, eu morreria de você.

segunda-feira, agosto 27, 2007

Conto de fadas


Você vem e com delicadeza me abre, para então me invadir com violência. A cada seis meses mais ou menos é assim. Você surge como uma corda ao afogado, quase no instante em que esse já se conformou com uma morte certeira.

Você me abre e diz que sou bonita. Então me relembra todos os planos que um dia fizemos. Você lembra mesmo deles? Era uma casa de frente pro mar, um cachorro e um barquinho ancorado. Talvez até alguns filhos, nossa menina chamada Catarina. Você me faz acreditar que tudo isso ainda é real, eu quase posso sentir meus pés na areia e teu cheiro ao meu lado. Mas se abro os olhos, tudo me escapa.

Você chega perto e diz que sou eu, como quem cita uma antiga poesia. Foi poesia para nós dois, mas isso já faz tanto tempo. Tanto tempo que eu meio que ainda estou lá, ainda me sinto menina, tão menina como quando te vi pela primeira vez. Nessa época eu ainda tinha inocência, era ingênua, e acreditava em fadas.

Você beijava a boca de outra, se lembra? Depois gostou só da minha, e eu gostei só da sua, e hoje já não me lembro mais como você beija. Tanta gente passou no meu caminho, tantas bocas, tantos sentidos, tantos corpos e tantas palavras. Tanta história que eu pude contar. Mini fábulas, mini crônicas, mesmo as que que chegaram a ter mais de um capítulo. A história mais linda sempre foi a sua, que eu não me canso de reler. Será história? Será ficção? Às vezes me parece mais um conto de fadas: você chega em seu cavalo branco, me resgata do alto da torre, e fugimos juntos pra Terra do Nunca. Você é quase Peter Pan, não cresce nunca, eu sou Wendy te reencontrando anos depois, e a gente meio que continua os mesmos. Eu sou a princesa que você jura amar para sempre.

Mas nosso conto de fadas é moderno. Seu cavalo foi branco por um tempo, depois tomou outras formas. Esta princesa não é mais virgem, a torre se tornou subterrânea. Outros príncipes passaram, nenhum deles achou minhas tranças, talvez eu as tenha cortado, esperando que você as preserve.

Você diz que vai lutar. Você sussurra aquilo que mais gosto de ouvir, nunca me esqueci o que já escutei um dia. Você me abre e me enche de esperança, e apaga 4 anos num piscar de olhos. O meu mal é gostar disso. O meu mal é gostar de gostar de você, é gostar da idéia de ter um romance tão lindo nas páginas da minha vida.

Quanto tempo ainda até seu jardim novamente secar? Nele plantei as flores mais belas, árvores gigantes, mas nunca pude analisar seu solo. Qual é o mês para este plantio? Qual a época certa de regar esse amor? Eu perdi minhas sementes, ou as joguei em solos áridos demais para que sobrevivessem.

Você me abre.
E me fecha.
Ao seu bel-prazer.

Me resta olhar pra tua letra, sentir tua imagem, imaginar que seu cavalo ainda corre, e esperar que minhas sementes vinguem.

domingo, agosto 19, 2007

Got it?

Quando eu te conheci eu não sabia onde estava me metendo. Acho que te vi como salvação de uma fase de ilusões, tinha que ser você de qualquer jeito, talvez assim eu me sentisse mais amada e menos incompreendida.

Eu achei que a gente tinha tudo pra dar certo, nossas cabeças combinavam, talvez até nossos estilos e bebidas preferidas, não me importava que seu corpo não fosse exatamente o que eu esperava ver debaixo daquelas roupas sóbrias, nem que ele não me lembrasse de um outro corpo menos presente. Não me importava o seu silêncio nem seu estilo de vida, só queria a confirmação de que não, o problema não era comigo.

Eu não sabia onde estava me metendo, nem vi se a piscina tinha água suficiente pra eu poder me jogar. Achei que me apaixonara, mas era mais projeção. Eu achei que fosse sentimento, mas era mais sensação, era mais a química inegável que de novo me confundiu os pensamentos. Tentei fazer com que a lógica do 1+1=2 valesse pra nós, como se bastasse nossas áreas do conhecimento serem iguais, como se bastasse o sexo ser supremo, como se bastasse eu não ver nada de errado nisso.

As contas que fizemos se revelou diferente, não é nada que eu não possa compreender, como você vi muitos por aí, até demais. Foi o pacote que me atraiu e não somente o seu conteúdo, que hoje parece surpreendentemente vago. Se eu não ligasse você ficaria com raiva mas eu sei que iria passar, você ia colocar Kiss FM e eu provavelmente De Phazz, pra ficar pensando em outras pessoas que não você que nem na sexta-feira à noite alguns minutos antes de te encontrar.

Na verdade eu não menti pra você, dormi mesmo no paraíso, mas talvez tenha sido uma meia-verdade: o paraíso não era você, era seu corpo quente do lado, era sua boca na minha, sem alma nem nome, era o momento e a tensão, mas não você. E você na minha cabeça é tão somente o meu novo vício: trata-se um cocainômano com a maconha mais forte.

Eu troquei uma droga pela outra pra aliviar os sintomas da abstinência, desculpe por em você tanta responsabilidade, não é você quem vai me salvar e eu nem espero que você possa. Na verdade esperei que você pudesse um pouquinho, como todo homem faz, com palavras em promessa, mãos ágeis e bebida à vontade, o que não achei é que tão cedo veria sua incapacidade. Não é uma crítica, você é ótimo assim mesmo, mas é um sapato grande demais pro meu pé. Você quer um divã, ou todos os divãs do mundo, eu quero a sala inteira e só ela.

Isso não é uma despedida, mas um aviso para mim mesma - “escreva menos e leia mais”. Se o mais belo for sempre o mais triste você fica pra vida inteira, pois a beleza de um momento tende a ser eternizada. Você pode fazer parte deste álbum de retratos da minha memória, basta seu corpo ainda quente do lado do meu, seus dedos nos meus cabelos, e sua constante incapacidade.

terça-feira, agosto 14, 2007

Doing numbers

Pois a Matemática, essa sim é a única certeza da vida...


Nos 2 dias de uma semana de 7, que compunham as 2 em que minha alma estava fora, uma oportunidade de mais ou menos 1 hora se abriu diante dos meus olhos.

Foi a hora mais produtiva de todos os 15 dias em que minha alma voava, a hora mais curta e também mais longa, em que vários meses se passaram em minha frente em questão de minutos. Em segundos tomei minha decisão.

Foram mais ou menos 10 minutos para chegar lá, o dobro disso de pura social, meio minuto na travessia de um corredor. Em segundos tudo se foi.

Uma hora e meia fatídica. 15 minutos de introdução, 30 de história de verdade. Nem 60 segundos de um grand finale. No fim das contas, eram mesmo apenas 11 minutos. Mais uns 20 pra despedida. Uma eternidade de lembranças.

35 minutos em um telefone, para não dizer realmente nada. Uma mensagem instantânea que se revelou rápida demais. 4 minutos e meio de um telefonema que disse tudo. Um instante apenas, um sequer, para tudo desmoronar.

24 anos de história, 5 apagados da memória. 7 anos de azar, dos quais 3 passados em felicidade. Mais 4 pra esquecer. 2 dias pra evoluir, apenas um pra destruir. 6 meses pra libertação, ou pra fingir que sou liberta. Contagem regressiva para enfim a liberdade completa. E pra felicidade plena? Toda uma vida.

Tic-tac, tic-tac, os segundos se passam em um relógio ainda parado, as horas incompletas, alguns números me bastam. O ponteiro das horas ainda não existe. Me bastam os segundos.

Quanto tempo ainda, meu Deus?

Tic-tac, tic-tac. Toda uma vida. E o relógio não pára.

Tic-tac, tic-tac.

Toda uma vida.

sexta-feira, agosto 10, 2007

Em recesso



A mesma casa, o mesmo quarto, a mesma cama... tudo igual novamente.

É o prazer e o sofrimento de voltar para casa depois de um curto porém intenso período de recesso.

As mesmas caras, os mesmos corredores, o mesmo hospital. As mesmas pessoas fúteis e mesquinhas que circulam à sua volta como carniças sob um urubu, pedindo informações, pedindo detalhes, pedindo seu sangue pra beber em copos de cristal. Elas pedem o que não posso dar, a parte mais íntima da minha alegria, a que sorri apenas quando está verdadeiramente feliz.

Se estou triste? Chateada? De mau humor? Por que eu estou tão diferente? Não, não posso lhes explicar... como fazê-las entender que eu volto sempre, mas meu coração jamais volta comigo? Que minha alma permanece num lugar encantado, numa fenda na história, e que quando saio de lá, já desalmada, o tempo pára e só se mexem os ponteiros daqui... Lá o tempo pára. E eu paro junto cada vez que tenho que enfrentar o difícil retorno.

Não, não tenho como lhes explicar que cada fato me lembra algum outro, que cada palavra me remete a outras, que cada pessoa me repele em direção a mim mesma. Então me calo. Como explicar que um corredor pode ser difícil, quando um outro provocou algo tão bom, dias atrás?

Como explicar que um telefonema me recordou outro, que sequer fora feito por mim? Como dizer-lhes que minha cama se tornou grande demais, pela ausência daquele que a compartilhou comigo, por apenas uma hora e meia?

Não, não tenho como dizer o quanto o trânsito me aborrece, o quanto tantas perguntas me aborrecem, o quanto a formalidade me danifica os sentidos. E eu pareço perdida, mesmo em lugares tão conhecidos, mesmo entre pessoas tão amigas. Eu me sinto vazia. Minha alma e minhas paixões não vieram comigo, ficaram para trás, gritando para que eu volte. E enquanto isso eu sou toda saudades.

Sou toda espera, sou fera que devora a hora que falta pra que a vida passe mais um pouco, mais um pouquinho, um outro tanto pelo qual ainda aguardo, e ainda ardo e quase explodo pelo tanto de minutos que ainda faltam pra que eu vá definitivamente, sem horários de retorno, sem balsa aos domingos, sem engarrafamento de sexta-feira. Sem tchau, até mais, volto em setembro.

Volto do recesso e também dos excessos, sabendo que isso aqui é pouco demais, é pequeno demais, é vazio demais pra uma alma do tamanho da minha. Eu volto pra labuta, mas é agora, definitivamente agora, que todas as minhas convicções entram de férias.

É ir... pra poder voltar.

quinta-feira, agosto 09, 2007

Diálogo_ Crystal Clear


Ele rola para o lado, ainda ofegante.
Ela quer acender um cigarro, mas decide não cometer o mesmo erro.
De repente, uma pergunta a invade, gritando para ser feita.

- O que te deu afinal?
- Como assim?
- O que te deu pra fazer isso depois de tanto tempo?
- Me deu que não consegui segurar mais uma vontade que eu sempre tive.

Silêncio. Ela espera uma resposta.

- Não sei se entendi.
- Sempre tenho vontade de estar com você. Mas andei me segurando, meio fechado, não quero me envolver com ninguém no momento.
- E o que uma coisa tem a ver com a outra?
- Tem que se a gente continuasse saindo, se vendo, ficando, o rumo natural é que uma hora a gente ia ver e ia estar junto. Então eu andei me segurando.

Silêncio. Devia falar alguma coisa? Era essa a resposta?

- Mas olha, não te preocupa, também não é assim, você me chama pra sair e eu me envoooolvo, ou fico apaixonaaaaaaada por você...!
- Mas quem disse que eu tô falando de você?

Sim, essa era a resposta. A resposta que procurara durante longos 6 meses de perguntas, confusões, contradições, interpretações. O ponto de interrogação finalmente convertia-se em ponto final. Ou seria uma vírgula?

- Isso não envolve apenas você, também pode acontecer comigo, sabia?
- Entendo...
- Esse entendo foi de psicóloga?
- Não. Foi de mulher.

Mentira. Fora apenas sua forma de dizer que ele não precisava se preocupar com nada, ela se preocuparia por ambos, como sempre fizera. Mentira. Não o compreendia.

- E você?
- O que tem eu?
- O que deu em você pra aceitar isso depois de tanto tempo?
- Apenas resolvi aproveitar uma brecha que se abriu. Tudo era sempre tão distante.
- Distante?
- Não te preocupa. Tudo isso é bobagem.
- Você acha mesmo?
- Aham.


Mentira. Mais uma vez, mentira.

segunda-feira, agosto 06, 2007

Amores

Eu já li sobre o amor dos poetas, sofrido e romântico, traduzido em rimas simétricas e nas redondilhas perfeitas que saem de suas penas. O amor platônico, ideal, inatingível, pelo qual ninguém nunca passou incólume, a dor em forma de versos. O poeta ama ao seu próprio sofrimento.

Já li sobre o amor dos piratas por seus baús repletos de moedas de ouro, por seus tesouros escondidos no fundo do mar, por suas naus fortes e resistentes, pela donzelas sequestradas em alguma terra longínqua. O pirata ama verdadeiramente, mas seu maior amor é sempre a liberdade, a aventura e as descobertas.

Já vi o amor infantil de uma criança por seus ursinhos, a ponte entre seu mundo interno e a realidade externa. Choram as crianças por seus brinquedos e chupetas, e perdem todas as suas certezas quando estes lhes escapam. O amor de uma criança é sinceramente voltado para a segurança e para o conforto.

Já presenciei o amor de um músico pelos seus instrumentos. Este ama ao som como se este fosse a única coisa capaz de preencher seus vazios e pudesse compreender sua melancolia. Todo músico é melancólico por natureza, e tem um quê de tristeza que se traduz em seu amor sempre focado em seus próprios porquês.

O amor de um adolescente pelo seu professor preferido é talvez a forma mais bela e sutil de querer alguém. O jovem ama suas próprias aspirações, seu próprio futuro projetado na figura daquele que o ensina a coisa que mais irá amar ao longo de sua vida: o próprio viver, com seus erros e acertos.

O amor materno é sempre incondicional, inabalável, eterno. Ama a mãe aos seus filhos com devoção, um amor pelas próprias realizações representadas pelo fruto de seu ventre sagrado, que jamais se esgota. Ao pai cabe amar condiconalmente, sua devoção é limitada – rege um amor racional, construído com base na objetividade de suas regras e valores morais. Assim amam os homens: com ressalvas.

Amam-se os irmãos como amam a si próprios: espelhos que são, oriundos na mesma fonte, amarão ao outro o que falta em si mesmos. O amor fraterno é basicamente projetivo, competitivo, acirrado. Amam o que vêem refletido de si mesmos no outro que os refletem.

Já li, refleti, observei e presenciei o amor de muitas formas. Já fui poeta, já vi a música, agi como um pirata age, e amei a melodia confusa da alma humana. Projetivamente ou não, amo meus irmãos muito mais que a mim mesma. Amei ursinhos, chupetas, guitarras e moedas de ouro, já escrevi poemas doloridos e canções melosas.

Ora sou mãe dedicada, ora pai limitado, ora sou criança buscando por tesouros e até professores perdidos. Na maioria das vezes sou simplesmente humana, simplesmente mulher, talvez filha ingrata ou irmã invejosa. Porém sempre humana, demasiado humana.

Amo. Amo aos livros, aos poemas, amo a melancolia e meus vazios interiores. Amo meus brinquedos e minha família de forma (in)condicional. Amo meus sofreres, minhas seguranças e meus versos, tão tortos sobre linhas estreitas. Mas amo, seja lá que amor for este.

sexta-feira, julho 20, 2007

Pra que "por que"?

Olha, eu vou ser sincera contigo, nem é mais o caso de eu tentar entender por que você age assim. Pra jogar a real, eu cansei de tentar.

Também já não me importa mais saber por que sua costeleta é tão grande, se é um estilo Rockabilly ou se você se julga reencarnação do Elvis Presley, ou se é porque sua gilete anda meio mal das pernas.

Descobrir por que às vezes você usa camisa e calça social, e às vezes só joga um moletonzão azul meio fudido por cima de uma calça jeans já nem me preocupa mais, até porque eu mesma sou assim. Sei lá, nem reparo mais nessa constante, perdeu a importância.

Assim como perdeu a importância saber por que seu carro é tão irritantemente limpo. Porque, sabe, isso me incomoda - como pode ser seu carro assim tão cheirosinho, enquanto o meu tem uma camada de areia de no mínimo 1 cm no chão, biquini no banco de trás, saquinho de lixo lotado de papéizinhos de pedágio? Irrita, cara. O seu não tem uma poeirinha fora de lugar. Nem saquinho de lixo tem. Bom, mas como eu disse, perdeu a relevância.

E eu nem quero mais saber se o que eu ouvi era verdade, porque de viado eu acho que você não tem nada mesmo. Não porque não pareça, mas por conhecimento de causa, rá-rá-rá. Pelo menos não pareceu naquele dia, entende... mas, bicho, também desencanei de saber por que caralho pensam isso de você. Deve ser do sotaque arrastado, que às vezes também me incomoda. Não dá pra falar mais rápido? Não tanto quanto eu, mas olha, esse ritmo Brasil-grande-devagar-quase-parando já tá dando no saco. Não é tão charmoso quanto você pensa. Ou ao menos, não é mais.

Do mesmo jeito, desisti de saber por que dizem o que dizem sobre você nos corredores daquele hospital. Será que é mesmo, será que não é? Ai, deixa pra lá, se tu for pegador mesmo eu logo vou saber. Onde tem fumaça tem fogo, nem que seja um incenso. Mas, sinceramente? Nem quero mais saber se tu é incenso ou incêndio da TAM. Affe.

Também não quero mais saber por que você veio pra São Paulo e não pra Londrina, nem por que tua banda acabou. Se acabou é porque tinha que acabar, ou no mínimo, devia ser um lixo. Esse “por que” é até interessante: por que em vez da banda acabar, não virou grupo circense? Rá-rá-rá! Ah, não, deixa pra lá, eu nem quero mais saber.

Nenhuma pergunta dessas é de fato importante – veja bem, nem mais saber por que tem duas escovas de dentes no teu banheiro me importa mais! Nem por que você mora num apê com dois quartos se tu mora sozinho. Nem por que sempre só tem água e banana na tua geladeira, mas tem uma garrafa de Jack Daniels na estante da sala. Irrelevante.

Assim como por que tu tira a mesa pra atender, se é psiquiatra e não psicoterapeuta. Por que você insiste em negar teu papel? Ah, nem responde, dá preguiça de escutar (uma frase tua demora demais, rá-rá-rá!). Deve ser frustração mesmo. É dose né, 8 anos estudando? Injusto né, por que?

Agora, a pergunta realmente interessante é por que caralho você faz terapia 3 vezes por semana! Tem tanto assim pra falar? Tanto conflito? Acontece tanta coisa assim na tua vida? Puxa, você deve ter uma pá de problema! E se não tinha antes, agora com certeza já deve ter vários! Rá-rá-rá! Não me conta, não me conta! Que pra mim foda-se, não quero nem saber!

Meu anjo cabeludo, chega de por que! Pra mim importa mais outro tipo de pergunta: pra que tudo isso??

quinta-feira, julho 19, 2007

Censura

- Não, não estou vendendo sexo! Estou apenas
vendendo preservativos com uma demonstração grátis!

Já pensaram no que aconteceria se falássemos o que pensamos sem nenhum tipo de censura interna? Se não existisse superego? Se não existisse o bom senso? Ou o famoso “semancol”?

Caos. Catástrofe. Confusão.

- Oi, querida, como está??
- Com caganeira.


Imaginem vocês se falássemos exatamente o que pensamos, ao invés de mascarar o verdadeiro conteúdo de nossos diálogos. Ia ser briga pra cá, mágoa pra lá, caras viradas ou rostos boquiabertos diante de tanta sinceridade.

- Pô, mano, e aí... o que tu achou da minha mina?
- Os dentes são meio tortos, mas tá gostosa pra cacete. Se ela der mole eu pego.


Diz a quase-finada Psicanálise que o superego, ou nossa censura interna, nosso juiz particular, possui a função de filtrar aquilo que é ou não aceito como socialmente adequado, barrando possíveis comportamentos inaceitáveis na convivência grupal. Em última análise, ele exerce a mediação entre nossos impulsos mais primitivos e nossa máscara social, aprendida e moldada ao longo do tempo por meio de modelos sociais e regras morais culturalmente construídas. Isso pode, aquilo não se faz. Sem a censura estaríamos perdidos, e nosso esquema social, fadado ao fracasso. Imaginem a cena:

- Senhor Presidente, o que o pacote de reformas do Governo prevê para o próximo ano, caso o senhor seja eleito?
- Olha, eu adoraria dizer que tudo irá melhorar, mas a verdade é que o desemprego vai continuar igual, a violência só tende a aumentar e o meu bolso vai se encher de verdinhas.


Pronto. É revolução na certa. Poderíamos imaginar então que a verdade nesses momentos poderia beneficiar a muitos, não é? Mas, veja bem, estamos falando de honestidade total, sem limites e sem pudores. Passemos para a seguinte situação:

- Doutora, não sei mais o que faço... (choro)... minha vida não tem sentido! Meu marido me abandonou, meu filho é alcoolista, o banco tomou minha casa e descobri que peguei HPV... (choro) Por que ainda vivo? Talvez seja melhor me matar. É a única solução.
- De fato, Dona Fulana. Concordo plenamente. Sua vida é uma merda e seu marido sofreria bem menos se a senhora morresse. Pois você é uma pentelha e foi por isso que ele te largou. Seu filho bebe Zulu e deve ter poucos anos de vida. Seu tipo de HPV é cancerígeno, e a senhora também me deve R$500,00 das consultas do último mês. Também não vejo outra solução a não ser o suicídio. Por que a senhora não o faz saindo daqui? Conheço uma ponte ótima.

Como podemos perceber, a mentira é, por vezes, alternativa de necessidade máxima. E sem ela, muitas situações tomariam rumos inimagináveis.

- Senhor Sicrano, a reunião começou há 20 minutos! Pode me explicar seu atraso?
- Claro chefe, estava batendo punheta no banheiro do depósito.

Nós massacramos sentimentos, ocultamos fatos, inventamos tantos outros, damos tratos à bola e sambamos miudinho para amenizar situações e dourar pílulas fundamentais para a convivência pacífica dos membros de nossos grupos sociais, pra não citar a fraternidade entre os povos. Não nos esqueçamos que o diálogo, esse tão defendido elemento de qualquer relação entre duas ou mais pessoas, é construído sempre com base no bom senso, no jeitinho de falar, no escolher de palavras que, no final das contas, acaba fazendo toda diferença.

- Mas então, comissária, o vôo está previsto para que horas com este atraso?
- Há, só o senhor acha que vai embarcar. Conselho? Vai tomar um cházinho enquanto eu faço as unhas, a manicure está me esperando lá na sala da chefia.


É indiscutível a importância da diplomacia, da retórica, da oratória, e de outros tantos “caminhares” por cima de muros invisíveis, que nada mais são do que a censura interna se fazendo presente nas mais diferentes esferas de nossa sociedade. Já percebemos o quanto isso pode ser benéfico na política, prejudicial na psicoterapia, perturbador no plano laborativo. E o que dizer das relações amorosas?

- Você ainda me ama?
- Não sei. Quando você me chupa juro que te amo. Mas depois queria mais que você virasse uma pizza e uma cerveja. By the way, engravidei minha secretária.

Ou então:

- Puxa... quanto tempo não te vejo! Você está com uma cara boa!
- E seu abdômem está fantástico. Posso lamber?


E ainda:

- Então fico esperando você me ligar hoje a noite.
- Claro. Espera sentada. Você e esse seu bafo.


Desnecessário continuar. As consequências da Honestidade Total são previsíveis e tragicômicas. Caos nas escolas, nos hospitais, nas prefeituras (ah, as prefeituras!), nas famílias (“Você vai na casa da Cidinha?” – “Não mãe, estou indo buscar cocaína com o Juliano”), nas amizades (imaginem se a Mariazinha resolve dizer pra Joaninha que ela está um bucho de gorda?), nas empresas... e por aí vai. Os tribunais estariam extintos. Os vendedores ficariam pobres. O Bolsa-Família então nem existiria. A Igreja Católica viraria um circo. E o mundo viraria um grande hospício.

Nosso mundo atual depende da sábia arte de mascarar a realidade. De ocultar os fatos, de omitir dados. Sábio é aquele que transforma a verdade numa mentira muito bem contada, ou aquele que finge acreditar no que contaram a ele.

Poderia continuar aqui imaginando infinitas histórias nas quais a verdade seria, no mínimo, motivo de gargalhadas. Exemplos não faltariam. Mas deixo pra vocês a oportunidade de criarem, vocês mesmos, as mais inusitadas cenas mentais. É um exercício no mínimo surpreendente, pra não dizer extasiante!

Experimentem. Pois, se não trouxer diversão, ao menos suas próximas mentiras serão bem melhor contadas!

terça-feira, julho 17, 2007

Intruder_ Uma resposta

Pois é... como dizem por aí, tudo tem duas versões. Dois lados da moeda, ou, no mínimo uma boa justificativa.

Pois foi então que um grande amigo, tendo lido meu texto sobre a palhaçada masculina que acomete a vida de nós, belas donzelas, resolveu se manifestar, num texto algo agressivo, algo incômodo, mas, verdade seja dita, objetivo e bem esclarecedor.

Se satisfaz ou não nossas exigências, deixo para vocês concluírem. O manifesto, afinal, é dele e, sendo assim, um tanto particular. Não me cabe julgar.

Tenho cá minhas opiniões, minhas concordâncias e discordâncias. Mas isso é papo para outro texto, que, pelo visto, há de agradá-lo: este amigo é realmente chegado numa tréplica.

Incômodos à parte, é sempre válido saber uma versão diferente dos fatos.

Esta, em especial, me estarreceu. É mole?

Vejam vocês o que acham, a partir das palavras de meu colega, Eloi Goes Rigout.
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Outro dia li um texto, ou melhor, outro dia não, retifico, ontem li um texto que tratava sobre as diferenças entre o homem e a mulher. Um texto muito bem escrito e estudado, feito por uma dileta e antiga amiga. Manja aquelas de outros carnavais? Pois então, ela pegou a escrever o porquê de “nossas” incongruências. (Nota: escrevi nossas porque sou homem e dono do texto). Voltando, escrevia essa minha amiga sobre nossas incongruências, como se de fato fossemos nós (homens) a ter apreço pela contramão de tudo (risos).

Essa tal amiga não economizou palavras, fórmulas e explanações, nada. Inclusive, caso fosse eu um pouquinho de nada mais presunçoso e insolente diria até que ela estaria passando por algum tipo de problema com nós homens, mas, como não o sou, obviamente não farei tal comentário. O fato é que, durante alguns momentos da leitura cheguei até a quase acreditar que o problema está mesmo com a gente, vejam só que loucura a minha. Mas mesmo assim, mesmo após esse meu devaneio, segui lendo o texto até o fim, fascinado pela singular qualidade da narrativa de minha amiga.

Quando terminei, o primeiro instinto foi: essa mina bebeu... Fumou... Fudeu... E o segundo foi: Putz, a mina caiu na conversinha de um mané... Posterior a todos meus instintos, o último e, não menos sensato, foi de escrever alguma coisa, não motivado é claro por qualquer presunção de consentimento com o conteúdo do texto, muito pelo contrário. O fato foi que andava meio vagabundo da escrita e da redação; sem contar é claro o fato de saber que talvez esse meu texto gerasse uma tréplica... Hummm... Isso deveras encheu-me a boca d’água.

Diferentemente da minha dileta amiga, não farei uso de exemplos; nada contra, por favor, o fato é que tenho mais empatia pelas analogias e comparações. Também não tratarei de todos os pontos, ou pelo menos não tenciono fazê-lo.

Primeiramente darei atenção ao fato das nossas intenções e do porque de não ligarmos no dia seguinte. Veja bem, a questão das intenções é puramente subjetiva, por isso complexa, e oscila de homem pra homem. Via de regra, nossa intenção é de “gozar e raspar”. Não por prova de superioridade ou hierarquia, (mesmo porque não sou dado às redundâncias), mas sim por ser esta, de certa forma naturalmente, nossa natureza. O famoso “gozar e raspar” tem lá sua justificativa, por mais que esta seja incognoscível de vocês mulheres, mas a verdade é que existe sim um porquê; aliás, para tudo há um porquê, até para entender o fato de porque caralho vocês fazerem tanto doce.

Voltando, eu aprendi na vida que cada um vive o avesso do que faz, ou ainda, vive o reflexo do que os outros fazem. Isto é, o bom vive em meio ao que não é bom, e o ruim o oposto. Ao justo é-lhe dado não mais que mais injustiças todos os dias, e ao injusto, bom, está cheio de exemplos por aí, e assim vai. Onde eu quis chegar é: existe um enorme contra-senso entre tudo o que nos acontece. As mulheres de boa intenção, que não fazem tanto doce, que atendem as nossas ligações no dia seguinte, que dizem a verdade, que passam o telefone certo depois de catá-las na balada, que não forjam estarem gozando, enfim, as que são deveras o que falam, a essas são dadas apenas o avesso do que fazem, ou seja, esta pobre mulher nunca, ou pelo menos não tão-logo, encontrará uma pessoa compatível ou que corresponda de forma equivalente ao que ela é.

Com efeito, é nessa incongruência que somos forjados, que somos lapidados. Quem, por exemplo, que está lendo esse texto agora desconhece o poder e a influência que as mulheres têm? Principal-e-tão-somente nessa área de relações. Eu acredito que o que falta é vocês mulheres acordarem para o que fazem, e mais ainda, acordarem para a repercussão que suas atitudes causam (ou as suas ou a de suas compatriotas). Ora, quem se não vocês ditam as regras na hora da sedução? Quem se não vocês dizem se querem ou se não querem? Dizem de que forma vai ser? Dizem onde vai ser, se rápido ou devagar, se tudo ou só a cabecinha (risos). Porraaaa... Vês?!? Foram vocês que nos ensinaram a não ligar no dia seguinte, a queremos “gozar e raspar”, a mentirmos sobre nossa intenção para que vocês a aceitassem... Tudo o que fazemos nos foi ensinado por vocês. TUDO!

Agora, infligir a nós a culpa de um erro/falha que não é nosso, isso é intolerável e mais, é inadmissível. Por que teríamos nós que arcar com a contrariedade de vocês? NÃO!! De forma alguma. Ema, ema, ema... Isso não é de competência nossa, ou se é, cabe-nos alegar suspeição.

Agora, um ponto que devo concordar é quanto aos nossos “atrasinhos”. O que sem martírio é algo até supérfluo a meu ver, mas mesmo assim eu concordo que às vezes pegamos pesado. As que não quiserem entender dessa forma, ou não enxergarem esta linha de raciocínio, pensem então que seja algo como pena por um crime futuro, e presente, é claro. Em que sentido, o presente pela demora em escolher roupas, brincos, meia, sapatos, calcinha, (uiiiiiii...) calça, etc. E o futuro por acharem bonito nos deixar esperando de pé no altar por sabe-se lá quanto tempo, passando um calor filho da puta. Bom, mas como disse, isso é futuro.

Hoje em especial estou me sentindo meio perdido, no concernente a não saber por qual motivo a suspeita de que meu texto não ficou como de costume. Acho que me perdi ou que desviei o tema, não sei. Talvez seja porque o texto que li ontem já não esteja tão fresco na minha cabeça. Não sei, sei apenas que me desculpo por qualquer complexidade, ou por qualquer falta de nexo, confesso que não tive a intenção. Ahh, peço escusas também por não dar o remate apimentado que me caracteriza - sei que este é muito importante, mas pensando bem, depois de gozar as coisas perdem um pouco a importância primária...

quinta-feira, julho 05, 2007

Tudo Igual

Todos nós conhecemos a velha máxima: homem é tudo igual!

Eu sempre fui contrária a esta afirmação: como poderiam os homens serem todos iguais? Como alguém poderia ser igual a outra pessoa? Não, não, algo só podia estar errado, cada um é cada um!


Até que resolvi parar e observar os comportamentos masculinos. Aliás gente, desculpa, é que agora tudo pra mim é comportamento, vocês já devem ter reparado, né? Bom, voltando, comecei a perceber sim alguns fatores em comum a estes seres mais do que manjados: homens, vocês vão me desculpar, mas não é que vocês são realmente cara de um, focinho do outro?

Os homens são objetivos, simplistas e, em se tratando de perceber o outro, parecem muitas vezes possuir a profundidade de uma colher de chá. Mal sabem a hora de chegar e se adiantam demais na hora de sair, e muitas vezes, enquanto de fato ainda estão, parecem não estar. Sensibilidade, mesmo que mínima, parece não ser seu forte.

Parece que no cérebro masculino faltam algumas conexões sinápticas referentes ao tema “A Importância de um Telefonema”. Este é um exemplo claro - juro, não consigo entender como esses seres do sexo masculino não percebem alguns pontinhos básicos, como:

1) a importância de ligar no dia seguinte (caso queiram alguma coisa a mais, claro);
2) a importância de ligar caso esteja atrasado mais do que 30 minutos;
3) a importância de saber ouvir no telefone;
4) a importância de saber falar no telefone mais do que as cinco clássicas palavras: “tá livre hoje à noite?”;
5) a importância de realmente ligar quando dizem que vão ligar;

Penso em qual será a dificuldade dos homens em usar sua tão valiosa objetividade em algumas situações especificamente importantes: se é só uma trepada, que fique claro. Se pretendem aparecer com outra, não chamem outras senhoritas para sair dois dias antes, caso estas últimas corram o risco de ver O Grande Encontro. E, por favor, dizer que não vai dar para encontrá-la agora, mas que qualquer coisa acorda no meio da noite para “fazer alguma” é no mínimo ultrajante.

Parecem igualmente faltar noções básicas de linguagem: dizer “sair hoje à noite” não pode, em instância alguma, significar ao mesmo tempo “só vou te procurar no fim de semana”. A expressão “hoje à noite” implica numa delimitação concreta de tempo e espaço (hoje à noite é hoje à noite, e em pleno meio de semana não é fim de semana), e não há exceção semântica ou sintática que fuja à esta regra. E falar com voz de coitado no telefone ao perceber o vacilo já não amolece mulher nenhuma que esteja minimamente zangada – fazer isso é cagar e sentar em cima.

Um atraso de 15 minutos, no máximo 30, é totalmente tolerável, o que é bem diferente de um atraso de duas horas e meia não avisado anteriormente, seja por ter ido na casa da tia, seja por ter ficado preso numa partidinha de bilhar. Não há pretexto que sirva para justificar a falta de aviso sobre o atraso. Isso é falta de educação, ou no mínimo, desinteresse (e se for assim, como já disse antes, por que não deixar beeem claro?). Chamar a melhor amiga da ex-namorada para sair também não é bacana, mas parece que os homens acham que é. E, vejam bem, dizer que a menina é “gostosa pra cacete” significa apenas que ela é gostosa pra cacete: não é demonstração de afeto.

O mesmo vale para convites para dormir juntos 15 dias após a última vez que se viram e se falaram, especialmente se esta última vez foi a primeira em que vocês dormiram juntos – sem a ligação no dia seguinte, é claro. Não há o que justifique, de semana de provas a doenças infecto-contagiosas: além de ser cara-de-pau, demonstra falta de consideração. E isso também vale para quando eles adoram dizer que você está sumida, sendo que ficaram de te procurar há mais de um mês. Mais ainda: se disseram que estão envolvidos por outra pessoa, e isso significar dar um pé na bunda da atual, nada de procurar esta mesma quando terminar o namoro-relâmpago: existe aí um tempo mínimo de “preservação do próprio filme” de pelo menos 15 dias pra não parecerem pobres machos desesperados. Chega a ser patético.

Contar pros amigos detalhes sórdidos da última transa com a gatinha é totalmente normal (quem disse que não fazemos o mesmo?), mas se existir a mínima possibilidade de isso chegar nos ouvidos da gatinha em questão, pega mal pacas. E esse é um cuidado que, infelizmente, os homens não têm muito.

Dizer que pensa em ter algo sério com a mocinha, e depois de 1 semana falar que era “coisa de momento” é a atitude que mais denigre os homens, que depois não entendem porque são chamados de volúveis. Honestamente, melhor se calar do que falar baboseiras em nossos lindos ouvidinhos. Também é melhor poupar saliva antes de convidar a moça prum ménage-a-trois sem saber se esta fruta cabe na geladeira dela – corre-se o sério risco de ouvir uns palavrões.

Homens, por favor: parem de subestimar nossa inteligência dando desculpas esfarrapadas após perceberem que vacilaram. Parem de achar que suas justificativas são excelentes: não nos convence mais. E por favor, parem de fazer vozinha de nenê no telefone tentando ganhar nossa simpatia. Não funciona.

Se esperam que sejamos menos frageizinhas, menos desconfiadas e menos encanadas, façam um favor a vocês mesmos e parem de cagar em nossas cabeças com seus tão costumeiros comportamentos infantis: sejam homens de verdade.

Homem?

Bah... TUDO igual.


PS: O texto acima não é obra de ficção, e foi elaborado com base em depoimentos e fatos reais. Qualquer semelhança com personagens ou eventos verdadeiros, infelizmente, não é mera coincidência.

domingo, julho 01, 2007

Wow! _ Esse tal de kitesurf

Foto: Miler Morais - Ilhabela SP


“Kitesurf, brother, o esporte do futuro!”

Eu lembro quando ouvi essa frase pela primeira vez, saída da boca de uma grande amiga. Ela também tinha ouvido da boca de outra pessoa, lá no sul, numa viagem que fizera.

Eu nem sabia o que era kitesurf, acho que ela também não. De repente, não se falava em outra coisa - virou moda, virou tendência. Se antes era in ser do clubinho do windsurf lá na Ilha, de um minuto pro outro isso ficou ultrapassado. A pipa era a nova estrela do velejo.

A primeira vez que eu vi uma no céu, estranhei e pensei comigo mesma, “se é uma pipa cadê as varetas, a rabiola? Onde passa o cerol?” Pra mim pipa era isso. Mas não, essa pipa era diferente, tinha fio e ia no vento, mas lá debaixo era controlada no mar.

Virou febre, abriram-se vagas pra ter aula na BL3; mudaram-se os instrutores, os que eram de wind viraram de kite. Eu via aquilo tudo rolar, achava o maior barato aquela mistura de surf com wind com wake, batia uma vontade, mas não ousava arriscar. Ainda tinha ciúmes pelo windsurf, que sempre quis aprender e nunca consegui.

Cada dia eu via mais e mais kites no mar, a molecada da Armação trazia uns da Naish quando ainda eram de 2 fios... o negócio saía voando que nem avião, perdiam-se pipas e pranchas, e eu só acompanhando do fundo da praia, sentada embaixo do meu pé de goiaba, dando risada de tudo.

No começo do ano, me aproximei mais da tribo desse tal de kitesurf, conheci instrutores, cheguei a sair com um por algum tempo (ufa, o homem mais lindo e mais misterioso que já conheci), fiz amizade com o pessoal da escola. E o kite lá, todo enrolado, só me olhando. Eu olhava, ele me olhava, ah não, amor, hoje não, tô com dor de cabeça... sacumé?

No carnaval resolvi cair de cabeça no Laser, apaixonei pelo negócio, que sensação... antes achava que devia ser meio monótono, de repente descobri adrenalina pura ao pegar cada rajada que só vendo... caça a vela, empurra o leme, é hora de dar o jibe, putz, o barco virou... tem nada não, pendura na quilha (opa, segura o biquini!), tá, pronto, atrás da rajada de novo, arribando bem na linha do vento... T-E-S-Ã-O!

Quando foi lá por abril, resolvi parar de manha e arrisquei perguntar prum amigo quanto custava a hora do kite, quase tive um infarto e desisti de novo. Semanas depois, arrisquei de novo pedir pro mesmo amigo, com toda cara-de-pau do mundo, se ele não me daria umas aulas grátis, assim, no tempo livre, sabe, de leve, só pra sentir a tensão nos fios e nas veias... Bingo, consegui! Aulas de kite de graça, toda sexta-feira, com o pioneiro do kite na Ilhabela. Perfect, brother, é o esporte do futuro, lá vou eu então!

Semana após semana ligava pro cara, “Tá ventando hoje? Posso descer e chegar na praia às 4 da tarde!” e a resposta foi a mesma, por 4 finais de semana seguidos... “Putz, hoje tá ruim, gata, não passou de 2 nós até agora e não tem previsão nenhuma...” Ah, droga... sério? Beleza, fim de semana que vem eu ligo de novo... Semana após semana, o vento não colaborou... cheguei a conferir na grade de vento do site da escola, pior que era verdade... vento de 2, rajada de 4 nós, no máximo... pra kite precisa de quanto mesmo? Ah, 8 né... droga...

Meu futuro instrutor zarpou pro Havaí, meu amigo que poderia me dar uma força estava de joelho machucado... então deitei na areia e resolvi pegar um sol apenas... praia cheia, feriadão rolando, então vamos no bronze, fazer o que? E eis que descubro que o cara com quem tinha conversado rapidinho um dia antes era instrutor de kitesurf. Aliás, instrutor não, O INSTRUTOR. Tanto que se mandou pra Jericoacoara, onde o vento dá de 10 em Ilhabela, e resolveu só passar a temporada de chuvas na nossa bela Ilha.

De repente, do nada, “E aí, tá afim de cair no mar? Tô com o kite dentro do barco, você sente o negócio, se curtir amanhã tu faz uma aula por um preço baratinho.” Analisei a situação: sairia por um terço da grana que gastaria na escola. Olhei lá pra fora, lá nas Canas, o vento era de Leste, soprando forte, ou como dizem na BL, dia de Slalom e Velinha! Demorou, radical, vambora!

Lycra descolada de última hora, brincos na bolsa, vamos nessa, o que eu faço com isso aqui?? Calma, lá fora eu te explico, entra no barco! Uuuuuuuu... hul!!! Kitesurf, brother, esporte do futuro, e eu tô indo pra lá! Tá frio, ah, que se dane, na água esquenta!

Fiquei 1h30 no mar, agarrada nas costas do Pedrinho (sem palavras pra agradecer!), fazendo com a pipa um 8 no céu... esquerda, direita, sentiu a pressão? Porra se senti! Agora vou te deixar sozinha, prende aqui o kite no trapézio... Não, não, não gira a barra, putz!... já era... SPLASH!, foi o kite pro mar... nada não, é assim mesmo, decola a pipa, sentiu a pressão? Não deixa sair da janela, força no abdômem, maravilha!!!

Depois de 1h30 de explicações teóricas e complexas, lá estava eu, com a pipa firme nas mãos, no total e absoluto controle do seu bailar naquele vento forte, de quase 15 nós, às 6 horas da tarde, com o sol já indo embora. A pipa voava, me arrastava, o fio retesava na barra, e eu ia de um lado pro outro, ora orçando em zigue-zague, ora arribando com força total. O frio fazia os dentes baterem, a garganta doía, os lábios já estavam azuis, mas quem ali se importava? De repente, putz, ‘cabou, o sol foi embora, o gancho estourou, vamos ter que voltar... ahhh, sério? Outra aula amanhã? Fechado, duas da tarde!

Naquele dia até sonhei com o negócio. Nunca imaginei sentir algo parecido, nem nunca tinha percebido a força da natureza nessa magnitude... o vento me conduzindo, a pipa dançando no céu, eu dançando na água, em perfeita harmonia. Loucura total, estava na fissura pra sentir aquilo de novo.

No dia seguinte não tinha vento.

Nem nos próximos 15 dias o vento foi bom prá mim. Pedrinho se mandou pra Jeri de novo, o outro viajou e só volta no fim do ano. E meu velejo... ih, ‘cabou pra mim...

Continuo à procura de algum instrutor, que possa se condoer de minha condição financeira e me levar novamente pro mar, pra sentir tudo aquilo de novo. Mágico, fantástico, orgásmico. Inexplicável.

E eu até posso esperar o fim do ano, ou ir pra Jeri como sugeriu Pedrinho. Porque o negócio, olha, o negócio é bom. E se é o esporte do futuro, ah, o futuro, então é pra lá que eu vou! E como diz o Scheidt... e se perder o leme, não perca o rumo!

Kitesurf, brother...

sexta-feira, junho 29, 2007

Mau exemplo


Estava tranquilamente parada no semáforo do cruzamento da Lins com a Veiga Filho, pensando na morte da bezerra, quando ouço uma mãe falando pra filhinha, de mais ou menos 5 anos de idade:

- Assim você dá mau exemplo pro teu irmão e pros teus amigos. Que feio, filha...

Cheguei em casa e botei um som animado, pra evaporar o bode gostosinho deixado pela drenagem linfática feita minutos antes (sim, resolvi fazer alguma coisa em relação às celulites!). Escolhi Alice Cooper, No More Mr. Nice Guy, e tentei fazer a cabeça pegar no tranco, pra quem sabe conseguir dar uma olhada nos relatórios finais dos meus pacientes, pesquisar minha monografia e mais tarde encarar meu amado kickboxing.

Mas eis que, embalada pela letra da música, me peguei pensando no comentário ouvido naquele cruzamento... mau exemplo... mau exemplo.


“… I got no friends 'cause they read the papers
They can't be seen with me
And I'm getting real´ shot down
And I'm feeling mean”


De repente pensei, caralho, acho que sou um mau exemplo clássico. Fiquei matutando sobre meus comportamentos, e sobre o que isso deve sucitar nas pessoas ao meu redor.

Eu fumo, eu bebo, eu falo de boca cheia. Palavrão então é música para meus ouvidos, a cada frase solto meia dúzia de porras. Meu linguajar (como já dizia minha mãe) muitas vezes é chulo, pra não dizer de baixo calão. Falo obscenidades como quem dita receita de bolo, sem pudor nenhum.

Já tomei dezenas de porres, menti e omiti em várias ocasiões, saio pra jantar e me mato de comer, às vezes “esqueço” de ligar prum paciente meio mala pra confirmar a sessão, torcendo pra ele não ir. E comemoro quando de fato não vai!

Falo mal da minha chefe pra própria secretária dela (que, veja bem, concorda comigo todas as vezes), acabo com o cafezinho do setor de Psicologia, bocejo meio alto em plena reunião clínica, às vezes faço piada com o problema dos outros. Minhas calças são quase sempre rasgadas na barra, não uso protetor solar como deveria, gasto os tubos em itens desnecessários.


“No more Mister Nice Guy
No more Mister Clean
No more Mister Nice Guy
They say he's sick , he's obscene”


Não contente, ainda não faço questão alguma de esconder tudo isso; pelo contrário, conto pros outros e ainda declaro: faço mesmo, e daí?

Naqueles segundos em que tudo isso passou pela minha cabeça, fiquei realmente encanada. “Que feio, filha!” Nossa, que feio, Nana... que exemplo você dá pros outros? Tive medo de perder meus amigos. De ser uma vergonha para minha mãe. “Puta merda, fodeu, minha mãe deve ficar sem graça quando falo “fodeu” na frente do namorado dela!” Ai... Fiquei absolutamente na nóia de ser considerada puramente obscena. Lembrei de quando falo por aí que mandioca é as duas melhores coisas da vida... Putz, que vergonha! Será que eu deveria ser mais puritana? Mais moralista? Mais certinha? Usar cor-de-rosa? Ouvir Spice Girls?? Afinal, que tipo de exemplo serei pros meus filhos? “A minha mãe é toda tatuada, tem piercing, fala palavrão, buzina do trânsito e arrota que nem meu pai, ‘fessora, por que eu não posso fazer igual?” Caralho, que peso na consciência... Culpada, de todas as acusações!

A música parou, eu acendi um cigarro, e aí me lembrei.

Lembrei que já fui a maior noinha da turma, e que hoje sou a mais careta de todas. Lembrei que a despeito de fumar, nunca largo minhas bitucas na areia, e a despeito de comer que nem um homem, vivo incentivando meus amigos a fazerem exercício comigo. Também não faço xixi na piscina, apesar de já ter feito. Lembrei que tomo dois copos de água assim que acordo, e que apesar do paciente mala ser relegado pra segundo plano às vezes, quando ele vai, o trato com o maior profissionalismo. Aliás, lembrei do quanto me dedico a TODOS meus pacientes, dos malas aos fofos. Lembrei que não jogo lixo pela janela. Lembrei que faço caridade e dôo mensalmente (tá bom, a cada dois meses, vai...) dinheiro pruma criancinha HIV+ lá no Taboão da Serra. Lembrei do quanto às vezes meu ouvido é penico e eu fico quieta só pra não ser indelicada.

Olhei minhas calças rasgadinhas, mas todas bonitinhas e lavadas. Acabo com o cafezinho sim, mas faço a maior sala pra secretária (e pra chefe também!) quando elas são as primeiras a chegar no hospital. Sou pontual e nunca deixo ninguém esperando, e sempre devolvo o que pego emprestado. E olha, apesar de falar palavrão, costumo falar baixo e pausadamente.

Mau exemplo?! Ah, pro inferno com o falso moralismo! Afinal, o que é ser bom exemplo nos dias de hoje? Me dá um, apenas UM exemplo muito bom, que eu assino minha penitência agora mesmo!

Mandioca é sim as duas melhores coisas da vida, um bom “fodeu” é o que às vezes melhor expressa uma situação, e eu como bastante mesmo porque malho pra chuchu!

Quer saber? Essa sou eu! E quem não curtir que se foda!

Ops...